O paralytico
Paralytico e cego, preso na treva e na immobilidade, como se vivesse carregado de ferros, no fundo de um carcere escuro, o pobre rapaz jazia encolhido num catre, o mesmo em que a mãi o deitou quando, ao retirar-lhe p peito da boca, percebeu que os seus lindos olhos não reflectiam a luz e, mais tarde, compadecida, viu que os seus membros tolhidos negavamse a conduzi-lo.
Tamanino ainda, sem comprehender a vida, o misero sorria nas palhas, contente com os rumores que ouvia em torno do seu presidio e a alma se lhe foi dilatando apertadamente no corpo engelhado como o germen duma arvore forte que se desenvolvesse num vaso.
O instincto da liberdade fê-lo, um dia, pedir que o levassem ao campo fronteiro á casa.
Queria sentir o sol, ouvir os passaros, palpar as arvores, gosar o aroma agradavel das flores.
Carregaram-no piedosamente e, num leito de folhas, á sombra duma arvore, guardado pelos irmãos mais moços, que corriam e saltavam alegremente em volta delle, o desgraçado ficou sentindo o sol, attento ao murmurio mais leve dum lacrimal, ao sussurro dum ramo tocado pela brisa.
Volta e meia um dos irmãos, parando esbaforido junto delle, perguntava: — Estás contente?
E elle, sorrindo e rolando os olhos brancos, sem pupillas, tristes como dunas estéreis, respondia: — Sim, aqui fóra é melhor.
E mais bonito, accrescentava — porque, para elle, a belleza era a sensação.
E elle sentia o calor, sentia o perfume, ouvia as aguas correntes e os passarinhos que esvoaçavam.
Mas uma tristeza pungialhe a alma: elle não sentia tanto o seu mal pelo soffrimento que lhe infligia como pela inarcia a que o forçava.
Como eram felizes os que podiam ir á floresta buscar os troncos, aos pomares colher os frutos, aos pastos levar o gado, remar um barco no rio, domar um pôtro na campina ou pôr em movimento o moinho que rangia esfarinhando o grão, ao rolar d’agua.
Que tristeza para a sua alma captiva!
Um dia, como os irmãos brincassem perto delle, o paralytico chamou-os e, sentindo-os a seu lado, pediu-lhes uma semente de arvore.
Um dos irmãos correu ao pomar e, sem grande demora, tornou com o que pedira o coitado.
— Aqui tens a semente.
Se é para a sentires pouco terás que sentir, tão pe quenina é; entretanto póde dar uma arvore que nos agasalhe a todos á sua sombra e que produza tantos frutos que um só carro não baste para transportá-los.
Aqui a tens.
E entregou-lh’a.
O misero, sempre sorrindo, pôz-se a rolar a semente entre os dedos.
Por fim falou aos irmãos que lh’a trouxeram: — Procurai um lugar onde fique bem uma arvore que dê repouso e sombra aos fatigados e possa regalar com os seus frutos a quem os procure com fome.
— Ali ha um bom lugar, disse o mais moço.
— Faze, então, uma cova.
Aberta que foi a cova, o paralytico pediu que o carregassem para junto della e, com esforço, voltado de flanco, passando, repassando a mão, achou-a sob os dedos.
Sorrindo deitou nella a semente, puxou a terra, cobriu-a e, contente, pediu aos irmãos que, de novo, o levassem para a sombra em que costumava ficar.
Desde esse dia teve o pararytico uma preoccupação feliz.
Mal amanhecia chamava um dos irmãos e pedia-lhe que fosse vêr se a semente já havia dado o seu rebento.
« Ainda é cedo », diziam-lhe ; e elle esperava.
Uma manhan, porém, um dos pequenos deu-lhe a desejada noticia: — Já rebentou e está linda!
Pobre cego! não poder vê-la . . .Mas com que alvoroço elle recebia as noticias dos progressos da sua arvorezinha.
Que alegria!
Justamente a arvore toucava-se das primeiras flores quando o paralytico adoeceu gravemente.
Ardendo em febre pediu, uma noite, que lhe abrissem as janellas do quarto.
Queria sentir, na aragem nocturna, o perfume das flores dá sua arvore.
Não contente, porém, com o aroma, quiz ter no seu catre um punhado das flores.
Um dos irmãos correu a satisfazer-lhe o desejo.
Vieram as flores, foram espalhadas na enxerga e o moribundo, sentindo-lhes o perfume, sorria desvanecido e, como o sacerdote se curvasse para ouvi-lo de confissão, elle murmurou tranquillamente: — Que vos hei de eu dizer, meu padre?
Fui justo.
Só uma tristeza, ás vezes, traziame inveja á alma: era a de passar pela vida sem deixar um beneficio.
— E que poderieis fazer, meu filho?
Deus levará em conta a vossa boa vontade.
— E tambem o que fiz, meu padre?
Todo o homem, ainda o mais fraco, deve procurar o bem para o seu semelhante, cada qual á medida das suas forças.
O que não póde edificar uma cidade que construa uma casa; o que não se sente com força de trabalhar pela Patria que cuide do seu lar.
Eu, padre, fui justo e plantei uma arvore.
Disse e expirou serenamente.