Sol e pombos Mundo da Lua · Capítulo 108 de 145
Obra Menu

Sol e pombos

Sol e Pombos

DESCEU no largo um bando de pombos e como o sol rutilasse lindamente naquellas vivas alvuras irrequietas, empolguei-me no espectaculo.

Subito, assustam-se, debandam, vôam para longe. E' que se approximava o Chico Liso, mendigo horrendo, em farrapos, uma triste coisa de carne nauseante.

Que contraste, a saude, a belleza, a harmonia, a perfeição daquelles pombos e a hediondez do Chico Liso! E' elle, no entanto, o rei...

Continúo á janella. E' domingo. Passa gente de rumo á igreja. Velhinhas minguadas, arrastando o corpo rheumatico, chale sobre os hombros ou chalinho, fichú, á cabeça. O chales, como ellas dizem.

Passou a Bebé Nogueira — "tia", typo da mulher "boa", que não casou, que é "terceira" e feiissima de cara e corpo, attentado clamoroso contra as leis da harmonia. Passou a Biloca, mocinha torta, arcada, microcephala, bôba.

O sino repica. Todas apressam o passo. Nisto, entra no largo uma vacca tangida pelo vaqueiro. A mais pacifica e inoffensiva das vaccas.

Pois houve tremendo panico! Os reis dos animaes e as rainhas — Bebé, Biloca, as velhas — tomaram-se de pavor e com gritinhos se esgueiraram pelos corredores ao alcance. Medo á vacca... No entanto a vacca, que não é rainha de coisa nenhuma, passou com serena majestade.

Houvesse mais justiça na terra, e o sceptro da realeza mudaria de dono naquelle momento...

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

A' esquina, sordido preto róe um bico de pão apanhado no lixo.

Rei!...

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

·

Tantas creaturas só têm perante a natureza uma funcção respeitavel — a de fertilizante, e essa mesma illudem indo apodrecer nos cemiterios ...

1/1
Menu

Fazer anotação