Mattos, Malta ou Matta?: Capítulo IV Mattos, Malta ou Matta? · Capítulo 4 de 15
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Mattos, Malta ou Matta?: Capítulo IV

id="ws-author">Aluísio AzevedoSr. Redator.

Recebi a sua estimável cartinha, na qual declara V. S.ª os justos motivos pelos quais não deu publicidade às últimas comunicações que lhe fiz, reservando-as para mais tarde, visto que não seria de bom aviso expô-las tão precipitadamente.

Verdade é que tais revelações tanto podiam aparecer agora, como mais tarde, encarando-as pelo lado do interesse que elas tenham porventura nesta questão.

Entretanto vou prosseguir; tomando o fio das revelações justamente no ponto em que as deixamos.

Quando saí da casa de Jeannite, isto é, dous dias e meio depois de ter entrado, já o meu homem, segundo o que dissera aquela, devia estar recolhido à Casa de Detenção.

A Francesa deu-me uma fotografia dele, um retrato que o tratante havia três meses antes tirado em casa do Emílio Rouede, quando esse pintor de marinhas ainda se dava a trabalhos fotográficos.

Esse retrato estava em tudo de acordo com as informações que eu conseguira apanhar a respeito do Castro Matta.

Senhor de mais esse belo auxílio, dirigi-me para a Casa de Correção, onde felizmente tenho nada menos do que três amigos; pedi-lhes notícias do Matta e um deles me respondeu que o meu homem havia seguido na véspera para a Santa Casa de Misericórdia.

-- Para a Santa Casa? -- perguntei surpreso.

-- Sim -- disse-me o amigo. -- Foi tratar-se de uma congestão hepática.

-- Mas, como assim? -- tornei a perguntar. -- Ele parecia vender saúde e, segundo o que acabou de dizer aquele senhor (apontei para um outro dos amigos), o homem foi preso por ter sido pilhado afazer desordens na Praça da Constituição.

-- Esse ponto agora é que eu não lhe posso esclarecer -- volveu o meu informante. -- Apenas lhe digo que o Castro Matta não é lá grande cousa debaixo do ponto de vista da seriedade e da boa conduta.

O meu amigo e informante gostava em extremo de armar a frase com uma certa pompa de linguagem; sinto até não poder reproduzi-las mais fielmente, porque algumas delas são bem boas.

Mas não é disso que se trata agora, e não podemos perder tempo com semelhante cousa.

-- Então o sujeito, o tal Matta, é homem de maus costumes, hein? -- perguntei ao amigo.

-- Chi! -- fez ele -- nem lhe digo nada! Sem ir muito longe, ainda na véspera da desordem que ele fez na Praça da Constituição, foi visto a passear em Niterói com uma sujeita da vida airada, uma sujeitinha vestida de preto e com um grande chapéu de palha, que lhe escondia quase todo o rosto.

Imagine, Sr. Redator; a impressão que estas palavras me causaram, a mim que reconheci naquele vestido preto e naquele chapéu de palha a mulher a quem para sempre havia ligado meu nome e meu futuro.

Mal sabia eu quando te comprava na Notre Dame, pobre chapéu de palha!, que terias ocasião de entrar tão diretamente nas minhas dores e nos meus sobressaltos de marido atraiçoado!

Desconsolado, aflito e naturalmente com uma cara d'asno, ia a deixar a Detenção para tomar o caminho da Santa Casa da Misericórdia, quando um dos meus três amigos chamou-me de parte e disse-me:

-- Tu me mereces toda a confiança e vou falar-te com franqueza. O Malta...

-- Malta ou Matta?

-- O Malta -- sustentou ele --, o Castro Malta.

-- Mas não é o Malta que eu procuro, é o Matta.

-- É tudo uma a mesma cousa. Digo-te mais: o sujeito não é só Matta e Malta, é também Mattos.

-- Hein?

-- É o que te digo. O velhaco usa e abusa desses três apelidos, conforme a situação e conforme o plano de suas velhacadas. É Malta quando quer comprar a crédito qualquer cousa; é Mattos quando se mete em desordens e arruaças e só é Matta nas aventuras amorosas.

-- Então é o mesmo -- disse eu. -- É justamente por causa de uma questão amorosa que eu ando em busca do tratante.

-- Aposto que se trata da Jeannite!

-- Da Jeannite? Uma Francesa, de cabelos loiros?

-- Isso! É a amante dele.

-- Dele quem?

-- Do Matta, Malta ou Mattos.

-- Que me dizes, homem?

-- Pois não. Olha, vou mostrar-te uma carta que ainda hoje ela me escreveu.

E o meu amigo, tirando do bolso uma folha de papel, marca pequena, leu pouco mais ou menos o seguinte, entre outras cousas, às quais não prestei a mesma atenção:

"Aquele miserável pagou-me tudo, vinguei-me dele (o miserável era o Matta); logo que tive as provas da sua traição, procurei o marido da mulher com quem ele me traía, obriguei-o a vir a minha casa, prendi-- o, fingi-me apaixonada por ele e vinguei-me durante sessenta horas.''

Eu soltei um suspiro; -- que me estaria ainda reservado?!

O amigo, depois de guardar a carta, acrescentou:

-- Foi ela, a Jeannite quem arranjou a prisão do maroto...

-- Pois a Jeannite tem essa influência na Polícia?

-- Então não sabes do que há, homem de Deus?

Eu confessei que não sabia, e o amigo passou então a fizer-me a delicada revelação que na minha última carta expus a V.S.ª e que V.S.ª resolveu guardar para mais tarde.

-- Mas enfim -- disse eu ao meu obsequioso informante --, disseste que ias me falar com franqueza a respeito do tal Matta e ainda não declaraste o que é feito dele.

-- O que é frito dele? Eis justamente o que te vou dizer em confiança...

E depois de observar se não nos escutavam:

-- O Malta não foi para a Misericórdia!

-- Não foi? Mas então onde está ele?

-- Está aqui, escondido. Temos ordem superior para não consentir que ele se comunique com pessoa nenhuma e para declarar que ele foi para a Misericórdia. Amanhã hás de ver isso justamente nas notas policiais.

-- De sorte que o homem está aqui? -- perguntei ainda.

-- Está -- disse o amigo. -- E estará por muito tempo!

-- E a mulher com quem o viram a passear em Niterói? Sabes porventura me dizer que fim levou?

-- Também cá está e tem de responder a processo por crime de roubo.

-- Roubo?! E presa?! Oh!

-- Admiras-te de quê?!

-- Desgraçado! essa mulher é minha...

-- Tua, quê?

-- ... esposa!

-- Oh! Desculpa! Eu não sabia...

-- E é permitido ir ter com ela?

-- Pois não. Acompanha-me.

E dizendo isto, o meu amigo tomou a direção do lugar onde se achavam os presos. Acompanhei-o.

Ao chegarmos à célula em que se achava a amante do Malta, senti que o suor me caia em bagos pela fronte; uma vertigem me escondeu por instantes a luz dos olhos, quis avançar e as pernas afrouxaram-se-me a tal ponto que o amigo amparou-me nos seus braços e exclamou:

-- Então, fulano! Que é isso? Nada de fraquezas! Sê homem, meu amigo!

Eu concentrei todas as minhas forças e respondi:

-- Estou às tuas ordens! Vamos!

O amigo empurrou a porta e eu soltei um grito de surpresa e de indignação

Imagine V. S.ª, quem havia eu de encontrar ali, em vez de minha mulher, como esperava? Imagine quem, Sr. Redator: -- minha sogra!

Sou de V.S.ª

At.º cr.º e ven.or

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