Quarto Ato Auto representado na Festa de São Lourenço · Capítulo 5 de 6
Obra Menu

Quarto Ato

QUARTO ATO

Tendo o corpo de São Lourenço amortalhado e posto na tumba, entra o Anjo com o Temor e o Amor de Deus, a encerrar a obra e, no fim, acompanham o santo à sepultura.

ANJO

Vendo nosso Deus benigno

vossa grande devoção

que tendes, e com razão,

a Lourenço, o mártir digno

de toda a veneração,

determinam, por seus rogos

e martírio singular,

a todos sempre ajudar,

para que escapeis dos fogos

em que os maus se hão de queimar.

Dois fogos trazia n'alma,

com que as brasas resfriou,

a no fogo em que se assou,

com tão gloriosa palma,

dos tiranos triunfou.

Um fogo foi o temor

do bravo fogo infernal,

e, como servo leal,

por honrar a seu Senhor,

fugiu da culpa mortal.

Outro foi o Amor fervente

de Jesus, que tanto amava,

que muito mais se abrasava

com esse fervor ardente

que co'o fogo, em que se assava,

Estes o fizeram forte.

Com estes purificado,

como ouro refinado,

padeceu tão crua morte

por Jesus, seu doce amado.

Estes vos manda o Senhor

a ganhar vossa frieza,

para que vossa alma acesa

de seu fogo gastador,

fique cheio de pureza.

Deixai-vos deles queimar

como o mártir São Lourenço,

e sereis um vivo incenso

que sempre haveis de cheirar

na corte de Deus imenso.

TEMOR DE DEUS

(Dá seu recado.)

Pecador,

sorves com grande sabor

o pecado,

e não ficas afogado

com teus males!

E tuas chagas mortais

não sentes, desventurado!

O inferno

como seu fogo sempiterno,

Já te espera,

se não segues a bandeira

da cruz,

sobre a qual morreu Jesus

para que tua morte morra.

Deus te envia esta mensagem

com amor,

a mim que sou seu Temor

me convém

declarar o que contém

para que temas ao Senhor.

(Glosa e declaração do recado.)

Espantado estou de ver,

pecador, teu vão sossego.

Com tais males a fazer,

como vives sem temer,

aquele espantoso fogo?

Fogo que nunca descansa,

mas sempre provoca a dor,

e com seu bravo furor

dissipa toda a esperança

ao maldito pecador.

Pecador, como te entregas

tão sem freio ao vício extremo?

Dos vícios de que estás cheios

engolindo tão às cegas

a culpa, com seu veneno.

Veneno de maldição

tragas sem nenhum temor,

e sem sentir sua dor,

deleites da carnação

sorves com grande sabor.

Será o sabor do pecado

muito mais doce que o mel,

mas o inferno cruel

depois te dará um bocado

bem mais amargo que o fel.

Fel beberás sem medida,

pecador desatinado,

tua alma em chamas ardida.

Esta será a saída

do deleite do pecado.

Do pecado que tu amas,

Lourenço tanto escapou

que mil penas suportou

e, queimado pelas chamas,

por não pecar, expirou.

Ele a morte não temeu.

Tu não temes o pecado

no qual te tem enforcado

Lucifer, que te afogou,

e não ficas afogado.

Afogado pela mão

do Diabo pereceu

Décio com Valeriano,

infiel, cruel tirano,

no fogo que mereceu.

Tua fé merece a vida,

mas com pecados mortais

quase a tiveste perdida,

e teu Deus, bem sem medida,

ofendeste, com teus males.

Com teus males e pecados,

tua alma de Deus alheia,

da danação na cadeia

há de pagar com os danados

a culpa que a incendeia.

Pena sem fim te darão

dentre os fogos infernais

teus deleites sensuais.

Teus tormentos dobrarão,

e tuas chagas mortais .

Que mortais são tuas feridas,

pecador. Por que não choras?

Não vês que nestas demoras,

estão todas corrompidas,

a cada dia pioras?

Pioras e te confinas,

mas teu perigoso estado,

na pressa e grande cuidado

com que ao fogo te destinas,

não sentes, desventurado?

Oh, descuido intolerável

de tua vida!

Tua alma está confundida

no lodo,

e tu vais rindo de tudo,

não sentes tua caída!

Oh, traidor!

Que negas teu Criador,

Deus eterno,

que se fez menino terno

por salvar-te.

E tu queres condenar-te

e não temes ao inferno!

Ah, insensível!

Não calculas o terrível

espanto, que causará

o juiz, quando virá

com carranca muito horrível,

e à morte te entregará.

E tua alma será

sepultada em pleno inferno,

onde morte não terá,

mas viva se queimará

com seu fogo sempiterno!

Oh, perdido!

Ali serás consumido

sem nunca te consumir.

Terás vida sem viver,

com choro e grande gemido,

terás morte sem morrer.

Pranto será teu sorrir,

sede sem fim te abebera,

fome que em comer se gera,

teu sono, nunca dormir,

tudo isto já te espera.

Oh, mofino!

Pois tu verás de contínuo

ao horrendo Lucifer,

sem nunca chegar a ver

aquele molde divino

de quem tiras todo o ser.

Acaba já de temer

a Deus, que sempre te espera,

correndo por sua esteira,

pois não lhes vai pertencer

se não lhe segues a bandeira.

Homem louco!

Se teu coração já toco,

mudar-se-ão alegrias

em tristezas e agonias.

Olha que te falta pouco

para fenecer teus dias.

Não peques mais contra Aquele

que te ganhou vida e luz

com seu martírio cruel

bebendo vinagre e fel

no extremo lenho da cruz.

Oh, malvado!

Ele foi crucificado,

sendo Deus, por te salvar.

Pois, que podes esperar,

se foste tu o culpado

e não cessas de pecar?

Tu o ofendes, ele te ama.

Cegou-se por dar-te a luz.

Tu és mau, pisas a cruz

sobre a qual morreu Jesus.

Homem cego,

porque não começas logo

a chorar por teu pecado?

E tomar por advogado

a Lourenço que, no fogo,

por Jesus morreu queimado?

Teme a Deus, juiz tremendo,

que em má hora te socorra,

em Jesus tão só vivendo,

pois deu sua vida morrendo

para que tua morte morra.

AMOR DE DEUS

(Dá seu recado)

Ama a Deus, que te criou,

homem, de Deus muito amado!

Ama com todo cuidado,

a quem primeiro te amou.

Seu próprio Filho entregou

à morte, por te salvar.

Que mais te podia dar,

se tudo o que tem te dou?

Por mandado do Senhor,

te disse o que tens ouvido.

Abre todo teu sentido,

porque eu, que sou seu Amor,

seja em ti bem imprimido

(Glosa e declaração do recado)

Todas as coisas criadas

conhecem seu Criador.

Todas lhe guardam amor,

pois nele são conservadas,

cada qual em seu vigor.

Pois com tanta perfeição

sua ciência te formou

homem capaz de razão,

de todo o teu coração

ama a Deus, que te criou!

Se amas a criatura

por se parecer formosa,

ama a visão graciosa

desta mesma formosura

por sobre todas as coisas.

Dessa divina lindeza

deves ser enamorado.

Seja tua alma presa

daquela suma beleza,

homem, de Deus muito amado!

Aborrece todo o mal,

com despeito e com desdém,

E, pois que és racional,

abraça a Deus imortal,

todo, sumo e único bem.

Este abismo de fartura,

que nunca será esgotado;

esta fonte viva e pura,

este rio de doçura,

ama com todo cuidado.

Antes que criasse nada,

já a alma majestade

te havia a vida gerado.

e tua alma, abrasada

com eterna caridade.

Por fazer-te todo seu

com amor te cativou

e, pois que tudo te deu,

dá tu todo o maior que é teu

a quem primeiro te amou.

E deu-te alma imortal

e digna de um Deus imenso,

para que fosses suspenso

nele, esse bem eternal,

que é sem fim e sem começo.

Depois, que em morte caíste

com vida te levantou.

Porque sair não conseguiste

da culpa em que te fundiste,

seu próprio filho entregou.

Entregou-o por escravo,

deixou que fosse vendido,

para que tu, redimido

do poder do leão bravo,

fosses sempre agradecido.

Para que não morras, morre

com amor bem singular.

Pois, quanto deves amar

a Deus que entregar-se quer

à morte, por te salvar!

O Filho, que o Padre deu,

a seu Pai te dá por pai,

e sua graça te infundiu,

e quando na cruz morreu,

deu-te por mãe sua Mãe.

Deu-te fé com esperança,

e a si mesmo por manjar,

para em si te transformar

pela bem -aventurança.

Que mais te podia dar?

Em paga de tudo isto,

oh, ditoso pecador,

pede apenas teu amor.

Despreza pois todo o resto

por ganhar a tal Senhor.

Dá tua vida pelos bens

que Sua morte te ganhou.

És seu, nada tens de teu,

Dá-lhe tudo quanto tens,

pois tudo o que tem te deu!

DESPEDIDA

Levantai os olhos ao céu, meus irmãos.

Vereis a Lourenço reinando com Deus,

por vós implorando junto ao rei dos céus,

que louvais seu nome aqui neste chão!

Daqui por diante tendes grande zelo,

que Deus seja sempre temido e amado,

e, mártir tão santo, de todos honrado.

Terei seus favores e doce desvelo.

Pois que celebrai com tal devoção

seu claro martírio, tomai meu conselho:

sua vida e virtudes tende por espelho,

chamando-o sempre com grande afeição.

Tereis, por seus rogos, o santo perdão

e, sobre o inimigo, perfeita vitória.

E depois da morte vós vereis na glória

a cara divina, com clara visão.

(LAUS DEO)

1/1
Menu

Fazer anotação