Canto I I-Juca-Pirama · Capítulo 1 de 10
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Canto I

Canto I

No meio das tabas de amenos verdores

Cercadas de troncos -- cobertos de flores,

Alteião-se os tectos d’altiva nação;

São muitos seus filhos, nos animos fortes,

Temiveis na guerra, que em densas cohortes

Assombrão das matas a immensa extensão

São rudes, severos, sedentos de gloria,

Já prelios incitão, já cantão victoria,

Já meigos attendem a voz do cantor:

São todos tymbiras, guerreiros valentes!

Seu nome la vôa na bocca das gentes,

Condão de prodigios, de gloria e terror!

As tribus visinhas sem forças, sem brio,

As armas quebrando, lançando-as ao rio,

O incenso aspirárão dos seus maracás:

Medrosos das guerras que os fortes accendem,

Custosos tributos ignavos lá rendem,

Aos duros guerreiros sugeitos na paz

No centro da taba se extende um terreiro,

Onde ora se aduna o concilio guerreiro

Da tribu senhora, das tribus servis:

Os velhos sentados praticão d’outr’ora,

E os moços inquietos, que a festa enamora,

Derramão-se em torno d’um indio infeliz.

Quem é? -- ninguem sabe: seu nome é ignoto,

Sua tribu não diz: -- de um povo remoto

Descende por certo -- d’um povo gentil;

Assim lá na Grecia ao escravo insulano

Tornavão distincto do vil mussulmano

As linhas correctas do nobre perfil.

Por casos de guerra cahiu prisioneiro

Nas mãos dos Tymbiras: -- no extenso terreiro

Assola-se o tecto que o teve em prisão,

Convidão-se as tribus dos seus arredores,

Cuidosos se incumbem do vaso das cores,

Dos varios aprestos da honrosa funcção.

Accerva-se a lenha da vasta fogueira,

Entesa-se a corda da embira ligeira,

Adorna-se a maça com pennas gentis:

Á custo, entre as vagas do povo da aldeia

Caminha o tymbira, que a turba rodeia,

Garboso nas plumas de vario matiz.

Entanto as mulheres com leda trigança,

Affeitas ao rito da barbara usança,

O indio já querem captivo acabar:

A coma lhe cortão, os membros lhe tingem,

Brilhante induápe no corpo lhe cingem,

Sombreia-lhe a fronte gentil kanitar.

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