O último discurso Ânsia Eterna · Capítulo 28 de 30
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O último discurso

O ÚL TIMO DISCURSO A Coelho Netto Dr. Paula Guedes, muito velhinho, sumido entre os almofadões do seu grande leito de peroba, com os pés aquecidos por uma botija de água quente, a camisola de flanela bem abotoada no pescoço, delgado e rugoso como um galhinho seco; as mãos mirradas sobre a colcha de lã, a fronte já tocada de uns tons da amarelidão cadavérica, os lábios murchos sob o musgo branco do bigode queimado, as pálpebras descaídas, mal ouviu a neta dizer-lhe que havia ali um ofício dirigido a ele, sentiu logo um calorzinho entrar-lhe na alma fria. Ainda não tinham esquecido! E, com um fio de voz fragilíssimo, reclamou logo: – Os meus óculos! Postos os óculos, disse radiante: – É do Instituto! E apalpava o papel grosso onde o dístico daquela corporação aparecia em letrinhas negras. A neta, em pé ao lado da cama, observava-lhe com espanto a mudança da fisionomia. As pálpebras até então fechadas numa sonolência que parecia o ensaio para o grande sono, levantavam-se agora, deixando que das pupilas, há pouco amortecidas, saíssem novos lampejos, como mosquinhas loiras bailando no ar. – Hum... hum! é do Instituto... ainda não me esqueceram... sempre faço alguma falta. Todo o corpo do doente se movia sob a grande colcha felpuda, onde não faria menos volume o esqueleto de um menino de dez anos. A neta ofereceu-se para a leitura.

– Não, depois! Espera... corre a cortina... a luz está má. – Assim? – Assim. A leitura começada foi logo interrompida. – Hum... hum!... Abre a janela. – Vovô, vamos ter chuva; há tanta umidade que nem parece uma manhã de verão. – Não faz mal, abre a janela. – Mas vovô! O Dr. Paula Guedes, que tomara na véspera os sacramentos, como bom católico apostólico romano, todo purificado pela absolvição, rompendo a inércia dos seus oitenta e três anos e daquela doença que o fazia tiritar de frio em pleno fevereiro, gritou em um falsete irado: – Abre a janela! A janela abriu-se. A araucária e os pés de camélia plantados perto de casa gotejavam orvalho; para além nada se via: tudo era branco. – Aqui na Tijuca estes nevoeiros de verão prognosticam dias formosos, disse o doutor com um sorriso, desdobrando o ofício. Era um convite. Pediam-lhe que fosse ele o orador na grande solenidade que o Instituto realizaria daí a um mês em homenagem ao tricentenário de Anchieta. Então é que o enxame das mosquinhas de ouro torvelinhou doidejante. Meu Deus! O Instituto, o centro das grandes capacidades do país, dos nomes mais respeitados e queridos do império e da república, aquele ninho de inteligências perfeitamente dirigidas, de ministros, conselheiros, marechais, historiadores e grandes homens de letras, precisava dele, do apoio da sua voz, do fulgor da sua ilustração? Que honra, que doce consolo aquele que lhe ia bater à porta nas últimas horas da sua vida, exatamente quando ele curtia a amargura de pensar que tinham há muito posto sobre o seu nome uma pedra ainda mais pesada do que a outra que botariam em breve sobre o seu corpo!

Alvoroçado releu o ofício, passou-o à neta, ouviu-o ler de novo; mandou chamar a família inteira, comunicou-lhe o sucesso, com ar rejuvenescido, contente. Ele faria por aceder ao convite! Opuseram-se todos. Seria a sua ruína; que dormisse descansado, sem atormentar a imaginação. Que se lembrasse dos conselhos do médico... e que mais isto e que mais aquilo... Falassem por ali! Ele já nada ouvia. Escorregou nos seus travesseiros, fincou o olhar na cúpula do cortinado, e nem mais palavra. Fecharam a janela, aconchegaram-lhe ao corpo mirrado as dobras da colcha, cerraram o cortinado e – chut1! – saíram em bico de pés. No seu grande leito, o Dr. Paula Guedes, muito branquinho e engelhado, de mãos postas, tal e qual como na véspera, quando a Visita de Deus entrara no seu quarto, via desfilar o cortejo extraordinário dos grandes vultos da história. Galeras a todo a pano singravam as ondas aniladas com rumo às terras formosas em que soavam a língua dos Tupis e a língua dos Guaranis. O espírito do velho Dr. Guedes lá se remontou a 1553, sorrindo ao vulto pálido e severo do velho Anchieta, acompanhando-o pelas selvas negras e as montanhas pedregosas, vendo-o escrever os seus versículos sacros e arrebatar crianças para as procissões. Começou então a pensar na construção do seu discurso. Dividi- -lo-ia em grandes períodos, com toda a sua minúcia e caturrice acadêmica; deveria ser uma peça substanciosa, por vezes anedótica, mas sempre elevada. O seu maior empenho era o de fazer este discurso mais brilhante que todos os outros que tinha deixado atrás de si, espalhados pelas salas, pelas revistas e pelos arquivos. A palavra entontecia-o, arrastava-lhe o pensamento na sua torrente macia, onde as ideias lampejavam como fagulhas imorredouras. O orador começava a achar intolerável a demora no leito. Veio- -lhe a saudade das suas estantes, do conforto da sua biblioteca, da comodidade da larga secretaria, tão afeita ao peso do seu braço amigo. 1 Psiu.

Já não sentia frio, já não lhe doíam os membros lassos, quase inertes; aquele convite do Instituto fora a providência; trouxera-lhe um pouco de mocidade; era uma ressurreição! Oh! O Instituto não se esquecera... estava tranquilo: deixava um nome, faria falta! Trouxeram-lhe leite; bebeu-o de um trago e reclamou papel e lápis. Houve rumor em casa. Consultaram-se uns aos outros. Dariam o lápis? Dariam o papel? Uns diziam que sim, outros que não; e entretanto ele, murcho e débil no meio dos seus almofadões, coordenava as suas memórias históricas, organizando uma obra digna do assunto com um pouco de fantasia que lhe adoçasse a sobriedade dos dizeres clássicos, em português bem literário e castiço como se prezava de escrever. Trouxeram-lhe afinal o papel e o lápis, e a pouco e pouco foi-se o leito juncando de livros, arquivos, glossários, volumes de história. O Dr. Paula Guedes já não carecia da botija de água a ferver para os pés; um calor confortativo, de vida, alastrava-se por todo ele, em uma febre doce, que punha cada vez mais aceso o enxame de mosquinhas de ouro dos seus olhos encovados. – Cada louco tem sua mania; resmungava a família descontente, com medo daquele trabalho penoso para um corpo sem sangue, prestes a cair. Entretanto o discurso ia indo, caudaloso, nos moldes velhos a que o orador se acostumara e que considerava, como bom retórico, os únicos capazes de bem levantar as almas. O milagre fez-se. O velhinho parecia ter adiado a morte, e levantou-se oito dias antes da grande solenidade, com o seu discurso arquitetado e as mãos cheias de notas que ele coordenou na grande secretaria da sua biblioteca. Tudo concluído, recomendou às filhas que lhe preparassem o terno da casaca, as luvas e a gravata branca, mais as suas comendas que ele, grande respeitador das velhas instituições, usava sempre nas funções solenes.

Naquela febre, todo voltado para o ideal e para a história, o velho Dr. Guedes rejuvenescia, como se mão misteriosa o ajudasse, invisivelmente, a caminhar na vida. Dias antes da cerimônia quis ensaiar-se e experimentar o seu fato, há tanto tempo guardado no fundo escuro do armário. Preparou-se; o corpo nadava-lhe dentro do pano preto; e dentro do colarinho engomado o seu pescocinho fino mal parecia dever sustentar-lhe a cabeça branca, recheada de ideias e de imagens gordas. Para que o ensaio fosse completo abriu-se o salão da frente, acenderam todas as arandelas, e os filhos e netos sentaram-se disseminados, como se com a dispersão parecesse aumentado o auditório. Dr. Guedes entrou com passo firme, à força de energia, sorriu, fez a mesura do estilo: – “Minhas senhoras! Meus senhores!” – e, folheando os seus manuscritos, começou a falar em voz fraca, espalmando no ar a mão direita, enquanto a esquerda carregava as vinte e seis tiras do papel almaço. O seu primeiro discurso não o comovera tanto. É que ele agora julgava-se esquecido, perdido da memória dos seus contemporâneos e daquelas gerações que tinham sucedido a sua, com menos brio e piores armas. Agora estava consolado: o Instituto lembrava-se, e o Instituto valia tudo! Com as condecorações reluzindo-lhe no peito magro e fundo, o Dr. Guedes procurava dar gravidade ao gesto e sonoridade à voz; mas os óculos descaíam-lhe, a vista faltava-lhe e a palavra perdia-se em um som rouco e débil. Ele mal percebia tudo isso, aproximava-se da luz, sustinha com os dedos trêmulos o aro de ouro dos óculos... E as filhas choravam, constrangidas, muito caladas, engolindo as lágrimas. Quase no fim, em um dos seus melhores períodos, em que ideias e palavras desabavam com fragor de catadupa, ao esboçar um gesto, o doutor Paula Guedes estacou, abriu os dedos e deixou voar para o chão as tiras do seu discurso. Acudiram todos; receberam-no nos braços, deitaram-no no seu grande leito de peroba, e, quando olharam de perto para o seu rostinho lívido, viram que das suas pupi-

las fundas a última mosquinha de ouro tinha partido, como a última abelha do calix2 de uma flor murcha. Então, a mais calma das filhas reuniu as tiras esparsas do último discurso do pai, dobrou-as e meteu-as carinhosamente no bolso da casaca, tal e qual como se ele, em vez de ter de ir para o cemitério, tivesse de ir para o Instituto! 2 Cálice

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