Terceiro Ato Auto representado na Festa de São Lourenço · Capítulo 4 de 6
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Terceiro Ato

TERCEIRO ATO

Depois de São Lourenço morto na grelha, o Anjo fica em sua guarda, e chama os dois diabos, Aimbirê e Saravaia, que venham sufocar os imperadores Décio e Valeriano que estão sentados em seus tronos.

ANJO

Aimbirê!

Estou chamando você.

Apressa-te ! Corre! Já!

AIMBIRÊ

Aqui estou! Pronto! O que há!

Será que vai me prender

de novo este passarão?

ANJO

Reservei-te uma surpresa:

tenho dois imperadores

para dar-te como presa.

De Lourenço, em chama acesa,

foram ele os matadores.

AIMBIRÊ

Boa! Me fazes contente!

À força os castigarei,

e no fogo os queimarei

como diabo eficiente.

Meu ódio satisfarei.

ANJO

Eia, depressa a afogá-los.

Que para o sol sejam cegos!

Ide ao fogo cozinhá-los.

Castiga com teus vassalos

estes dois sujos morcegos.

AIMBIRÊ

Pronto! Pronto!

Sejam tais ordens cumpridas!

Reunirei meus demônios.

Saravaia, deixa os sonhos,

traz-me de boa bebida,

que temos planos medonhos!

SARAVAIA

Já de negro me pintei,

ó meu avô jaguaruna,

e o cauim prepararei,

verás como beberei

nesta festa da fortuna.

Que vejo? Um temiminó?

Ou filho de guaianá?

Será esse um guaitacá

que à mesa do jacaré

sozinho vou devorar?

(Vê o Anjo e espanta-se.)

E este pássaro azulão,

quem será que assim me encara?

Algum parente de arara?

AIMBIRÊ

É o anjo que em nossa mão

põe duas presas bem raras.

SARAVAIA

Meus capangas, atenção!

Tataurana, Tamanduá,

vamos com calma por lá,

que esses monstros quererão

por certo me afogar.

AIMBIRÊ

Vamos!

SARAVAIA

Ai, os mosquitos me mordem!

Espera, ou me comerão!

Tenho medo, quem me acode.

Sou pequenino e eles podem

tragar-me de supetão.

AIMBIRÊ

Os índios que não se fiam

nesta conversa e se escondem

se os mandam executar.

SARAVAIA

Têm razão se desconfiam,

vivem sempre a se lograr.

AIMBIRÊ

Cala a boca, beberrão,

só por isso és tão valente,

moleirão impertinente!

SARAVAIA

Ai de mim, me prenderão,

mas vou por te ver contente.

E a quem vamos devorar?

AIMBIRÊ

A algozes de São Lourenço.

SARAVAIA

Aqueles cheios de ranço?

Com isto eu vou mudar

meu nome, de que me canso.

Muito bem! Suas entranhas

sejam hoje o meu quinhão.

AIMBIRÊ

Vou morder seu coração.

SARAVAIA

E os que não nos acompanham

sua parte comerão.

(Chama quatro companheiros para que os ajudem.)

Tataurana,

traze a tua muçurana.

Urubu, jaguaruçu,

traz a ingapema. Sus,

Caborê, vê se te inflama

pra comer estes perus.

(Acodem todos os quatro com suas armas)

TATAURANA

Aqui estou com a muçurana

e os braços lhe comerei;

A Jaguaraçu darei

o lombo, a Urubu o crânio,

e as pernas a Caborê

URUBU

Aqui cheguei!

As tripas recolherei,

e com os bofes terei

a panela a derramar.

E esta panela verei

minha sogra cozinhar.

JAGUARUÇU

Com esta ingapema dura

as cabeças quebrarei,

e os miolos comerei.

Sou guará, onça, criatura,

e antropófago serei.

CABORÊ

E eu que em demandas andei

aos franceses derrotando,

para um bom nome ir logrando,

agora contigo irei

estes chefes devorando.

SARAVAIA

Agora quietos! De rastros,

não nos viram. Vou à frente.

Que não escapem da gente.

Vigiarei. No tempo exato

ataquemos de repente.

(Vão todos agachados em direção a Décio e Valeriano que conversam)

DÉCIO

Amigo Valeriano,

minha vontade venceu.

Não houve arte no céu

que livrasse do meu plano

o servo do Galileu.

Nem Pompeu e nem Catão,

nem César, nem o Africano,

nenhum grego nem troiano

puderam dar conclusão

a um feito tão soberano.

VALERIANO

O remate, grão-Senhor,

desta tão grande façanha

foi mais que vencer Espanha.

Jamais rei ou imperador

logrou coisa tão estranha.

Mas, Senhor, esse quem é

que vejo ali, tão armado

com espadas e cordel,

e com gente de tropel

vindo tão acompanhado?

DÉCIO

É o grande deus nosso amigo,

Júpiter, sumo senhor,

que provou grande sabor

com o tremendo castigo

da morte deste traidor.

E quer, para reforçar

as penas deste rufião,

nosso império acrescentar

com sua potente mão,

pela terra e pelo mar.

VALERIANO

Mais me parece é que vem

a seus tormentos vingar,

e a nós ambos enforcar.

Oh! que cara feia tem!

Começo a me apavorar.

DÉCIO

Enforcar?

Quem a mim pode matar,

ou mover meus fundamentos?

Nem a exaltação dos ventos,

Nem a braveza do mar,

nem todos os elementos!

Não temas, que meu poder,

o que os deuses imortais

me quiseram conceder,

não se poderá vencer

pois não há forças iguais.

De meu cetro imperial

pendem reis, tremem tiranos.

Venço a todos os humanos,

e posso ser quase igual

a esses deuses soberanos.

VALERIANO

Oh, que terrível figura!

Não posso mais aguardar,

que já me sinto queimar!

Vamos, que é grande loucura

tal encontro aqui esperar.

Ai! ai! que grandes calores!

Não tenho nenhum sossego.

Ai, que poderosas dores!

Ai, que férvidos ardores,

que me abrasam como fogo!

DÉCIO

Oh, paixão!

Ai de mim, que é o Plutão

chegando pelo Aqueronte,

ardendo como tição

a levar-nos de roldão

ao fogo do Flegetonte.

Oh, coitado

que me queimo! Esse queimado

me queima com grande dor!

Oh, infeliz imperador!

Todo me vejo cercado

de penas e de pavor,

pois armado

o diabo com seu dardo

mais as fúrias infernais,

vêm castigar-nos demais.

Já nem sei o que hei falado

com angústias tão mortais.

VALERIANO

O Décio, cruel tirano!

Já pagas, e pagará

Contigo Valeriano,

porque Lourenço cristão

assado, nos assará.

AIMBERÊ

Ô Castelhano!

Bom Castelhano parece!

Estou bem alegre, mano,

que Espanhol seja o profano

que no meu fogo padece.

Vou fingir-me castelhano

e usar de diplomacia

com Décio e Valeriano,

porque o espanhol ufano

sempre guarda a cortesia.

Oh, mais alta majestade!

Beijo-vos a mão mil vezes,

por vossa grã-crueldade,

pois justiça nem verdade

guardastes, sendo juízes.

Sou mandado

por São Lourenço queimado,

levá-los à minha casa,

onde seja confirmado

vosso imperial estado

em fogo, que sempre abrasa.

Oh, que tronos e que camas

eu vos tenho preparadas,

nessas escuras moradas

de vivas e eternas chamas

de nunca ser apagadas!

VALERIANO

Ai de mim!

AIMBIRÊ

Vieste do Paraguai?

Que falais, em Carijó.

Sei todas línguas de cor.

Avança aqui, Saravaia!

Usa tu golpe maior!

VALERIANO

Basta! Que assim me assassinas,

não tenho pecado nada!

Meu chefe é a presa acertada.

SARAVAIA

Não, és tu que me fascinas,

ó presa bem cobiçada.

DÉCIO

Ó miserável de mim,

que nem basta ser tirano,

nem falar em castelhano!

Que é do mando em que me vi,

e o meu poder soberano?

AIMBIRÊ

Jesus, Deus grande e potente,

que tu, traidor, perseguiste,

te dará sorte mais triste

entregando-te em meu dente,

a que, malvado, serviste.

Pois me honraste,

e sempre me contentaste

ofendendo ao Deus eterno.

É justo pois que no inferno,

palácio que tanto amaste,

não sintas o mal do inverno.

Porque o ódio inveterado

do teu duro coração

não pode ser abrandado,

se não for já martelado

com a água do Flegetonte.

DÉCIO

Olha que consolação

para quem se está queimando!

Sumos deuses, para quando

adiais minha salvação,

que vivo estou me abrasando?

Ai, ai! Que mortal desmaio!

Esculápio, não me acodes?

Oh, Júpiter, porque dormes?

Que é do vosso raio?

Por que é que não me socorres?

AIMBIRÊ

Que dizeis?

De que mal vós padeceis?

Que pulso mais alterado.

É grande dor de costado

este mal, de que morreis!

Haveis de ser bem sangrado!

Há dias que esta sangria

se guardava para vós,

que sangráveis, noite e dia,

com dedicada porfia

aos santos servos de Deus.

Muito desejo eu beber

vosso sangue imperial.

Oh, não me leveis a mal

que com isso quero ser

homem de sangue real.

DÉCIO

Que dizeis? Que disparate,

e elegante desvario!

Joguem-me dentro de um rio

antes que o fogo me mate,

ó deuses em que confio!

Não quereis

socorrer-me, ou não podeis?

Ó malditos fementidos,

ingratos desconhecidos,

que pouco vos condoeis

de quem fostes tão servidos!

Se agora voar pudesse,

vos iria derrocar

dos vossos tronos celestes,

feliz, se a mim me coubesse

no fogo vos projetar.

AIMBIRÊ

Parece-me que é chegada

a hora do frenesi,

e com chama redobrada,

a qual será descuidada

dos deuses a quem servis.

São armas

dos audazes cavaleiros

que usam palavrório humano.

E por isso, tão ufano,

hoje vindes acolhê-los

no romance castelhano.

SARAVAIA

Assim é.

Pensava dar, de revés,

golpes de afiados aços

mas enfim, nossos balaços

se chocaram através

com bem poucos canhonaços.

Mas que boas bofetadas

lhes reservo para dar!

Os tristes, sem descansar,

à força de tais pauladas

com cães hão de ladrar.

VALERIANO

Que ferida!

Tira-me logo esta vida

pois, minha alta condição,

contra justiça e razão

veio a ser tão abatida

que morro como ladrão!

SARAVAIA

Não é outro o galardão

que concedo aos meus criados,

senão morrer enforcados,

e depois, sem remissão,

ao fogo ser condenados!

DÉCIO

Essa é a pena redobrada

que me causa maior dor:

que eu, universal senhor,

morra morte desonrada

na forca como traidor.

Ainda se fosse lutando,

dando golpes e reveses,

pernas e braços cortando,

como fiz com os franceses,

acabaria triunfando.

AIMBIRÊ

Parece que estais lembrando,

poderoso imperador,

quando, com bravo furor,

matastes, traição armando,

Felipe, vosso senhor.

Por certo que me alegrais

e se cumpre meus anseios

ante desabafos tais,

porque o fogo em que queimais

provoca tais devaneios.

DÉCIO

Bem entendo

que este fogo em que me acendo

merece-me a tirania,

pois com tão feroz porfia

aos cristãos martirizando

pelo fogo os consumia.

Mas que em minha monarquia

acabe com tal pregão

pois morrer como ladrão

é muito triste agonia

e dobrada confusão.

AIMBIRÊ

Como? Pedis confissão?

Sem asas quereis voar?

Ide, se quereis achar

aos vossos atos perdão,

à deusa Pala rogar.

Ou a Nero,

esse cruel carniceiro

do fiel povo cristão.

Aqui está Valeriano,

vosso leal companheiro,

buscai-o por sua mão!

DÉCIO

Esses amargos chistes

e agressões

me acrescentam em paixões

e mais dores,

com tão profundos ardores

como de ardentes tições

E com isto crescem mais

os fogos em que padeço.

Acaba, que me ofereço

em tuas mãos, Satanás,

ao tormento que mereço.

AIMBIRÊ

Oh, quanto vos agradeço

por esta boa vontade!

Eu, com liberalidade

quero dar-lhe bom refresco

para vossa enfermidade.

Na cova

onde o fogo se renova

com ardores perenais,

os vossos males fatais

aí terão grande prova

das agruras imortais.

DÉCIO

Que fazer, Valeriano,

bom amigo!

Testemunharás comigo

desta pena

envolvido na cadeia

de fogo, deste castigo.

VALERIANO

Em má hora! Já são horas...

Vamos logo

deste fogo ao outro fogo

eternal,

lá onde a chama imortal

nunca nos dará sossego.

Sus, asinha!

Vamos à nossa cozinha,

Saravaia!

AIMBIRÊ

Aqui deles não me afasto.

Nas brasas serão bom pasto,

maldito quem nelas caia.

DÉCIO

Aqui abrasado estou!

Assa-me Lourenço assado!

De soberano que sou

vejo que Deus me marcou

por ver seu santo vingado!

AIMBIRÊ

Com efeito

quiseste abrasar a jeito

o virtuoso São Lourenço.

Hoje te castigo e venço

e sobre as brasas te deito

p'ra morrer, segundo penso.

(Sufocam-nos e entregam aos quatro beleguins, e cada dois levam o seu.)

Vinde aqui

e aos malditos conduzi

para em bom queimarem,

seus corpos sujos tostarem,

na festa em que os seduzi

para cozidos bailarem.

(Ficam ambos os demônios no terreiro com as coroas dos imperadores na cabeça.)

SARAVAIA

Sou o grande vencedor,

o que as más cabeças quebra,

sou um chefe de valor

e hoje me decido por

me chamar Cururupeba.

Como eles,

mato os que estão em pecado,

e os arrasto em minhas chamas.

Velhos, moços, jovens, damas,

tenho sempre devorado.

De bom algoz tenho fama.

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