Mattos, Malta ou Matta?: Capítulo IX Mattos, Malta ou Matta? · Capítulo 9 de 15
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Mattos, Malta ou Matta?: Capítulo IX

id="ws-author">Aluísio AzevedoSr. Redator:

O singular homem, que eu tinha defronte dos olhos, narrou-me do seguinte modo o fato da sua prisão em companhia de minha sogra.

-- Um ano depois que eu me relacionara com essa velhusca sublime, cuja forma o protetor acaso, ou Providência, escolhera para vir ao meu socorro, achei me com ela, a Providência, passeando no pequeno jardim que existe defronte da Estação de Pedro II, quando um carregador me perguntou que fazíamos ali.

"-- Creio que vou tomar um cálix de vermouth -- respondi eu. Porquê?

-- Nada -- resmungou o carregador. É cá uma cousa!

"E afastou-se.

"Poucos minutos depois, saboreava o meu vermouth ao lado da velha Providência, quando um urbano se aproximou de nós e perguntou como eu me chamava.

"-- João Alberto Castro Matta -- disse eu.

"-- E esta senhora? -- interrogou o urbano.

"-- Dona Leonarda da Conceição Meloso.

"-- Pois queiram acompanhar-nos.

"-- Para quê?

"-- Saberá na Estação.

"A velhusca ao receber esta ordem perdeu os sentidos e eu, que não me alterei; pus-me a rir nas barbas do urbano.

"-- Você está se rindo de mim? perguntou-me este.

"-- Assim o creio -- afirmei, soltando uma gargalhada.

"O urbano puxou pelo refle e ia dardejá-lo sobre a minha cabeça, quando de um salto lhe tomei a arma das mãos, arrojei-a para longe e investindo de cabeçadas contra o agressor, fi-lo cair dentro de um tanque do jardim.

"Em seguida, despejei o meu cálice de vermouth sobre a testa de Dona Leonarda, chamei um carro, meti-me com ela dentro e mandei tocar para casa.

"Mas o conflito com o urbano havia atraído muita gente e em breve era o meu carro escoltado por uma porção de soldados. De sorte que, ao chegarmos, eu e a minha velhusca, à Rua da Misericórdia, um morcego abriu-me violentamente a portinhola da sege e intimou-me a que me rendesse no mesmo instante à prisão.

"-- Bem -- respondi --, irei. Tanto se me dá ser preso, como não ser. Mas, peço-lhes que me deixem ao menos acompanhar primeiro esta senhora a sua casa.

"-- Nada! -- bradou um sujeito, com ares de autoridade, o qual acabava de surgir defronte de mim: -- Nada! Sua cúmplice irá também. Sigam!

"E, gritando para um praça: -- Não os larguem e levem-nos quanto antes à Estação.

"Fomos os dous conduzidos à presença de uma nova autoridade, e, ato contínuo, mandaram-nos para a Casa de Correção, onde nos engaiolaram em células separadas.

"Eis aí, como fui preso. Depois sobreveio-me uma espécie de desfilecimento nervoso, do qual só tornei a mim na capela do Cemitério, naquela triste situação que já o amigo conhece perfeitamente."

Sr. Redator; à vista desta declaração do ressuscitado, concluí que a Jeannite, dando as providências para que o amante e mais a sua miserável cúmplice fossem apanhados pela Policia, tinha motivado esse ridículo engano.

Calculei que, em vez da filha, tivessem prendido a mãe e, em vez do amante de minha mulher; tivessem prendido o amante de minha sogra.

E assim foi. Notando-se, porém, que a terrível Jeannite tanta gente pôs na pista dos perseguidos e tantas providências deu para os apanhar; que, na ocasião em que um Castro Malta era recolhido à Casa de Detenção com uma mulher; outro já lá estava com outra.

Os empregados da Casa, segundo deduzo do que lhes ouvi no dia do singular enterro, não se achavam muito a par da verdade e, tanto assim, que uns me diziam que o Castro Matta ou Malta havia seguido moribundo para a Santa Casa da Misericórdia, e outros afirmavam que o legítimo Castro Malta estava engaiolado na Detenção.

Perplexo com as novas revelações do ressuscitado, deliberei esclarecer por uma vez os acontecimentos e, no dia seguinte à minha conversa com ele, atirei-me de novo para a Casa de Correção.

-- Então? -- perguntei ao empregado que já me havia fornecido as primeiras informações -- que notícias me dão senhor do Castro Malta?

-- O Castro Malta -- respondeu-me o empregado -- enterrou-se hoje pela manhã no Cemitério de São Francisco Xavier. A prisão desse vagabundo, a quem Deus haja, motivou também a injusta prisão de um inocente que, ontem mesmo, mal se verificou o engano, foi posto em liberdade com uma rapariga que o acompanhava; ficando uma velhusca que viera com o que faleceu.

-- Bonito! -- disse eu. -- Os senhores podem limpar as mãos à parede!

-- Porquê?

-- Porque fizeram asneira! Porque soltaram o legítimo Castro Malta e a legítima cúmplice do Castro, e ficaram aí com uma pobre desmiolada, que nada tem com o negócio!

-- Como?! Explique-se!

-- Ora! Fizeram-na bonita! A mulher que os senhores soltaram é minha esposa, é a legítima amante do legítimo Castro Malta; a outra, coitada! é minha sogra, uma douda, cujo crime único foi meter-se com um boêmio que a estas horas deve ainda estar deitado em minha cama, a digerir uma ceia que lhe dei ontem.

-- Perdão! volveu o empregado policial. -- Perdão! O senhor não pode ter em casa o amante da velhusca que ainda cá está presa, porque esse desgraçado foi daqui muito mal para a Misericórdia, morreu, e enterrou-se hoje pela manhã.

-- Engana-se, quem se enterrou foi o verdadeiro Castro Malta, o amante de minha mulher; aquele que fora para aqui recolhido com uma rapariga morena, de olhos pretos e cabelos lisos, isto é, com minha esposa! Ora essa!

-- Pois eu lhe vou mostrar o que prova que o homem da velhusca morreu e está enterrado na sepultura n.0... Ora espere! Posso até lhe dizer o número da sepultura...

-- É inútil -- observei. -- É inútil. Sei donde parte o seu engano e receio, tentando esclarecê-lo, tornar mais embrulhada toda esta história.

-- Não! Se há novos enganos, convém pô-los a limpo. Fale, fale por quem é, meu amigo.

-- Pois então saiba que o sujeito, que foi na qualidade de defunto para o Cemitério de São Francisco, não era um cadáver.

-- Como assim?

-- Estava perfeitamente vivo.

-- Impossível! Pois se ele foi enterrado hoje, às nove horas da manhã, e aqui estão os documentos.

-- Não foi a ele que enterraram. Foi ao outro.

-- Que outro?

-- O tal Castro Malta, aquele que um dia antes fora solto com a mulher que o acompanhava.

-- Mas, como?

-- Muito facilmente.

E eu contei ao empregado da Casa de Correção o que assisti no cemitério.

-- Jesus! exclamou ele depois. -- Que trapalhada, minha Nossa Senhora! Que trapalhada! Como diabo agora poderemos sair desta?...

-- É exato! -- confirmei. -- O negócio está mal-parado!

-- Quer saber de uma cousa? acrescentou o empregado. -- Faça-me um obséquio não toque nisto a pessoa alguma. Finja que não sabe de nada! Se não se der uma palavra sobre o caso, ninguém descobrirá a verdade e a história cairá no esquecimento! Que importa um Castro Malta de menos ou de mais? Se não está enterrado o verdadeiro, foi alguém enterrado por ele. Tanto valem seis como meia dúzia! Ao passo que, se formos a mexer nessa embrulhada, a cousa pode complicar-se cada vez mais e redundar em prejuízo de todos nós. Promete que não dará uma palavra sobre isso?

-- Prometo.

-- Bem. Nesse caso vou falar ao Chefe para pôr na rua a velhusca, e fica terminada a questão.

Coitado! Mal sabia ele que então é que ela, a questão, ia deveras principiar!

Minha sogra, logo que se pilhou solta, jurou que havia de vingar-se daquela maldita Polícia, que, sem mais nem menos, lhe arrancara dos braços o homem amado e, segundo ela supunha, mandaram-no para a Misericórdia e daí para o cemitério morto.

-- Ah! Isto não há de ficar assim! bradava Dona Leonarda, quando me encontrou por acaso na rua. -- Isto não há de ficar assim! Pois então prende-se a gente deste modo, e deste modo se dá cabo de um homem! A quem me hei de dirigir sei eu! Tenho alguns conhecidos na imprensa, graças a Deus! E meu compadre Quintino há de mostrar-lhes de quantos paus se faz uma canoa! Hão de ver o bom e o bonito! Súcia de trapalhões!

E, como verificará V. S.ª a pela seguinte carta, não era debalde que o demônio da velha dizia aquilo.

Sou de V.S.ª

At.º cr.º e ven.or

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