Capítulo X
Até noite alta Gonçalo, passeando pelo quarto, remoeu a amarga certeza de que sempre, através de toda a sua vida (quase desde o colégio de S. Fiel!), não cessara de padecer humilhações. E todas lhe resultavam de intentos muito simples, tão seguros para qualquer homem como o vôo para qualquer ave―só para ele constantemente rematados por dor, vergonha ou perda! Á entrada da vida escolhe com entusiasmo um confidente, um irmão, que traz para a quieta intimidade da Torre―e logo esse homem se apodera ligeiramente do coração de Gracinha e ultrajosamente a abandona! Depois concebe o desejo tão corrente de penetrar na Vida Politica―e logo o Acaso o fórça a que se renda e se acolha á influencia de esse mesmo homem, agora Autoridade poderosa, por ele durante todos esses anos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois abre ao amigo, agora restabelecido na sua convivência,
a porta dos Cunhaes, confiado na seriedade, no rígido orgulho da irmã―e logo a irmã s'abandona ao antigo enganador, sem lucta, na primeira tarde em que se encontra com ele na sombra favorável de um caramanchão! Agora pensa em casar com uma mulher que lhe oferecia com uma grande beleza uma grande fortuna―e imediatamente um companheiro de Vila-Clara passa e segreda:―«A mulher que escolheste, Gonçalinho, é uma marafona cheia de amantes!» De certo essa mulher não a amava com um amor nobre e forte! Mas decidira acomodar nos formosos braços de ela, muito confortavelmente, a sua sorte insegura―e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a humilhação costumada. Realmente o Destino malhava sobre ele com rancor desmedido!
―E por quê? murmurava Gonçalo, despindo melancolicamente o casaco. Em vida tão curta, tanta decepção... Porquê? Pobre de mim!
Cahio no vasto leito como em uma sepultura―enterrou a face no travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por aquela sua sorte tão contrariada, tão sem socorro. E recordava o presumpçoso verso do Videirinha, ainda em essa noite proclamado ao violão:
Velha casa de Ramires
Honra e flor de Portugal!
Como a flor murchara! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Ireneia, com esses grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha―todos eles, se Historia e Lenda não mentiam, de vidas tão triunfais e sonoras! Não! nem sequer de eles herdara a qualidade por todos herdada através dos tempos―a valentia fácil. Seu pai ainda fora o bom Ramires destemido―que na falada desordem da romaria da Riosa avançava com um guardasol contra três clavinas engatilhadas. Mas ele... Ali, no segredo do quarto apagado, bem o podia livremente gemer―ele nascera com a falha, a falha de peor desdouro, essa irremediável fraqueza da carne que, irremediavelmente, diante de um perigo, uma ameaça, uma sombra, o forçava a recuar, a fugir... A fugir de um Casco. A fugir de um malandro de suissas louras que, em uma estrada e depois em uma venda o insulta sem motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho. Ah vergonhosa carne, tão espantadiça!
E a Alma... em essa calada treva do quarto bem o podia reconhecer também, gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o abandonava a qualquer influencia, logo por ela levado como folha seca por qualquer sopro. Por que a prima Maria uma tarde adoça os espertos olhos
e lhe aconselha por traz do leque que se interesse pela D. Ana―logo ele, fumegando de esperança, ergue sobre o dinheiro e a beleza de D. Ana uma presumpçosa torre de ventura e luxo. E a Eleição? essa desgraçada Eleição? Quem o empurrara para a Eleição, e para a reconciliação indecente com o Cavaleiro, e para os desgostos de aí manados? O Gouveia, só com leves argucias, murmuradas por cima do cache-nez desde a loja do Ramos até á esquina do Correio! Mas que! mesmo dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões e gravatas!―Homem de tal natureza, por mais bem dotado na Inteligência, é massa inerte a que o Mundo constantemente imprime formas varias e contrarias. O João Gouveia fizera de ele um candidato servil. O Manuel Duarte poderia fazer de ele um beberrão imundo. O Bento facilmente o levaria a atar ao pescoço, em vez de uma gravata de seda, uma coleira de couro! Que miséria! E todavia o Homem só vale pela Vontade―só no exercício da Vontade reside o gozo da Vida. Por que se a Vontade bem exercida encontra em torno submissão―então é a delicia do domínio sereno: se encontra em torno resistência―então é a delicia maior da lucta interessante. Só não sahe gozo forte e viril da inercia que se deixa arrastar mudamente, em um silencio e macieza
de cera... Mas ele, ele, descendendo de tantos varões famosos pelo Querer―não conservaria, escondida algures no seu Ser, dormente e quente como uma braza sob cinza, uma parcela de essa energia hereditária?... Talvez! nunca porém em esse pêco e encafuado viver de Santa Ireneia a fagulha despertaria, resaltaria em chama intensa e útil. Não! pobre de ele! Mesmo nos movimentos da Alma onde todo o homem realisa a liberdade pura―ele sofreria sempre a opressão da Sorte inimiga!
Com outro suspiro mais se enterrou, s'escondeu sob a roupa. Não adormecia, a noite findava―já o relógio de charão, no corredor, batera cavamente as quatro horas. E então, através das pálpebras cerradas, no confuso cançasso de tantas tristezas revolvidas, Gonçalo percebeu, através da treva do quarto, destacando palidamente da treva, faces lentas que passavam...
Eram faces muito antigas, com desusadas barbas ancestrais, com cicatrizes de ferozes ferros, umas ainda flamejando como no fragor de uma batalha, outras sorrindo magestosamente como na pompa de uma gala―todas dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer. E Gonçalo, espreitando por sobre a borda do lençol, reconhecia em essas faces as verídicas feições de velhos Ramires, ou já assim comtempladas em denegridos retratos, ou por ele assim
concebidas, como concebera as de Tructesindo, em concordância com a rijeza e explendor dos seus feitos.
Vagarosas, mais vivas, elas cresciam de entre a sombra que latejava espessa e como povoada. E agora os corpos emergiam também, robustissimos corpos cobertos de saios de malha ferrugenta, apertados por arnezes de aço lampejante, embuçados em fuscos mantos de revoltas prégas, cingidos por faustosos gibões de brocado onde cintilavam as pedrarias de Colares e cintos;―e armados todos, com as armas todas da Historia, desde e clava gôda de raiz de roble errissada de puas, até ao espadim de sarau enlaçarotado de seda e ouro.
Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gonçalo não duvidava da realidade maravilhosa! Sim! eram os seus avós Ramires, os seus formidaveis avós históricos, que, das suas tumbas dispersas corriam, se juntavam na velha casa de Santa Ireneia nove vezes secular―e formavam em torno do seu leito, do leito em que ele nascera, como a Assembleia magestosa da sua raça resurgida. E até mesmo reconhecia alguns dos mais esforçados, que agora, com o repassar constante do Poemeto do tio Duarte e o Videirinha gemendo fielmente o seu «fado», lhe andavam sempre na imaginação...
Aquele além, com o brial branco a que a cruz
vermelha enchia o peitoral, era certamente Gutierres Ramires o de Ultramar, como quando corria da sua tenda para a escalada de Jerusalem. No outro, tão velho e formoso, que estendia o braço, ele adivinhava Egas Ramires, negando acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e á adultera Leonor! Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão real de Castela, quem, senão Diogo Ramires, o Trovador, ainda na alegria da radiosa manhã de Aljubarrota? Diante da incerta claridade do espelho tremiam as fôfas plumas escarlates do morrião de Paio Ramires, que s'armava para salvar S. Luiz Rei de França. Levemente balançado, como pelas ondas humildes de um mar vencido, Ruy Ramires sorria ás naus inglezas que ante a prôa da sua Capitanea submissamente amainavam por Portugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pagem do Guião de El-Rey nos campos fatais de Alcacer, sem elmo, rota a couraça, inclinava para ele a sua face de donzel, com a doçura grave de um avó enternecido...
Então, por aquela ternura atenta do mais poético dos Ramires, Gonçalo sentio que a sua Ascendencia toda o amava―e da escuridão das tumbas dispersas acudira para o velar e socorrer na sua fraqueza. Com um longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos seus avós resurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que
sobre a sua vida, sem descanço, amontoava tristeza, vergonha e perda! E eis que subitamente um ferro faiscou na treva, com um abafado brado:―«Neto, doce neto, toma a minha lança nunca partida!...» E logo o punho de uma clara espada lhe roçou o peito, com outra grave voz que o animava:―«Neto, doce neto, toma espada pura que lidou em Ourique!...» E depois uma acha de coriscante gume bateu no travesseiro, ofertada com altiva certeza:―«Que não derribará essa acha, que derribou as portas de Arzila?...»
Como sombras levadas em um vento transcendente todos os avós formidaveis perpassavam―e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e provadas armas, todas, através de toda a Historia, enobrecidas nas arrancadas contra a Moirama, nos trabalhados cercos de Castellos e Villas, nas batalhas formosas com o Castelhano soberbo... Era, em torno do leito, um heroico reluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente gritavam:―«Oh neto, toma as nossas armas e vence a Sorte inimiga!...» Mas Gonçalo, espalhando os olhos tristes pelas sombras ondeantes, volveu:―«Oh Avós, de que me servem as vossas armas―se me falta a vossa alma?...»
Acordou, muito cedo, com a enredada lembrança de um pesadelo em que falara a mortos:―e, sem a preguiça, que sempre o amolecia nos colchões, enfiou um roupão, escancarou as vidraças. Que formosa
manhã! uma manhã dos fins de Septembro, macia, lustrosa e fina; nem uma nuvem lhe desmanchava o vasto, o imaculado azul; e o sol já pousava nos arvoredos, nos outeiros distantes, com uma doçura outomnal. Mas, apesar de lhe respirar allentamente o brilho e a pureza, Gonçalo permaneceu toldado de sombras, das sombras da véspera, retardadas no seu espirito oprimido, como nevoas em Vale muito fundo. E foi ainda com um suspiro, arrastando tristonhamente as chinelas, que puxou o cordão da campainha. O Bento não tardou com a infusa da agoa quente para a barba. E acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquele silencioso e enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Sr.. Doutor passara mal a noite...
―Pessimamente!
Bento declarou logo, com vivacidade e reprovação―que certamente fizera mal ao Sr.. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado, muito excitante... Bom para o Sr.. D. Antônio, homemzarrão pesado. Mas o Sr.. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar em aquele cognac. Ou então, meio cálice escasso.
Gonçalo ergueu a cabeça, na surpreza de encontrar logo ao começo do seu dia e tão flagrante, aquele domínio que todos sobre ele se arrogavam―e de que tanto se lastimava, através de toda a amarga noite!
Eis aí o Bento mandando―marcando a sua ração de cognac! E justamente o Bento insistia:
―O Sr.. Doutor bebeu mais de três cálices. Assim não convém... Eu também tive culpa em não tirar a garrafa...
Então, perante despotismo tão declarado, o Fidalgo da Torre teve uma brusca revolta:
―Homem, não dês tantas leis. Bebo o cognac que preciso e que quero!
Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a água na infusa:
―Esta água está morna! exclamou logo. Já me tenho fartado de dizer! Para a barba, preciso sempre água a ferver.
O Bento, gravemente, mergulhou também o dedo na água:
―Pois esta água está quase a ferver... Nem para a barba se necessita água mais quente.
Gonçalo encarou o Bento com furor. O que! mais objecções, mais leis!
―Pois vá imediatamente buscar outra água! Quando eu peço água quente, pretendo que venha em cachão. Irra! tanta sentença!... Eu não quero moral, quero obediência!
O Bento considerou Gonçalo através de um espanto que lhe inchara a face. Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando
a infusa. E já Gonçalo se arrependia da sua violência. Coitado, não era culpa do Bento se a vida lhe andava a ele tão estragada e sacudida! Depois, em casa tão antiga, não destoava a tradição dos antigos aios. E o Bento com perfeito rigor lhes reproduzia a rabugice e a lealdade! Mas ascendência, e livre falar bem lhe cabiam―bem os merecia por tão longa, tão provada dedicação...
O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E Gonçalo logo docemente, para o adoçar:
―Dia muito bonito, hein, Bento?
O velho rosnou, ainda amuado:
―Muito bonito.
Gonçalo ensaboava a face, rapidamente, na impaciência de reatar com o Bento, de lhe restabelecer a supremacia amorável. E por fim mais doce, quase humilde:
―Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavalo antes de almoço. Que te parece? Talvez me faça bem aos nervos... Com efeito, aquele cognac não me convém... Então, Bento, faze o favor, grita aí ao Joaquim que me tenha a egoa pronta imediatamente. Com certeza me acalma, uma galopada... E no banho agora a água bem esperta, bem quente. Também me acalma a água quente. Por isso necessito sempre água bem quente, a ferver.
Mas tu, com essas tuas velhas idéas... Pois todos os médicos o declaram. Para a saúde água quente, bem quente, a sessenta graus!
E depois do rápido banho, em quanto se vestia, abriu mais familiarmente ao velho aio a intimidade das suas tristezas:
―Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar, não era um passeio, era uma jornada... Trago a alma muito carregada, homem! Depois estou farto de esta eterna Vila-Clara, da eterna Oliveira. Muito mexerico, muita deslealdade. Precisava terra grande, distracção grande.
O Bento, já reconciliado, enternecido, lembrou que o Sr.. Doutor brevemente, em Lisboa, encontraria uma linda distracção, nas Cortes.
―Eu sei lá se vou ás Cortes, homem! Não sei nada, tudo falha... Qual Lisboa!... O que eu necessito é uma viagem imensa, á Hungria, á Russia, a terras onde haja aventuras.
O Bento sorriu superiormente de aquela imaginação. E apresentando ao Fidalgo o jaquetão de velvetina cinzenta:
―Com efeito, na Russia parece que não faltam aventuras. Anda tudo a chicote, diz o Século... Mas aventuras, Sr.. Doutor, até a gente as encontra na estrada... Olhe! o paesinho de V. Ex. a, que Deus haja, foi lá em baixo diante do portão que
teve a bulha com o Dr. Avelino da Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no braço...
Gonçalo calçava as luvas de anta, mirando o espelho:
―Pobre papá, coitado, também teve pouca sorte... E por chicote, ó Bento, dá cá aquele chicote de cavalo marinho que tu ontem areaste. Parece que é uma boa arma.
Ao sair o portão, o Fidalgo da Torre meteu a egoa, sem destino, em um passo indolente, pela estrada costumada dos Bravães. Mas no Casal Novo, onde dois pequenos jogavam á bola debaixo das carvalheiras, pensou em visitar o Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe concertaria os nervos a companhia de tão sereno e generoso velho. E, se ele o convidasse a almoçar, gastaria os seus cuidados visitando essa falada quinta da
Varandinha e cortejando «o botão de Rosa».
Gonçalo recordava apenas confusamente que o terraço da Varandinha
dominava uma estrada plantada de choupos, algures, entre o logar da Cerda e a espalhada aldêa de Canta-Pedra, E tomou o caminho velho que desce das carvalheiras do Casal Novo,
e penetra no Vale, entre o cabeço de Avellan e as ruínas do Mosteiro de Ribadaes, no solo histórico onde Lopo de Bayão derrotara a mesnada de Lourenço Ramires... Ora enterrada entre valados, ora entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia sem beleza, e cansativa: mas as madresilvas nas sebes, por entre as amoras maduras, rescendiam: o fresco silencio recebia mais frescura e graça dos frêmitos de aza que o roçavam; e tanto era o radiante azul nos céus serenos que um pouco do seu rebrilho e serenidade s'instilava em alma. Gonçalo, mais desanuviado, não se apressava: na Egreja dos Bravães, quando ele passara ao Casal Novo, batiam apenas as nove horas: e depois de costear um lameiro de herva magra parou a acender pachorrentamente um charuto, rente da velha ponte de pedra que galga o riacho das Donas. Quase seca pela estiagem, a agoa escura mal corria, sob as folhas largas dos nenufares, por entre os juncais que a atulhavam. Adiante, á orla de um hervaçal, no abrigo de uma moita de álamos, relusiam as pedras de um lavadouro. Na outra margem, dentro de um velho bote encalhado, um rapazito, uma rapariguinha conversavam profundamente, com dois molhos de alfazema esquecidos nos regaços. Gonçalo sorriu do idílio―depois teve uma surpreza descobrindo, no cunhal da ponte, rudemente entalhado, o seu Brazão-de Armas,
um Açor enorme, que alargava as garras ferozes. Talvez aquelas terras outr'ora pertencessem á Casa:―ou algum dos seus avós benéficos construira a ponte, sobre torrente então mais funda, para segurança dos homens e dos gados. Quem sabe se o avô Tructesindo, em memoria piedosa de Lourenço Ramires, vencido e cativo nas margens de aquela Ribeira!
O caminho, para além da ponte, alteava entre campos ceifados. As mêdas lourejavam, pesadas e cheias, por aquele ano de fartura. Ao longe, dos telhados baixos de um logarejo, vagarosos fumos subiam, logo desfeitos no radiante céu. E lentamente, como aqueles fumos distantes, Gonçalo sentia que todas as suas melancolias lhe escapavam da alma, se perdiam também no azul lustroso... Uma revoada de perdizes ergueu o vôo de entre o restolho. Gonçalo galopou sobre elas, gritando, sacudindo o seu forte chicote de cavalo-marinho, que zenia como uma fina lamina.
Em breve o caminho torceu, costeando um souto de sobreiros, depois cavado entre silvados com largos pedregulhos aflorando na poeira;―e ao fundo o sol faiscava sobre a cal fresca de uma parede. Era uma casa térrea, com porta baixa entre duas janelas envidraçadas, remendos novos no telhado e um quinteiro que uma escura e imensa figueira assombreava.
em uma esquina pegava um muro baixo de pedra solta, continuado por uma sebe, onde adiante uma velha cancela abria para a sombra de uma ramada. Defronte, no vasto terreiro que se alargava, jaziam cantarias, uma pilha de traves; passava uma estrada, lisa e cuidada, que pareceu a Gonçalo a de Ramilde. Para além, até a um distante pinheiral, desciam chãs e lameiros.
Sentado em um banco, junto da porta, com uma espingarda encostada ao muro, um rapaz grosso, de barrete de lã verde, acariciava pensativamente o focinho de um perdigueiro. Gonçalo parou:
―Tem a bondade... Sabe por acaso qual é o bom caminho para a quinta do Sr.. Visconde de Rio-Manso, a Varandinha?
O rapasote ergueu a face morena, de buço leve, remechendo vagamente no carapuço.
―Para a quinta do Rio-Manso... Siga pela estrada até á pedreira, depois á esquerda a seguir, sempre rente da várzea...
Mas em esse instante assomava á porta um latagão de suissas louras em mangas de camisa, a cinta enfaixada em seda. E Gonçalo, com um sobresalto, reconheceu logo o caçador que o injuriara na estrada de Nacejas, o assobiara na venda do Pintainho. O homem relanceou superiormente o Fidalgo. Depois,
com a mão encostada á humbreira, chasqueou o rapasote:
―Oh Manoel, que estás tu aí a ensinar o caminho, homem! Este caminho por aqui não é para asnos!
Gonçalo sentiu a palidez que o cobriu―e todo o sangue no coração, em um tumulto confuso, que era de medo e de raiva. Um novo ultrage, do mesmo homem, sem provocação! Apertou os joelhos no selim para galopar. E a tremer, em um esforço que o engasgava:
―Você é muito atrevido! É já pela terceira vez! Eu não sou homem para levantar desordens em uma estrada... Mas fique certo que o conheço, e que não escapa sem lição.
Imediatamente, o outro agarrou a um cajado curto e saltou á estrada, afrontando a egoa, com as suissas erguidas, um riso de imenso desafio:
―Então cá estou! Venha agora a lição... E para diante é que Você já não passa, seu Ramires de merd...
Uma nevoa turvou os olhos esgaseados do Fidalgo. E de repente, em um inconsciente arranque, como levado por uma furiosa rajada de orgulho e força, que se desencadeava do fundo do seu ser, gritou, atirou a fina egoa em um galão terrível! E nem compreendeu! O cajado sarilhara! A egoa empinava,
em uma cabeçada furiosa! E Gonçalo entreviu a mão do homem, escura, imensa, que empolgava a camba do freio.
Então, erguido nos estribos, por sobre a imensa mão, despediu uma vergastada do chicote silvante de cavalo-marinho, colhendo o latagão na face, de lado, em um golpe tão vivo da aresta aguda que a orelha pendeu, despegada, em um borbutar de sangue. Com um berro o homem recuou, cambaleando. Gonçalo galgou sobre ele, em outro arremesso, com outra fulgurante chicotada, que o apanhou pela boca, lhe rasgou a boca, decerto lhe espedaçou dentes, o atirou, urrando, para o chão. As patas da egoa machucavam as grossas coxas estendidas,―e, debruçado, Gonçalo ainda vergastou, cortou desesperadamente face, pescoço, até que o corpo jazeu mole e como morto, com jorros de sangue escuro ensopando a camisa.
Um tiro atroou o terreiro! E Gonçalo, com um salto no selim, avistou o rapasote moreno ainda com a espingarda erguida, a fumegar, mas já hesitando aterrado.
―Ah, cão!
Lançou a egoa, com o chicote alto:―o rapaz, espavorido, corria lentamente através do terreiro, para saltar o valado, escapar para as várzeas ceifadas!
―Ah cão, ah cão! berrava Gonçalo. Estonteado,
o rapaz tropeçara em uma viga solta. Mas já se endireitava, largava, quando o Fidalgo o alcançou com uma cutilada do chicote no pescoço, logo alagado de sangue. Estendendo as mãos incertas, ainda cambaleou, abateu, estalou contra a aresta de um pilar, a cabeça mais sangue jorrou. Então Gonçalo, a arquejar, deteve a egoa. Ambos os homens jaziam imóveis! Santo Deus! Mortos? de ambos corria o sangue sobre a terra seca. O Fidalgo da Torre sentia uma alegria brutal. Mas um grito espantado soou do lado do quinteiro.
―Ai que mataram o meu rapaz!
Era um velho que corria da cancela, em uma carreira agachada, rente com a sebe, para a porta da casa. Tão certeiramente o Fidalgo arremessou a egoa, para o deter―que o velho esbarrou contra o peitoril que arfava coberto de suor e de espuma. E ante o inquieto animal escarvando, e Gonçalo alçado nos estribos, com a face chamejante, o chicote a descer―o velho, em um terror, desabou sobre os joelhos, gritou anciadamente:
―Ai, não me faça mal, meu Fidalgo, por alma de seu pai Ramires.
Gonçalo ainda o manteve assim um momento, suplicante, a tremer, sob o justiceiro faiscar dos seus olhos:―e gozava soberbamente aquelas calosas mãos que se erguiam para a sua misericórdia,
invocavam o nome de Ramires, de novo temido, repossuido do seu prestigio heroico. Depois, recuando a egoa:
―Esse malandro do rapazola desfechou a caçadeira!... Você também não tem boa cara! Que ia você correndo para casa? Buscar outra espingarda?
O velho alargou desesperadamente os braços, oferecia o peito, em testemunho da sua verdade:
―Oh meu Fidalgo, não tenho em casa nem um cajado!... Assim Deus me ajude e me salve o rapaz!
Mas Gonçalo desconfiava. Quando descesse agora pela estrada de Ramilde, bem poderia o velho correr ao casebre, agarrar outra caçadeira, desfechar traiçoeiramente. E então com a presteza de espirito que a lucta afiara concebeu contra qualquer emboscada, um ardil seguro. E até em um relance sorrio recordando «traças de guerra», de D. Garcia Viegas, o
Sabedor.
―Marche lá diante de mim, sempre a direito, pela estrada!
O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E batia com as grossas mãos nas coxas, em uma ânsia que o engasgava:
―Oh meu Fidalgo, oh meu fidalgo! mas deixar assim o rapaz sem acordo?...
―O rapaz está só atordoado, já se mecheu... E o outro malandro também... Marche você!
E ao irresistivel mando de Gonçalo, o velho, depois de sacudir demoradamente as joalheiras, começou a avançar pela estrada, vergado diante da egoa, como um cativo, com os longos braços a bambolear, rosnando, em um rouco assombro:―Ai como elas se armam! Ai Santo nome de Deus, que desgraça! A espaços estacava, esgaseando para Gonçalo um olhar torvo onde negrejava medo e ódio... Mas logo o comando forte o empurrava: «Marche!...» E marchava. Adiante, onde se erguia um cruseiro em memoria do Abbade Paguim, assassinado, Gonçalo reconheceu um largo atalho para a estrada dos Bravães que chamavam o Caminho da Moleira. E para aí enfiou o velho, que no pavor de aquela asinhaga solitária, pensando que Gonçalo o afastava de caminhos trilhados para o matar comodamente, rompeu a gemer. «Ai que isto é o fim da minha vida! Ai Nossa Senhora, que é o fim da minha vida!» E não cessou de gemer, emaranhando os passos trôpegos, até que desembocaram na estrada alta entre taludes escarpados, revestidos de giesta brava. Então de repente, com outro terror, o homem bruscamente revirou, atirando as mãos ao barrete:
―Oh meu senhor, o Fidalgo não me leva preso?...
―Marche! Corra! Que agora a egoa trota!
A egoa trotou―o velho correu, desengonçado, arquejando como um fole de forja. Uma milha galgada, Gonçalo parou, farto do cativo, da lenta marcha. De resto antes que o homem agora corresse a casa, e agarrasse uma arma, e virasse para o alcançar, se desforrar―entraria ele, em um galope solto, o portão da Torre! Então bradou, com o sobr'olho duro:
―Alto! Agora pode voltar para traz... Mas, antes: Como se chama aquele seu logar?
―A Grainha, meu fidalgo.
―E você como se chama, e o rapaz?
O velho com a boca aberta, esperou, hesitou:
―Eu sou João, o meu rapaz Manoel... Manoel Domingues, meu Fidalgo.
―Você naturalmente mente. E o outro malandro, de suissas louras?
de um folego, o velho gritou:
―Esse é o Ernesto de Nacejas, o valentão de Nacejas, que chamam o
Caça-abraços, e que tanto me desencaminhou o rapaz...
―Bem! Pois diga lá a esses dois marotos que me atacaram a pau e a tiro, que não ficam quites somente com a sova, e que agora têm de se entender com a Justiça... Ela lá irá! Largue!
Do meio da estrada, Gonçalo ainda vigiou o velho
que abalara, forçando as passadas derreadas, limpando o suor que lhe pingava. Depois, pela conhecida estrada, galopou para a Torre.
E ia levado, galopando em uma alegria tão fumegante, que o lançava em sonho e devaneio. Era como a sensação sublime de galopar pelas alturas, em um corcel de lenda, crescido magnificamente, roçando as nuvens lustrosas... E por baixo, nas cidades, os homens reconheciam em ele um verdadeiro Ramires, dos antigos na Historia, dos que derrubavam torres, dos que mudavam a configuração dos Reinos,―e erguiam esse maravilhado murmurio que é o sulco dos fortes passando! Com razão! com razão! Que ainda de manhã, ao sair da Torre, não ousaria marchar para um rapazola decidido que brandisse um varapau... E depois, de repente, na solidão de aquela casa térrea, quando o bruto das suissas louras lhe atira a suja injúria―eis um não sei quê
que se desprende dentro do seu ser, e transborda, e lhe enche cada veia de sangue ardido e lhe enrija cada nervo de força destra, e lhe espalha na pele o desprezo e a dor, e lhe repassa fundamente a alma de fortaleza indomável... E agora ali voltava, como um varão novo, soberbamente virilisado, liberto emfim da sombra que tão dolorosamente assombreara a sua vida, a sombra mole e torpe do seu medo! Por que sentia que, agora se todos os
valentões de Nacejas o afrontassem em um rijo erguer de cajados―esse
não sei quê, lá dentro, no seu ser, de novo se soltaria, e o arremessaria, com cada veia inchada, cada nervo retesado, para o delicioso fragor da briga! Emfim era um homem! Quando em Vila Clara o Manuel Duarte, o Titó com o peito alto, contassem façanhas, já ele não enrolaria encolhidamente o cigarro―encolhido, mudo não somente pela ausência desconsoladora das valentias, mas sobretudo pela humilhante recordação das fraquezas. E galopava, galopava apertando furiosamente o cabo do chicote, como para investidas mais belas. Para além dos Bravães, mais galopou, ao avistar a Torre. E singularmente lhe pareceu, de repente, que a sua Torre, agora
mais sua, e que uma afinidade nova fundada em gloria e força, o tornava mais senhor da sua Torre!
Como para acolher Gonçalo mais dignamente, o portão grande, sempre cerrado, oferecia uma entrada triunfal com os dois pesados batentes escancarados. Ele atirou a egoa para o meio do pátio, bradando:
―Oh Joaquim! Oh Manoel! Eh lá! um de vocês!
O Joaquim surdiu da cavalariça, de mangas arregaçadas, com uma esponja na mão.
―Oh Joaquim, depressa! Apparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada de Ramilde, a que chamam a Grainha... Tive agora lá uma grande desordem! Creio que dei cabo de dois homens... Ficaram em uma poça de sangue! Não digas que vais da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que sucedeu, se estão mortos... Depressa, depressa!
O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavalariça escura. E de cima de uma das varandas do corredor, partiram exclamações assombradas:
―Oh Gonçalo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!
Era o Barrôlo. Sem desmontar, sem surpresa ante a aparição do Barrôlo, Gonçalo atirou logo para a varanda a historia da bulha, tumultuosamente. Um malandro que o insultara... Depois outro, que desfechou a caçadeira... E ambos derribados sob as patas da egoa, em uma poça de sangue...
O Barrôlo despegou da varanda―e em outro relance, investia pelo pátio, com os curtos braços a boiar, enfiado. Mas então? mas então?... E Gonçalo, desmontando, tremulo agora do cançasso e da emoção, esmiuçou mais lances... Na estrada de Ramilde! Um valentão que o injuriou! A esse rasgara a boca, decepara a orelha... Depois o outro, um rapasola, desfecha uma carabina... Ele corre, tão vivamente o colhe com uma cutilada que o estira, para cima de uma pedra, como morto...
―Uma cutilada?
―Com este chicote, Barrôlo! Arma terrível!... Bem dizia o Titó!... Estou perdido se não levo este chicote.
Esgaseado, Barrôlo remirava o chicote. Sim, com efeito ainda manchado de sangue.―Então Gonçalo atentou no chicote, no sangue... Sangue de gente! sangue fresco, que ele arrancara!... E por entre o seu orgulho, uma piedade passou que o empalideceu:
―Que desgraça, vejam que desgraça!
Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de nodoas de sangue, que o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!... E imediatamente anciou por se despir, se lavar,―galgou a escada, com o Barrôlo que enxugava o suor, balbuciava:―«Ora uma de essas! E de repente! Assim na estrada!...» Mas no corredor, subindo em uma carreira da cosinha, apareceu Gracinha, pálida, com a Rosa atraz, que enterrava os dedos entre o lenço e o cabelo em um pavor mudo.
―Que foi, Gonçalo? Jesus, que foi?!
Então, encontrando Gracinha junto de ele, na Torre, em esse momento magnifico do seu orgulho, depois de tão rijo perigo vencido, Gonçalo esqueceu o André, o Mirante, as sombrias humilhações, e no abraço em que a colheu, nos fortes beijos que atirou
á face querida, todo o seu amuo se fundio em ternura. Com ela ainda chegada ao coração, suspirou de leve, como uma criança cançada. Depois apertando as duas pobres mãos tremulas, com um lento, enternecido sorriso, em quanto os olhos se lhe humedeciam de confusa emoção, de confusa alegria:
―Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horrível, eu que sou tão pacato! imagina tu...
E pelo corredor recomeçou para Gracinha, que arfava, e para a Rosa, estarrecida, a historia do encontro, e o sujo ultrage, o tiro que falhara e os malandros lacerados a chicote, e o velho marchando como um cativo, a gemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, em um desmaio, Gracinha murmurou:
―Ai, Gonçalo! E se um dos homens estivesse morto!
O Barrôlo, mais vermelho que uma piônia, berrou logo que tais malandros mereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo tremendo de Africa! O Gouveia! era necessário mandar a Vila-Clara, avisar o Gouveia!... Mas largas passadas ávidas abalaram o soalho―e foi o Bento, que se ergueu diante de Gonçalo, bracejando em uma ânsia:
―Então, Sr.. Doutor?... Diz que uma grande desordem!...
E á porta do escriptorio, onde todos pararam, novamente atentos, a historia recomeçou, especialmente para o Bento, que a bebia, em um lento riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos humidos a reluzir, como se também triumphasse. Por fim, triumphou, com estrondo:
―Foi o chicote, Sr.. Doutor! O que serviu ao Sr.. Doutor, foi o chicote que eu lhe dei!
Era verdade. E Gonçalo, comovido, abraçou o velho aio, que em uma excitação, gritava para a Rosa, para Gracinha, para o Barrôlo:
―O Sr.. Doutor deu cabo de eles!... Aquele chicote mata um homem!... Os malvados estão mortos!... E foi o chicote! Foi o chicote que eu dei ao Sr.. Doutor!
Mas Gonçalo reclamava água quente para se lavar da poeira, do suor, do sangue... E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois pelas escadas da cosinha―«que fora o chicote! o chicote, que ele dera ao Sr.. Doutor!» Gonçalo entrara no quarto, acompanhado pelo Barrôlo. E pousou o chapéu sobre o mármore da comoda, com um imenso ah
consolado! Era o consolo imenso de se encontrar, depois de tão violenta manhã, entre as doces coisas costumadas, pisando o seu velho tapete azul, roçando o leito de pau preto em que nascera, respirando pelas vidraças abertas, onde as ramagens familiares
das faias s'empurravam na aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de columnas douradas, se mirou e se remirou, como a um Gonçalo novo e tão melhorado, que nos hombros reconhecia mais largueza, e até no bigode um arquear mais crespo.
E foi ao arredar do espelho, topando com o Barrôlo, que subitamente despertou em uma curiosidade imensa:
―Mas, oh Barrôlo, como é que vos encontro esta manhã na Torre?
Resolução da véspera, ao chá. Gonçalo não aparecia, não escrevia... Gracinha a matutar, inquieta. Ele também espantado de aquele sumiço depois do cesto dos pêcegos. De modo que ao chá, pensando também que a parelha necessitava uma trotada, lembrara a Gracinha:―«Vamos nós amanhã á Torre? no faeton?»
―Além disso precisava falar contigo, Gonçalo... Tenho andado aborrecido.
O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:
―Como aborrecido?... Aborrecido por que?...
Barrôlo, com as mãos nos bolsos da rabona de flanela, que lhe cingia as ancas gordas, considerou as flôres do tapete, melancolicamente:
―É uma grande seca! A gente não póde confiar em ninguém... Nem ter familiaridades!...
em um lampejo Gonçalo imaginou o Cavaleiro e Gracinha mostrando estouvadamente nos Cunhaes, como outr'ora entre os arvoredos da Torre, o sentimento que os dominava. E presentiu um desabafo, alguma queixa triste do pobre Barrôlo, amargurado por suspeitas, talvez por intimidades que espreitara. Mas a emoção suprema da sua batalha, sumira para uma sombra inferior os cuidados que, ainda na véspera, o oprimiam: todas as dificuldades da vida lhe apareciam agora, de repente, em aquele frescor da sua coragem nova, tão faceis de abater como os desafios dos valentões; e não se assustou com as confidencias do cunhado, bem seguro de impôr àquela alma submissa de bacôco a confiança e a quietação. Até sorriu, com indolencia:
―Então, Barrolinho? Succedeu alguma peripécia?
―Recebi uma carta.
―Ah!
Gravemente Barrôlo desabotoou o jaquetão, puxou do bolso interior uma larga carteira, de couro verde e lustroso, com monograma de ouro. E foi a carteira que ele mostrou a Gonçalo, com satisfação.
―Bonita, hein? Presente do André, coitado...
Creio que até a mandou vir de Paris. O monograma tem muito chic.
Gonçalo esperava, espantado. Emfim o bom Barrôlo tirou da carteira uma carta―já amarrotada, depois alisada. Era, em um papel pautado, uma letra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com segurança:
―É das Louzadas.
E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovelo enterrado na almofada: «Ex. mo Sr.. José Barrôlo.―V. Ex. a apesar de todos os seus amigos o alcunharem de Zé bacôco, mostrou agora muita espertesa, chamando de novo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil André Cavaleiro, nosso Governador Civil. Com efeito a esposa de V. Ex. a, a linda Gracinha, que em estes últimos tempos andava tão murcha e até desbotada (o que a todos nos inquietava) imediatamente reflorio, e ganhou cores, desde que possui a valiosa companhia da primeira autoridade do districto. Portou-se pois V. Ex. a
como marido zeloso, e desejoso da felicidade e boa saúde de sua interessante esposa. Nem parece rasgo de aquele que toda a Oliveira considera como o seu mais ilustre pateta! Os nossos sinceros parabéns!»
Gonçalo guardou muito socegadamente na algibeira
aquela carta que, dias antes, o lançaria em infinita amargura e fúria:
―É das Louzadas... E tu deste importância a semelhante babuseira?
O Barrôlo repontou, com as bochechas abrazadas:
―Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos anônimos... E depois essa insolência a respeito dos amigos me chamarem Bacôco... Grande infâmia, hein? Tu acreditas?... Eu não acredito! mas lança sizania entre mim e os rapazes... Nem voltei ao Club... Bacôco! Porquê? Por que eu sou simples, sempre franco, disposto a arranchar... Não! se os rapazes no Club me chamam bacôco pelas costas, caramba, mostram ingratidão! Mas eu não acredito! Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as mãos cruzadas sobre as gordas nádegas. Depois, estacando diante do divan, de onde Gonçalo o considerava, com piedade:
―Em quanto ao resto da carta é tão estupido, tão atrapalhado que ao principio nem compreendi. Agora percebo... Querem dizer que a Gracinha e o Cavaleiro têm namoro... É o que me parece que querem dizer! Ora vê tu que disparate! Até a intimidade do Cavaleiro é mentira. O pobre rapaz, desde que lá jantou, só apareceu três ou quatro vezes, á
noite, para a manilha, com o Mendonça... E agora abalou para Lisboa.
Então o Fidalgo pulou, de surpresa.
―O quê! o Cavaleiro foi para Lisboa?
―Pois partiu ha três dias!
―Com demora?
―Com demora, com grande demora... Só volta no meado de outubro para a Eleição.
―Ah!
Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro de água quente, duas toalhas de rendas, ainda em uma excitação que o azafamava. Diante do espelho, lentamente Barrôlo reabotoava o jaquetão:
―Bem, até logo, Gonçalinho. Eu desço á cavalariça, visitar a parelha. Não imaginas! desde Oliveira, sem descanso, uma trotada explendida. E nem um pelo suado! Tu guardas a carta?
―Guardo, para estudar a letra.
Apenas Barrôlo cerrara a porta―o Fidalgo recomeçou com o Bento a deliciosa historia da briga, revivendo as surprezas e os rasgos, simulando os arremessos da egoa, arrebatando o chicote para representar as cutiladas silvantes, que arrancavam febra e sangue... E de repente, em ceroulas:
―Oh Bento, traze o meu chapéu... Estou desconfiado que a bala roçou pelo chapéu.
Ambos remiraram, esquadrinharam o chapéu. O
Bento, no seu encarecimento da façanha, achava a copa amolgada―até chamuscada.
―A bala passou de raspão, Sr.. Doutor!
O Fidalgo negou, com a modéstia grave de um forte:
―Não! Nem de raspão!... Quando o malandro desfechou já o braço lhe tremia... Devemos agradecer a Deus, Bento. Mas eu realmente não corri grande perigo!
Depois de vestido, Gonçalo, passeando no quarto, releu a carta. Sim, certamente das Lousadas. Mas agora essa maledicência, soprada com tão sórdida maldade sobre as pobres bochechas do Barrôlo, não causava damno―antes servia, quase beneficamente, como a braza de um ferro, para sarar um damno. O pobre Barrôlo apenas se impressionara com a revelação da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em galhofas ingratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra insinuação terrível, Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavaleiro, essa mal a comprehendera, escassamente a atendera em um desdem distrahido e cândido. Mas a carta que assim silvava por sobre o bom Barrôlo como flecha errada―acertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no seu impressional pudor, mostrando á pobre tonta como o seu nome e mesmo o seu coração, já arrastavam enxovalhadamente,
pela rasteira mexeriquice das Lousadas!... Certesa tão humilhadora não apagaria um sentimento―que se não apagava com humilhações mais intimas, tanto mais dolorosas. Mas estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato:―e agora que André se afastara para Lisboa, operaria em ela, surdamente, solitariamente, sem que a presença tentadora lhe desmanchasse a influencia socegadora e salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um aviso temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas fêmeas para desencadear nos Cunhaes escândalo e dor―talvez restabelecesse, na ameaçada casa, quietação e gravidade.―Gonçalo esfregou as mãos pensando―que em tão ditosa manhã talvez até esse mal redundasse em bem!
―Oh Bento, onde está a Sr.. a D. Graça?
―A menina subiu agora ha pouco para o seu quarto, Sr.. Doutor.
Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda se conservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador ilustre que pertencera á Rainha D. Maria Francisca de Saboya, e o sofá, as cadeiras de casimira clara em que Gracinha bordara, em um arrastado labor de anos, o Açor negro dos Ramires. E sempre que voltava á Torre Gracinha gostava de reviver no seu quarto, as horas de solteira, remexendo as gavetas,
folheando velhos romances ingleses na estantesinha envidraçada, ou simplesmente da varanda contemplando a querida quinta estendida até aos outeiros de Valverde, a verde quinta, tão misturada á sua vida que cada árvore lhe susurrava, cada recanto de verdura era como um recanto do seu pensamento.
Gonçalo subiu―bateu á porta cerrada com o antigo aviso:―«Licença para o mano!» Ela correu da varanda, onde regava nos seus antigos vasos vidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E desabafando logo do pensamento que a enchia:
―Oh Gonçalo! mas que felicidade nós virmos á Torre, justamente hoje, que te sucedeu coisa tamanha!
―É verdade, Gracinha, grande sorte! E não me admirei nada de te vêr... Era como se ainda vivesses na Torre e te encontrasse no corredor... Quem estranhei foi o Barrôlo! E no primeiro momento depois de desmontar, pensava assim, vagamente: «mas que diabo faz aqui o Barrôlo? como diabo se acha aqui o Barrôlo?...» Curioso, hein? Foi talvez que, depois da desordem, me senti remoçado, com um sangue novo, e me julguei no tempo em que desejavamos uma guerra em Portugal, e nós cercados na Torre, sob o nosso pendão, o nosso terço
atirando bombardas aos espanhóis...
Ela ria, lembrada dessas imaginações heroicas. E com o vestido entalado entre os joelhos recomeçou a lenta rega dos seus vasos―em quanto Gonçalo, encostado á varanda, considerando a Torre, retomado pela ideia de uma concordância mais intima, que desde essa manhã se estabelecera entre ele e aquele heroico resto da Honra de Santa Ireneia, como se a sua força, tanto tempo quebrada, se soldasse emfim firmemente á força secular da sua raça.
―Oh Gonçalo! tu deves estar muito cançado! Depois de essa verdadeira batalha...
―Não, cançado não... Mas com fome. Com fome, e com uma sede explendida!
Ela pousou logo o regador, sacudindo as mãos alegremente:
―Pois o almoço não tarda!... Já andei a trabalhar na cosinha, com a Rosa, em uma pescada á espanhola... É uma receita nova do Barão das Marges.
―Então insonsa, como ele.
―Não! até picante: foi o Sr.. Vigário Geral que lha ensinou.
E como, diante do toucador da Rainha Maria Francisca, ela arranjava á pressa os ganchos do cabelo, para aproveitar a solidão favorável, apressou com um esforço, a confidencia que o comovia:
―E em Oliveira? Lá por Oliveira!
―Em Oliveira, nada... Muito calor!
Gonçalo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho, fino entrelaçamento de açucenas e louros, murmurou:
―Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em plena atividade...
Gracinha negou candidamente:
―As Lousadas? Não! Nem têm aparecido.
―Mas têm tecido!
E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem comprehender, Gonçalo arrancou vivamente da algibeira a carta que guardara, que agora lhe pesava, como uma chapa de ferro:
―Olha, Gracinha! Mais vale desabafarmos! Aí tens o que elas ha dias escreveram a teu marido...
em um relance, Gracinha devorou as linhas terríveis. E com ondas de sangue nas faces, apertando as mãos em uma afflicção, um desespero, em que o papel amarfanhou:
―Oh Gonçalo! pois...
Gonçalo acudiu:
―Não! o Barrôlo não se importou! Até se rio! E eu também, quando ele me entregou esse papelucho... E a prova que ambos o consideramos uma mexeriquice insensata, é que eu to mostro tão francamente.
Ela esmagava a carta nas mãos juntas e tremulas,
pálida agora e emudecida pelo espanto, retendo grandes lagrimas que rebrilhavam. E Gonçalo comovido, com gravidade, com ternura:
―Mas tu, Gracinha, sabes o que são terras pequenas. Sobre tudo Oliveira! Precisas muito cuidado, muita reserva... Ai de mim! De mim vem a culpa. Reatei relações que nunca se deviam reatar... Bem me tenho arrependido! E acredita! por causa de essa situação tão falsa e tão perigosa, que eu creei, levianamente, por ambição tola, passei aqui na Torre dias amargurados... Até nem m'atrevia voltar a Oliveira. Hoje, não sei porquê, depois de esta aventura, parece que tudo se esbateu, s'afundou para uma grande sombra... Emfim já não me arde tão em braza no coração... Por isso desabafo assim, serenamente.
Ela desatou em um solto, doloroso choro em que a sua fraca alma se desfazia. Com redobrada ternura Gonçalo abraçou os pobres hombros vergados que os soluços espedaçavam. E foi com ela toda refugiada no seu peito, que ainda a aconselhou, docemente:
―Gracinha, o passado morreu, e todos precisamos, para honra de todos, que continue morto. Pelo menos que por fora, em cada gesto teu, pareça bem morto! Sou eu que to peço, pelo nosso nome!...
de entre os braços do irmão, ela gemeu com infinita humildade:
―Mas ele até foi embora!... Nem quis estar mais em Oliveira!
Gonçalo acariciou a acabrunhada cabeça que de novo se escondera contra o seu peito, contra ele se apertava, como procurando a fresca misericordiosa que dentro sentia brotar:
―Bem sei. E isso me mostra que tens sido forte... Mas precisas muita reserva, muita vigilância, Gracinha!... E agora sossega. Não falemos mais, nunca mais, em este incidente... Por que foi apenas um incidente. E que eu provoquei, ai de mim, por leviandade, por ilusão. Passou, está esquecido! Sossega, descança. E quando desceres traze os olhos bem secos.
Lentamente a desprendera dos braços, onde ela se arraigava como ao abrigo mais certo e á consolação mais desejada. E saia, engasgado pela emoção, recalcando também as lagrimas... Um gemido tímido, suplicante, ainda o reteve.
―Gonçalo! mas tu pensas...
Ele voltou, de novo a abraçou, a beijou na testa lentamente:
―Eu penso que tu, agora bem avisada, bem aconselhada, vais mostrar muita dignidade, muita firmeza.
Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na escada estreita, escassamente alumiada por uma
claraboia baça, limpava as pálpebras, quando esbarrou com o Barrôlo, que procurava Gracinha, para apressar o almoço.
―A Gracinha já desce! atabalhoou o Fidalgo. Está a lavar as mãos! Já desce!... Mas antes do almoço vamos á cavalariça. Devemos uma visita á egoa, a essa querida egoa que me salvou!
―É verdade, caramba! concordou logo Barrôlo revirando nos degraus, com entusiasmo. Precisamos visitar a egoa... Grande, briosa, hein! Mas aposto que ficou mais suada que as minhas... Imagina! uma trotada de aquelas, desde Oliveira, e nem um pelo molhado! Grandes egoas! Também, o que eu as olho, o que as trato!
Na cavalariça, ambos afagaram a egoa. Barrôlo lembrou que se mimoseasse com uma ração larga de cenoura. Depois―para que Gracinha, com vagar se calmasse,―o Fidalgo arrastou o Barrôlo ao pomar e á horta...
―Tu não vens á Torre ha perto de seis meses, Barrolinho! Precisas vêr, admirar progressos. Anda agora por aqui a mão forte do Pereira da Riosa...
―Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu tenho uma fome, Gonçalinho!
―Também eu!
Uma hora batia quando entraram na varanda onde a mesa esperava, florida e em festa―e Gracinha, á beira do divan, percorria pensativamente a velha Gazeta do Porto. Apesar de muito banhados, os seus belos olhos conservavam um ardor: e para o justificar, e o seu modo abatido, logo se lastimou, córando, de uma enxaqueca. Eram as emoções, o perigo de Gonçalo...
―Também eu tenho dor de cabeça! declarou o Barrôlo, rondando a mesa. Mas a minha vem da fome... Oh filhos, é que estou desde as sete da manhã com uma chávena de café e um ovo quente!
Gonçalo repicou a campainha. Mas quem rompeu pela porta envidraçada, esbaforido, escancarando a boca em um riso imenso, foi o Joaquim, o moço da cavalariça que voltava da Grainha.
Gonçalo atirou os braços, sofrego:
―Então?! então?!
―Pois lá estive, meu Fidalgo! exclamou o Joaquim com o peito a estalar de importância. E vai por lá um povoléu, todos já sabem! Uma rapariga dos Bravães espreitou tudo, de dentro do quinteiro... Depois correu, badalou... Mas o velho, o tal Domingues que mora na casa, e o filho, abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se cahio, sem sentidos, foi com o susto. O Ernesto de
Nacejas, esse sim, santo nome de Deus, apanhou. Lá o levaram em braços para casa de um compadre ali ao pé, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem boca!... Pois por todos aqueles sítios era o ai-jesus das moças!... E logo lá o carregam para o Hospital de Vila Clara, que na casa do Compadre não pode sarar. Um povoléu, e todos dão a rasão ao Fidalgo. O tal Domingues era malandro. E o Ernesto, esse ninguém o podia enxergar! Mas todos lhe tinham medo... O Fidalgo fez uma limpeza!
Gonçalo resplandecia. Ah! Ainda bem! que não passara damno mais forte, que beleza perdida do D. Juan de Nacejas!
―E então o povo por lá, a falar, a olhar para o sitio?
―Pois o povo não se arreda! E a mostrar o sangue, no chão, e as pedras por onde se atirou a egoa do Fidalgo... E agora até contam que foi uma espera, e que desfecharam três tiros ao Fidalgo, e que depois adiante no pinhal ainda saltaram três homens mascarados que o Fidalgo escangalhou...
―Eis a lenda que se forma! declarou Gonçalo.
O Bento aparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo afagou risonhamente o hombro do Joaquim. E em baixo a Rosa que abrisse, para o almoço da família, duas garrafas de vinho do
Porto, velho. Depois com a mão nas costas da cadeira murmurou gravemente:―Pensemos um momento em Deus, que me tirou hoje de um grande perigo!
Barrôlo pendeu a cabeça, reverente. Gracinha, através de um leve suspiro, pensou uma leve oração. E desdobravam os guardanapos; Gonçalo aclamava a travessa de pescada á espanhola―quando o pequeno da Crispola empurrou ainda a porta envidraçada «com um telegrama, que viera da Vila!» Uma inquietação deteve os garfos. A manhã correra com tantas agitações e espantos! Mas já um sorriso de gosto, de triunfo, se espalhara na fina face de Gonçalo:
―Não é nada... É do Castanheiro, por causa dos capítulos do Romance que eu lhe mandei... Coitado! Bom rapaz!
E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegrama, que os seus olhos afagavam:―«Capítulos romance recebidos. Leitura feita amigos. Entusiasmo! Verdadeira obra prima! Abraço!...»
Barrôlo, com a boca cheia, bateu as palmas. E Gonçalo, sem reparar na travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de vinho verde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que não se dissipava:
―Emfim, boa manhã... Grande manhã!
Gonçalo, apesar das insistências de Gracinha e do Barrôlo, não os acompanhou para Oliveira―no desejo de acabar, durante essa semana, o derradeiro Capítulo da Novela, e depois cerrar o preguiçoso giro de visitas aos influentes Eleitoraes do Circulo. Assim rematava a Obra de Arte e a obra de Politica,―e cumpria, Deus louvado, a tarefa de esse verão fecundo!
Logo em essa noite retomou o manuscripto da Novela―e na margem larga lançou a data, uma nota:―« Hoje, na freguesia da Grainha, tive uma briga terrível com dois homens que me assaltaram a pau e tiro, e que castiguei severamente... » Depois, com facilidade atacou o lance de tanto sabor medieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do Bastardo, penetrava, ao espalhado e fumarento clarão dos archotes, no arraial de D. Pedro de Castro.
Com grave amisade acolhia o velho homem de guerra aquele seu primo de Portugal, que lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Ireneia, quando os Castros combateram um grande poder de Mouros em Enxarez de Sandornin. Depois, na vasta tenda, reluzente de armas, tapizada de peles de leão e de urso, Tructesindo contava, ainda a arfar de dor represa, a morte de seu filho Lourenço, ferido na lide de Canta-Pedra, acabado á punhalada pelo Bastardo de
Bayão, diante das muralhas de Santa Ireneia, com o sol no céu alto a olhar a traição! Indignado, o velho Castro esmurraçou a mesa, onde um rosário de ouro se misturava a grossas peças de xadrez; jurou pela vida de Cristo, que, em sessenta anos de armas e surpresas nunca soubera de feito mais vil! E agarrando a mão do senhor de Santa Ireneia, ardentemente lhe ofereceu, para a empresa da santa vingança, a sua hoste inteira―tresentas e trinta lanças, vasta e rija peonagem.
―Por Santa Maria! Formosa arrancada! bradou Mendo de Briteiros com as vermelhas barbas a flamejar de gosto.
Mas D. Garcia Viegas, o Sabedor, entendia que para colherem o Bastardo vivo, como convinha a uma vingança vagarosa e bem gosada, mais utilmente serviria uma calada e curta fila de cavaleiros, com alguns homens de pé...
―Porquê, D. Garcia?
―Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da pionada e carriagem correra, com a mira em Coimbra, para se acolher á força da Hoste Real. em essa noite, com o seu esfalfado bando de lanças, pernoitara certamente no solar de Landim. E com o luzir da alva, para encurtar, certamente retomava a galopada pelo velho caminho de Miradães, que trepa e foge através das lombas do Caramulo.
Ora ele, Garcia Viegas, conhecia para diante do Poço da Esquecida, certo passo, onde poucos cavaleiros, e alguns bésteiros, bem postados por entre o bravio, apanhariam Lopo de Bayão como lobo em fojo...
Tructesindo, incerto e pensativo, metia os dedos lentos pelos fios da barba. O velho Castro duvidava, preferindo que se pozessse batalha ao Bastardo em campo bem liso onde se avantajassem tantas lanças já aprestadas, que depois correriam em alegre levada a assolar as terras de Bayão. Então Garcia Viegas rogou aos seus primos de Espanha e de Portugal que sahissem ao terreiro, diante da tenda, com fartura de tochas para bem se alumiarem. E aí, no meio dos cavaleiros curiosos, á claridade dos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, riscou sobre a terra, com a ponta de uma adaga, o roteiro da sua caçada para lhe comprovar a beleza... de além Castelo Landim, largaria com a alva o Bastardo. Por aqui, quando a lua nascesse, abalariam eles, com vinte cavaleiros dos Ramires e dos Castros, para que lidadores de ambas as mesnadas gosassem a lide. Além, se postariam, alapados no matagal, besteiros e peões de frecha. Por traz, de este lado, para entaipar o Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com tão gostosa ajuda ele honrasse o Senhor de Santa Ireneia. Adiante, acolá, para colher pela gorja
o vilão, o Sr.. D. Tructesindo que era o pai e Deus mandava fosse o vingador. E ali, na estreitura o derrubariam e o sangrariam como um porco―e como o sangue era vil, a um tiro de bésta encontrariam água farta para lavar as mãos, a agoa do pégo das Bichas!...
―Famosa traça! murmurou Tructesindo convencido.
E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavaleiros de Espanha:
―Vida de Cristo, que se meu tio-avô Gutierres tivera por Coudel aqui o Sr.. D. Garcia, não lhe escapavam os de Lara quando levaram o Rei Menino, na grande carreira, para Santo Estevam de Gurivaz!... Entendido pois, primo e amigo! E a cavalo, para a monteria, mal reponte a lua!
E recolheram as tendas―que já nas fogueiras lourejavam os cabritos da ceia, e os uchões acarretavam, de entre os carros da sarga, os pesados odres de vinho de Tordesillas.
Com a ceia no arraial (grave e sem ruido, por que um luto velava o coração dos hospedes) Gonçalo terminou, em essa noute, o seu capítulo IV, lançando á margem outra nota:―«Meia noite... Dia cheio. Batalhei, trabalhei.―». Depois no seu quarto, em quanto se despia, traçou todo o alvoroto da briga curta em que o Bastardo como lobo em fojo quedaria
cativo, á mercê vingadora dos de Santa Ireneia... Mas de manhã, antes de almoço, ao abancar com gosto para o trabalho―recebeu dois telegramas, que o desviaram deliciosamente da correria contra o Bastardo de Bayão.
Eram dois telegramas de Oliveira, um do Barão das Marges, outro do capitão Mendonça―ambos com parabéns ao Fidalgo «por assim escapar de tão terrível espera, destroçando os valentões de Nacejas.» O Barão das Marges acrescentava:―« Bravissimo! É de herói! »
Gonçalo, enternecido, mostrou os telegramas ao Bento. A nova da sua façanha, pois, já se espalhara, impressionara Oliveira,
―Foi o Sr.. José Barrôlo que contou! acudiu o Bento. E o Sr.. Dr. verá! o Sr.. Dr. verá... Até no Porto se vão assombrar!
Ao bater meio dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o imenso Titó, acompanhado pelo João Gouveia que chegara na véspera á tarde da Costa, soubera da aventura na Assembleia, corria á Torre, como amigo para o abraço, antes de comparecer, como Autoridade, para o auto. Então Gonçalo, ainda nos braços do Gouveia, pediu generosamente, «que se não procedesse contra os bandidos...» O Administrador recusou, decidido e seco, proclamando o principio da Ordem, e necessidade de um escarmento
rijo, para que Portugal não recuasse aos tempos bárbaros do João Brandão de Midões. Ele e Titó almoçaram na torre:―e Titó, á sobremesa, lembrou galhofeiramente a conveniência de um brinde, e bramou ele o brinde, comparando Gonçalo ao elefante, «sempre bom, que tanto aguenta, e de repente, zás, esmaga o mundo!»
Depois João Gouveia acendendo um grande charuto reclamou a representação verídica da desordem, com os pulos, os gritos, para ele se compenetrar como autoridade. Então através da varanda, reviveu a historia heroica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou por esgaçar) os golpes que arremessara imitando os tombos meio desmaiados do valentão de Nacejas, quando já o sangue o alagava. O Administrador e o Titó visitaram na cavalariça a egoa histórica; e no pátio, Gonçalo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro secando ao sol, lavadas do sangue que as salpicara.
Diante do portão João Gouveia bateu gravemente no hombro do Fidalgo:
―Gonçalo, você deve aparecer esta noite na Assembleia...
Apareceu―e foi acolhido como o vencedor de uma batalha ilustre. No bilhar, por proposta do velho Ribas, flamejou um grande punche-―e o Comendador Barros, afogueado, teimava que no domingo
se celebrasse em S. Francisco um Te-Deum de graças, de que ele costearia as despezas, com orgulho, caramba! Á sahida, acompanhado pelo Titó, pelo Gouveia, pelo Manoel Duarte, por outros sócios, encontraram o Videirinha―que não pertencia á Assembleia, mas rondava, esperando o Fidalgo para lhe lançar duas trovas do Fado, improvisadas em essa tarde, em que o exaltava acima dos outros Ramires, da Historia e da Lenda!
O rancho quedou no chafariz. O violão gemeu, com amor. E o cantar do Videirinha, elevado da alma, varou a muda ramagem das olaias: