Pela pátria
Os tiros lá fora repetiam-se, tremendos e abaladores. D. Catarina, muito lívida, segurava com os dedos magros, de encontro ao peito fundo e côncavo, o seu triste xale de viúva, escutando sozinha a agonia do coração... Morava em Niter ói, num bairro afastado, e na sua pequena sala térrea, de uma nudez de ascetério, o seu corpo magro e esguio, todo coberto do preto, andava desnorteadamente, como um mastro sem velas batido na borrasca. Corria assim de canto a canto, de parede a parede, de janela a janela, sem parar, sem perceber senão que os seus dois rapazes lá estavam na guerra, o mais velho no exército, o mais novo na esquadra... A luz pálida do crepúsculo desfazia-se aos poucos. Coisas e seres retraíam-se num silêncio expectante. O troar da artilharia calava todas as outras vozes; nos intervalos caía sobre a terra uma mudez pesada e absoluta; mas o estampido vinha depressa fazer vibrar a natureza inteira. E o ar ficava por momentos trêmulo, como que dolorido pela passagem daquele som formidável e assassino. D. Catarina tinha esgotado todo o fervor religioso da sua alma. A prece j á lhe sa ía dos l ábios frios como um débil perfume de flor murcha. Perdera as for ças na ansiedade e no pranto; o coração n ão lhe destilava a água purificada da lágrima, que escorrera toda, deixando só no fundo os resíduos de sangue negro e envenenado, geradores da raiva. D. Catarina odiava a terra em que nascera e que lhe roubava agora os filhos, execrava ainda mais os homens e a lei e tudo! Era ignorante, embora inteligente e imaginosa; e na curta parábola em que o seu espírito se abalançava, não podia atingir esses preceitos divinos,
que se escrevem com sangue e que os homens leem corrente na sua alta sabedoria... A honra? O brio da na ção? Palavras! Ela n ão sabia sen ão que amava os filhos, que os tinha criado com terno apego e grande sacrifício, pedindo honestamente e humildemente ao Senhor Deus dos exércitos, que fizera as estrelas do c éu, as águas dos rios, os cedros altivos e as areias do mar, que, na sua força prodigiosa, de tantas maravilhas lhe concedesse a simplíssima gra ça de a fazer morrer bem velhinha, deixando neste mundo os seus dois filhos... os seus dois únicos filhos! Tinha caído a noite. D. Catarina procurou reagir. Acendeu a lâmpada, compôs na alcova próxima as roupas e as camas dos seus rapazes. Para quê? Eles não viriam... mas era um hábito, e ela obedecia com submissão a todos os seus velhos costumes. Ergueu depois a vela à altura dos retratos deles, que se destacavam na parede calada, em dois quadrinhos moldurados de veludo escuro. O mais velho era um soldado garboso, claro e bonito como o pai, de olhos rasgados e peito franco e largo. O outro, ainda muito novo, puxara ao tipo da mãe: era magro, trigueiro, de rosto comprido e lábios simpáticos. D. Catarina beijou ambos com igual ternura, confundindo-os no mesmo enleio e no mesmo cuidado. Voltou depois para a saleta, abrindo os ouvidos aos rumores de fora... Que estranho rumor seria agora aquele que percebia ao longe, no ar imóvel da noite? Fincou o olhar na treva. Ninguém! A estrada devia estar deserta. Tornou a entrar e foi sentar-se a um canto, com os cotovelos pontudos firmados nos joelhos e o rosto sumido entre as mãos. Caíra por fim numa atonia que lhe amolentava o esp írito e petrificava o corpo; nem um leve estremecimento lhe agitava os músculos. Permaneceu por longas horas em igual postura, olhando para o mesmo ponto. A pouco e pouco ideias desencontradas foram nascendo e fugindo simultaneamente no cérebro de devota extinta. Deus e o diabo surgiam juntos na mesma luz indecisa que se embatia em sombras, que mudava e que desaparecia. Santa Catarina, sua patrona, a virgem
douta, vinha também, na sua nudez pálida de martirizada, atravessar-lhe a mente num clar ão frouxo e frio. E depois outros santos, e grandes heresias, procissões fant ásticas, mal definidas, indeterminadas, arrastavam-se lentamente, mudando de feitio e mudando de cor, esfacelando-se, extinguindo-se... D. Catarina permanecia surda a todas as bulhas exteriores, numa abstração de louca. O clamor recrudescera, recrudescera e avizinhava-se. Os estalidos da fuzilaria crepitavam já perto. De vez em quando ribombava o canhão, atroador, medonho. O solo e as casas tremiam ent ão, abalados pelo estampido que o eco repetia em ondula ções soluçadas. O clamor da guerra abafava tudo, terrivelmente, dolorosamente! Entretanto, alguém vinha pela rua solitária, batendo a calçada com passos apressados. D. Catarina, prostrad íssima, continuava em igual postura, olhando para o mesmo ponto... Bateram; ela então, acordando daquele marasmo de extenuada, ergueu-se de chofre e correu para a porta. O coração saltava-lhe em ímpetos violentos, sufocadores. – Meu filho! Era o João, o mais velho, o soldado. A mãe estendeu-lhe os braços, sorrindo, enlevada, numa grande ventura. Ele não respondeu ao afago; e pálido, abstrato, sem ter nem mesmo levado a mão respeitosamente ao boné, foi direito à mesa e apoiou-se nela, deixando-se cair numa cadeira. – Como você vem sujo de pólvora e como est á cansado! Meu adorado filho, que medo que eu tinha! Agora fico pensando no outro... o meu Pedrinho... você sabe dele? João voltou-se para a mãe com ar espantado. – Diga, você viu seu irmão? O soldado não respondeu; fixava a mãe com olhar parvo, muito aberto, como se não compreendesse o que ela lhe dizia. Vinha fugido, com a farda rasgada, aberta no peito, as mãos negras de pólvora, o rosto transtornado. D. Catarina apavorou-se. Estaria doido, o João? Ameigando a voz ela pediu-lhe que repousasse e ofereceu-lhe de comer.
Que não; respondeu ele com um gesto. – Então... O espírito da mãe clareou-se de repente: o filho vinha s ó para dizer-lhe: vivo! E, já com medo de tornar a perdê-lo, instou para que fosse descansar. – Não posso... venho fugido. D. Catarina relanceou a vista por toda a sala, procurando esconder o filho, receosa de que o vissem de fora. – Não quero esconder-me, tornou ele, percebendo-lhe a intenção; eu volto para l á... Eles conseguiram vir à terra... temos lutado muito! Os revoltosos desembarcaram? – Sim. – Então viu Pedrinho? João abaixou afirmativamente a cabeça. – Nossa Senhora! Por que é que o não trouxe? O soldado calou- -se, suspirando baixo. A mãe repetia as perguntas, atropeladamente: – Diga! Diga! Ele falou com voc ê? Está bom? Não o feriram? Meu filho! Que saudade! Ele é t ão fraco... é preciso que ele venha; quero os dois aqui, vá busca-lo... Não, não! Eu nem sei o que digo... Espere... vou eu! De repente D. Catarina estacou diante do rosto mudo e pálido do filho. Parou-lhe o coração no peito. – Por que é que você não diz nada? O mesmo silêncio contrafeito. – Responde, João! Pedrinho está vivo?! A palavra custava a romper por elite os lábios do soldado, e foi ainda com um aceno de cabeça que ele disse que não. D. Catarina caiu de joelhos com as mãos juntas. – Misericórdia! Misericórdia! Mataram meu filho!
Depois, erguendo-se, exigiu do outro que lhe dissesse tudo, e instava: – Quem foi que o matou? Você não viu? Por que não defendeu seu irmão? Diga, quem foi que o matou, diga, diga! João olhou para a espada, que lhe pendia do lado batendo-lhe na perna. A mãe não entendeu e repetiu: – Meu adorado Pedrinho! Mas você não fala, João! Diga quem foi que o matou, diga tudo! – Fui eu... D. Catarina recuou espavorida; depois, avan çando para o filho, bateu-lhe no peito, bem sobre o coração e bateu-lhe na cara, muitas vezes e com muita força. Toda ela vibrava na convulsão do desespero, e a voz que a dor tinha desafinado e enrouquecido, uivava e rugia a um tempo, como um cão que se lamenta ou uma fera que ataca. – Maldito! Matar seu irmão! Você que mamou nos mesmos peitos, saiu do mesmo ventre, nasceu do mesmo amor! Amaldiçoado... Caim! D. Catarina esmurrava o próprio corpo, à proporção que falava; e o filho ouvia-a calado, tr êmulo. A mã e teimava por arrancar-lhe uma palavra ao menos e repetiu num desespero: – Diga tudo, maldito. Por que foi que você o matou, por quê? – Pela pátria! – Pela pátria! Repetiu ela, rindo, raivosamente. A pátria sou eu! Eu que sofri, e que vivia do vosso amor! Isto não é guerra por amor da pátria: eu sei o que dizem por aí. Eu sei! Infame, maldito... Some- -te da minha vista, Caim! Caim! D. Catarina caiu sem um soluço. Jo ão levantou-a, fê-la voltar a si e, de joelhos, chorosamente, contou-lhe tudo. Matara o irmão na treva, na desordem da luta, corpo a corpo. Por que viera o Pedro para ele com tanta fúria e arreganho? Matara quem o queria matar, defendera-se... porque, jurava, só conhecera a voz do irmão ao ouvir-lhe o ai derradeiro. Foi ent ão que procurando fixa-lo, viu-o deitado de costas, com os braços abertos e o peito estreito arquejando no desprender da vida.
D. Catarina repetiu: – Amaldiçoado! João concluiu: viera despedir-se da mãe, pedir-lhe que lhe perdoasse... Mais nada. Voltava para o combate. A mãe não procurou retê-lo, e ele saiu chorando. O soldado não voltou à casa materna... D. Catarina começou a perdoar-lhe quando teve medo de perdê-lo. Um dia, já muito sobressaltada, saiu para ir buscá-lo, num alvoroço, sem saber como perguntar por ele; mas logo no meio da estrada esbarrou com uns soldados que lhe disseram cruamente a verdade: o João tinha sido baleado e fora levado com outros, num montão de cadáveres. O dia estava sombrio, uma manhã cinzenta e chuviscosa. Os soldados passaram. D. Catarina ficou imóvel, com os olhos na onda verde que vinha desfazer-se na escumilha fofa da espuma, à beira do caminho silencioso. Ela tinha-o amaldiçoado... lembrava-se daquilo. O Jo ão estava decidido a morrer... fora-lhe solicitar o perdão e só tinha ouvido em troca as palavras: – Maldito! Caim! O vento agitava-lhe o xale preto, que se abria em asas de corvo, e D. Catarina, alongando a vista, julgou ver ao longe os espectros dos filhos, com os braços hirtos, muito erguidos para o céu inclemente e as bocas articulando sem voz, num esforço medonho: – Pela pátria! Pela pátria! Batendo então com as mãos inclinadas no peito fundo, D. Catarina, no seu egoísmo materno, respondeu-lhes, gritando em arrancos de louca: – Calai-vos, ingratos! A pátria sou eu! Sou eu! Sou eu!