Tercetos de Luís de Camões História da Província Santa Cruz · Capítulo 2 de 19
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Tercetos de Luís de Camões

Tercetos de Luís de Camões

Ao muito ilustre senhor Dom Lionis Pereira

DEpois que Magalhães teue tecida

A breue historia sua que illustrasse,

A terra Sancta Cruz pouco sabida.

Imaginando a quem a dedicasse,

Ou com cujo fauor defenderia

Seu liuro, de algum Zoilo que ladrasse.

Tendo nisto occupada a fantasia,

Lhe sobreueo hum sono repousado,

Antes que o Sol abrisse o claro dia,

Em sonhos lhe apparece todo armado

Marte, brandindo a lança furiosa,

Com que fez quem o vio todo enfiado;

Dizendo em voz pesada & temerosa,

Não he justo que a outrem se offereça

Nenhũa obra que possa ser famosa,

Se nam a quem por armas resplandeça,

No mundo todo, com tal nome & fama,

Que louuor immortal sempre mereça.

Isto assi dito, Apolo que da flama

Celeste guia os carros, de outra parte

Se lhe apresenta, & por seu nome o chama

Dizendo, Magalhães, posto que Marte

Com seu terror te espante, todauia

Comigo deues so de aconselharte.

Hum barão sapiente, em quem Talia

Pos seus thesouros, e eu minha sciencia,

Defender tuas obras poderia.

He justo que a escritura na prudencia

Ache sua defensam, porque a dureza

Das armas, he contraria da eloquencia:

Assi disse, & tocando com destreza

A citera dourada, começou

De mitigar de Marte a fortaleza:

Mas Mercurio, que sempre costumou

A despartir porfias duuidosas,

Co caduçeo na mão que sempre vsou,

Determina compor as perigosas

Opiniões dos Deoses inimigos,

Com razões boas, justas & amorosas,

E disse, bem sabemos dos antiguos

Heroes, & e dos modernos, que prouaram

De Bellona os grauissimos perigos,

Como tambem muitas vezes ajuntaram

As armas eloquencia, porque as Musas

Mil capitães na guerra acompanharam:

Nunqua Alexandro, ou Cesar nas confusas

Guerras, deixarão o estudo um breue espaço,

Nem armas das sciencias sam escusas.

Nũma mão liuros, noutra ferro & aço;

A hũa rege & ensina, & outra fere

Mais co saber se vence que co braço.

Pois logo barão grande se requere,

Que com teus dões Apollo illustre seja,

E de ti Marte palma & gloria espere.

Este vos darey eu, em quem se veja,

Saber & eSforço no sereno peito,

Que he Dom Lionis que faz ao mundo enueja.

Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito,

Todas noue nos braços o tomaram,

Criando o com seu leite no seu leito.

As Artes & sciencia lhe ensináram,

Inclinaçam diuina lhe influiram,

As virtudes moraes que logo o ornáram.

Daqui nos exercicios o seguiram,

Das armas no Oriente, onde primeiro,

Hum soldado gentil instituiram.

Alli taes prouas fez de caualleiro,

Que de Christão magnanimo & seguro,

A si mesmo venceo por derradeiro.

Depois ja capitam forte & maduro,

Gouernando toda a Aurea Chersoneso,

Lhe defendeo co braço o debil muro.

Porque vindo a cercala todo o peso

Do poder dos Achens, que se sustenta

De sangue alheo, em furia todo aceso.

Este so que a ti Marte representa

O castigou de sorte, que o vencido

De ter quem viuo fique se contenta.

Pois tanto que o gram Reino defendido

Deixou: segunda vez com mayor gloria.

Para o ur gouernar foy ellegido.

E nam perdendo ainda da memoria

Os amigos o seu gouerno brando,

Os immigos o dãno da victoria.

Hũs com amor intrinseco esperando

Estam por elle, & os outros congelados

O vão com temor frio receando.

Pois vede se seram desbaratados

De todo, por seu braço se tornasse,

E dos mares da India degradados.

Porque he justo que nunqua lhe negasse

O conselho do Olympo alto & sobido

Fauor & ajuda com que pelejasse.

Pois qqui certo està bem dirigido,

De Magalhães o liuro, este so deue

De ser de vós, ò Deoses escolhido.

Isto Mercurio disse: & logo em breue

Se conformáram nisto, Apolo & Marte,

E voou juntamente o sono leue.

Acorda Magalhães, & ja se parte

A vos offerecer Senhor famoso

Tudo o que nelle pos, sciencia & arte.

Tem claro estylo, ingenho curioso,

Pera poder de vos ser recebido,

Com mão benigna de animo amoroso.

Porque so de nam ser fauorecido

Hum claro espirito, fica baixo & escuro,

E seja elle com vosco defendido,

Como o foy de Malaca o fraco muro.

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