Passeio Dominical Memorial de um Passageiro de Bonde · Capítulo 34 de 48
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Passeio Dominical

Hoje, domingo, quando cheguei ao meu posto de espera, por volta de meio-dia, lá estava, em fila, uma família pobre.

Era visível que tinham destinado o dia para passeio e que esse passeio era para eles um acontecimento. Respiravam timidamente a frescura das impressões novas.

O chefe, homem de meia-idade, ia frouxamente embrulhado num terno de brim pardo reluzente do ferro de engomar e onde mal se dissimulava uma carta topográfica de remendos e serziduras. O chapéu mole, puído e bambo tinha sido cuidadosamente armado sobre os cabelos crescidos, repuxados a pente para trás das orelhas, onde formavam caracóis. A camisa era limpa, e um sorriso satisfeito, que se diria igualmente lavado com sabão de cinza, ao jorro da torneira sobre a tina, se lhe abria na cara tostada, como uma toalha a corar ao sol.

Pois filhos buliçosos, entre os seis e os dez anos, enfarpelados à marinheira, com grandes colarinhos deitados, por cuja abertura se estripavam altos laçarotes de fita escocesa. Tinham chapéus de palha amarela com cintas atuis, nos quais se liam nomes de navios de guerra: "Aquidabá", "Timbira", em letras douradas. Traziam bengalinhas, demasiado compridas e pareciam mais atrapalhar-se do que divertir-se com esse luxo desacostumado.

A mãe, maciça no seu largo vestido de lãzinha cor chocolate, os cabelos repartidos em duas asas negras e lisas, apanhados numa rodilha farta sobre a nuca morena. Estava alegre como os outros, mas de uma alegria meio assustada, - talvez acanhamento do vestido novo, dos sapatos novos, do penteado que lhe repuxava a pele da testa.

Quando o bonde chegou, os pequenos treparam desajeitadamente, agarrando-se ao carro com as mãos ambas e foram colocar-se nas extremidades fronteiras dos dois primeiros bancos, a garantir os postos de observação.

A mãe entrou com eles, arrastando um pela blusa, empurrando outro pelo traseiro e sentou-se ao pé dos dois, ralhando em voz baixa, como se estivessem num lugar de respeito.

O pai mais senhor de si, aboletou-se a pouca distância, inspecionando tudo com um semblante meio severo meio condescendente.

Depois, todos entraram a rir e palrar. Todos se viravam para um e outro lado, a olhar os prédios, as perspectivas das ruas, as massas retangulares dos edifícios alteados ao longe, os automóveis que passavam. Divertiu-os muito um caminhão cheio de futebolistas seminus e gritadores. Também acharam bastante graça num velho de barbas bíblicas, que trazia na mão uma espécie de árvore, de folhagem toda florida de papaventos vermelhos, amarelos e azuis. E os papaventos giravam e zumbiam como um enxame assanhado.

O estridor das rodas do bonde nas curvas mal engraxadas foi ponto de partida de uma rivalidade entre os dois pequenos, cada qual mais empenhado em imitá-lo com a boca. A mãe ria-se, tapando os dentes com a mão, relanceando os olhos desconfiados pela circunvizinhança.

Quando o condutor marcava as passagens, os peque-nos queriam saber como era aquilo, porque era, e o pai dava-lhes explicações fantasiosas que eram ocasião de teimas e risos.

Enfim, como aquela família se divertia!

Ao chegarmos à cidade, saltaram para ir ver as vitrinas e, de certo, para ir a algum botequim tomar café-com-leite e comer cavacas e pães-de-ló - um festim delicioso.

Respiravam tranqüilidade e alegria. A alma boiava-lhes numa descuidosa satisfação de filhos amados da felicidade e do candor.

Passear de bonde, andar pela cidade, ver a gente, ver as vitrinas, tomar café-com-leite num botequim grande, cheio de espelhos, em chávenas de louça brilhante, - que recreio, que consolo, que temeridade jovial e dissipadora!

Nunca tenho inveja a ninguém, e aos felizes da felicidade exterior, ainda menos que a ninguém. Mas diante dessa família, tive uma espécie de inveja.

Pobre alma escalavrada e enfastiada, para quem tudo quanto divertia aquela gente era vago e distante como tudo quanto é muito próximo e muito visto, senti em certo momento uma impressão angustiosa - a impressão que teria alguém, de repente, apalpando-se, de que metade si mesmo já era coisa morta.

RUFINA

Encontrei no bonde um homem parecido com o Coronel Ferrão, o ex-protetor de Rufina-Augusta. Esta surgiu imediatamente ao seu lado, acomodando os vestidos, sorrindo e lançando sobre mim aquele seu olhar magnético através daqueles cílios de treva, com uma

................................................. dolcezza

che intender non la può chi non la prova.

Claro que era uma aparição imaginária. Mas não me impedia que ficasse olhando para o lugar onde colocara a moça e lhe dirigisse a esta um longo e confuso improviso.

"Quem és tu? De onde vens? Que fazes? Como vives?... - Na verdade, nada disso me interessa muito. Afinal de contas, nada tenho contigo."

"O que me interessou desde logo em ti foi apenas a tua figura. Apareceu-me de repente, no meio da vulgaridade fosca das coisas, como uma obra-de-arte perdida num subterrâneo na qual batesse de repente o jorro de uma lanterna furta-fogo."

"Era-me tão indiferente saber quem fosse a pessoa que havia dentro dessa figura, ou mesmo se havia uma pessoa, como seria indiferente, diante da graça de uma vela branca no mar azul, saber de onde vinha, para onde ia, se levava a bordo uma princesa errante ou um ogre sinistro.

Contudo, não me esqueci mais de ti.

Tu me entraste na alma como um farrapo que a ventania atira por uma porta descuidosamente aberta.

A porta de minha alma profunda estava aberta naquela hora. E eu fiz como a mulher pobre que, tendo achado em sua casa um farrapo de escumilha brilhante, trazido pelo vento, não tivesse ânimo de o varrer com o cisco, o levantasse e oprendesse à parede, entre um caco de espelho e um cromo descorado.

És talvez um episódio horoscópico da minha vida, posto de reserva pelo Destino para ser lançado, certo dia na desfilada heteróclita dos casos da minha biografiazinha. privada.

Como que havia em mim um lugar vago à tua espera. Vieste, caíste no lugar justo, e aí estás, fixa e luminosa como uma pedra fina que, por maravilha do acaso, saltando, perdida, viesse cair justamente no engaste vazio de um velho anel.

Devias fatalmente aparecer-me em determinada hora, como aparece a forma exata e exteriorizada de um pensamento flutuante, longamente entrevisto, longamente resolvido no espírito.

Eras um motivo que faltava ao magro concerto da minha vida consciente e que aí havia de surgir, deliciosa serpe melódica a ondular e faiscar num relvado de ritmos obtusos.

A música interior tem hoje uma dolência menos remota, um gemido menos vago, uma ânsia interrogativa mais profunda, uma angústia menos aérea e mais humana.

Por que me apareceste? Por que me agradaste? Por que não te pude falar? Por que me foges sem o querer, e por que te evito, procurando-te?

E por que vim a conhecer da tua vida, ó coisa graciosa e fugente, apenas o aspecto sombrio e grosseiro? Por que não me reapareces, para me confiar a tua história risonha e dolorosa, a celeste e bestial realidade do teu destino, a lama e a chama da tua alma, ó gentil, ó brilhante, ó miserável borboleta do brejo?

Mas a tua vida não me interessa, na verdade. Que é que eu tenho contigo, que é que tens tu comigo?

Vimo-nos duas vezes. Será uma razão para que te deva agora ver sempre? Tanta coisa bela e passageira como tu, bela passageira de bonde, tem encantado os meus olhos por uma vez necessariamente única - uma nuvem, um pássaro, uma hora de sol, um certo sorriso da felicidade que se perdeu por ser achado!"

Tudo isto era dito com os meus botões. Mas, de repente, o homem que se parecia com o coronel me encarou formalizado:

- "O senhor está estranhando alguma coisa na minha pessoa?"

Olhei para o homem que se parecia com o coronel e respondi, sem saber ao certo o que dizia:

- "Desculpe-me, senhor, tenha a bondade de me desculpar. Eu não o conheço, nem conheço ninguém que se lhe assemelhe, mas estava vendo se o senhor não seria uma outra pessoa."

O homem deu-se por satisfeito com a explicação.

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