A beleza e o desconforto A Festa no Jardim · Capítulo 3 de 4
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A beleza e o desconforto

A beleza e o desconforto

Aquilo era mesmo exagero, pois as casinhas ficavam numa viela só delas, bem no sopé de uma ladeira íngreme que subia até a casa. Uma estrada larga passava entre uma coisa e outra. É verdade que estavam perto demais. Eram a maior afronta possível à vista, e não tinham o menor direito de estar naquele bairro. Eram moradinhas pobres, pintadas de um marrom chocolate. Nos pedaços de jardim não havia nada além de talos de repolho, galinhas doentes e latas de tomate. Até a fumaça que saía de suas chaminés parecia miserável. Pequenos farrapos e fiapos de fumaça, tão diferentes das grandes plumas prateadas que se desenrolavam das chaminés dos Sheridan. Na viela moravam lavadeiras, limpadores de chaminés, um sapateiro e um homem cuja fachada da casa era toda cravejada de minúsculas gaiolas. Crianças enxameavam. Quando os Sheridan eram pequenos, estavam proibidos de pôr os pés ali, por causa da linguagem revoltante e do que poderiam apanhar. Mas, desde que haviam crescido, Laura e Laurie, em suas andanças, às vezes passavam por lá. Era repugnante e sórdido. Saíam dali com um estremecimento. Mas, ainda assim, é preciso ir a toda parte; é preciso ver tudo. E então atravessavam.

— E pense só em como a banda vai soar para aquela pobre mulher — disse Laura.

— Oh, Laura! — Jose começava a se irritar de verdade. — Se você for impedir uma banda de tocar toda vez que alguém sofre um acidente, vai levar uma vida bem penosa. Sinto tanto quanto você. Sou tão solidária quanto você. — Seus olhos endureceram. Olhou para a irmã exatamente como costumava olhar quando eram pequenas e brigavam. — Você não vai trazer um operário bêbado de volta à vida sendo sentimental — disse, suavemente.

— Bêbado! Quem disse que ele estava bêbado? — Laura voltou-se furiosa contra Jose. E disse, exatamente como costumavam dizer nessas ocasiões: — Vou subir agora mesmo e contar à mamãe.

— Vá, querida — arrulhou Jose.

— Mamãe, posso entrar no seu quarto? — Laura girou a grande maçaneta de vidro.

— Claro, minha filha. Ora, o que foi? O que lhe deu essa cor toda? — E a sra. Sheridan se virou da penteadeira. Estava experimentando um chapéu novo.

— Mamãe, um homem morreu — começou Laura.

— Não no jardim? — interrompeu a mãe.

— Não, não!

— Oh, que susto você me deu! — A sra. Sheridan suspirou de alívio, tirou o grande chapéu e o segurou sobre os joelhos.

— Mas escute, mamãe — disse Laura. Ofegante, meio sufocada, contou a terrível história. — É claro que não podemos fazer a festa, não é? — implorou. — A banda e todo mundo chegando. Eles vão nos ouvir, mamãe; são quase vizinhos!

Para assombro de Laura, a mãe se comportou exatamente como Jose; era mais difícil de suportar porque ela parecia divertida. Recusou-se a levar Laura a sério.

— Mas, minha querida criança, use o bom senso. Foi apenas por acaso que ficamos sabendo disso. Se alguém tivesse morrido lá de maneira normal — e eu não entendo como conseguem continuar vivos naqueles buraquinhos abafados —, ainda assim estaríamos fazendo a nossa festa, não estaríamos?

Laura teve de responder que “sim” a isso, mas sentiu que estava tudo errado. Sentou-se no sofá da mãe e beliscou o franzido da almofada.

— Mamãe, não é terrivelmente insensível da nossa parte? — perguntou.

— Querida! — A sra. Sheridan levantou-se e veio até ela, trazendo o chapéu. Antes que Laura pudesse detê-la, já o havia posto em sua cabeça. — Minha filha! — disse a mãe. — O chapéu é seu. Foi feito para você. É jovem demais para mim. Nunca a vi tão encantadora. Olhe para si mesma! — E ergueu o espelho de mão.

— Mas, mamãe — Laura recomeçou. Não conseguia olhar para si; desviou o rosto.

Desta vez, a sra. Sheridan perdeu a paciência, exatamente como Jose havia feito.

— Você está sendo muito absurda, Laura — disse, friamente. — Pessoas assim não esperam sacrifícios de nós. E não é muito solidário estragar o prazer de todos, como você está fazendo agora.

— Eu não entendo — disse Laura, e saiu depressa do quarto, entrando no seu próprio. Ali, por puro acaso, a primeira coisa que viu foi aquela moça encantadora no espelho, com seu chapéu preto enfeitado de margaridas douradas e uma longa fita de veludo preto. Jamais imaginara que pudesse parecer assim. Será que mamãe tem razão?, pensou. E agora esperava que a mãe tivesse razão. Estarei sendo exagerada? Talvez fosse exagero. Por um instante, teve outra visão daquela pobre mulher e daquelas criancinhas, e do corpo sendo levado para dentro da casa. Mas tudo parecia enevoado, irreal, como uma imagem de jornal. Vou me lembrar disso de novo quando a festa terminar, decidiu. E, de algum modo, esse lhe pareceu o melhor plano...

O almoço terminou à uma e meia. Às duas e meia, estavam todos prontos para o combate. A banda, de casacas verdes, chegara e se instalara num canto da quadra de tênis.

— Minha querida! — trinou Kitty Maitland. — Eles não parecem sapos além de qualquer palavra? Você devia tê-los disposto em volta do laguinho, com o maestro no meio, sobre uma folha.

Laurie chegou e as saudou a caminho de se trocar. Ao vê-lo, Laura voltou a se lembrar do acidente. Queria contar a ele. Se Laurie concordasse com os outros, então certamente tudo estaria certo. E ela o seguiu até o vestíbulo.

— Laurie!

— Olá! — Ele estava no meio da escada, mas, quando se virou e viu Laura, de repente inflou as bochechas e arregalou os olhos para ela. — Palavra, Laura! Você está deslumbrante — disse Laurie. — Que chapéu absolutamente formidável!

Laura disse, sem força:

— Está mesmo? — E sorriu para Laurie, lá de baixo; e, afinal, não lhe contou.

Pouco depois, as pessoas começaram a chegar em torrentes. A banda atacou uma música; os garçons contratados corriam da casa para a tenda. Para onde quer que se olhasse, havia pares passeando, inclinando-se para as flores, cumprimentando, seguindo adiante pelo gramado. Eram como pássaros vistosos que tivessem pousado no jardim dos Sheridan por aquela única tarde, a caminho de... onde? Ah, que felicidade é estar com pessoas que estão todas felizes, apertar mãos, encostar faces, sorrir dentro dos olhos.

— Querida Laura, como você está bonita!

— Que chapéu favorecedor, minha filha!

— Laura, você está quase espanhola. Nunca a vi tão marcante.

E Laura, resplandecente, respondia suavemente:

— Já tomou chá? Não quer um sorvete? Os sorvetes de maracujá estão realmente um tanto especiais. — Correu até o pai e lhe suplicou: — Papai querido, a banda não pode tomar alguma coisa?

E a tarde perfeita amadureceu lentamente, desbotou lentamente, lentamente fechou suas pétalas.

— Nunca uma festa no jardim mais deliciosa... — O maior sucesso... — De longe a mais...

Laura ajudou a mãe com as despedidas. Ficaram lado a lado no alpendre até que tudo terminasse.

— Acabou, acabou, graças a Deus — disse a sra. Sheridan. — Reúna os outros, Laura. Vamos tomar um pouco de café fresco. Estou exausta. Sim, foi um grande sucesso. Mas, oh, essas festas, essas festas! Por que vocês, filhos, insistem em dar festas! — E todos se sentaram na tenda deserta.

— Coma um sanduíche, papaizinho querido. Fui eu que escrevi a bandeirinha.

— Obrigado. — O sr. Sheridan deu uma mordida, e o sanduíche desapareceu. Pegou outro. — Suponho que não tenham ouvido falar de um acidente horrível que aconteceu hoje — disse.

— Meu querido — disse a sra. Sheridan, erguendo a mão —, nós ouvimos. Quase arruinou a festa. Laura insistiu que devíamos adiá-la.

— Oh, mamãe! — Laura não queria que a provocassem por causa disso.

— Foi uma coisa horrível, de todo modo — disse o sr. Sheridan. — O sujeito também era casado. Morava logo ali embaixo, na viela, e deixa mulher e meia dúzia de pequenos, pelo que dizem.

Caiu um pequeno silêncio embaraçoso. A sra. Sheridan remexeu a xícara. Realmente, era muita falta de tato de papai...

De repente, ela ergueu os olhos. Ali, sobre a mesa, estavam todos aqueles sanduíches, bolos, bombas de creme, tudo intocado, tudo destinado a ser desperdiçado. Teve uma de suas ideias brilhantes.

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