A princeza Parisada Apólogos · Capítulo 10 de 18
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A princeza Parisada

Em certo reino do Oriente, cujo monarcha recebia tributo e vassallagem de trinta riquissimas provincias, espalhou-se a noticia de que, em longinqua região de grande esterilidade, toda de areaes e rochas, onde raros arbustos enfesados esgalhavam ramos seccos e aguas de minguadas fontes refrescavam oasis, em alta e agreste montanha, um genio deixára tres maravilhosos dons que pertenceriam a quem os conseguisse alcançar. * Reminiscencia das Mil e uma noites.

Tanto que foi sabida tal noticia organisaram-se caravanas e, todos os dias, pela porta mais larga, que abria sobre o deserto, desde que as sentinellas, á primeira luz, franqueavam o transito até que fechavam a cidade real, era um lento e rumoroso desfilar de gente e d’animaes.

Correram annos e, diariamente, sem descontinuar, sahiam bandos como se a população da cidade se fosse, aos poucos, mudando e esquecendo a aprazivel capital do reino maravilhoso e forte.

Tinha o rei tres filhos: dois mancebos e uma donzella e como, uma tarde, elle alludisse, com pezar, ao despovoamento da cidade — porque, de tantos homens que haviam partido, nem um só regressara — o mais velho dos principes, que era temerario, offereceu-se para ir á remota montanha, não só para saber do destino do numeroso povo, como tambem para haver o cobiçado thesouro.

Quiz o rei oppôr-se ao que lhe parecia empreza de morte, mas tanto lidou o principe que o amor paterno teve de ceder.

Concedida a licença, pediu o moço intrepido uma guarda escolhida e, uma manhan, ao som de trombetas de guerra, disse adeus á cidade e foi-se.

Correram dias, correram mezes, um anno triste passou e do principe não vinham novas.

Cobriu-se o reino de luto e o rei, inconsolavel, lamentava a perda do seu herdeiro, quando o principe mais novo assim lhe falou: — Pai e senhor, deixai-me sahir no rastro do meu irmão.

Darei com elle e com a gente que o precedeu e, se lograr descobrir os dons do genio, tra-los-ei commigo.

Revoltou-se o monarcha contra a imprudencia do filho; o mancebo, porém, inflexivel na sua resolução, a nada cedeu e, cercando-se duma guarda airosa, sahiu, como o irmão mais velho, pela porta maior que abria sobre o deserto.

Correram dias, correram mezes, um anno triste passou sem que do principe viessem novas.

O rei envelhecia e, percorrendo, a largos e lentos passos, os salões merencoreos do palacio, arrancava punhados de cabellos lamentando a sua miseria, pensando nos filhos perdidos que eram a sua esperança e o seu orgulho.

Andava elle, uma tarde, em atormentado desespero, quando viu chegar Parisada, a princeza, que lhe falou docemente: « Que a deixasse partir.

Iria á salvação dos principes, confiada na sua ventura.

Se perecesse, pequena seria a perda comparada ás que já soffrera o reino com o desapparecimento dos seus leaes e valorosos defensores. » Foi um clamor no paço.

O velho monarcha prorompeu em brados ameaçando a princeza que se manteve calada e humilde, mas decidida.

Tão firme permaneceu, surda a rogos e ameaças, que o rei concedeu a licença para que ella não a tomasse com escandalosa rebeldia.

Desesperançado e como se lhe fizesse os funeraes, quiz o rei que ella levasse um sequito luzido e provisões copiosas para que nada lhe faltasse naquella jornada fatal.

Negou-se a princeza a aceitar tantas offertas e só, montando um ginete forte, madrugou nas arêas do deserto.

Foi.

Longos e longos dias caminhou ao sol, sem agua e sem refrigerio e, ao cabo dum mez de andar penoso, ao descer um declive orlado de espinhaes, viu, encostado á rocha, um ancião veneravel.

A barba, longa e alva, cobria-lhe o peito, os olhos rolavam sem brilho dentro das fundas orbitas, as mãos seccas tremiam-lhe pousadas na pedra.

Inclinando a cabeça á estropeada do ginete, o velho falou brandamente: — Quem quer que sejais, vinde a mim, que não vejo, e instillai nos meus olhos um pouco d’agua fresca.

Ouviu a princeza o pedido e, condoída da sorte do miserando, fez, com sollicitude, o que lhe fora implorado e logo alumiaram-se os olhos do centenario.

Então, fitando a donzella, assim falou o ancião: — Filha, seja Deus por ti e comtigo.

Sei que vais á montanha encantada, ouve o que a outros tenho dito, ainda que em pura perda, porque a todos faltava a energia necessaria para empreza tão alta.

Tres raras prendas existem no cimo da montanha, e são: a Arvore que fala, o Passaro que canta e a Agua amarella.

Da Arvore basta que tomes um galho e que o leves comtigo: plantado em qualquer terreno logo frondejará.

Da Agua basta que tragas o que couber na amphora que has de encontrar junto á fonte.

O Passaro virá pousado em teu hombro.

Mas ouve e attende, que o passo é difficil.

Logo que fores sentida no começo da ladeira, romperão contra ti, de todos os lados, insultos, improperios, toda a sorte de vaias discordantes.

Vai teu caminho sobranceira, não te voltes por curiosidade ou medo: são as pedras que bramam para que não prosigas e fiques igualmente petrificada.

As pedras são os que, por fraqueza, não conseguiram chegar ao cimo collimado e, attendendo ao alarido, voltaram o rosto soffrendo logo o prestigio que os inutilisou.

Vai por diante e alcançarás o premio da tua superior indifferença e, á volta, se quizeres ser generosa, como convem que sejam os vencedores, verte sobre cada uma das pedras uma gota d’agua encantada e logo as verás mudarem-se em homens que descerão comtigo ornando o teu triumpho.

Vai!

Parisada prendeu o seu ginete a uma arvore e, repetindo no coração as palavras do centenario, dirigiu-se corajosamente para a montanha encantada.

Logo que resoaram nos pedrouços os seus primeiros passos, levantou-se retumbantemente uma grita estrondosa: apupos e insultos vis, diatribes e pragas, assobios e gargalhadas.

Todas as pedras entraram a bradar, desde o calhau, que lhe rolava debaixo dos pés, até o rochedo alcantilado que avultava como uma torre.

Ella seguia indifferente, sem voltar o rosto, lembrando-se do conselho do ancião e, passando atravez do barbariso da inveja, chegou ao bosque onde se achavam reunidas as tres prendas do genio.

Quebrou um galho da arvore que enchia a espessura de suavissimo canto, tomou no punho o passaro que falava dizendo os seus louvores e, apanhando a amphora que jazia junto á fonte, encheu-a d’agua dourada.

Logo se desfez o encanto e toda a montanha, que era escalvada e merencorea, cobriu-se d’arvores frondosas onde cantaram passaros, fontes rebentaram e as aguas limpidas precipitaram-se com alegre rumor por fraguedos graciosos.

Os espinhaes desabrolharam em flores e o sol, que parecia banido daquelles lugares tristes, brilhou na folhagem e refulgiu nas aguas.

Ella, então, poz-se a descer vagarosamente fazendo como lhe dissera o velho.

Não via pedra onde não vertesse uma gota d’agua e assim foi desencantando os que ali estavam petrificados.

Mas o seu coração só se aquietou quando duas pedras mudaram-se nos dois principes.

Abraçou-os chorando lagrimas felizes e, seguida da turba immensa, que a acclamava, chegou á base da montanha onde se achava o solitario e, como lhe agradecesse o conselho, delle ouviu estas ultimas palavras: — Filha, este é o meio que têm os fortes de vencer no mundo que, como esta montanha, está cheio de pedras inuteis.

Os que não podem alcançar o ideal tornam-se tropeços no caminho: são pedras que bramam.

Para vencer é necessario não dar ouvidos á voz dos inertes.

Como venceste hoje, vencerás ámanhan se procederes com a mesma superioridade.

E a princeza poz-se a caminho do reino e, durante oito longos dias e oito longas noites, na larga porta que abria sobre o deserto, desfilaram as caravanas dos que regressavam da montanha do encanto.

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