Delicadeza Memorial de um Passageiro de Bonde · Capítulo 22 de 48
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Delicadeza

Testemunhei uma cena desagradável, que infelizmente não teve piores conseqüências.

Ia perto de mim um cidadão muito gordo. Luxuosamente gordo. Parecia carregar as banhas com a recolhida empáfia de um grão-sacerdote afogado em deslumbrantes vestes talares. Refestelava-se no banco, firmado nas enxúndrias das nádegas, como uma pesada bóia flutuante indiferente ao balanço das ondas. Exibia o ventre, que lembrava o hemisfério de um grande globo, como se de propósito desejasse que toda a gente lhe pudesse admirar aquela prenda. Aquilo era o seu precioso berloque de novo rico.

A certo ponto da viagem, surgiu do outro lado do hemisfério um moço magro e sutil, que procurava passar pela frente do obeso, mas hesitava ante a impassibilidade ou distração deste. Afinal, tocando no chapéu, perguntou-lhe, alto, com verrumante delicadeza: - "Cavalheiro, não lhe seria muito incômodo ceder-me um corredorzinho para eu passar?" O gordo zangou-se. Encolheu como pôde o fardo abdominal e, sacudindo a papada, os olhos arregalados: "Passe!"

O moço magro, atônito por um momento, depois inclinado a reagir, sorriu-se afinal, e disse entre dentes, relanceando um olho escarninho pela venerável barriga: - "Bolas! não estou disposto a brigar com meio mundo." E o gordo a resmungar: "O calcinhas! Esta sucia..."

A princípio não compreendi por que seria que o pançudo tanto se irritara. É que sou por natureza tardo de compreensão. Nada mais fácil de ver que o homem sentira espicaçado justamente por aquele excesso de delicadeza. Se o moço, passando, lhe tivesse empurrado de leve os joelhos, dizendo um seco e rápido "com licença!", e fosse tocando para diante, nada teria acontecido. Ogordo levaria isso à conta de uma pequenina e desculpável grosseria sem endereço especial. Não já, assim a frase e o gesto do mancebo, que lhe bateram no toutiço como farpazinha particularmente preparada para sua pessoa. Ninguém gosta de se ver assim pessoalmente visado e distinguido nos seus pequenos tortos, que são mais ou menos os de toda a gente e devem passar sem exame e sem reparo.

Há uma causa mais geral, e é que o excesso de delicadeza leva uma dose de ironia, e a ironia ofende e revolta mais do que a rudeza. Não, como geralmente se julga, por penetrar mais fundo na derme do alvejado, mas pela desigualdade de armas. O homem desprevenido e "natural" não tem, nos seus encontros e lidas cotidianas, mais do que as armas de ataque e defesa que a natureza lhe deu, e delas se socorre como pode. O irônico é um mal intencionado, que carrega armas artificiais no meio de uma população policiada e pacífica. Viola a convenção em que a generalidade repousa. Quebra a regra consuetudinária do jogo da convivência. Onde outros se limitariam a usar das mãos e dos cotovelos, ele saca de um pequenino punhal e põe-se a esgrimi-lo com a destreza de um especialista de má-fé e de maus bofes. O adversário sente-se apanhado à traição, exaspera-se e, às vezes explode.

O sujeito extremamente delicado é, no fundo, um indivíduo que faz o pior juízo acerca dos seus dissemelhantes, e os trata com infinitos cuidados, como se lidasse com cavalos passarinheiros ou cachorros agressivos. Ou isso, ou então é que gosta de lançar engodos às almas incautas, para que se lhes abram e se lhes ofereçam em espetáculo. Todos os seus gestos estão impregnados de ironia, de uma ironia que nada tem com a dos homens compreensivos e sensíveis que já viveram muito, mas uma ironia feita de vaidade, de caborteirice e de secura de coração. Ele é o "homem de escol", "a criatura de exceção", fina, distinta, lixada, repolida, cheia de bicos e rendas, desgraçadamente obrigada a viver no meio de uma canalha tosca e molesta!

A antipatia instintiva que provoca é uma reação da vis medicatie social.

O que mostra mais uma vez como os movimentos instintivos podem eqüivaler a longas reflexões, e como a mentalidade coletiva pode chegar, sem raciocínio, aos mesmos resultados das lentas análises do psicólogo e do moralista., - De onde, também, o erro dos paradoxófilos, quando partem do pressuposto de que, para bem pensar, é preciso pensar contra os sentimentos do maior número.

O SONETO

Se eu tivesse de fazer perante o vigário uma confissão minuciosa, raspando as voltas mais fundas do meu ser, não encontraria de certo explicação para o fato de o soneto de Gabriela me haver tornado, hoje, ao espírito- não à lembrança apenas, ao espírito, à alma. Só posso dizer que, ao vir-me o condutor cobrar a passagem, nem o senti chegar, estava absorvido na segunda quadra.

A vida é um céu que uma só vez se estrela;

toda estrelada e rutilante a viste...

Não me satisfizeram estes versos, nem como idéia nem como forma. Chamar céu à vida é sempre extravagância; demais, um céu que só se estrela uma vez, não pode ser senão um céu de papel pintado. A construção "a viste" era ambígua para o ouvido. Por fim, o período não dava liga. Modifiquei-o:

Contudo, a vida forte boa e bela:

sorriu-te, tanto quanto lhe sorriste.

Podia servir. O diabo era a continuação. Eu não tinha, na verdade, a mínima idéia assentada acerca do caso psicológico de Gabriela, nem sequer sabia que forma e que alma teria essa emanação possível do meu cérebro. Ao contrário de Minerva ao sair da cabeça de Júpiter, estava completamente desarmada. E nem mesmo queria acabar de sair. As casualidades da versificação é que me diriam afinal o que eu houvesse de pensar a respeito. Grande coisa, a versificação.

Contudo, a vida foi-te boa e bela:

a vida te sorriu, tu lhe sorriste...

Dados estes dois versos, o campo de exploração restringia-se. O problema fixava-se em três incógnitas: x) dois decassílabos, em ela e iste; y) que desenvolvessem o pensamento começado; z) tornando possíveis os tercetos com um fecho reluzente e forte.

Hoje, ela te maltrata, e tu caíste.

Aqui, o verbo caíste (le mont est créateur) sugeriu-me espontaneamente este quarto verso:

caíste, pobre moça, na esperança!

Não estaria mal, se eu quisesse fazer humorismo. Bastava modificar de leve os versos antecedentes:

Outrora, a vida aparece-te bela;

acenou-te, sorriu. Tu lhe sorriste.

E a seus braços voaste. E enfim caíste,

caíste, pobre moça! na esparrela.

O mais engraçado desse humorismo é que a idéia em si é perfeitamente justa e muito séria. A vida, de fato, estende às almas jovens e sequiosas umas fatais urupucas, tentadoras e terríveis, onde elas se debatem e se magoam. Mas o "cair na esparrela" tornou-se cômico pela vulgaridade, e a vulgaridade é o sentido moral figurado. Sentidos profundamente imorais, estes sentidos morais, que apagam tudo quanto há de emoção poética e de pungente verdade humana em tantas metáforas enérgicas e felizes. - Como quer que seja, eu agora já queria bem à moça, como as mães já amam os filhos ainda no ventre, e detestei a idéia de impor à minha criatura um indumento grotesco. Nem que ela fosse real! Não, o soneto havia de ser afetuoso e nobre.

Outrora, a vida apareceu-te bela;

acenou-te, sorriu. Tu lhe sorriste.

E a seus braços voaste; e assim te viste

presa das graças lacerantes dela.

Ora, bem. Faltavam os tercetos. Estava a ensaiar-me para pescar os tercetos no vasto mundo das possibilidades ideais, quando o condutor me chamou ao mundo estreito das impossibilidades ordinárias:

"O senhor volta para trás?"

O bonde tinha chegado ao ponto final e ia recomeçar o giro. Saltei dele e do sonho (assim chamam os poetas a estes exercícios, que são os mais conscientes e espertos de quantos se possam imaginar) e corri à repartição. - Talvez que disto fique dependendo a inexistência de mais uma obra-prima na literatura nacional. Mas, quem sabe? Ego dormio et cor meum vigilat.

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