Capítulo IV História da Província Santa Cruz · Capítulo 9 de 19
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Capítulo IV

Capítulo IV

Da governança que os moradores destas capitanias têm nestas partes e a maneira de como se hão em seu modo de viver

DEPOIS que esta prouincia Santa Cruz se começou de pouoar de Portugueses, sempre esteue instituida ẽ hũa gouernança, na qual assistia gouernador géral por elRey nosso senhor com alçada sobre os outros capitães que residem em cada capitania. Mas

porque de humas a outras ha muita distância e a gente vai em muito crescimento, repartio-se agora em duas gouernações, conuem a saber da capitania de Porto Seguro para o Norte fica huma, e da do Spirito Santo para o Sul fica outra: e em cada huma dellas assiste seu Gouernador com a mesma alçada. O da banda do Norte reside na Bahia de Todos os Santos, e o da banda do Sul no Rio de Janeiro. E assi fica cada hum em meio de suas jurisdições, para desta maneira poderem os moradores da terra ser melhor gouernados e á custa de menos trabalho. E vindo ao que toca ao gouerno de vida e sustentaçam destes moradores, quanto ás casas em que viuem cada vez se vão fazendo mais custosas e de melhores edificios: porque em principio nam hauia outras na terra sinam de taipa e terreas, cobertas somente com palma. E agora ha já muitas sobradadas e de pedra e cal, telhadas e forradas como as deste Reino, das quaes ha ruas mui compridas, e formosas nas mais das pouoações de que fiz mençam. E assi antes de muito tempo (segundo a gente vai crecendo) se espera que haja outros muitos edificios e templos mui sumptuosos com que de todo se acabe nesta parte a terra de enobrecer. Os mais dos moradores que por estas capitanias estão espalhados, ou quasi todos, tem suas terras de sesmaria dadas e repartidas pelos capitães e Gouernadores da terra. E a primeira cousa que pretendem acquirir, são escrauos para nellas lhes fazerem suas fazendas e si huma

pessoa chega na terra a alcançar dous pares, ou meia duzia delles (ainda que outra cousa nam tenha de seu) logo tem remedio para poder honradamente sustentar sua familia: porque hum lhe pesca e outro lhe caça, os outros lhe cultiuão e grangeão suas roças e desta maneira nam fazem os homens despeza em mantimentos com seus escrauos, nem com suas pessoas. Pois daqui se póde inferir quanto mais serão acrecentadas as fazendas daquelles que teuerem duzentos, trezentos escrauos, como ha muitos moradores na terra que nam tem menos desta contia, e dahi pera cima. Estes moradores todos pela maior parte se tratão muito bem, e folgão de ajudar huns aos outros com seus escrauos, e fauorecem muito os pobres que começão a viuer na terra. Isto geralmente se costuma nestas partes, e fazem outras muitas obras pias, por onde todos tem remedio de vida, e nenhum pobre anda pelas portas a mendigar como nestes Reinos.

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