Capítulo V
A Gazeta do Porto, com a Correspondencia vingadora, devia desabar sobre Oliveira na quarta-feira de manhã, dia dos anos da prima Maria Mendonça. Mas Gonçalo, ainda que não temesse (resalvado pelo seu pseudônimo de Juvenal ) uma briga grosseira com o Cavaleiro nas ruas da Cidade, nem mesmo com algum dos seus partidários servis e façanhudos como o Marcolino do Independente― recolheu discretamente a Santa Ireneia na terça-feira, a cavalo, acompanhado pelo Barrôlo até á Vendinha, onde ambos provaram o vinho branco celebrado pelo Titó. Depois, para recordar os logares memoraveis em que na sua Novela se encontravam, com desastrado choque de armas, Lourenço Ramires e o Bastardo de Bayão―tomou o caminho que, atravessando os pomares da espalhada aldêa de Canta-Pedra, entronca na estrada dos Bravães.
em um trote folgado passara á Fabrica de Vidros, depois o Cruzeiro sempre coberto pelas pombas que esvoaçam do pombal da Fabrica. E entrava no logar de Nacejas―quando, á janela de uma casinha muito limpa, rodeada de parreiras, apareceu uma linda rapariga, morena e fina, com jaqué de pano azul e lenço de cambraieta bordada sobre fartos bandós ondeados. Gonçalo, sopeando a égua, saudou, sorriu suavemente:
―Perdão, minha menina... Vou bem por aqui, para Canta-Pedra?
―Vai, sim senhor. Em baixo, á ponte, mete para a direita, para os álamos. E é sempre a seguir...
Gonçalo suspirou, gracejando:
―Antes desejava ficar!
A moça corou. E o Fidalgo ainda se torceu no selim para gozar a fina face morena, entre os dois craveiros da janelinha, na casa tão bem caiada.
em esse momento, ao lado, de uma quelha enramada, desembocava um caçador do campo, de jaleca e barrete vermelho, com a espingarda atravessada nas costas, seguido por dois perdigueiros. Era um latagão airoso, que todo ele, no bater dos sapatões brancos, no menear da cinta enfaixada em seda, no levantar da face clara de suissas louras, transbordava de presumpção e pimponice.
em um relance surprehendeu o sorriso, a atenção galante do Fidalgo. E estacou, pregando sobre ele, com lenta arrogância, os belos olhos pestanudos. Depois passou desdenhosamente, sem se arredar da égua na ladeira estreita, quase raspando pela perna do Fidalgo o cano da caçadeira. Mas adiante ainda atirou uma tossidela seca e de chasco―com um bater mais petulante dos tacões.
Gonçalo picou a egoa, colhido logo por aquele desgraçado temor, aquele desmaiado arrepio da carne, que sempre, ante qualquer risco, qualquer ameaça, o forçava irresistivelmente a encolher, a recuar, a abalar. Em baixo, na ponte, desesperado contra a sua timidez, deteve o trote, espreitou para traz, para a branca casa florida. O mocetão parara, encostado á espingarda, sob a janela onde a rapariga morena se debruçava entre os dois vasos de cravos. E assim encostado, depois de rir para a moça, acenou ao Fidalgo, em um desafio largo, com a cabeça alta, a borla do barrete toda espetada como uma crista flamante.
Gonçalo Mendes Ramires meteu a galope pelo copado caminho de álamos que acompanha o riacho das Donas. Em Canta-Pedra nem se demorou a estudar (como tencionava para proveito da sua Novela) o Vale, a ribeira espraiada, as ruínas do Mosteiro de Recadães sobre a colina, e no cabeço fronteiro o
moinho que assenta sobre as denegridas pedras da antiga e tão falada Honra de Avellans. De resto o céu, cinzento e abafado desde manhã, entenebrecia para os lados de Craquede e de Vila-Clara. Um bafo môrno remexeu a folhagem sedenta. E já gotas pesadas se esmagavam na poeira―quando ele, sempre galopando, entrou na estrada dos Bravães.
Na Torre encontrou uma carta do Castanheiro. O patriota andava por saber «se essa Torre de D. Ramires se erguia emfim para honra das letras, como a outra, a genuína, se erguera outr'ora, em séculos mais ditosos, para orgulho das armas...» E acrescentava em um Post-Scriptum ―«Planeio imensos cartazes, pregados a cada esquina de cada cidade de Portugal, anunciando em letras de covado a aparição salvadora dos Anais! E, como tenciono prometer em eles aos povos a sua preciosa Novellasinha, desejo que o amigo Gonçalo me informe se ela tem, á moda de 1830, um saboroso sub-titulo, como Episodios do século XII, ou Crônica do Reinado de Affonso II, ou Scenas da Meia-Idade Portuguesa... Eu voto pelo sub-titulo. Como o sub-solo em um edifício, o sub-titulo em um livro alteia e dá solidez. Á obra, pois, meu Ramires, com essa sua imaginação feracissima!...»
Esta invenção de imensos cartazes, com o seu nome e o titulo da sua Novela em letras de cores
estridentes, enchendo cada esquina de Portugal, deleitou o Fidalgo. E logo em essa noite, ao rumor da chuva densa que estalava na folhagem dos limoeiros, retomou o seu manuscripto, parado nas primeiras linhas, amplas e sonoras, do Cap. II...
Através de elas, e na frescura da madrugada, Lourenço Mendes Ramires, com o troço de cavaleiros e peonagem da sua mercê, corria sobre Monte-Mór em socorro das senhoras Infantas. Mas, ao penetrar no Vale de Canta-Pedra, eis que o esforçado filho de Tructesindo avista a mesnada do Bastardo de Bayão, esperando desde alva (como anunciara Mendo Pais) para tolher a passagem.―E então, em esta sombria Novela de sangue e homizios, brotava inesperadamente, como uma rosa na fenda de um bastião, um lance de amor, que o tio Duarte cantara no Bardo
com dolente elegância.
Lopo de Bayão, cuja beleza loura de fidalgo godo era tão celebrada por toda a terra de Entre Minho-e-Douro que lhe chamavam o Claro-Sol, amara arrebatadamente D. Violante, a filha mais nova de Tructesindo Ramires. Em dia de S. João, no solar de Lanhoso, onde se celebravam lides de toiros e jogos de tavolagem, conhecera ele a donzela explendida, que o tio Duarte no seu Poemeto louvava com deslumbrado encanto:
Que liquido fulgor dos negros olhos!
Que fartas tranças de lustroso ébano!
E ela, certamente, rendera também o coração àquele moço resplandecente e cor de ouro, que, em essa tarde de festa, arremessando o rojão contra os toiros, ganhara duas fachas bordadas pela nobre Dona de Lanhoso―e á noite, no sarau, se requebrara com tão repicado garbo na dança dos Marchatins... Mas Lopo era bastardo, de essa raça de Bayão, inimiga dos Ramires por velhissimas brigas de terras e precedencias desde o conde D. Henrique―ainda assanhadas depois, durante as contendas de D. Tareja e de Affonso Henriques, quando na curia dos Barões, em Guimarães, Mendo de Bayão, bandeado com o Conde de Trava, e Ramires o
Cortador, colaço do moço Infante, se arrojaram ás faces os guantes ferrados. E, fiel ao ódio secular, Tructesindo Ramires recusara com áspera arrogância a mão de Violante ao mais velho dos de Bayão, um dos valentes de Silves, que pelo Natal, na Alcaçova de S. ta
Ireneia, lha pedira para Lopo, seu sobrinho, o Claro-Sol, oferecendo avenças quase submissas de aliança e doce paz. Este ultraje revoltara o solar de Bayão―que se honrava em Lopo, apesar de bastardo, pelo lustre da sua bravura e graça galante. E então Lopo ferido doridamente no seu coração, mais furiosamente no seu orgulho, para fartar o esfaimado desejo, para infamar o claro nome dos Ramires―tentou raptar D. Violante. Era na primavera, com todas as veigas do
Mondego já verdes. A donosa senhora, entre alguns escudeiros da Honra e parentes, jornadeava de Treixedo ao mosteiro de Lorvão, onde sua tia D. Branca era abbadeça... Languidamente, no Bardo, descantara o tio Duarte o romântico lance:
Junto á fonte mourisca, entre os ulmeiros,
A cavalgadura para...
E junto aos ulmeiros da fonte surgira o Claro-Sol ―que, com os seus, espreitava de um cabeço! Mas, logo no começo da curta briga, um primo de D. Violante, o agigantado Senhor dos Paços de Avellim, o desarmou, o manteve um momento ajoelhado sob o lampejo e gume da sua adaga. E com vida perdoada, rugindo de surda raiva, o Bastardo abalou entre os poucos solarengos que o acompanhavam em esta afouta arremetida. Desde então mais fero ardera o rancor entre os de Bayão e os Ramires. E eis agora, em esse começo da Guerra das Infantas, os dois inimigos rosto a rosto no Vale estreito de Canta-Pedra! Lopo com um bando de trinta lanças e mais de cem besteiros da Hoste Real. Lourenço Mendes Ramires com quinze cavaleiros e noventa homens de pé do seu pendão.
Agosto findava: e o demorado estio amarelecera toda a relva, as pastagens famosas do Vale, até a folhagem de amieiros e freixos pela beira do riacho
das Donas que s'arrastava entre as pedras lustrosas, em fios escassos, com dormido murmurio. Sobre um outeiro, dos lados de Ramilde, avultava, entre possantes ruínas erriçadas de sarças, a denegrida Torre Redonda, resto da velha Honra de Avellans, incendiada durante as cruas rixas dos de Salzedas e dos de Landim, e agora habitada pela alma gemente de Guiomar de Landim, a Mal-casada. No cabeço fronteiro e mais alto, dominando o Vale, o mosteiro de Recadães estendia as suas cantarias novas, com o forte torreão, asseteado como o de uma fortaleza―de onde os monges se debruçavam, espreitando, inquietos com aquele coriscar de armas que desde alva enchia o Vale. E o mesmo temor acossara as aldeias chegadas―porque, sobre a crista das colinas, se apressavam para o santo e murado refugio do convento gentes com trouxas, carros toldados, magras filas de gados.
Ao avistar tão rijo troço de cavaleiros e peões, espalhado até á beira do riacho por entre a sombra dos freixos, Lourenço Ramires sofreou, susteve a leva, junto de um montão de pedras onde apodrecia, encravada, uma tosca cruz de pau. E o seu esculca que largara rédeas soltas, estirado sob o escudo de couro, para reconhecer a mesnada―logo voltou, sem que frecha ou pedra de funda o colhessem, gritando:
―São homens de Bayão e da Hoste Real!
Tolhida pois a passagem! E em que desigualado recontro! Mas o denodado Ramires não duvidou avançar, travar peleja. Sósinho que assomasse ao Vale, com uma quebradiça lança de monte, arremeteria contra todo o arraial do Bastardo...―No emtanto já o adail de Bayão se adeantára, curveteando no rosilho magro, com a espada atravessada por cima do morrião que penas de garça emplumavam. E pregoava, atroava o Vale com o rouco pregão:
―Deter, deter! que não ha passagem! E o nobre senhor de Bayão, em recado de El-Rey e por mercê de Sua Senhoria, vos guarda vidas salvas se volverdes costas sem rumor e tardança!
Lourenço Ramires gritou:
―A ele, besteiros!
Os virotes assobiaram. Toda a curta ala dos cavaleiros de Santa-Ireneia tropeou para dentro do Vale, de lanças ristadas. E o filho de Tructesindo, erguido nos estribões de ferro, debaixo do pano solto do seu pendão que apressadamente o alferes sacara da funda, descerrou a vizeira do casco para que lhe mirassem bem a face destemida, e lançou ao Bastardo injúrias de furioso orgulho:
―Chama outros tantos dos vilões que te seguem que, por sobre eles e por sobre ti, chegarei esta noite a Monte-Mór!
E o Bastardo, no seu fouveiro, que uma rêde de
malha cobria, toda acairelada de ouro, atirava a mão calçada de ferro, clamava:
―Para traz, de onde vieste, voltarás, bulrão traidor, se eu por mercê mandar a teu pai o teu corpo em umas andas!
Estes feros desafios rolavam em versos serenamente compassados no Poemeto do Tio Duarte. E depois de os reforçar, Gonçalo Mendes Ramires, (sentindo a alma enfunada pelo heroísmo da sua raça como por um vento que sopra de funda compina) arrojou um contra o outro os dois bandos valorosos. Grande briga, grande grita...
―Ala! Ala!
―Rompe! Rompe!
―Cerra por Bayão!
―Casca pelos Ramires!
Através da grossa poeirada e do alevanto zunem os garruchões, as rudes balas de barro despedidas das fundas. Almogavres de Santa-Ireneia, almogavres da Hoste Real, em turmas ligeiras, carregam, topam, com baralhado arremesso de ascumas que se partem, de dardos que se cravam: e ambas logo refogem, refluem―em quanto, no chão revolto, algum mal-ferido estrebucha aos urros, e os atordoados cambaleando buscam, sob o abrigo do arvoredo, a fresquidão do riacho. Ao meio, no embate mais nobre da peleja, por cima dos corceis que se empinam, arfando
ao peso das coberturas de malha, as lisas pranchas dos montantes lampejam, retinem, embebidas nas chapas dos broqueis:―e já, dos altos arções de couro vermelho, desaba algum hirto e chapeado senhor, com um baque de ferragens sobre a terra mole. Cavaleiros e infanções, porém, como em um torneio, apenas terçam lanças para se derribarem, abolados os arnezes, com clamores de excitada ufania: e sobre a vilanagem contraria, em quem cevam o furor da matança, se abatem os seus espadões, se despenham as suas achas, esmigalhando os cascos de ferro como bilhas de grêda.
Por entre a pionagem de Bayão e da Hoste Real Lourenço Ramires avança mais levemente que ceifeiro apressado entre herva tenra. A cada arranque do seu rijo murzelo, alagado de espuma, que sacode furiosamente a testeira rostrada―sempre, entre pragas ou gritos por Jesus!
um peito verga trespassado, braços se retorcem em agonia. Todo o seu afan era chocar armas com Lopo. Mas o Bastardo, tão arremessado e afrontador em combate, não se arredara em essa manhã da lomba do outeiro onde uma fila de lanças o guardava, como uma estacada: e com brados, não com golpes, aquentava a lide! No ardor desesperado de romper a viva cerca Lourenço gastava as forças, berrando roucamente pelo Bastardo com os duros ultrajes de churdo! e marrano!
Já de entre
a trama falseada do camalho lhe borbulhavam do hombro, pela loriga, fios lentos de sangue. Um lanço de virotão, que lhe partira as charneiras da greva esquerda, fendera a perna de onde mais sangue brotava, ensopando o forro de estopa. Depois, varado por uma frecha na anca, o seu grande ginete abateu, rolou, estalando no escoucear as cilhas pregueadas. E, desembrulhado dos loros com um salto, Lourenço Ramires encontrou em roda uma sebe erriçada de espadas e chuços, que o cerraram―em quanto do outeiro, debruçado na sela, o Bastardo bramava:
―Tende! tende! para que o colhais ás mãos!
Trepando por cima de corpos, que se estorcem sob os seus sapatos de ferro, o valente moço arremete, a golpes arquejados, contra as pontas luzentes que recuam, se furtam... E, triunfantes, redobram os gritos de Lopo de Bayão:
―Vivo, vivo! tomadel-o vivo!
―Não, se me restar alma, vilão! rugia Lourenço.
E mais raivosamente investia, quando um calhau agudo lhe acertou no braço―que logo amorteceu, pendeu, com a espada arrastando, presa ainda ao punho pelo grilhão, mas sem mais servir que uma roca. em um relance ficou agarrado por peões que lhe filavam a gorja, enquanto outros com varadas
de ascuma lhe vergavam as pernas retesadas. Tombou por fim direito como um madeiro;―e nas cordas com que logo o amarraram, jazeu hirto, sem elmo, sem cervilheira, os olhos duramente cerrados, os cabelos presos em uma pasta de poeira e de sangue.
Eis pois cativo Lourenço Ramires! E, diante das andas feitas de ramos e franças de faias em que o estenderam, depois de o borrifarem á pressa com a água fresca do riacho,―o Bastardo, limpando ás costas da mão o suor que lhe escorria pela face formosa, pelas barbas douradas, murmurava, comovido:
―Ah! Lourenço, Lourenço, grande dor, que bem poderamos ser irmãos e amigos!
Assim, ajudado pelo tio Duarte, por Walter Scott por noticias do Panorama, compozera Gonçalo a mal-venturada lide de Canta-Pedra. E com este desabafo de Lopo, onde perpassava a mágoa do amor vedado, fechou o Cap. II, sobre que labutara três dias―tão embrenhadamente que em torno o Mundo como que se calara e se fundira em penumbra.