Capítulo IV
O palacete dos Barrôlos em Oliveira (conhecido desde o começo do século pela Casa dos Cunhaes ) erguia a sua fidalga fachada de doze varandas no Largo de El-Rei, entre uma solitária viela que conduz ao Quartel e a rua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada, ladeirenta, oprimida pelo comprido terraço do jardim, e pelo muro fronteiro da antiga cerca das Monicas. E em essa manhã, justamente quando Gonçalo, na caleche da Torre puxada pela parelha do Torto, desembocava no Largo de El-Rei, subia pela Tecedeiras, dobrando a esquina dos Cunhaes, em um cavalo negro de fartas clinas, que feria as lages com soberba e garbo, o Governador Civil, o André Cavaleiro, de colete branco e chapéu de palha. em um relance, do fundo da caleche, o Fidalgo ainda o surprehendeu levantando os pestanudos olhos
negros para as varandas de ferro do palacete. E pulou, com um murro no joelho, rugindo surdamente―«que biltre!» Ao apear no portão (um portão baixo, como esmagado pelo imenso escudo de armas dos Sás) tão sufocada indignação o impelia que não reparou nas efusões do porteiro, o velho Joaquim da Porta, e esqueceu dentro da caleche os presentes para Gracinha, a caixa com o guardasolinho e um cesto de flores da Torre coberto de papel de seda. Depois em cima, na sala de espera, onde José Barrôlo correra, ao sentir nas lages do Largo silencioso o estrepito do calhambeque, desabafou logo, arrebatadamente, atirando o guarda pó para uma cadeira de couro:
―Oh senhores! Que eu não possa vir á cidade sem encontrar de cara este animal do Cavaleiro! E sempre no Largo, defronte da casa! É sorte!... Esse bigodeira não achará outro logar para onde vá caracolar com a pileca?
José Barrôlo, um moço gordo, de cabelo ruivo e crespo, com um buço claro em uma face mais redonda e córada que uma bela maçã, acudiu, ingenuamente:
―Pileca?!... Oh, menino, tem agora um cavalo lindo! Um cavalo lindo, que comprou ao Marges!
―Pois bem! É um burro feio em cima de um cavalo bonito. Que fiquem ambos na cavalariça. Ou que vão ambos pastar para as Devezas!
O Barrôlo escancarou a boca larga e fresca, de soberbos dentes, em um lento pasmo. E de repente, com uma patada no soalho, vergado pela cinta, rompeu em uma risada que o sufocava, lhe inchava as veias:
―Essa é de arromba! Não, essa é para contar no Club... Um burro feio em cima de um cavalo bonito! E ambos a pastarem!... Tu vens hoje rico, menino! Olha que essa! Ambos a pastarem, com os focinhos na herva, o Governador civil e o cavalo... É de arromba!
Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E Gonçalo, adoçado por aquela ovação que celebrava a sua facecia:
―Bem. Dá cá esses ossos, ou antes esses untos. E como vai a família? A Gracinha?... Oh! viva a linda flôr!
Era ela, com a sua ligeiresa airosa e menineira, os magníficos cabelos soltos sobre um penteador de rendas, correndo alvoroçada para o irmão, que a envolveu em um abraço e em dois beijos sonoros. E imediatamente, recuando, a declarou mais bonita, mais gorda:
―Positivamente estás mais gorda, até mais alta... É sobrinho?... Não? nada, por ora?
Gracinha corou, com aquele seu languido sorriso que mais lhe humedecia e lhe enternecia a doçura dos olhos esverdeados.
―Se ela não quer, ela não quer! gritava o José Barrôlo, gingando, com as mãos enterradas nos bolsos do jaquetão que lhe desenhava as ancas roliças. A culpa não é cá do patrão... Mas ela não se decide!
O fidalgo da Torre reprehendeu a irmã:
―Pois é necessário um menino. Eu por mim não caso, não tenho geito: e lá se vão de esta feita Barrôlos e Ramires! A extincção dos Barrôlos é uma limpeza. Mas, acabados os Ramires, acaba Portugal. Portanto, Sr.. a D. Graça Ramires, depressa, em nome da nação, um morgado! Um morgado muito gordo, que eu pretendo que se chame Tructesindo!
Barrôlo protestou, aterrado:
―O que? Turtesinho? Não! para tal sorte não o fábrico eu!
Mas Gracinha deteve aqueles gracejos picantes, desejosa de saber da Torre, e do Bento, e da Rosa cosinheira, e da horta, e dos pavões... Conversando, penetraram na outra sala, guarnecida de contadores da Índia, de pesados cadeirões dourados de damasco azul, com três varandas sobre o Largo de El-Rei. Barrôlo enrolou um cigarro, reclamou a historia do Relho, da grande desordem. Também ele arranjara uma «pega» com o rendeiro da Ribeirinha, por causa de um córte de pinhal. Essa do Relho porém fora tremenda...
E Gonçalo, enterrado ao canto do fundo camapé azul, desabotoando preguiçosamente o jaquetão de chaviote claro:
―Não! foi muito simples. Já ha meses esse Relho andava bêbedo, sem despegar... Uma noite berrou, ameaçou a Rosa, agarrou em uma espingarda. Eu desci, e em um instante a Torre ficou desembaraçada de Relhos e de barulhos.
―Mas veio o Regedor, com cabos! acudiu o Barrôlo.
Gonçalo sacudiu os hombros, impaciente:
―Veio o regedor? Veio depois, para legalisar! Já o homem abalara, corrido. E como resultado arrendei a Torre ao Pereira, ao Pereira da Riosa...
Contou esse negocio excelente, tratado na varanda, ao almoço, entre dois copos de vinho verde. Barrôlo admirou a renda―gabou o rendeiro. Assim Gonçalo descortinasse outro Pereira para a quinta de Treixedo, terra tão generosa, tão mal amanhada!
Á borda do camapé, coberta pelos belos cabelos que lavara em essa manhã e que cheiravam a alecrim, Gracinha comtemplava o irmão com ternura:
―E do estomago, andas melhor? Continuam as ceias com o Titó?
―Oh! esse animal! exclamou Gonçalo. Ha dias prometeu jantar na Torre, até a Rosa assou um cabrito no espeto, magnifico... Depois falhou: creio
que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Ele vem esta semana a Oliveira... E é verdade! vocês sabiam da intimidade do Titó com o Sanches Lucena?
Historiou então, com exagero alegre, o encontro da Bica-Santa, o horror que lhe causara a bela D. Ana, a descoberta inesperada de essa familiaridade do Titó na Feitosa.
Barrôlo recordou que uma tarde, antes do S. João, avistara o Titó, diante do portão da Feitosa, a passear pela trela um cãosinho branco de regaço...
―Mas o que eu não compreendo, menino, é esse teu «horror» pela D. Ana... Caramba! Mulher soberba! Um quebrado de quadris, uns olhões, um peitoril...
―Calle essa boca impura, devasso! gritou Gonçalo. Pois aqui ao lado da sua mulher, que é a flôr das Graças, ousa louvar semelhante peça de carne!
Gracinha rindo, sem ciumes, comprehendia «a admiração do José.» Realmente, a Ana Lucena, que vistosa, que bela!...
―Sim, concedeu Gonçalo, bela como uma bela egoa... Mas aquela voz gorda, papuda... E a luneta, os modos... E «o cavalheiro póde fumar, o cavalheiro está enganado...» Oh! senhores, pavorosa!
Barrôlo gingava, diante do sofá, com as mãos nos bolsos da rabona:
―Uvas verdes, Sr.. D. Gonçalo, uvas verdes!
O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:
―Nem que ela se me oferecesse, de joelhos, em camisa, com os duzentos contos do Sanches em uma salva de ouro!
Sorrindo, vermelha como uma piônia, com um «oh» escandalisado, Gracinha bateu no hombro de Gonçalo―que puxou por ela, galhofeiramente:
―Venha lá essa bochecha, e outra beijoca, para purificar! Com efeito, só pensar na D. Ana arrasta a gente ás imagens brutais... Dizias então do estomago... Sim, filha, combalido. E ha dias mais pesado, desde o tal cabrito no espeto e da companhia beberrona do Manoel Duarte. Tu tens cá água de Vidago?... Então, Barrôlinho, sê angelico. Manda trazer já uma garrafinha bem fresca. E olha! pergunta se subiram um açafate e uma caixa de papelão que eu deixei na caleche? Que ponham no meu quarto. E não desembrulhes, que é surpreza... Escuta! Que me levem água bem quente. Preciso mudar toda a roupa... Estava uma poeirada por esse caminho!
E quando o Barrôlo abalou, a rebolar e a assobiar, Gonçalo, esfregando as mãos:
―Pois vocês ambos estão explendidos! E na harmonia que convém. Tu positivamente mais fórte,
mais cheia. Até pensei que fosse sobrinho. E o Barrôlo mais delgado, mais leve...
―Oh, agora o José passeia, monta a cavalo, já não adormece tanto depois de jantar...
―E a outra família? A tia Arminda, o rancho Mendonça? Bem?... Padre Sueiro, que é feito de esse santo?
―Teve um ataquesito de reumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre no Paço do Bispo, na Biblioteca... Parece que se entretem a fazer um livro sobre os Bispos.
―Bem sei, a Historia da Sé de Oliveira... Pois eu também tenho trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.
―Ah!
―Um Romance pequeno, uma Novela, para os Anais de Literatura e de Historia, uma Revista que fundou um rapaz meu amigo, o Castanheiro... É sobre um facto histórico da nossa gente... Sobre um avô nosso, muito antigo, Tructesindo.
―Tem graça, que fez ele?
―Horrores. Mas é pitoresco... E depois o Paço de Santa Ireneia, no século XII, em todo o seu explendor! Emfim uma bela reconstrucção do velho Portugal e sobre tudo dos velhos Ramires. Hás-de gostar... Não ha amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma das nossas antepassadas, uma
D. Menda, que eu nem sei se realmente existiu. Tem seu chic, hein?... E tu comprehendes, como eu desejo tentar a Politica, preciso primeiramente aparecer, espalhar o meu nome...
Gracinha sorria docemente para o irmão, no costumado enlevo:
―E agora tens alguma idéa? A tia Arminda lá continua sempre com a teima que devias entrar na Diplomacia. Ainda ha dias... «Ai, o Gonçalinho, assim galante, e com aquele nome, só em uma grande embaixada!»
Gonçalo despegara lentamente do vasto camapé, reabotoando o jaquetão claro:
―Com efeito ando com uma idéa, ha dias... Talvez me viesse de um romance inglez, muito interessante, e que te recomendo, sobre as antigas Minas de Ophir, King Salomon's Mines... Ando com idéas de ir para a Africa.
―Oh Gonçalo, credo! Para a Africa?
O escudeiro entrara com duas garrafas de água de Vidago, ambas desarrolhadas, em uma salva. Precipitadamente, para aproveitar o «piquesinho», Gonçalo encheu um copo enorme de cristal lavrado. Ah! que delicia de água!―E como o Barrôlo voltava, anunciando que cumprira as ordens de S. Ex. a:
―Bem! então logo conversamos ao almoço, Gracinha! Agora lavar, mudar de roupa, que não paro com estas infames comichões...
Barrôlo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais espaçosos e alegres do Palacete, forrado de cretones cor de canário com uma varanda para o jardim, e duas janelas de peitoril sobre a rua das Tecedeiras e os velhos arvoredos do convento das Monicas. Gonçalo impaciente despiu logo o casaco, sacudiu para longe o colete:
―Pois tu estás explendido, Barrôlo! Deves ter perdido três ou quatro kilos. São naturalmente os kilos que Gracinha ganhou... Vocês, se assim se equilibram, ficam perfeitos.
Diante do espelho Barrôlo acariciava a cinta, com um risinho deleitado:
―Realmente, parece que adelgacei... Até sinto nas calças...
Gonçalo abrira o gavetão da rica comoda de ferragens douradas, onde conservava sempre roupa (até duas casacas), para evitar o transporte de malas entre os Cunhaes e a Torre. E ria, aconselhava o bom Barrôlo a «adelgaçar» sem descanço, para beleza da futura raça Barrolica―quando em baixo, na silenciosa rua das Tecedeiras as patas de um cavalo de luxo feriram as lages em cadencia lenta.
Logo desconfiado, Gonçalo correu á janela, ainda com a camisa que desdobrava. E era ele! Era o André Cavaleiro, que descia ladeando, sopeando a rédea, para escarvar com garbo e fragor
a rampa mal empedrada. Gonçalo virou para o Barrôlo a face chamejante de furôr:
―Isto é uma provocação! Se este descarado de este Cavaleiro passa outra vez na maldita pileca, por debaixo das janelas, apanha com um balde de água suja!...
Barrôlo, inquieto, espreitou:
―Naturalmente vai para casa das Louzadas... Anda agora muito intimo das Louzadas... Sempre por aqui o vejo... E é para as Louzadas.
―Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, não ha outro caminho para casa das Louzadas? Duas vezes em meia hora! Grande insolente! Tem uma chapada de água de sabão, pela grenha e pela bigodeira, tão certo como eu ser Ramires, filho de meu pai Ramires!
Barrôlo beliscava a pele do pescoço, constrangido ante aqueles rancores ruidosos que desmanchavam o seu socego. Já, por imposição de Gonçalo, rompera desconsoladamente com o Cavaleiro. E agora antevia sempre uma bulha, um escândalo que o indisporia com os amigos do Cavaleiro, lhe vedaria o Club e as doçuras da Arcada, lhe tornaria Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da Ribeirinha
ou da Murtosa, solidões detestadas. Não se conteve, arriscou o costumado reparo:
―Ó Gonçalinho, olha que também todo esse espalhafato só por causa da Politica...
Gonçalo quase quebrou o jarro, na fúria com que o pousou sobre o mármore do lavatório:
―Politica! Aí vens tu com a Politica! Por Politica não se atira água suja aos Governadores Civis. Que ele não é Politico, é só malandro! Além de isso...
Mas terminou por encolher os hombros, emudecer, diante do pobre bacôco de bochechas pasmadas, que, em aquelas rondas do Cavaleiro pelos Cunhaes, só notava o «lindo cavalo» ou «o caminho mais curto para as Louzadas!...»
―Bem! resumiu. Agora larga, que me quero vestir... Do bigodeira me encarrego eu.
―Então, até logo... Mas se ele passar nada de asneiras, hein?
―Só justiça, aos baldes!
E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrôlo, que, pelo corredor, suspirando, lamentava o assomado gênio do Gonçalinho, as cóleras desproporcionadas em que o lançava «a Politica.»
Em quanto se ensaboava com vehemencia, depois se vestia em uma pressa irada, Gonçalo ruminou aquele intolerável escândalo. Fatalmente, apenas se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande guedelha, caracolando por sob as janelas do palacete,
na pileca de grandes clinas! E o que o desolava era perceber no coração de Gracinha, pobre coração meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz de ternura pelo Cavaleiro, bem enterrada, ainda vivaz, fácil de reflorir... E nenhum outro sentimento forte que a defendesse, em aquela ociosidade de Oliveira―nem superioridade do marido, nem encanto de um filho no seu berço. Só a amparava o orgulho, certo respeito religioso pelo nome de Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira e mexeriqueira. A sua salvação seria o abandono da cidade, o encerrado retiro em uma das quintas do Barrôlo, a Ribeirinha, sobretudo a Murtosa, com a linda mata, os musgosos muros de convento, a aldêa em redor para ela se ocupar como castelã benéfica. Mas quê! Nunca o Barrôlo, consentiria em perder o seu voltarete no Club, e a cavaqueira da tabacaria «Elegante», e as chalaças do Major Ribas!
Afogueado pelo calor, pela emoção, Gonçalo abriu a varanda. Em baixo, no curto terraço ladrilhado, orlado de vasos de louça, precedendo o jardim, Gracinha, ainda soltos os cabelos por cima do penteador, conversava com outra senhora, muito alta, muito magra, de chapéu marujo enfeitado de papoulas, que segurava entre os braços um repolhudo molho de rosas.
Era a «prima» Maria Mendonça, mulher de José Mendonça, condiscípulo do Barrôlo em Amarante, agora capitão do Regimento de Cavallaria estacionado em Oliveira. Filha de um certo D. Antônio, senhor (hoje Visconde) dos Paços de Severim, devorada pela preocupação de parentescos fidalgos, de origens fidalgas, ligava sempre surrateiramente o vago solar de Severim a todas as casas nobres de Portugal―sobre tudo, mais gulosamente, á grande casa de Ramires: e, desde que o regimento se aquartelara em Oliveira, tratara logo Gracinha por «tu» e Gonçalo por «primo», com a intimidade especial, que convém a sangues superiores. Todavia mantinha amisades muito seguidas e activas com brazileiras ricas de Oliveira―até com a viúva Pinho, dona da loja de panos, que (segundo se murmurava) lhe fornecia os dois filhos ainda pequenos de calções e de jalecas. Também convivia intimamente, já na cidade, já na Feitosa, com D. Ana Lucena. Gonçalo gostava da sua graça, da sua agudeza, da vivacidade maliciosa que a agitava em uma linda crepitação de galho, ardendo com alegria. E quando, ao rumor da janela perra, ela levantou os olhos lusidios e espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:
―Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janela...
―E para mim, primo Gonçalo, que o não via
desde a sua volta de Lisboa!... Pois está mais lindo, assim de bigode...
―Dizem que estou lindissimo, absolutamente irresistivel! Até aconselho á prima Maria que se não aproxime muito de mim, para se não incendiar.
Ela deixou pender desoladamente nos braços o seu pesado molho de rosas:
―Ai Jesus, então estou perdida, que ainda agora prometi á prima Graça jantar cá esta tarde!... Oh Gracinha, por quem és, põe um biombo entre os dois!
Gonçalo gritou, pendurado da varanda, já deliciado com os chistes da prima Maria:
―Não! enfio eu um abat-jour pela cabeça para atenuar o meu brilho!... E o maridinho, os pequenos? Como vai o nobre rancho?
―Vivendo, com algum pão e muita graça de Deus... Então até logo, primo Gonçalo! E seja misericordioso!
E ainda ele ria, encantado―já a prima Maria depois de cochichar e de estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, desapparecêra pela porta envidraçada da sala com a sua elegância esgalgada. Gracinha, lentamente, subiu os três degraus de mármore do jardim. Da varanda, Gonçalo ainda avistou através da ramaria leve, entre as sebes de buxo, o penteador branco, os fartos cabelos cabidos,
relusindo no sol como uma cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas, desapareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.
Mas Gonçalo não se arredou de entre as janelas, limando vagamente as unhas, espreitando pelas cortinas, em uma desconfiança, quase em um terror que o Cavaleiro de novo surgisse na pileca―agora que Gracinha se embrenhara para os lados de esse comodo Mirante, construcção do século XVIII, imitando um Templosinho do Amor, que rematava o longo terraço do jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a calçada permanecia silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do Palacete e do Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da espionagem―certo que a irmã não se mostraria ao Cavaleiro na varandinha do Mirante, assim com os cabelos em desalinho, por cima de um penteador.
E cerrava a porta, quando se encontrou diante dos braços do Padre Sueiro, que o prenderam pela cinta com afago e respeito.
―Oh! meu ingratissimo Padre Sueiro! exclamava Gonçalo, batendo ternamente nas gordas costas do Capelão. Então que feia acção foi esta? Mais de um mez sem aparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre Sueiro já não ha Gonçalinho, ha só Gracinha...
Enternecido, quase com uma lagrima a bailar
nos mansos olhos miúdos, que mais negrejavam entre a frescura rozea da face roliça e a cabecinha branca como algodão―Padre Sueiro sorria, fechando as mãos sobre o peito da batina de alpaca, de onde surdia a ponta de um lenço de quadrados vermelhos. E não lhe escasseara certamente o desejo de ir á Torre. Mas aquele trabalhinho na Biblioteca do Paço do Bispo... Depois o seu rheumatismosito... Emfim a Sr. a D. Graça sempre esperando S. Ex. a, um dia, outro dia...
―Bem, bem! acudiu alegremente Gonçalo, comtanto que o coração não se esquecesse da Torre...
―Ah! esse! murmurou Padre Sueiro com comovida gravidade.
E pelo corredor de paredes azuis, adornadas com gravuras coloridas das batalhas de Napoleão, Gonçalo resumiu as novidades da Torre:
―Como o Padre Sueiro sabe, rebentou aquele escândalo do Relho... E ainda bem, porque conclui um negocio explendido. Imagine! Arrendei ha dias a quinta ao Pereira Brasileiro, ao Pereira da Riosa, por um conto cento e cincoenta mil réis...
O capelão suspendeu a pitada, que colhera em uma caixa de prata dourada, pasmado para o Fidalgo:
―Ora aí está como as coisas se inventam! Pois por cá constou que V. Ex. a
tratara com o José Casco, o José Casco dos Bravães. Até no Domingo, ao almoço, a Sr. a D. Graça...
―Sim, interrompeu o Fidalgo com uma fugidia cor na face fina. Efetivamente o Casco veio á Torre, conversámos. Primeiramente quis, depois não quis. Aquelas coisas do Casco! Einfim, uma massada... Não ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma bela manhã, me apareceu com a proposta, eu, inteiramente desligado, aceitei, e com que alvoroço!... Imagine! Um augmento soberbo de renda, o Pereira como rendeiro... O Padre Sueiro conhece bem o Pereira...
―Homem entendido, concordou o Capelão coçando embaraçadamente o queixo. Não ha dúvida. E homem de bem... Depois não havendo palavra dada ao Cas...
-―Pois o Pereira para a semana vem á cidade, atalhou apressadamente Gonçalo. O Padre Sueiro previne o tabelião Guedes, e assignamos essa bela escritura. São as condições costumadas. Creio que ha uma reserva a respeito da hortaliça e do porco... Emfim o Padre Sueiro deve receber carta do Pereira.
E imediatamente, descendo a escada, passando o lenço perfumado pelo bigode, gracejou com o capelão sobre o famoso Fado dos Ramires em que ele colaborava com o Videirinha. Oh! Padre Sueiro fornecera lendas sublimes! Mas aquela de Santa Aldonça, realmente, fora ataviada com exageração... Quatro Reis a levarem a Santa aos hombros!
―São Reis de mais, Padre Sueiro!
O bom capelão protestou, logo interessado e serio, no amor de aquela obra que glorificava a Casa:
―Ora essa! Com perdão de V. Ex. a... Perfeitissimamente exato. Lá o conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas Damas da Côrte do Céu, livro precioso, livro rarissimo, que o Sr. José Barrôlo tem na Livraria. Não especifica os Reis, mas diz quatro... «Aos hombros de quatro Reis e com acompanhamento de muitos Condes.» Mas o nosso José Videira declarou que não podia meter os Condes por causa da rima.
O Fidalgo ria, dependurando em um cabide, ao fundo da escada, o chapéu de palha com que descêra:
―Por causa da rima, pobres Condes... Mas o fado está lindo. Eu trago uma copia para a Gracinha cantar ao piano... E agora outra coisa, Padre Sueiro. O que se conta por aí do Governador Civil, de esse Sr. André Cavaleiro?...
O capelão encolheu os hombros, desdobrando cautelosamente o seu vasto lenço de quadrados vermelhos:
―Eu, como V. Ex. a sabe, não entendo de Politica. Depois também não frequento os cafés, os sítios onde se questiona Politica... Mas parece que gostam.
No corredor um escudeiro gordo, de opulentas
suissas ruivas, que Gonçalo não conhecia, badalou a sineta do almoço. Gonçalo reparou, avisou o homem que a Sr.. a
D. Maria da Graça andava para o fundo do jardim...
―Entrou agora, Sr.. D. Gonçalo! acudiu o escudeiro. E até manda perguntar se V. Ex. a deseja para o almoço vinho verde de Amarante, de Vidainhos.
Sim, com certeza, vinho de Vidainhos. Depois sorrindo:
―Oh Padre Sueiro, previna este escudeiro novo que eu não tenho Dom. Sou simplesmente Gonçalo, graças a Deus!
O capelão murmurou que todavia, em documentos da Primeira Dynastia, apareciam Ramires com Dom. E, como Gonçalo parara diante do reposteiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas escrupulosas, reverentes ceremonias, para o Fidalgo passar.
―Então, Padre Sueiro, por quem é!
Mas ele, com apegado respeito:
―Depois de V. Ex. a, meu senhor...
Gonçalo afastou o reposteiro, empurrou docemente o capelão:
―Padre Sueiro, já nos documentos da Primeira Dynastia se estabeleceu que os Santos nunca andam atraz dos Pecadores!
―V. Ex. a manda, e sempre com que graça!
Depois dos anos de Gracinha, uma tarde, pelas três horas, Gonçalo, recolhendo com Padre Sueiro de uma visita á Biblioteca do Paço do Bispo, sentiu logo da antecamara o vozeirão do Titó, que rolava na sala azul em trovão lento. Franziu vivamente o reposteiro―e sacudiu o punho para o imenso homem que enchia um dos cadeirões dourados, estirando por sobre as flôres do tapete umas botas novas de grossas tachas reluzentes:
―Oh infame!... Então em outro dia assim me larga, sem escrúpulo, depois de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado em um espeto de cerejeira? E para quê?... Para uma orgia reles, com bolinhos de bacalhau e bichinhas de rabear!
Titó não desmanchou a sua conchegada beatitude:
―Impossibilissimo. De tarde encontrei o João Gouveia no Chafariz. E só então nos lembrámos de que eram os anos da D. Casimira. Dia sagrado!
Aquelas ceias de Vila-Clara, as tresnoutadas «pandegas» com violão, impressionavam sempre Barrôlo, que as apetecia. E com o olho aguçado, do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente pacotes de tabaco dentro de uma terrina do Japão:
―Quem é a D. Casimira? Vocês em Vila-Clara descobrem uns tipos... Conta lá!
―Um monstro! declarou Gonçalo. Uma matronaça bojuda como uma pipa, com um pelo nojento no queixo. Vive ao pé do Cemiterio, em um cacifro que tresanda a petróleo, onde este senhor e as auctoridades vão jogar o quino, e derriçar com umas serigaitas de cazabeque vermelho e de farripas... Nem se póde decentemente contar diante do Sr.. Padre Sueiro!
O capelão, que sem rumor se esbatera em uma sombra discreta, entre os franjados setins de uma cortina e um pesado contador da Índia, moveu os hombros em um consentimento risonho, como acostumado a todas as fealdades do Pecado. E, com pachorra, o Titó emendava o esboço burlesco do Fidalgo:
―A D. Casimira é gorda, mas muito aceada. Até me pediu para eu lhe comprar hoje, na cidade, uma bacia nova de assento. A casa não cheira a petróleo e fica por traz do convento de Santa Teresa. As serigaitas são simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres que gostam de rir e de troçar... E o Sr.. Padre Sueiro podia, sem medo...
―Bem, bem! atalhou Gonçalo. Gente deliciosa! Deixemos a D. Casimira, que tem bacia nova para os seus semicúpios... Vamos á outra infâmia do Sr. Antônio Villalobos!
Mas Barrôlo insistia, curioso:
―Não, não, conta lá, Titó... Noite de anos, patuscada rija, hein?
―Ceia pacata, contou o Titó com a seriedade que lhe merecia a festa das suas amigas. A D. Casimira tinha uma bela frangalhada com ervilhas. O João Gouveia trouxe do Gago uma travessa de bôlos de bacalhau que calharam... Depois, fogo de vistas na horta. O Videirinha tocou, as pequenas cantaram... Não se passou mal.
Gonçalo esperava―irresistivelmente interessado pela ceia das Casimiras:
―Acabou, hein?... Agora a outra infâmia, mais grave! Então o Sr.. Antônio Villalobos é intimo do Sanches Lucena, frequenta todas as semanas a Feitosa, toma chá e torradas com a bela D. Ana, e esconde tenebrosamente dos seus amigos estes privilégios gloriosos?...
―Sem contar, gritou o Barrôlo deliciosamente divertido, que lhe passeia á trela os cãesinhos felpudos!
―Sem contar que lhe passeia á trela os cãesinhos felpudos! echoou cavamente Gonçalo. Responda, meu ilustre amigo!
O Titó remecheu o vasto corpo dentro do cadeirão, recolheu as botas de tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda, que uma vermelhidão aquecêra. E depois de encarar Gonçalo, intensamente, com um esforço de sagacidade que mais o afogueou:
―Tu já alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu conhecia o Sanches Lucena? Nunca me perguntaste...
O Fidalgo protestou. Não! Mas constantemente na Assembleia, no Gago, na Torre, eles berravam, em questões de Politica, o nome do Sanches Lucena! Nada mais natural, até mais prudente, do que aludir o Sr.. Titó á sua intimidade ilustre! Ao menos para evitar que ele, ou os amigos, diante do Sr.. Titó que comia as torradas da Feitosa, tratassem o Sanches Lucena como um trapo!
O Titó despegou do cadeirão. E afundando as mãos nos bolsos da quinzena de alpaca, sacudindo desinteressadamente os hombros:
―Cada um tem sobre o Sanches a sua opinião... Eu apenas o conheço ha quatro ou cinco meses, mas acho que é serio, que sabe as coisas... Agora, lá nas Câmaras...
Gonçalo, indignado, bradava que se não discutiam os méritos do Sr.. Sanches Lucena―mas os segredos do Sr.. Titó Villalobos! E o escudeiro novo, avançando as suissas ruivas por uma fenda do reposteiro, anunciou que o Sr.. Administrador de Vila-Clara procurava Suas Ex. as...
Barrôlo largou logo a terrina de tabaco:
―O Sr.. João Gouveia! Que entre! Bravo! temos cá toda a rapaziada de Vila-Clara!
E Titó, da janela onde se refugiara, lançou o vozeirão, mais troante, abafando a importuna conversa do Sanches e da Feitosa:
―Viemos ambos! Por sinal em uma traquitana infame... Até se nos desferrou uma das pilecas e tivemos de parar na Vendinha. Não se perdeu tempo, que ha agora lá um vinhinho branco que é de aqui da ponta fina!...
Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrôlo e Gonçalo a passarem na Vendinha, para provar a pinga celeste.
―Até aqui o Sr.. Padre Sueiro lhe atiçava uma caneca valente, apesar do Pecado!
Mas João Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco vermelho na testa, do chapéu e do calor―e abotoado na sobrecasaca preta, de calças pretas, de luvas pretas. Sem folego, apertou silenciosamente pela sala as mãos amigas que o acolhiam. E desabou sobre o camapé, implorando ao amigo Barrôlo a caridade de uma bebidinha fresca!
―Estive para entrar no café Monaco. Mas reflecti que em esta grandiosa casa dos Barrôlos as bebidas são de mais confiança.
―Ainda bem! Você que quer? Orchata? Sangria? Limonada?
―Sangria.
E, limpando o pescoço e a testa, amaldiçoou o indecente calor de Oliveira:
―Mas ha gente que gosta! Lá o meu chefe, o Sr.. Governador Civil, escolhe sempre a hora do calor para passear a cavalo. Ainda hoje... Na repartição até ao meio dia; depois, cavalo á porta; e larga até á estrada de Ramilde, que é uma Africa... Não sei como lhe não fervem os miolos!
―Oh! acudiu Gonçalo, é muito simples. Se ele os não tem!
O administrador saudou gravemente:
―Já cá faltava com a sua ferroadasinha o Sr.. Gonçalo Mendes Ramires! Não comecemos, não comecemos... Este seu cunhado, Barrôlo, é bicho indomesticável! Sempre reponta!
O bom Barrôlo gaguejou, constrangido, que Gonçalinho em Politica não dispensava a piada...
―Pois olhe! declarou o administrador, sacudindo o dedo para Gonçalo. Esse Sr.. André Cavaleiro, que não tem miolos, ainda esta manhã na Repartição gabou com imensa simpatia os miolos do Sr.. Gonçalo Mendes Ramires!...
E Gonçalo, muito serio:
―Também não faltava mais nada! Para esse Governador Civil ser perfeitamente absurdo só lhe restava que me considerasse um asno!
―Perdão! gritou o Administrador, que se erguera, desabotoando logo a sobrecasaca, para comodidade da contenda.
Barrôlo acudio, afflicto, carregando nos hombros do Gouveia―para o socegar e o repôr no camapé:
―Não, meninos, não! Politica, não! E então essa massada do Cavaleiro... Vamos ao que importa. Você janta comnosco, João Gouveia?
―Não, obrigado. Já prometi jantar com o Cavaleiro. Temos lá o Ignacio Vilhena. Vai lêr um artigo que escreveu para o Boletim de Guimarães sobre umas formas de fabricar ossos de martyres, descobertas nas obras do convento de S. Bento. Estou com curiosidade... E a Sr.. a
D. Graça, bem? Quem eu não avistava havia meses era o Sr.. Padre Sueiro. Nunca aparece agora pela Torre!... Mas sempre rijo, sempre viçoso. Oh, Sr.. Padre Sueiro, qual é o seu segredo para toda essa meninice?
Do seu canto, o capelão sorriu timidamente. O segredo? Poupar a Vida―não a consumindo nem com ambições nem com decepções. Ora para ele, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito pequenina. E fora o seu reumatismo...
Depois, córando de acanhamento, através das sentenças evangélicas que lhe escapavam:
―Mas mesmo o reumatismo não é mal perdido. Deus, que o manda, sabe porque o manda... Soffrer edifica. Por que enfim o que nós sofremos nos leva a pensar no que os outros sofrem...
―Pois olhe, volveu com alegre incredulidade o Administrador, eu, quando tenho os meus ataques de garganta, não penso na garganta dos outros! Penso só na minha que me dá bastante cuidado. E agora a vou regalar em aquela bela sangria...
O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos de sangria onde boiavam rodelinhas de limão. E todos se tentaram, todos beberam, até Padre Sueiro, para mostrar ao Sr.. Antônio Villalobos que não desdenhava o vinho, dadiva amável de Deus―pois como ensina Tibulo com verdade, apesar de gentílico, vinus facit dites ânimos, molia corda dat, enrija a alma e adoça o coração.
João Gouveia, depois de um suspiro consolado, pousou na bandeja o copo que esvasiára de um trago e interpelou Gonçalo:
―Vamos a saber! Então em outro dia que historia fantástica foi essa de uma festa na Torre, com senhoras, com a D. Ana Lucena?... Eu não acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu o recado. Depois...
Mas de entre as cortinas da janela, onde acabava a sangria, Titó novamente rebombou, interpelando também o Fidalgo:
―Oh sô Gonçalo! E o que me contou ha pouco
o Barrôlo?... Que andavas com idéas de abalar para a Africa?
Ao espanto de João Gouveia quase se misturou terror. Para a Africa?... O quê? Com um emprego para a Africa?...
―Não! plantar côcos! plantar cacau! plantar café! exclamava o Barrôlo, com divertidas palmadas na côxa.
Pois Titó aprovava a idéa! Também ele, se arranjasse um capital, dez ou quinze contos, tentava a Africa, a traficar com o preto... E também se fosse mais pequeno, mais seco. Que homens do seu corpanzil, necessitando muita comezaina e muita vinhaça, não aguentam a Africa, rebentam!
―O Gonçalo sim! É chupado, é rijo; não carrega na água-ardente; está na conta para Africanista... E sempre te digo! Carreira bem mais decente que essa outra por que tens mania, de deputado! Para que? Para palmilhar na Arcada, para bajular Conselheiros.
Barrôlo concordou, com alarido. Também não comprehendia a teima de Gonçalo em ser deputado! Que massada! Eram logo as intrigas, e as desandas nos jornais, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os eleitores.
―Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um titulo e uma gran-cruz a tiracolo, como o Freixomil!
Gonçalo escutara, em um silencio risonho e superior, enrolando laboriosamente um cigarro com o tabaco do Barrôlo:
―Vocês não comprehendem... Vocês não conhecem a organisação de Portugal. Perguntem aí ao Gouveia... Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuida por uma parceria. Como vocês sabem ha parcerias comerciais e parcerias rurais. Esta de Lisboa é uma
parceria politica, que governa a herdade chamada Portugal... Nós os Portuguezes pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem em ela a olhar, como o Barrôlo, e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a parceria, que recebem e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por habito de família, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na parceria politica, o cidadão portuguez precisa uma habilitação―ser deputado. Exactamente como, quando pretende entrar na Magistratura, necessita uma habilitação―ser bacharel. Por isso procuro começar como deputado para acabar como parceiro e governar... Não é verdade, João Gouveia?
O Administrador voltara á bandeja das sangrias, de que saboreava outro copo, agora lentamente, aos goles:
―Sim, com efeito, essa é a carreira... Candidato,
Deputado, Politico, Conselheiro, Ministro, Mandarim. É a carreira... E melhor que a de Africa. Por fim na Arcada, em Lisboa, também cresce cacau e ha mais sombra!
Barrôlo no emtanto abraçara o hombro possante do Titó, com quem mergulhou no vão da janela, em uma confraternidade de ideias, gracejando:
―Pois eu, sem ser dos tais parceiros, também mando nos bocados de Portugal que mais me interessam por que me pertencem!... E sempre queria vêr que esse S. Fulgencio, ou o Braz Victorino, ou lá os políticos do Terreiro do Paço, se metessem a dispôr nas minhas terras, na Ribeirinha ou na Murtosa... Era a tiro!
Encostado á vidraça, Titó coçava a barba, impressionado:
―Pois sim, Barrôlo! Mas você na Ribeirinha
e na
Murtosa tem de pagar as contribuições que eles mandarem. E em esses concelhos tem de aguentar as auctoridades que eles nomearem. E goza para lá de estradas se eles lhas fizerem. E vende o carro de pão e a pipa de vinho com mais ou menos proveito, segundo as leis que eles votarem... E assim tudo. O Gonçalo não deixa de acertar. É o diabo! Quem manda é quem lucra... Olhe! o maroto do meu senhorio em Vila-Clara, agora para o S. Miguel, augmenta a renda da casa em que eu moro, um cochicho que
ninguém quer, por que mataram lá o carrasco, que ainda lá aparece... E o Cavaleiro, esse, como parceiro, vive de graça em este belo palácio de S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta...
Barrôlo atirou um chut, de mão espalmada, abafando o vozeirão do Titó, com medo que as regalias do Cavaleiro, assim proclamadas, renovassem as fúrias de Gonçalo. Mas o Fidalgo não percebera, atento ao João Gouveia, que, enterrado no camapé depois da sangria, novamente contava o seu assombro, ao encontrar no chafariz, em Vila-Clara, o rapasola do Gago com o recado da grande festa na Torre:
―E cheguei a desconfiar que realmente você desse festa, quando bateram as nove, depois as nove e meia, e o Titó sem chegar para a ceia da D. Casimira!... Bem, pensei, também recebeu recado e abalou para a Torre! Por fim, apenas ele apareceu, de carapuço e de jaqueta, percebi que fora troça do Sr.. D. Gonçalo...
Então o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:
―De carapuço e jaqueta? O Titó andava em essa noite de carapuço e de jaqueta?...
Mas bruscamente Barrôlo, da funda janela, lançou para dentro, para a sala, um brado de pavor:
―Oh! rapazes! Santo Deus! Aí veem as Louzadas!
João Gouveia saltou do camapé, como em um perigo, reabotoando arrebatadamente a sobrecasaca; Gonçalo, atarantado, esbarrou com o Titó e o Barrôlo que recuavam, no terror de serem apercebidos através dos vidros largos; até Padre Sueiro, prudente, abandonou o seu recanto onde corria os óculos pela Gazeta do Porto. E todos, de entre a fenda das cortinas, como soldados na fresta de uma cidadela, espreitavam o Largo, que o sol das quatro horas dourava por sobre os telhados musgosos da Cordoaria. Do lado da rua das Pêgas, as duas Louzadas, muito esgalgadas, muito sacudidas, ambas com manteletes curtos de seda preta e vidrilhos, ambas com guarda-sóis de xadresinbo desbotado, avançavam, estirando pelo largo empedrado duas sombras agudas.
As duas manas Louzadas! Seccas, escuras e garrulas como cigarras, desde longos anos, em Oliveira, eram elas as esquadrinhadoras de todas as vidas, as espalhadoras de todas as maledicências, as tecedeiras de todas as intrigas. E na desditosa Cidade não existia nodoa, pécha, bule rachado, coração dorido, algibeira arrasada, janela entreaberta, poeira a um canto, vulto a uma esquina, chapéu estreado na missa, bolo encomendado nas Mathildes, que os seus quatro olhinhos furantes de azeviche sujo não descortinassem―e que a sua solta lingoa, entre os dentes ralos, não comentasse com malicia estridente!
de elas surdiam todas as cartas anonimas que infestavam o Districto: as pessoas devotas consideravam como penitencias essas visitas em que elas durante horas galravam, abanando os braços escanifrados: e sempre por onde elas passassem ficava latejando um sulco de desconfiança e receio. Mas quem ousaria rechaçar as duas manas Louzadas? Eram filhas do decrepito e venerando General Louzada; eram parentas do Bispo; eram poderosas na poderosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E depois de uma castidade tão rígida, tão antiga e tão resequida, e por elas tão espaventosamente alardeada―que o Marcolino do Independente
as alcunhara de Duas Mil Virgens.
―Não veem para cá! trovejou o Titó, com imenso alivio.
Com efeito no meio do Largo, rente á grade que circumda o antigo Relógio-de-Sol, as duas manas paradas, erguiam o bico escuro, farejando e espiando a Egrejinha de S. Mateus onde o sino lançara um repique de batizado.
―Oh, c'os diabos, que é para cá!
As Louzadas, decididas, investiam contra o portão dos Cunhaes! Então foi um panico! As gordas pernas do Barrôlo, fugindo, abalaram, quase derrubaram sobre os contadores, os potes bojudos da Índia. Gonçalo bradava que se escondessem no pomar.
Desconcertado, o Gouveia rebuscava com desespero o seu chapéu côco. Só o Titó, que as abominava e a quem elas chamavam o Polifemo, retirou com serenidade, abrigando o Padre Sueiro sob o seu braço forte. E já o bando espavorido se arremessara sobre o reposteiro―quando Gracinha apareceu, com um fresco vestido de sedinha cor de morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que rolava:
―Que foi? Que foi?...
Um clamor abafado envolveu a dôce senhora ameaçada:
―As Louzadas!
―Oh!
Fugidiamente o Titó e João Gouveia apertaram a mão que ela lhes abandonou, esmorecida. A sineta do portão tilintara, temerosa! E a fila acavalada, onde Padre Sueiro rebolava a reboque, enfiou para a livraria que o Barrôlo aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma inspiração:
―Esconde as sangrias!
Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou ela para uma banqueta do corredor, em um esforço desesperado, a pesada salva―com que as Louzadas, se a descortinassem, edificariam por sobre a cidade, e mais alta que a Torre de S. Mateus, uma historia pavorosa de «vinhaça e bebedeira». Depois, ofegando, relanceou no
espelho o penteado. E direita como em uma arena, com a temeridade simples e risonha dos antigos Ramires, esperou a arremetida das manas terríveis.
No outro domingo, depois do almoço, Gonçalo acompanhou a irmã a casa da tia Arminda Villegas, que na véspera, ao tomar (como costumava todos os sabbados) o seu banho aos pés, se escaldara e recolhera á cama, apavorada, reclamando uma junta dos cinco cirurgiões de Oliveira. Depois acabou o charuto sob as acácias do Terreiro da Louça, pensando na sua Novela abandonada na Torre durante essas semanas, e no lance famoso do Capítulo II que o tentava e que o assustava―o encontro de Lourenço Ramires com Lopo de Bayão, o Bastardo, no Vale fatal de Cantapedra. E recolhia aos Cunhaes (porque prometera ao Barrôlo uma trotada a cavalo, até ao Pinhal de Estevinha, para aproveitar a doçura do domingo enevoado) quando, na rua das Vellas, avistou o tabelião Guedes, que saia da confeitaria das Mathildes com um grosso embrulho de pasteis. Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua―enquanto o Guedes, da borda do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins miudinhos gaspeados de verniz, descobria, em uma cortesia imensa, a calva, emplumada
ao meio pelo famoso tufo de cabelo grisalho que lhe valera a alcunha de «Guedes Pôpa»:
―Por quem é, meu caro Guedes, ponha o chapéu! Como está? Sempre féro e moço. Ainda bem!... Falou com o meu Padre Sueiro? O Pereira da Riosa, por fim, só vem á cidade na quarta feira...
Sim! Sim! O Sr.. Padre Sueiro passara pelo cartório, para avisar―e ele apresentava os parabéns a S. Ex. a
pelo seu novo rendeiro...
―Homem muito competente, o Pereira! Já ha vinte anos que o conheço... E olhe V. Ex. a a propriedade do Conde de Monte-Agra! Ainda me lembro de ela, um chavascal; hoje que primor! Só a vinha que ele tem plantado! Homem muito competente... E V. Ex. a
com demora?
―Dois ou três dias... Não se atura este calor de Oliveira. Hoje, felizmente, refrescou. E que ha de novo? Como vai a politica? O amigo Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, hein?
Subitamente o Tabellião, com o seu embrulho de doces conchegado ao colete de seda preta, agitou o braço gordo e curto, em uma indignação que lhe esbraseou de sangue o pescoço, as orelhas cabeludas, a face rapada, toda a testa até ás abas do chapéu branco orlado de fumo negro:
―E quem o não há de ser, Sr.. Gonçalo Mendes Ramires? Quem o não há de ser?... Pois este último escândalo!
Os risonhos olhos de Gonçalo logo se alargaram, sérios:
―Que escândalo?
O Tabellião recuou. Pois S. Ex. a
não sabia da última prepotencia do Governador Civil, do Sr.. André Cavaleiro?
―O quê, caro amigo?...
O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e inchou, para exclamar:
―A transferência do Noronha!... A transferência do desgraçado Noronha!
Mas uma senhora, também obesa, de buço carregado, toda a estalar em ricas e rugidoras sedas de missa, arrastando severamente pela mão um menino que rabujava, parou, fitou o Guedes―porque o digno homem com o seu ventre, o seu embrulho, a sua indignação, atravancava a entrada das Mathildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para ela entrar, o fecho da porta envidraçada. Depois, em um alvoroço:
―O amigo Guedes naturalmente vai para casa. É o meu caminho. Andamos e conversamos... Ora essa! Mas o Noronha... Que Noronha?
―O Ricardo Noronha... V. Ex. a conhece. O pagador das Obras-Publicas!
―Ah! sim, sim... Então transferido? Transferido arbitrariamente?
Na rua das Brocas por onde desciam, no silencio, a solidão das lojas cerradas, a cólera do Guedes resoou, mais solta:
―Infamemente, Sr.. Gonçalo Mendes Ramires, infamissimamente! E para Almodovar, para os confins do Alemtejo!... Para uma terra sem recursos, sem distracções, sem famílias!...
Parára, com os doces contra o coração, os olhinhos esbugalhados para o Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um empregado trabalhador, honradissimo! E sem Politica, absolutamente sem Politica. Nem dos Historicos, nem dos Regeneradores. Só da família, das três irmãs que sustentava, três flôres... E homem estimadissimo na cidade, cheio de prendas! Um talento imenso para a musica!... Ah! o Sr.. Gonçalo Ramires não sabia? Pois compunha ao piano coisas lindas! Depois precioso para reuniões, para anos. Era ele quem organisava sempre em Oliveira as representações de curiosos...
―Porque, como ensaiador, creia V. Ex. a que não ha outro, mesmo na capital... Não ha outro! E, zás, de repente, para Almodovar, para o Inferno, com as irmãs, com os tarecos! Só o piano!... Veja V. Ex. a só o transporte do piano!
Gonçalo resplandecia:
―É um belo escândalo. Ora que felicidade esta de o ter encontrado, meu caro Guedes!... E não se sabe o motivo?
De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o tabelião encolhia os hombros, com amargura. O motivo! Publicamente, como sempre em estas prepotencias, o motivo era a conveniência do Serviço...
―Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o verdadeiro motivo... O intimo, o secreto, o medonho!
―Então?
Guedes relanceou a rua, com prudencia. Uma velha atravessava, coxeando, segurando uma bilha. E o tabelião segredou cavamente, junto á face deslumbrada do fidalgo.―É que o Sr.. André Cavaleiro, esse infame, se encantara com a mais velha das irmãs Noronhas, a D. Adelina, formosissima rapariga, alta e morena, uma estatua!... E repelido (porque a menina, cheia de juízo, uma perola, percebera a intenção villissima) em quem se vinga, por despeito, o Sr.. Governador Civil? No pagador! Para Almodovar com as meninas, com os tarecos!... Era o pagador quem pagava!
―É uma bela maroteira! murmurou Gonçalo, banhado de gosto e riso.
―E note V. Ex. a! exclamava o Guedes, com a mão gorda a tremer por cima do chapéu. Note V. Ex. a que o pobre Noronha, na sua inocência, tão bom homem, gostando sempre de agradar aos seus chefes,
ainda ha semanas dedicara ao Cavaleiro uma valsa linda!... A Mariposa, uma valsa linda!
Gonçalo não se conteve, esfregou as mãos em um triunfo:
―Mas que preciosa maroteira!... E não se tem falado? Esse jornal de oposição, o Clarim de Oliveira, nem uma denuncia, nem uma alusão?...
O Guedes pendeu a cabeça, descorçoado. O Sr.. Gonçalo Ramires conhecia bem essa gente do Clarim... Estylo―e estilo brincado, opulento... Mas para assoalhar, assim em um caso gravissimo como o do Noronha, a verdade bem nua―pouco nervo, nenhuma valentia. E depois o Biscainho, o redator principal, andava a passar surrateiramente para os Historicos. Ah! O Sr.. Gonçalo Mendes Ramires não se inteirara? Pois esse torpissimo Biscainho bolinava. De certo o Cavaleiro lhe acenara com posta... Além de isso, como provar a infâmia? Coisas intimas, coisas de família. Não se podia apresentar a declaração da D. Adelina, menina virtuosissima―e com uns olhos!... Ah! se fosse no tempo do Manoel Justino e da Aurora de Oliveira!... Esse era homem para estampar logo na primeira pagina, em letra graúda: «Alerta! que a Autoridade superior do Districto tentou levar a desonra ao seio da família Noronha!...»
―Esse era um homem! Coitado, lá está no cemitério de S. Miguel... E agora, Sr.. Gonçalo Ramires, o despotismo campeia, desenfreado!
Bufava, arfava, esfalfado de aquele fogoso desabafo. Dobraram calados a esquina das Brocas para a bela rua, novamente calçada, da Princeza D. Amelia. E logo na segunda porta, parando, tirando da algibeira o trinco, o Guedes, que ainda resfolgava, ofereceu a S. Ex. a
para descançar.
―Não, não, obrigado, meu caro amigo. Tive imenso, imenso prazer, em o encontrar... Essa historia do Noronha é tremenda!... Mas nada me espanta do Sr.. Governador Civil. Só me espanta que o não tenham corrido de Oliveira, como ele merece, com pancada e assuada... Emfim, nem toda a gente boa jaz no cemitério de S. Miguel... Até amanhã, meu Guedes. E obrigado!
Da rua da Princeza D. Amelia até o Largo de El-Rei, Gonçalo correu com o deslumbramento de quem descobrisse um tesouro e o levasse debaixo da capa! E aí levava com efeito o «escândalo, o rico escândalo», que tanto farejara, por que tanto almejara, para desmantelar o Sr.. Governador Civil na sua fiel cidade de Oliveira que lhe levantava arcos de buxo! E, por uma mercê de Deus, o «rico escândalo» demoliria também o homem no coração de Gracinha, onde, apesar do antigo ultraje, ele permanecia como um bicho em um fructo, esfuracando e estragando... E não duvidava da eficacia do escândalo! Toda a cidade se revoltaria contra a Authoridade
femieira, que oprime, desterra um funcionário admirável―por que a irmã do pobre senhor se recusou á baba dos seus beijos. E Gracinha?... Como resistiria Gracinha àquele desengano―o seu antigo André abrazado pela menina Noronha e por ela repelido com nôjo e com mófa? Oh! o escândalo era soberbo! Só restava que estalasse, bem ruidoso, sobre os telhados de Oliveira e sobre o peito de Gracinha como trovão benéfico que limpa ares corrompidos. E de esse trovão, rolando por todo o Norte, se encarregava ele com delicia. Libertava a cidade de um Governador detestável, Gracinha de um sonho errado. E assim, com uma certeira penada, trabalhava pro pátria et pro domo!
Nos Cunhaes correu ao quarto do Barrôlo, que se vestia trauteando o Fado dos Ramires, e gritou através da porta com uma decisão flamejante:
―Não te posso acompanhar á Estevinha. Tenho que escrever urgentemente. E não subas, não me perturbes. Necessito socego!
Nem atendeu aos protestos desolados com que o Barrôlo acudira ao corredor, em ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto, depois de despir rapidamente o casaco, de excitar a testa com um borrifo de água de Colonia, abancou á mesa―onde Gracinha colocava sempre entre flores, para ele trabalhar, o monumental tinteiro de prata que pertencera ao tio Melchior.
E sem emperrar, sem rascunhar, em um de esses soltos fluxos de Prosa que brotam da paixão, improvisou uma Correspondencia rancorosa para a Gazeta do Porto
contra o Sr.. Governador Civil. Logo o titulo fulminava― Monstruoso atentado! Sem desvendar o nome da família Noronha, contava miudamente, como um ato certo e por ele testemunhado, «a tentativa villôa e baixa da primeira Autoridade do Districto contra a pudicícia, a paz de coração, a honra de uma doce rapariga de dezesseis primaveras!» Depois era a resistência desdenhosa―«que a nobre criança oppuzera ao Don Juan administrativo, cujos belos bigodes são o espanto dos povos!» Por fim vinha―«a desforra torpe e sem nome que S. Ex. a tomara sobre o zeloso empresado (que é também um talentoso artista), obtendo de este nefasto Governo que fosse transferido, ou antes arrojado, cruelmente exilado, com a família de três delicadas senhoras, para os confins do Reino, para a mais árida e escassa das nossas Provincias, por o não poder empacotar para a Africa no porão sórdido de uma fragata!» Lançava ainda alguns rugidos sobre «a agonia politica de Portugal». Com pavor triste, recordava os peiores tempos do Absolutismo, a inocência soterrada nas masmorras, o prazer desordenado do Príncipe sendo a expressão única da Lei! E terminava perguntando ao Governo se cobriria este seu agente―«este grotesco Nero, que
como outr'ora o outro, o grande, em Roma, tentava levar a seducção ao seio das famílias melhores, e cometia esses abusos de poder, motivados por lascívias de temperamento, que foram sempre, em todos os séculos e todas as civilisações, a execração do justo!»―E assignava Juvenal.
Eram quase seis horas quando desceu á sala, ligeiro e resplandecente. Gracinha martelava o piano, estudando o Fado dos Ramires. E Barrôlo (que não se arriscara a um passeio solitário) folheava, estendido no camapé, uma famosa Historia dos Crimes da Inquizição que começara ainda em solteiro.
―Estou a trabalhar desde as duas horas! exclamou logo Gonçalo, escancarando a janela. Fiquei derreado. Mas, louvado seja Deus, fiz obra de Justiça... de esta vez o Sr.. André Cavaleiro vai abaixo do seu cavalo!
Barrôlo fechou imediatamente o livro, com o cotovelo nas almofadas, inquieto:
―Houve alguma coisa?
E Gonçalo, plantado diante de ele, com um risinho suave, um risinho feroz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:
―Oh! quase nada. Uma bagatela. Apenas uma infâmia... Mas para o nosso Governador Civil infâmias são bagatelas.
Sob os dedos de Gracinha o Fado dos Ramires
esmoreceu, apenas roçado, em um murmurio incerto.
O Barrôlo esperava, esgaseado:
―Desembucha!
E Gonçalo desabafou, com estrondo:
―Pois uma maroteira imensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha, perseguido, espesinhado, expulso! Com a família... Para o inferno, para o Algarve!
―O Noronha pagador?
―O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!
E, regaladamente, desenrolou a historia lamentável. O Sr.. André Cavaleiro namoradissimo, todo em chamas pela irmã mais velha do Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos, estropidos cada manhã por diante da janela, a ladear na pileca! Até lhe soltara, ao que parece, uma velha marafona, uma alcoviteira... E a rapariga, um anjo cheio de dignidade, impassível. Nem se revoltava, apenas se ria. Era uma troça em casa das Noronhas, ao chá, com a leitura da versalhada ardente em que ele a tratava de «Ninfa, de Estrela da tarde...» Emfim uma sordidez funambulesca!
O pobre Fado dos Ramires debandou pelo teclado, em um tumulto de gemidos desconcertados e ásperos.
―E eu não ter ouvido nada! murmurava o Barrôlo, assombrado. Nem no Club, nem na Arcada...
―Pois, meu amiguinho, quem ouviu, e um famoso estampido, foi o pobre Noronha. Arremessado para o fundo do Alemtejo, para um sitio doentio, coalhado de pântanos. É a morte... É uma condemnação á morte!
A esta aparição da Morte, surdindo dos pântanos, Barrôlo atirou uma palmada ao joelho, desconfiado:
―Mas quem diabo te contou tudo isso?
O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com desdem, com piedade:
―Quem me contou!? E quem me contou que D. Sebastião morreu em Alcacer-Kebir?... São os factos. É a Historia. Toda Oliveira sabe. Por acaso ainda esta manhã o Guedes e eu conversamos sobre o caso. Mas eu já sabia!... E tenho tido pena. Que diabo! Não ha crime em se estar apaixonado como o pobre André. Louco, perdido! Até a chorar na Repartição, diante do Secretario Geral. E a rapariga ás gargalhadas!... Agora onde ha crime, e horrendo, é na perseguição ao irmão, ao pagador, empregado excelente, de um talento raro... E o dever de todo o homem de bem, que prese a dignidade da Administração e a dignidade dos costumes, é denunciar a infâmia... Eu, pela minha parte, cumpri esse bom dever. E com certo brilho, louvado Deus!
―Que fizeste?
―Enterrei na ilharga do Sr.. Governador Civil a minha boã pena de Toledo, até á rama!
O Barrôlo, impressionado, beliscava a pele do pescoço. O piano emudecera: mas Gracinha não se movia do môcho, com os dedos entorpecidos nas teclas, como esquecida diante da larga folha onde se enfileiravam, na letra apurada do Videirinha, as quadras triunfais dos Ramires. E subitamente Gonçalo sentiu em aquela imobilidade sufocada o despeito que a trespassava. Sensibilisado, para a libertar, lhe poupar algum soluço escapando irresistivelmente, correu ao piano, bateu com carinho nos pobres hombros vergados que estremeceram:
―Tu não dás conta de esse lindo fado, rapariga! Deixa, que eu te cantarolo uma quadra, á boã moda do Videirinha... Mas primeiramente sê um anjo... Grita aí no corredor que me tragam um copo de água bem fresca do Poço Velho.
Ensaiou as teclas, entoou versos, ao acaso, em um esforço esganiçado:
Ora na grande batalha,
Quatro Ramires valentes...
Gracinha desaparecera por uma fenda do reposteiro, sem rumor. Então o bom Barrôlo, que diante da sua terrina da Índia enrolava um cigarro
com pensativo cuidado, correu, desafogou, debruçado sobre Gonçalo, da certeza que lentamente o invadira:
―Pois, menino, sempre te digo... Essa irmã do Noronha é um mulherão soberbo! Mas o que eu não acredito é que ela se fizesse arisca. Com o Cavaleiro, bonito rapaz, Governador civil?... Não acredito. O Cavaleiro saboreou!
E com as bochechas lusidias de admiração:
―Aquele velhaco! Para cavalos e para mulheres não ha outro, em Oliveira!