A visita
A visita
— Já sei — disse ela. — Vamos preparar uma cesta. Vamos mandar àquela pobre criatura um pouco desta comida perfeitamente boa. De qualquer modo, será um grande regalo para as crianças. Não acham? E ela certamente terá vizinhas entrando e saindo, essas coisas. Que vantagem ter tudo já preparado. Laura! — Ela se levantou de um salto. — Pegue para mim a cesta grande no armário da escada.
— Mas, mamãe, a senhora acha mesmo que é uma boa ideia? — disse Laura.
Outra vez, que curioso, ela parecia ser diferente de todos eles. Levar as sobras da festa. Será que a pobre mulher gostaria mesmo daquilo?
— Claro! O que há com você hoje? Uma ou duas horas atrás você estava insistindo para que fôssemos solidários, e agora...
Ora, bem! Laura correu buscar a cesta. A mãe a encheu, amontoou-a.
— Leve você mesma, querida — disse ela. — Desça correndo assim mesmo como está. Não, espere, leve também os copos-de-leite. Pessoas dessa classe ficam tão impressionadas com copos-de-leite.
— Os caules vão arruinar o vestido de renda dela — disse a prática Jose.
E arruinariam mesmo. Bem a tempo.
— Então só a cesta. E, Laura! — a mãe a seguiu para fora da tenda —, de modo algum...
— O quê, mamãe?
Não, melhor não pôr tais ideias na cabeça da criança!
— Nada! Vá depressa.
Começava apenas a escurecer quando Laura fechou os portões do jardim. Um cão grande passou correndo como uma sombra. A estrada reluzia branca, e lá embaixo, na baixada, as casinhas estavam em profunda sombra. Como tudo parecia quieto depois da tarde. Ali estava ela, descendo a colina rumo a algum lugar onde um homem jazia morto, e não conseguia se dar conta disso. Por que não conseguia? Parou um minuto. E lhe pareceu que beijos, vozes, o tilintar de colheres, risos, o cheiro de grama esmagada estavam, de algum modo, dentro dela. Não tinha espaço para mais nada. Que estranho! Olhou para o céu pálido, e tudo o que pensou foi: “Sim, foi a festa mais bem-sucedida.”
Agora a estrada larga fora atravessada. Começava a viela, enfumaçada e escura. Mulheres de xale e homens de bonés de tweed passavam apressados. Homens se debruçavam sobre as cercas; crianças brincavam nas portas. Um rumor baixo vinha das pobres casinhas. Em algumas delas havia um tremeluzir de luz, e uma sombra, como um caranguejo, moveu-se através da janela. Laura baixou a cabeça e apressou o passo. Desejou então ter posto um casaco. Como seu vestido brilhava! E o grande chapéu com a faixa de veludo pendente — se ao menos fosse outro chapéu! As pessoas estariam olhando para ela? Deviam estar. Fora um erro ter vindo; ela soubera o tempo todo que era um erro. Deveria voltar mesmo agora?
Não, tarde demais. Era esta a casa. Devia ser. Um nó escuro de pessoas estava parado do lado de fora. Ao lado do portão, uma mulher velhíssima, com uma muleta, sentava-se numa cadeira, observando. Tinha os pés sobre um jornal. As vozes cessaram quando Laura se aproximou. O grupo se abriu. Era como se a estivessem esperando, como se soubessem que ela viria ali.
Laura estava terrivelmente nervosa. Atirando a fita de veludo sobre o ombro, disse a uma mulher que estava por perto:
— Esta é a casa da senhora Scott?
E a mulher, sorrindo de modo estranho, respondeu:
— É, minha moça.
Oh, estar longe daquilo! Ela chegou realmente a dizer: “Ajude-me, Deus”, enquanto subia o caminhozinho e batia. Estar longe daqueles olhos fitos, ou estar coberta por qualquer coisa, até por um daqueles xales de mulher. Vou apenas deixar a cesta e ir embora, decidiu. Nem vou esperar que a esvaziem.
Então a porta se abriu. Uma mulherzinha de preto apareceu na penumbra.
Laura disse:
— A senhora é a sra. Scott?
Mas, para seu horror, a mulher respondeu:
— Entre, por favor, senhorita.
E ela se viu fechada no corredor.
— Não — disse Laura —, não quero entrar. Só quero deixar esta cesta. Mamãe mandou...
A mulherzinha no corredor sombrio pareceu não tê-la ouvido.
— Por aqui, por favor, senhorita — disse, com uma voz untuosa, e Laura a seguiu.
Encontrou-se numa cozinha baixa e miserável, iluminada por uma lamparina fumacenta. Havia uma mulher sentada diante do fogo.
— Em — disse a criaturinha que a deixara entrar. — Em! É uma moça fina. — Voltou-se para Laura. E disse, significativamente: — Sou irmã dela, senhorita. A senhorita vai desculpar ela, não vai?
— Oh, mas é claro! — disse Laura. — Por favor, por favor, não a incomode. Eu... eu só quero deixar...
Mas, naquele momento, a mulher junto ao fogo se voltou. Seu rosto, inchado, vermelho, com os olhos inchados e os lábios inchados, parecia terrível. Ela parecia não conseguir compreender por que Laura estava ali. O que aquilo significava? Por que aquela estranha estava de pé na cozinha com uma cesta? De que se tratava tudo aquilo? E o pobre rosto se contraiu outra vez.
— Tudo bem, minha querida — disse a outra. — Eu agradeço à senhorita.
E começou de novo:
— A senhorita vai desculpar ela, tenho certeza — e seu rosto, também inchado, tentou um sorriso untuoso.
Laura só queria sair, ir embora. Estava de volta ao corredor. A porta se abriu. Ela atravessou direto para o quarto, onde o homem morto jazia.
— A senhorita gostaria de dar uma olhada nele, não gostaria? — disse a irmã de Em, passando roçando por Laura até a cama. — Não tenha medo, minha moça — e agora sua voz soava afetuosa e ardilosa, e, afetuosamente, ela puxou o lençol para baixo —, ele parece um quadro. Não há nada à mostra. Venha, minha querida.
Laura foi.
Ali jazia um jovem, profundamente adormecido — dormindo tão profundamente, tão intensamente, que estava longe, longe de ambas. Oh, tão remoto, tão tranquilo. Estava sonhando. Nunca mais o acordem. Sua cabeça afundava no travesseiro, os olhos estavam fechados; estavam cegos sob as pálpebras cerradas. Entregara-se ao seu sonho. Que importavam para ele festas no jardim, cestas e vestidos de renda? Estava longe de todas aquelas coisas. Era maravilhoso, belo. Enquanto eles riam e enquanto a banda tocava, aquela maravilha viera à viela. Feliz... feliz... Tudo está bem, dizia aquele rosto adormecido. É exatamente assim que deve ser. Estou satisfeito.
Mas, ainda assim, era preciso chorar, e ela não podia sair do quarto sem lhe dizer alguma coisa. Laura soltou um soluço alto, infantil.
— Perdoe o meu chapéu — disse.
E desta vez não esperou pela irmã de Em. Encontrou o caminho para fora da porta, desceu o pequeno caminho, passou por todas aquelas pessoas escuras. Na esquina da viela, encontrou Laurie.
Ele saiu da sombra.
— É você, Laura?
— Sou.
— Mamãe estava ficando preocupada. Foi tudo bem?
— Sim, perfeitamente. Oh, Laurie! — Ela tomou o braço dele, apertou-se contra ele.
— Escute, você não está chorando, está? — perguntou o irmão.
Laura sacudiu a cabeça. Estava.
Laurie passou o braço em torno de seus ombros.
— Não chore — disse ele, com sua voz cálida e amorosa. — Foi horrível?
— Não — soluçou Laura. — Foi simplesmente maravilhoso. Mas, Laurie... — Ela parou, olhou para o irmão. — A vida não é... — gaguejou —, a vida não é... — Mas o que era a vida, ela não conseguia explicar. Não importava. Ele compreendia perfeitamente.
— Não é, querida? — disse Laurie.