Segundo Ato Auto representado na Festa de São Lourenço · Capítulo 3 de 6
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Segundo Ato

SEGUNDO ATO

(Eram três diabos que querem destruir a aldeia com pecados, aos quais resistem São Lourenço, São Sebastião e o Anjo da Guarda, livrando a aldeia e prendendo os tentadores cujos nomes são: Guaixará, que é o rei; Aimbirê e Saravaia, seus criados)

GUAIXARÁ

Esta virtude estrangeira

Me irrita sobremaneira.

Quem a teria trazido,

com seus hábitos polidos

estragando a terra inteira?

Só eu

permaneço nesta aldeia

como chefe guardião.

Minha lei é a inspiração

que lhe dou, daqui vou longe

visitar outro torrão.

Quem é forte como eu?

Como eu, conceituado?

Sou diabo bem assado.

A fama me precedeu;

Guaixará sou chamado.

Meu sistema é o bem viver.

Que não seja constrangido

o prazer, nem abolido.

Quero as tabas acender

com meu fogo preferido

Boa medida é beber

cauim até vomitar.

Isto é jeito de gozar

a vida, e se recomenda

a quem queira aproveitar.

A moçada beberrona

trago bem conceituada.

Valente é quem se embriaga

e todo o cauim entorna,

e à luta então se consagra.

Que bom costume é bailar!

Adornar-se, andar pintado,

tingir pernas, empenado

fumar e curandeirar,

andar de negro pintado.

Andar matando de fúria,

amancebar-se, comer

um ao outro, e ainda ser

espião, prender Tapuia,

desonesto a honra perder.

Para isso

com os índios convivi.

Vêm os tais padres agora

com regras fora de hora

prá que duvidem de mim.

Lei de Deus que não vigora.

Pois aqui

tem meu ajudante-mor,

diabo bem requeimado,

meu bom colaborador:

grande Aimberê, perversor

dos homens, regimentado.

(Senta-se numa cadeira e vem uma velha chorar junto dele. E ele a ajuda, como fazem os índios. Depois de chorar, achando-se enganada, diz a velha)

VELHA

O diabo mal cheiroso,

teu mau cheiro me enfastia.

Se vivesse o meu esposo,

meu pobre Piracaê,

isso agora eu lhe diria.

Não prestas, és mau diabo.

Que bebas, não deixarei

do cauim que eu mastiguei.

Beberei tudo sozinha,

até cair beberei.

(a velha foge)

GUAIXARÁ

(Chama Aimberê e diz:)

Ei, por onde andavas tu?

Dormias noutro lugar?

AIMBIRÊ

Fui às Tabas vigiar,

nas serras de norte a sul

nosso povo visitar.

Ao me ver regozijaram,

bebemos dias inteiros.

Adornaram-se festeiros.

Me abraçaram , me hospedaram,

das leis de deus estrangeiros.

Enfim, confraternizamos.

Ao ver seu comportamento,

tranquilizei-me. Ó portento!

Vícios de todos os ramos

tem seus corações por dentro.

GUAIXARÁ

Por isso

no teu grande reboliço

eu confio, que me baste

os novos que cativaste,

os que corrompeste ao vício.

Diz os nomes que agregaste.

AIMBIRÊ

Gente de maratuauã

no que eu disse acreditaram;

os das ilhas, nestas mãos

deram alma e coração;

mais os paraibiguaras.

É certo que algum perdi,

que os missionários levaram

a Mangueá. Me irritaram.

Raivo de ver os tupis

que do meu laço escaparam.

Depois

dos muitos que nos ficaram

os padres sonsos quiseram

com mentiras seduzir.

Não vê que os deixei seguir —

ao meu apelo atenderam.

GUAIXARÁ

De que recurso usaste

para que não nos fugissem?

AIMBIRÊ

Trouxe aos tapuias os trastes

das velhas que tu instruíste

em Mangueá. Que isto baste.

Que elas são de fato más,

fazem feitiço e mandinga,

e esta lei de Deus não vinga.

Conosco é que buscam a paz,

no ensino de nossa língua.

E os tapuias por folgarem,

nem quiseram vir aqui.

De dança os enlouqueci

para a passagem comprarem

para o inferno que acendi.

GUAIXARÁ

Já chega.

Que tua fala me alegra,

teu relatório me encanta.

AIMBIRÊ

Usarei de igual destreza

para arrastar outras presas

nesta guerra pouco santa.

O povo Tupinambá

que em Paraguaçu morava,

e que de Deus se afastava,

deles hoje um só não há,

todos a nós se entregaram.

Tomamos Moçupiroca,

Jequei, Gualapitiba,

Niterói e Paraíba,

Guajajó, Carijó-oca,

Pacucaia, Araçatiba

Todos os tamoios foram

Jazer queimando no inferno.

Mas há alguns que ao Padre Eterno

fiéis, nesta aldeia moram,

livres do nosso caderno.

Estes maus Temiminós

nosso trabalho destroem.

GUAIXARÁ

Vem tentá-los que se moem

a blasfemar contra nós.

Que bebam, roubem e esfolem.

Que provoquem muitas lutas,

muitos pecados cometam,

por outros lados se metam

longe desta aldeia, à escuta

dos que as nossas leis prometam.

AIMBIRÊ

É bem difícil tentá-los.

Seu valente guardião

me amedronta.

GUAIXARÁ

E quais são?

AIMBIRÊ

É São Lourenço a guiá-los,

de Deus fiel Capitão.

GUAIXARÁ

Qual? Lourenço o consumado

nas chamas qual somos nós?

AIMBIRÊ

Esse.

GUAIXARÁ

Fica descansado.

Não sou assim tão covarde,

será logo afugentado.

Aqui está quem o queimou

e ainda vivo o cozeu.

AIMBIRÊ

Por isso o que era teu

ele agora libertou

e na morte te venceu.

Há também o seu amigo

Bastião, de flechas crivado.

GUAIXARÁ

O que eu deixei transpassado?

Não faças broma comigo

que sou bem desaforado.

Ambos fugirão logo

assim me virem chegar.

AIMBIRÊ

Olha que vais te enganar!

GUAIXARÁ

Tem confiança, te rogo,

que horror lhes vou inspirar.

Quem como eu na Terra existe

que até Deus desafiou?

AIMBIRÊ

Por isso Deus te expulsou,

e do inferno o fogo triste

para sempre te abrasou.

Eu lembro de outra batalha

em que Guaixará entrou.

Muito povo te apoiou,

e, inda que lhes desses forças,

na fuga se debandou.

Não eram muitos cristãos.

Contudo nada ficou

da força que te inspirou,

pois veio Sebastião,

na força fogo ateou.

GUAIXARÁ

Por certo aqueles cristãos

tão rebeldes não seriam.

Mas esses que aqui estão

desprezam a devoção

e a Deus não reverenciam.

Vais ver como em nossos laços

caem, logo estes malvados!

De nossos dons confiados,

as almas cederam passo

para andar do nosso lado.

AIMBIRÊ

Assim mesmo tentarei.

Um dia obedecerão.

GUAIXARÁ

Ao sinal de minha mão

os índios te entregarei.

E à força sucumbirão.

AIMBIRÊ

Preparemos a emboscada.

Não te afobes. Nosso espia

verá em cada morada

que armas nos são preparadas

na luta que se inicia.

GUAIXARÁ

Muito bem, és capaz disso,

Saravaia, meu vigia?

SARAVAIA

Sou demônio da alegria

e assumi tal compromisso.

Vou longe nesta porfia.

Saravaiaçu me chamo.

Com que tarefa me aprazas?

GUAIXARÁ

Ouve as ordens de teu amo,

quero que espies as casas

e voltes quando te chame.

Hoje vou deixar que leves

os índios aprisionados.

SARAVAIA

Irei onde me carregues.

E agradeço que me entregues

encargo tão desejado.

Como Saravaia sou,

aos índios que me aliei

enfim aprisionarei.

E neste barco me vou.

De cauim me embriagarei.

E neste barco me vou.

GUAIXARÁ

Anda logo! vai ligeiro!

E neste barco me vou.

SARAVAIA

Como um raio correrei!

(Sai)

GUAIXARÁ

(Passeia com Aimbirê e diz:)

Demos um curto passeio

Quando volte o mensageiro

a aldeia destroçarei.

(Volta Saravaia e Aimberê diz:)

AIMBIRÊ

Danado! Voltou voando!

GUAIXARÁ

Demorou menos que um raio!

Foste mesmo, Saravaia?

SARAVAIA

Fui. Já estão comemorando

os índios nossa vitória.

Alegra-te!

Transbordava o cauim,

o prazer regurgitava.

E a beber, as igaçabas

esgotam até o fim.

GUAIXARÁ

E era forte?

SARAVAIA

Forte estava.

E os rapazes beberrões

que pervertem esta aldeia,

caiam de cara cheia.

Velhos, velhas, mocetões

que o cauim desnorteia.

GUAIXARÁ

Já basta. Vamos mansinho

tomá-los todos de assalto.

Nosso fogo arda bem alto.

(Vem São Lourenço com dois companheiros. Diz Aimbirê:)

AIMBIRÊ

Há um sujeito no caminho

que me ameaça de assalto.

Será Lourenço, o queimado?

SARAVAIA

Ele mesmo, e Sebastião.

AIMBIRÊ

E o outro, dos três que são?

SARAVAIA

Talvez seja o anjo mandado,

desta aldeia o guardião.

AIMBIRÊ

Ai! Eles me esmagarão!

Não posso sequer olhá-los.

GUAIXARÁ

Não te entregues assim não,

ao ataque, meu irmão!

Teremos que amedrontá-los,

As flechas evitaremos,

fingiremos de atingidos.

AIMBIRÊ

Olha, eles vêm decididos

a açoitar-nos. Que faremos?

Penso que estamos perdidos.

(São Lourenço fala a Guaixará:)

SÃO LOURENÇO

Quem és tu?

GUAIXARÁ

Sou Guaixará embriagado,

sou boicininga, jaguar,

antropófago, agressor,

andirá-guaçu alado,

sou demônio matador.

SÃO LOURENÇO

E este aqui?

AIMBIRÊ

Sou jibóia, sou socó,

o grande Aimbirê tamoio.

Sucuri, gavião malhado,

sou tamanduá desgrenhado,

sou luminoso demônio.

SÃO LOURENÇO

Dizei-me o que quereis desta

minha terra em que nos vemos.

GUAIXARÁ

Amando os índios queremos

que obediência nos prestem

por tanto que lhes fazemos.

Pois se as coisas são da gente,

ama-se sinceramente.

SÃO SEBASTIÃO

Quem foi que insensatamente,

um dia ou presentemente,

os índios vos entregou?

Se o próprio Deus tão potente

deste povo em santo ofício

corpo e alma modelou!

GUAIXARÁ

Deus? Talvez remotamente

pois é nada edificante

a vida que resultou.

São pecadores perfeitos,

repelem o amor de Deus,

e orgulham-se dos defeitos.

AIMBIRÊ

Bebem cuim a seu jeito,

como completos sandeus

ao cauim rendem seu preito.

Esse cauim é que tolhe

sua graça espiritual.

Perdidos no bacanal

seus espíritos se encolhem

em nosso laço fatal.

SÃO LOURENÇO

Não se esforçam por orar

na luta do dia a dia.

Isto é fraqueza, de certo.

AIMBIRÊ

Sua boca respira perto

do pouco que Deus confia.

SARAVAIA

É verdade, intimamente

resmungam desafiando

ao Deus que os está guiando.

Dizem: "Será realmente

capaz de me ver passando?"

SÃO SEBASTIÃO

(Para Saravaia:)

Serás tu um pobre rato?

Ou és um gambá nojento?

Ou és a noite de fato

que as galinhas afugenta

e assusta os índios no mato?

SARAVAIA

No anseio de devorar

as almas, sequer dormi.

GUAIXARÁ

Cala-te! Fale eu por ti.

SARAVAIA

Não vás me denominar,

pra que não me mate aqui.

Esconda-me, antes, dele.

Eu por ti vigiarei.

GUAIXARÁ

Cala-te! Te guardarei!

Que a língua não te revele,

depois te libertarei.

SARAVAIA

Se não me viu, safarei.

Inda posso me esconder.

SÃO SEBASTIÃO

Cuidado que lançarei

o dardo em que o flecharei.

GUAIXARÁ

Deixa-o. Vem de adormecer.

SÃO SEBASTIÃO

A noite ele não dormiu,

para os índios perturbar

SARAVAIA

Isso não se há de negar.

(Açoita-o Guaixará e diz:)

GUAIXARÁ

Cala-te! Nem mais um pio,

que ele quer te devorar.

SARAVAIA

Ai de mim!

Por que me bates assim,

pois estou bem escondido?

(Aimbirê com São Sebastião.)

AIMBIRÊ

Vamos! Deixa-nos a sós,

e retirai-vos que a nós

meu povo espera afligido.

SÃO SEBASTIÃO

Que povo?

AIMBIRÊ

Todos os que aqui habitam

desde épocas mais antigas,

velhos, moças, raparigas,

submissos aos que lhes ditam

nossas palavras amigas.

Vou contar todos seus vícios,

Em mim acreditarás?

SÃO SEBASTIÃO

Tu não me convencerás.

AIMBIRÊ

Têm bebida aos desperdícios,

cauim não lhes faltará.

De ébrios dão-se ao malefício,

ferem-se, brigam, sei lá!

SÃO SEBASTIÃO

Ouvem do morubixaba

censuras em cada taba,

disso não os livrarás.

AIMBIRÊ

Censura aos índios? Conversa!

Vem logo o dono da farra,

convida todos à festa,

velhos, jovens, moçocaras

com morubixaba à testa.

Os jovens que censuravam

com morubixaba dançam,

e de comer não se cansam,

e no cauim se lavam,

e sobre as moças avançam.

SÃO SEBASTIÃO

Por isso aos aracajás

vivem vocês frequentando,

e a todos aprisionando.

AIMBIRÊ

Conosco vivem em paz,

pois se entregam aos desmandos.

SÃO SEBASTIÃO

Uns aos outros se pervertem

convosco colaborando.

AIMBIRÊ

Não sei. Vamos trabalhando,

e ao vícios bem se convertem

à força do nosso mando.

GUAIXARÁ

Eu que te ajude a explicar.

As velhas, como serpentes,

injuriam-se entre dentes,

maldizendo sem cessar.

As que mais calam consentem.

Pecam as inconsequentes

com intrigas bem tecidas,

preparam negras bebidas

pra serem belas e ardentes

no amor na cama e na vida.

AIMBIRÊ

E os rapazes cobiçosos,

perseguindo o mulherio

para escravas do gentio...

Assim invadem fogosos...

dos brancos o casario.

GUAIXARÁ

Esta história não termina

antes que desponte a lua,

e a taba se contamina.

AIMBIRÊ

E nem sequer raciocinam

que é o inferno que cultuam.

SÃO LOURENÇO

Mas existe a confissão,

bem remédio para a cura.

Na comunhão se depura

da mais funda perdição

a alma que o bem procura.

Se depois de arrependidos

os índios vão confessar

dizendo: "Quero trilhar

o caminho dos remidos".

— o padre os vai abençoar.

GUAIXARÁ

Como se nenhum pecado

tivessem, fazem a falsa

confissão, e se disfarçam

dos vícios abençoados,

e assim viciados passam.

AIMBIRÊ

Absolvidos

dizem: "na hora da morte

meus vícios renegarei".

E entregam-se à sua sorte.

GUAIXARÁ

Ouviste que enumerei

os males são seu forte.

SÃO LOURENÇO

Se com ódio procurais

tanto assim prejudicá-los,

não vou eu abandoná-los.

E a Deus erguerei meus ais

para no transe ampará-los.

Tanto confiaram em mim

construindo esta capela,

plantando o bem sobre ela.

Não os deixarei assim

sucumbir sem mais aquela.

GUAIXARÁ

É inútil, desista disso!

Por mais força que lhes dês,

com o vento, num, dois, três,

daqui lhes darei sumiço.

Deles nem sombra vereis.

Aimbirê,

vamos conservar a terra

com chifres, unhas, tridentes,

e alegrar as nossas gentes.

AIMBIRÊ

Aqui vou com minhas garras,

meus longos dedos, meus dentes.

ANJO

Não julgueis, tolos dementes,

pôr no fogo esta legião.

Aqui estou com Sebastião

e São Lourenço, não tentem

levá-los à danação.

Pobres de vós que irritastes

de tal forma o bom Jesus

Juro que em nome da cruz

ao fogo vos condenastes.

(Aos santos.)

Prendei-os donos da luz!

(Os santos prendem os dois diabos.)

GUAIXARÁ

Basta!

SÃO LOURENÇO

Não! Teu cinismo me agasta.

Destes provas que sobejam

de querer destruir a igreja.

SÃO SEBASTIÃO

(A Aimberê:)

Grita! Lamenta! Te arrasta!

Te prendi!

AIMBIRÊ

Maldito Seja!

(Presos os dois, fala o Anjo a Saravaia, que ficou escondido.)

ANJO

E tu que estás escondido

será acaso um morcego?

Sapo cururu minguá,

ou filhote de gambá,

ou bruxa pedindo arrego?

Sai daí seu fedorendo,

abelha de asa de vento,

zorrilho, maritaca,

seu lesma, tamarutaca.

SARAVAIA

Ai vida, que me aprisionam!

Não vês que morro de sono?

ANJO

Quem és tu?

SARAVAIA

Sou Saravaia,

Inimigo dos franceses.

ANJO

Teus títulos são só estes?

SARAVAIA

Sou também mestre em tocaia,

porco entre todas as reses.

ANJO

Por isso és sujo e enlameias

tudo com teu negro rabo.

Veremos como pateias

no fogo que a gente ateia.

SARAVAIA

Não! Por todos os diabos!

Eu te dou ovas de peixe,

farinha de mandioca,

desde que agora me deixes,

te dou dinheiro aos feixes.

ANJO

Não te entendo, maçaroca.

As coisas que me prometes

em troca, de onde roubaste?

Que morada assaltaste

antes que aqui te escondeste?

Muito coisa tu furtaste?

SARAVAIA

Não, somente o que falei.

Da casa dos bons cristãos

foi bem pouco o que apanhei;

Tenho o que trago nas mãos,

por muito que trabalhei.

Aqueles outros têm mais.

Para comprar cauim

aos índios, em boa paz,

dei o que tinha, e demais,

pois pobre acabei assim.

ANJO

Vamos! Restitui-lhes tudo

o que tiveres roubado.

SARAVAIA

Não faças isto, estou bêbedo,

mais do que o demo rabudo

da sogra do meu cunhado.

Tem paciência, me perdoa,

meu irmão, estou doente.

Das minhas almas presente

farei a ti, p'ra que, em boa

hora, as cucas lhes rebentes,

Leva o nome destes monstros

e famoso ficarás.

ANJO

E onde lhes foste ao encontro?

SARAVAIA

Fui pelo sertão adentro,

lacei as almas, rapaz.

ANJO

De que famílias descendem?

SARAVAIA

Desse assunto pouco sei.

Filhos de índios talvez.

Na corda os enfileirei

presos todos de uma vez.

Passei noites sem dormir,

nos seus lares espreitei,

fiz suas casas explodir,

suas mulheres lacei,

pra que não possam fugir.

(Amarra-o o anjo e diz:)

ANJO

Quantas maldades fizeste!

Por isso o fogo te espera.

Viverás do que tramaste

nesta abrasada tapera

em que por fim te pilhaste.

SARAVAIA

Aimberê!

AIMBIRÊ

Oi!

SARAVAIA

Vem logo dar-me a mão!

Este louco me prendeu.

AIMBIRÊ

A mim também me venceu

o flechado Sebastião.

Meu orgulho arrefeceu.

SARAVAIA

Ai de mim!

Guaixará, dormes assim,

sem pensar em me salvar?

GUAIXARÁ

Estás louco, Saravaia?

Não vês que Lourenço ensaia

maneira de me queimar?

ANJO

Bem juntos, pois sois comparsas,

ardereis eternamente.

Enquanto nós, Deo Gratias!,

sob a luz da minha guarda

viveremos santamente.

(Faz uma prática aos ouvintes)

Alegrai-vos, filhos meus,

na santa graça de Deus,

pois que dos céus eu desci,

para junto a vós estar

e sempre vos amparar

dos males que há por aqui.

Iluminando esta aldeia

junto de vós estarei,

por nada me afastarei,

pois a isto me nomeia

Deus, Nosso Senhor e Rei!

Ele que a cada um de vós

um anjo seu destinou.

Que não vos deixe mais sós,

e ao mando de sua voz

os demônios expulsou.

Também

São Lourenço o virtuoso,

Servo de Nosso Senhor,

vos livra com muito amor

terras e almas, extremoso,

do demônio enganador.

Também São Sebastião

valente santo soldado,

que aos tamoios rebelados

deu outrora uma lição

hoje está do vosso lado

E mais - Paranapucu,

Jacutinga, Morói,

Sariguéia, Guiriri,

Pindoba, Pariguaçu,

Curuça, Miapei

E a tapera do pecado,

a de Jabebiracica,

não existe. E lado a lado

a nação dos derrotados

no fundo do rio fica.

Os franceses seus amigos,

inutilmente trouxeram

armas. Por nós combateram

Lourenço, jamais vencido,

e São Sebastião flecheiro.

Estes santos, em verdade,

das almas se compadecem

aparando-as, desvanecem

(Ó armas da caridade!)

Do vício que as envilece.

Quando o demônio ameaçar

vossas almas, vós vereis

com que força hão de zelar.

Santos e índios sereis

pessoas de um mesmo lar.

Tentai

velhos vícios extirpar,

e as maldades cá da terra

evitai, bebida e guerra,

adultério, repudiai

tudo o que o instinto encerra.

Amai vosso Criador

cuja lei pura e isenta

São Lourenço representa.

Engrandecei ao Senhor

que de bens vos acrescenta.

Este mesmo São Lourenço

que aqui foi queimado vivo

pelos maus, feito cativo,

e ao martírio foi infenso,

sendo o feliz redivivo.

Fazei-vos amar por ele,

e amai-o quanto puderdes,

que em sua lei nada se perde.

E confiando mais nele,

mais o céu se vos concede.

Vinde

à direita celestial

de Deus Pai, ireis gozar

junto aos que bem vão guardar

no coração que é leal,

e aos pés de Deus repousar.

(Fala com os santos convidando-os a cantar e se despede.)

Cantemos todos, cantemos!

Que foi derrotado o mal!

Esta história celebremos,

nosso reino inauguremos

nessa alegria campal!

(Os santos levam presos os diabos os quais, na última repetição da cantiga choram.)

CANTIGA

Alegrem-se os nossos filhos

por Deus os ter libertado.

Guaixará seja queimado,

Aimbirê vá para o exílio,

Saravaia condenado!

Guaixará seja queimado,

Aimbirê vá para o exílio,

Saravaia condenado!

(Voltam os santos)

Alegrai-vos, vivei bem,

vitoriosos do vício,

aceitai o sacrifício

que ao amor de Deus convém.

Daí fuga ao Demo-ninguém!

Guaixará seja queimado,

Aimbirê vá para o exílio,

Saravaia condenado!

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