Os vizinhos Apólogos · Capítulo 1 de 18
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Os vizinhos

— O’ João, se te fosse dado pedir ao Senhor alguma coisa, que lhe pedias tu ?

— Eu? bem pouco.

Pedia-lhe saude para mim e para os meus, mais a sua benção sobre as minhas terras que, d’uns tempos a esta parte, andam bem precisadas do favor divino.

— Só isso?

Pois então se Deus apparecesse e quizesse amercear-te, só lhe pedias essa miseria?

— Para mim seria a melhor fortuna.

E tu?

— Eu?

Ah! eu . . .

Havia de pedir tanto ouro, tanto! que eu e a minha gente, dia e noite contando-o, não chegassemos, ao fim da vida, a saber a somma exacta da nossa fortuna.

— E para que tanto dinheiro?

— Ora! para ser o homem mais rico do mundo.

— Mas não o mais feliz.

— Como não?

Que entendes tu por felicidade?

— Eu entendo que a felicidade é a saude do corpo e a paz do espirito.

— Pois cá para mim é o dinheiro.

Quem tem dinheiro tem tudo.

— Nem tudo.

Entraram numa trilha que cortava o cannavial viçoso.

Rompia clara e fresca a manhan.

Passarinhos cantavam nos ramos e as aguas brandas que discorriam punham no ar agradavel murmurio.

O sino da igreja rustica, onde os dois homens haviam ouvido a missa do Natal, bimbalhava festivamente.

E elles lá iam com os seus altos cajados, por entre as hervas discutindo a felicidade.

Os sitios eram contiguos: limitava-os uma cerca de espinhos.

Junto á primeira porteira, o que ambicionava a fortuna incontavel, despediu-se do companheiro.

— Então adeus, João.

E olha que o Senhor não ficaria mais pobre se quizesse realisar o teu desejo.

Adeus!

E o outro respondeu caminhando: — E eu ficaria contente e renderia commovidas graças á sua misericordia.

Entrou o ambicioso no terreiro do seu sitio e, ainda não avistara a casa, quando lhe pareceu ouvir alegre som metallico como de peças de ouro que rolassem tinindo.

Estugou os passos ansiosos com o coração aos saltos, e, ao chegar á varanda, viu, sobre a mesa, um grande sacco transbordando de ouro.

E eram dobrões novos, reluzentes como se houvessem sahido, naquella mesma manhan, da cunhagem.

A mulher e os dois filhos empilhavam as moedas, tanto, porém, que viram o homem apparecer, correram a annunciar-lhe a boa nova.

« Entrara ali um formoso menino e, sem dizer palavra, deixára sobre a mesa aquelle sacco de ouro.

Como lidassem com elle para que dissesse quem era, donde vinha, apenas respondera: Que era portador dum presente de Deus.

E, com taes palavras, desapparecera. » Lembrou-se, então, o homem da conversa que tivera com o vizinho e sorriu pensando : « Se Deus assim tão de prompto attendeu ao meu pedido avultado, por certo não deixou o delle sem resposta. » Pobre João!

Como se ralará de inveja quando souber da minha riqueza.

Logo, porém, sem agradecer ao Senhor o generoso presente, disse para a mulher e para os filhos: — Bem.

Não percamos tempo.

Ha ahi muito que contar.

Vamos vêr quantos dobrões ha no sacco, que nem por isso é tão grande como podia ser.

Em menos de meia hora poderemos ter a tarefa acabada.

E os quatro, em volta da mesa, puzeram-se a contar as moedas.

Á medida que perfaziam um conto separavam as pilhas e assim cobriram a mesa e foram depois arrumando nos aparadores e nos bancos.

Veiu a noite, e o sacco sempre a despejar moedas.

Uma luz amarella aclarou o interior da casa.

As quatro criaturas allucinadas iam e vinham acastellando dobrões.

Os moveis já estavam cobertos, passaram a juntá-los no chão.

E não sentiam os dias nem as noites: contavam fascinadas pelo ouro.

A casa encheu-se.

Arrastaram o sacco para o paiol e o paiol ficou a deitar fóra.

Passaram ao moinho e abarrotaram-no; recolheram ás tulhas, á abegoaria, a todos os cantos onde pudessem enthesourar.

Por fim, como o sacco não se esvasiava, fôram empilhando mesmo no terreiro e ao longo dos caminhos onde as plantas haviam mirrado.

João, o modesto, logo ao passar a porteira do seu sitio, ficou deslumbrado vendo os seus milhos ostentando pendões viçosos, o seu feijoal alastrando, a sua vinha carregada, a fonte manando copiosamente, todo o seu gado nédio e luzidío, pastando afogado em hervas que haviam nascido em terreno sáfaro que sempre respondera com ingratidão a todo o tracto e ao mais penoso granjeio.

E ainda não sahira do pasmo quando viu apparecer á porta do casebre, que uma roseira recente floria e perfumava, a mulher, que elle deixara no leito, tolhida e ardendo em febre, rindo, robusta e córada, como no tempo em que a vira, ainda donzella e a pedira por noiva.

Comprehendendo immediatamente que, em tudo aquillo, andara a mão benefica de Deus, antes de acudir á mulher, que o chamava, ajoelhou-se e agradeceu o milagre.

Erguendo-se, então, encaminhou-se á casa e a mulher, atirando-se-lhe nos braços, disse: — Appareceu aqui um formoso menino e, tomando do regador, que ali estava, sahiu a regar as terras e, onde cahia a agua, fosse entre pedras, logo rebentava a planta.

O gado, depois de beber, de entrezilhado que estava, ficou assim como o vês; os milhos murchos cresceram e apendoaram ; o feijoal alastrou, o arroz veiu logo a flux, as arvores cobriram-se de flores, a fonte entrou a manar e, para maior espanto meu, quando abri os paióes, vi que estavam atulhados.

— E que te disse o menino?

— Sorriu e desappareceu; e foi o seu sorriso que me poz como estou.

Logo sentime outra : pude andar e com tanta facilidade e ligeireza que corri todo o sitio e vi que todo elle está ricamente coberto de flores e de frutos.

— Foi Jesus que aqui esteve, disse o bom homem.

— Nem podia ser outro, confirmou a mulher.

E João, pensando no vizinho, disse, sem sombra de inveja: — Se foi Deus que nos fez assim felizes, tambem a sua graça deve ter chegado ao nosso vizinho.

— Como sabes? perguntou a mu lher.

E João narrou a conversa que haviam entretido, depois da missa, atravessando o cannavial que se dourava ao sol.

— Deve estar, a esta hora, a contar o seu ouro.

— Não é mais feliz do que nós, disse a mulher.

— Não é, de certo, affirmou João, vendo chegar, a zumbir, um louro enxame de abelhas procurando cortiço onde aboletar-se.

Correram dias, correram mezes.

Todos os sabbados João descia ao mercado e já havia comprado uma carreta para transportar os produtos da sua abençoada herdade, que prosperava a mais e mais, quando, uma vez, perguntaram-lhe pelo vizinho: « Que era feito de tal homem que nao apparecia? » João sorriu lembrando-se da manhan do Natal.

« Para que havia elle de incommodar-se em lidas penosas se tinha, com certeza, mais ouro do que todos os reis da terra? » Quiz, entretanto, convencer-se e, esvasiada a ultima ceira, subiu para a carreta resolvido a passar nas terras do vizinho.

Logo que avistou a porteira travou-selhe o coração presago.

Um mattagal intonso cobria os caminhos; os talhões, outrora viçosos, desappareciam afogados em urtigas.

Nem uma ovelha balava e do casebre não subia o fumo denunciador da vida.

Estava tudo entristecido e calado como um cemiterio.

João foi guiando lentamente o animal e o carro rangia por entre as hervas altas que haviam reconquistado o terreno, dantes tão rico em flôr e em fruto.

Diante da porteira desceu e, depois de muito haver batido, resolveu penetrar com um presentimento de desgraça.

E foi.

O terreiro era um matto bravio.

A parietaria trepava nos muros tendidos do casebre.

Aves sinistras abalaram vendo aproximar-se o homem curioso.

João, parando no terreiro, bradou para o casebre escancarado.

Não teve resposta.

Resolveu caminhar e foi.

Ouando chegou ao limiar da casa viu pilhas e pilhas de moedas de ouro; tocando, porém, em uma d’ellas estremeceu ao vê-la desfazer-se em pó.

Proseguiu.

Por toda a parte eram montões de ouro, mas como as taboas do soalho oscillassem, a fortuna logo rolava convertida em poeira.

E João seguiu até a sala de jantar.

Em volta da mesa estavam quatro esqueletos curvados sobre montes de esqueletos e esconder-se-lhe no craneo como na propria lura.

Não se conteve então: recuando assombrado afastou-se da casa maldita e, mal chegou á porteira, ouviu grande estrondo como um desmoronamento.

O casebre aluira e uma poeirada negra escurecia os ares.

João persignou-se e, subindo para a carreta, tocou o animal fugindo áquelle sitio malsinado, lembrando-se do ambicioso desejo do vizinho, que Deus satisfizera: «Tanto ouro, tanto! que elle e a sua gente, dia e noite, contando-o, não chegassem, ao fim da vida, a saber a somma exacta da fortuna.» E ali tinham elles o ouro : poeira, sómente poeira.

Os desgraçados haviam succumbido á fadiga e á fome contando, sem pausa, as moedas que inexoravelmente transbordavam do sacco inesgotavel.

Quando avistou, por entre as arvores, a sua cazinha alegre, toda em verdura, e viu o seu gado robusto e a sua cultura exuberante, de novo rendeu graças ao Senhor que ouvira o seu voto e lhe recompensara largamente o desejo modesto, dando-lhe a saude, que é a riqueza do corpo, e a tranquillidade, que é a fortuna do espirito.

E os seus haveres eram mais que sufficientes, porque não só lhe davam para a abastança como ainda deixavam sobras que eram repartidas em esmolas.

E assim, acudindo ao pobre, demonstrava ao Senhor a sua gratidão.

E o outro, no proprio premio tivera o justo castigo da sua desmarcada ambição.

E foi assim que Jesus infante satisfez os desejos dos dois vizinhos.

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