Canto VI I-Juca-Pirama · Capítulo 6 de 10
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Canto VI

Canto VI

-- Filho meu, onde estás?

-- Ao vosso lado;

Aqui vos trago provisões: tomai-as,

As vossas forças restaurai perdidas,

E a caminho, E já!

-- Tardaste muito!

Não era nado o sol, quando partiste,

E frouxo o seu calor já sinto agora!

-- Sim, demorei-me a divagar sem rumo,

Perdi-me nestas matas intrincadas,

Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;

Convem partir, e já!

-- Que novos males

Nos resta de soffrer? -- que novas dôres,

Que outro fado pior Tupan nos guarda?

-- As setas da afflicção já se esgotárão,

Nem para novo golpe espaço intacto

Em nossos corpos resta.

-- Mas tu tremes!

Talvez do afan da caça...

-- Oh filho caro!

Um quê mysterioso aqui me falla,

Aqui no coração; piedosa fraude

Será por certo, que não mentes nunca!

Não conheces temor, e agora temes?

Vejo e sei é Tupan que nos afflige,

E contra o seu querer não valem brios.

Partamos!... --

E com mão tremula, incerta,

Procura o filho, tateando as trevas

Da sua noite lugubre e medonha.

Sentindo o acre odor das frescas tintas,

Uma idéa fatal correu-lhe á mente...

Do filho os membros gelidos apalpa,

E a dolorosa maciez das plumas

Conhece estremecendo: -- foge, volta,

Encontra sob as mãos o duro craneo,

Despido então do natural ornato!...

Recúa afflicto e pavido, cobrindo

Ás mãos ambas os olhos fulminados,

Como que teme ainda o triste velho

De ver, não mais cruel, porém mais clara,

D’aquelle exicio grande a imagem viva

Ante os olhos do corpo affigurada.

Não era que a verdade conhecesse

Inteira e tão cruel qual tinha sido;

Mas que funesto azar correra o filho,

Elle o via; elle o tinha ali presente;

E era de repetir-se a cada instante.

A dôr passada, a previsão futura

E o presente tão negro, ali os tinha;

Ali no coração se concentrava,

Era n’um ponto só, mas era a morte!

Tu prisioneiro, tu?

-- Vós o dissestes.

-- Dos indios?

-- Sim.

-- De que nação?

-- Tymbiras.

-- E a musurana funeral rompeste,

Dos falsos manitôs quebraste a maça...

-- Nada fiz... aqui estou.

-- Nada! --

Emmudecem;

Curto instante depois prosegue o velho:

-- Tu és valente, bem o sei; confessa

Fizeste-o, certo, ou já não fôras vivo!

-- Nada fiz, mas souberão da existencia

De um pobre velho, que em mim só vivia...

-- E depois?...

--Eis-me aqui:

-- Fica essa taba?

-- Na direcção do sol, quando transmonta.

-- Longe?

-- Não muito.

-- Tens razão: partamos.

-- E quereis ir?...

-- Na direcção do occaso.

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