Incógnita Ânsia Eterna · Capítulo 15 de 30
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Incógnita

– Ah! O senhor conheceu-a? – De vista. – Devia ter sido feia! – Não; era formosa. – Que nome tinha, sabe? – Ignoro... Faz-me o favor do seu fogo? – Pois não... Houve uma pausa; e, enquanto um dos interlocutores, o que perguntava, examinava com interesse o interior do necrotério, o outro ia acendendo muito pachorrentamente o seu cigarro. Em frente deles, sobre o mármore branco de uma das quatro mesas, estava o cadáver de uma mulher. A claridade frouxa de um dia de inverno entrava pela larga porta e pelas janelas, indo cair sobre o corpo seminu da infeliz, a envolvê - -la, como uma grande mortalha transparente. Tudo triste, tudo cor da neve, tudo frio! O vento entrava, cortante como uma lâmina bem afiada. No seu nicho, sobre fundo azul, a Virgem da Piedade, sustendo nos joelhos o corpo inerte do Cristo morto, evocava, como um exemplo de profunda agonia, a sua grande dor. – Infeliz, dizia um dos espectadores, encostado ao umbral, olhando para aquele pavoroso espetáculo, numa fixidez de animal magnetizado. O cadáver estava inchado pela absorção da agua e já manchado da gangrena. Os cabelos enovelados empastavam-se sobre as clavículas, numas madeixas pretas, curtas, ásperas, sujas de areia e de

partículas de algas. Os olhos, entreabertos, pareciam, na sua névoa sinistra e glacial, feitos da água que os havia apagado e que se tivesse coagulado em dois grandes glóbulos gelatinosos e opacos. Expressão medonha, feita pelo terror da onda e pelo terror da morte! O diálogo continuava: – O senhor diz que ela não era feia! No entanto parece horrorosa! Como a morte transfigura... como a morte é má! O outro sorriu-se, respondendo: – Se estivesse, como eu, habituado a olhar para isto, já se não impressionaria assim. Vá-se embora... está pálido e não convém abusar de uma impressão nervosa. Separaram-se. E o sujeito que conhecera a desgra çada morta, noutros tempos, em que ela era talvez alegre, jovial, risonha, ia andando despreocupadamente, a bambolear a grossa bengala de castão de prata, e a pensar no almoço do hotel, nas ostras frescas e no vinho leve. O outro, ao contrário, tremia; sentia as palmas das mãos úmidas e gélidas, como se as tivesse passado sobre a carne mole da defunta; olhava com raiva para o mar azul franjado de espuma alvinitente semeado aqui e além por umas velas brancas como asas de cisne; sentia um cheiro de cadáver e de ácido fênico em tudo, na mão, no próprio fato, no chapéu, no lenço, nas mãos... Todo esse dia foi para ele de sofrimento; numa obsessão doentia, cismava continuamente nessa morta desconhecida, por quem talvez tivesse passado e a quem talvez tivesse podido socorrer ou aconselhar. A sua responsabilidade de ente humano, ofendia-se àquela revelação de padecimento sem con solo. A felicidade depende às vezes de tão pouco! Querendo reagir, procurou em vão entreter o espírito, arejá-lo com outras ideias. Afinal, não fora por causa dele que aquela mulher se matara! Depois, não lia ele todas as manhãs, já sem abalo à força do costume, tantas notícias de crimes, t ão dolorosas revelações nos jornais? Por que haveria agora este fato de o impressionar mais que tantos outros? Então, só porque os seus olhos tinham visto aquele

corpo imundo, já a sua impassibilidade dava lugar a uma tamanha vibração de nervos? Devia pensar em outra coisa; queria-o, mas era vão o esforço, a resistência acudia a curiosidade: – Coitada, por que se teria matado? Desgraças de amor, naturalmente. Uma paixão; sim, devia ter sido isso mesmo... Quando voltasse para casa passaria outra vez pelo Necrotério... esperava já lá não encontrar o cadáver, sabê-lo reconhecido pela família, tirado dali, daquela exposição ignominiosa. Àquela hora alguém choraria a seu lado, já haveria flores sobre o seu corpo imundo, e o perdão da família sobre o seu crime nefasto! Ainda dois dias antes ela devia ter sido bonita, fresca, louçã... Naturalmente aquele por quem ela se matou, foi procurá-la, e, humilhado, arrependido, irá acompanhá-la ao cemitério, fazendo-lhe um enterro bonito e espargindo violetas sobre o seu túmulo, com saudosa ternura. Talvez a matasse uma traição... O amante casaria... O marido amaria outra... a vergonha... o ciúme... Fosse o que fosse, ela estava morta, desfigurada, repugnante, e não lhe podia sair do pensamento, numa obstinação cruel. E as mãos, e o fat o e o lenço cheiravam a defunto e a ácido fênico! Saiu de novo; girou pelas ruas; aqui um amigo alegre detinha - -o, contando-lhe uma anedota picaresca; os outros riam, ele sorria apenas, condescendentemente, pensando nuns olhos vítreos, parados, e num corpo hirto e manchado de escuro. Entrou num botequim: muita confusão; gente e música estrepitosa. Mas todas aquelas pessoas, quase todas homens, pareceram-lhe t étricas, sombrias, pensativas. Nem uma gargalhada! Nem um dito de espírito faiscando no ar; bulha de passos, tilintar do vidros e metais, unicamente rostos amarelados, olhos fixos no café das xícaras, e ao fundo uns músicos, vibrando os seus instrumentos com desespero, num interesse de ganho mercenário. Achou estúpido aquilo e saiu.

Mas na rua, como em casa, sentia o mesmo cheiro e o mesmo desgosto. Sempre aquela mesa de mármore branca, inclinada, a Virgem no seu nicho de madeira, e o cadáver da afogada, com os olhos abertos e as algas mirradas presas no cabelo. Entretanto o outro, que a conhecera, já nem pensava nela... E no espírito do impressionado rapaz voltava de vez em quando a impertinente pergunta: – Por que se mataria... por quê? ... Voltando para casa, parou de novo no Necrotério. A morta já lá não estava. Sobre a mesa que ela tinha ocupado, agora vazia, o sol punha, através dos vidros vermelhos e amarelos das janelas, umas rosas de luz cor de ouro e cor de sangue. Trouxe-lhe aquilo algum sossego, mas não se coibiu de perguntar com interesse ao guarda se a infeliz fora, enfim, reclamada pela família. – Não, senhor, respondeu-lhe o guarda com amabilidade, ajeitando no pescoço um lenço de lã azul. – Então ninguém a reconheceu?! – Ninguém. – Ninguém a procurou? – Ninguém. – Coitada! O guarda espantou-se de ver brilharem de como ção os olhos daquele importuno perguntador, que, no entanto ia dizendo: – Não teve a desventurada pai, irmão ou amigo que lhe viesse dizer um último adeus! Que coisa triste... – Ninguém, repetiu o guarda; foi daqui para o cemitério. – Antes a tivessem deixado no mar... – Sim, mais valia... O rapaz não respondeu; olhou outra vez para a mesa, onde tremulavam as rosas de sol, e seguiu. Talvez se tivesse matado por ser sozinha. A mulher é uma eterna criança, precisa sempre que a conduzam pela mão... Sem lar, sem amor, sem amparo e sem conselhos, como poderia resistir e viver neste

mundo? Faltou-lhe talvez o esposo... um amigo dedicado... talvez a mãe... um braço salvador, enfim, que a sustivesse em um outro nível. Pobre rapariga! fascinou-a naturalmente a cor misteriosa do oceano, ora verde, ora azul... Supôs poder dormir entre os corais e as conchas nacaradas, enquanto as ondas rolassem sobre o seu corpo, marulhosamente! Seria louca? É possível. Um pouco de espuma aparecendo e sumindo-se, assemelhar-se-ia a um aceno que a chamasse... Incógnita! Passando pela terra sem deixar ninho nem vestígio, afundou-se no mar repentinamente, com todas as suas desilusões, ou, quem sabe?, com todas as suas esperanças! Talvez que ele, ele mesmo, já a tivesse visto e beijado! Esta ideia fê-lo estremecer. Viu fixarem-se nos seus os olhos terríveis e impenetráveis da morta, nublados de cinzento, a cor sombria e muda. Interrogou as suas reminiscências. E a voz do guarda pareceu dizer-lhe de novo, ao ouvido: – Ninguém... No caminho percorrido da sua vida, não a vira nunca. Antes assim! E ele respirou. Por que se obstinava em pensar nela? Que estranho poder era esse, prendendo-o de tal forma a uma desconhecida? Vira-a pela primeira vez já morta, já putrefata e asquerosa. Acabou-se; a vida é bem pouca coisa para que a gente se ocupe tanto dela!... Entrando em casa, a esposa correu a recebê-lo com a filhinha; ele beijou-as com ternura, demoradamente, sentindo como nunca a alegria inefável de proteger alguém. Depois contou-lhes tudo, a sua dolorosa impressão, diante da mesa inclinada do Necrotério, onde um cadáver de mulher mostrava o rosto amarelo e os cabelos ásperos, sujos de areia e de algas secas. Acabada a narração, a esposa tinha os olhos rasos d’agua, e a vozinha débil da filha murmurava: – Logo à noite, mamãe há de me fazer rezar pela afogada, sim?

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