Coração — Capítulo I Coração, Cabeça e Estômago · Capítulo 2 de 7
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Coração — Capítulo I

SETE MULHERES

O meu noviciado de amor passei-o em Lisboa. Amei as

primeiras sete mulheres que vi e que me viram.

A primeira era uma órfã, que vivia da caridade de um ourives, amigo do seu defunto pai. Chamava-se Leontina. Fiz versos a Leontina, sonetos em rima fácil, e muito errados, como tive ocasião de verificar, quando os quis

dedicar a outra, dois anos depois.

Leontina não tinha caligrafia nem ideias; mas os olhos eram

bonitos e o jeito de encostar a face à mão tinha encantos.

Era minha vizinha. Por desgraça também, era meu vizinho um algibebe que morria de amores por ela, e, à conta deste amor, se ia arruinando, por descuidar-se em chamar freguesia, como os seus rivais, que saíam à rua a puxar

pelos indivíduos suspeitos de quererem comprar.

Aristocratizara-o o amor: envergonhava-se ele de tais

alicantinas, debaixo do olhar distraído da mulher amada.

Odiava-me o algibebe. Recebi uma carta anônima, que devia ser sua. Era lacônica e sumária: “Se não muda de

casa, qualquer noite é assassinado”. Pouco mais dizia.

Contei a Leontina, em estilo alegre, com presunçoso desprezo da morte, o perigo em que estava minha vida, por amor dela. Indiquei o algibebe como autor da cara. A menina, que tivera o desfastio de lhe receber noutro tempo algumas, conheceu a letra mal disfarçada. Tomou-lhe raiva, fez-lhe arremessos e induziu a criada a atirar-lhe com uma casca de melão. Que lhe sujou um colete de veludinho amarelo e verde com listas encarnadas e pintas roxas. Que

colete!

Passados tempos, Leontina desapareceu com a família; e, ao outro dia, recebi dela um bilhete, escrito em Almada. Dizia-me que o algibebe escrevera ao seu padrinho uma carta anônima, denunciando o namoro comigo. O padrinho

ordenou logo a saída para a quinta de Almada.

O padrinho era o ourives, sujeito de cinquenta anos, viúvo, com duas filhas mulheres, das quais amargamente Leontina se queixava. As filhas do ourives, receando que o pai se casasse com a órfã, queriam-lhe mal, e folgavam de a ver nas presas de alguma paixão, que a arrastasse ao crime, para assim se livrarem da temerosa perspetiva de tal

madrasta.

E o certo é que o ourives pensava em casar com Leontina, logo que as filhas se arrumassem. Estas, porém, sobre serem feias, tinham contra si a repugnância do pai no dotá-las em vida Ninguém as queria para passatempo e menos

ainda para esposas.

Picado pelo ciúme, abriu o ourives seu peito à órfã, ofereceu-lhe a mão, e uma pulseira de brilhantes nela, com

a condição de me esquecer.

Leontina disse que sim, pensando que mentia; mas passados oito dias admirou-se de ter dito a verdade. Nunca mais soube de mim, nem eu dela; até que, um ano depois, a criada, que a servia, me contou que a menina casara com o padrinho e que as enteadas, coagidas pelo pai, se tinham

ido para o recolhimento do Grilo com uma pequena mesada

e a esperança de ficarem pobres. Não sei mais nada a respeito da primeira das sete mulheres que amei, em

Lisboa.

***

Nota

Eu sei mais alguma coisa que merece crônica.

Leontina subjugou o ânimo do marido; descobriu que ele era rico e gozou quanto podia das regalias do mundo, as quais vivera estranha até aos vinte e quatro anos. O ourives tomou gosto aos prazeres e esqueceu o valor do dinheiro, exceto o que dava às filhas, que lhe saía da secretária com pedaços de vida. Começaram pelos arlequins e pelos touros

e acabaram no Teatro de S. Carlos o refinamento do gosto.

Leontina andou falada na sua roda, como esposa fiel e admirável vencedora de tentações. Quase todos os amigos

particulares do marido a cortejaram, sem resultado. Deu

bailes na sua casa, donde era frequente saírem os convidados penhorados, às quatro horas da manhã; mas, de uma vez, não saíram todos; ficou um escondido no quarto da criada, e lá passou o dia seguinte. O ourives ignorou muito tempo que a sua lealdade não era dignamente correspondida: porém, suspeitando um dia que a criada o roubava, fez-lhe uma visita domiciliária ao quarto, sem prevenir a esposa, e achou lá o filho do seu primo Anselmo, dormindo sobre a cama da jovem, com a segurança de quem dorme na sua casa. Estava de moiras amarelas e vestia um chambre de lã do dono da casa! É o escândalo e

mangação!

Foi chamada Leontina a altos gritos. Acordou o filho de Anselmo e foi procurar na algibeira do paletó um revólver. O quinquagenário viu cinco bocas de ferro, mais persuasivas que a boca de ouro de Crisóstomo, o santo. Passou ao andar de baixo e gritou pelo código criminal. Leontina tinha fugido para casa da sua amiga e vizinha D. Carlota, pessoa de hipotética probidade. O escandaloso possessor do chambre despiu-o, vestiu-se, sacudiu as

moiras amarelas, sentou-se a calçar as botas, acendeu um

charuto, desceu as escadas serenamente e encontrou-se no pátio com dois cabos de polícia e um municipal. Dali foi para o administrador, que o mandou reter até ulteriores

explicações.

Leontina, dias depois, foi para o Convento da Encarnação, onde esteve dois anos e donde saiu a tomar caldas em Torres Vedras, por consenso do marido, que a foi lá visitar e de lá foi com ela à exposição à Londres. Da volta da viagem, o ourives morreu hidrópico, legando às filhas umas inscrições, que rendem para ambas um cruzado diário, e à esposa uma independência farta em títulos bancários e em

gêneros de ourivesaria.

Consta-me que Leontina se lembrara então de Silvestre; mas ignorava que destino ele tivesse. Incumbiu um compadre de indagar se estava no Porto o homem; a resposta demorou-se alguns dias, sete, creio eu, e ao sexto já ela estava em indagações da vida e costumes de um sujeito de bigode e pêra, que à mesma hora de cada tarde lhe passava à porta num tiburi, tirado por uma orça. Fácil lhe foi saber que o sujeito fora, cinco anos antes, algibebe,

tirara o prêmio da Loteria de Espanha e fechara a loja. Era

o mesmo algibebe que levara no colete de veludinho com a casca de melão. Que mudança de cara e de maneiras ele fizera! O dinheiro faz essas mudanças e outras mais espantosas ainda. Chegaram à fala, deram-se explicações e casaram. Eu tive ocasião de os ver ontem no seu palacete a Buenos Aires. Estão gordos, ricos e muito considerados na

sua rua. *

**

A segunda era também minha vizinha. A casa em que eu vivia formava o cunhal de um quarteirão, com janelas para duas ruas. Assim podia passear os dois corações de uma

para outra janela sem dar suspeitas da minha doblez.

Nunca pude saber o nome da dama, nem lhe vi a preceito a cara. Entreluziam-lhe os olhos nas tabuinhas verdes das persianas, olhos que abonavam o restante das belezas. Vi-a uma ou outra vez na rua; mas o meu pudor era o mais vigilante anjo-da-guarda que ele tinha. Escrevi-lhe uma

carta em vinte páginas e icei-lhe numa cartonagem de

amêndoas, que ela, à meia-noite, pendurou da janela. No dia seguinte não a vi. Afligi-me até à desesperação, tomando como zombaria semelhante resposta à minha carta. Desafoguei na sincera amizade de um amigo, e este consolou-me, dizendo que a mulher podia estar doente, podia estar apaixonada; e, na segunda hipótese, fugia à

paixão para respeitar os deveres, se os tinha.

Ao outro dia abriu-se a janela, e a persiana baixou logo, como era de uso. As tabuinhas obedeceram ao impulso da mão divina, ficando horizontais. Vi-lhe os olhos, vi-lhe o sorriso, vi-lhe um trejeito de gratidão, e compreendi que

me mandava ir à meia-noite debaixo da janela.

Fui com uma legião de amorinhos a volitar ao redor de mim. A patrulha viu-me atravessar a rua e conheceu, pelo passo, que eu era um mortal ditoso. Parou quando eu parei. Perguntou-me o que fazia eu ali quieto. Respondi-lhe que tomava a fresca; e os janízaros responderam: “Veja lá que

se não constipe...”.

Daí a pouco desceu a cozinha com um bilhete em abraço e

eu lancei na coifa uma poesia intitulada: Ela!

Entrei no meu quarto, abri o papelucho, e li:

Gosto muito do seu estilo. Continue, que me entretém. Ontem não lhe apareci porque fui a Oeiras, e li a sua carta na presença de Neptuno. Escreva muito, que escreve muito

bem.

Reli esta coisa e pus a mão sobre o coração injuriado. Não podia dormir. Saí a resfriar a cabeça para não a partir em casa. O escárnio ia atrás de mim, apupando-me. Parei na azinhaga do Arco do Cego e senti-me febril. Às cinco horas da manhã, fui a uma das barcaças e tomei um banho no Tejo. Recolhi-me com uma catarral e estive onze dias de cama. Quando me ergui, magro e lívido, ouvi dizer à dona da casa que o galego, aguadeiro da casa caraira, viera duas vezes perguntar por mim, com ordem de alguém. O espinho da irrisão, o tremendo ridículo, salvou a minha dignidade. Nunca mais abri aquela janela, nem vi mais a vizinha.

Assim terminou o meu segundo amor.

Um caso me fez saber quem era aquela senhora, que eu desculpo e até respeito. Fora menina de finíssima educação, natural de Beja. Apaixonou-se por um conde de

Lisboa e fugiu aos pais, pensando que a ignomínia lhe viria

a dar um marido. O conde deu-lhe casa, mesada e criados. Assim estava vivendo quando a conheci. Era amarga a existência da pobre senhora. O amante casara meses antes, para desempenhar o vínculo deteriorado. Do Patrimônio da esposa alargou a mesada à amante, que bebia. Deus sabe com que lágrimas, este segundo cálice de vilipendiosa dependência. Escrevera ela nesse tempo ao pai, pedindo-lhe perdão e asilo. Nunca teve resposta. Quando me deram estes esclarecimentos (1854), continuava ela a viver a expensas do conde e tinha um filho de cinco anos. Não sei mais nada. Ainda há pouco li o bilhete, recebido em 1849, e achei-lhe muitíssima graça. Deus lhe perdoe a noite que me deu e os onze dias de catarro, que me estragaram os

brônquios para sempre! (*)

[(*) Chamava-se Margarida a dama. Viveu ainda até 1857 e morreu da febre-amarela, e o filho também. Conta-se que o conde, receoso do contágio, não ousara vir a Lisboa, das Caldas da Rainha, onde estava, quando Margarida o mandou chamar para despedir-se. Morreu contemplando os paroxismos do filho. Os criados abandonaram-na no último dia. Estava sozinha quando expirou. O conde está ótimo de saúde e transferiu a mobília de Margarida para

os aposentos de uma criada, que a condessa expulsou de casa...]

Era a terceira uma dama quarentona, que frequentava a casa em que eu me hospedara. Tinha ela um mano, muito mal-encarado e vestido marcialmente, como capitão da carta, que era. A Sra. D. Catarina bailava gentilmente, conversava com todos os pespontos de tagarela muito lida em Eugênio Sue e conhecia todos os atalhos que conduzem à posse de um coração noviço. Declarou-se comigo e eu, urbanamente, acudi ao seu pejo, confessando que já me tinha primeiro confessado com a eloquência do silêncio. Trocamos algumas cartas, e numa das suas me disse ela que era proprietária de bens de raiz, que valiam seis contos de réis, e tinha, afora isso, uns dez burrinhos em Cacilhas, que anualmente lhe rendiam cento e cinquenta mil réis. Pensou que me seduzia com o suplemento dos burrinhos! Respeito muito os burros, mas tanto não! Não respondi a este artigo. Falei-lhe do meu coração, assunto sublime de mais para ser conspurcado no cadastro dos lucros

provenientes do dote quadrúpede de D. Catarina.

Uma noite, foi-me concedido ir falar-lhe debaixo das

janelas. Morava ela muito longe, em rua de raros

moradores, numa casa de um só andar. Tinha eu de costume ir a cavalo até à entrada da rua, e ali me ficava esperando o criado. Foi a minha salvação uma noite! O capitão da carta ergueu-se desconfiado e entrou de espada

em punho no quarto da irmã subitamente.

Era em agosto: estava aberta a janela, e nós, sem invocarmos Klopstock, como os amorosos de Goethe, mirávamos as duas ursas, se eram as ursas umas grandes estrelas que Catarina chamava suas, e das quais fazia favor

de me dar uma.

Cortado este doce colóquio pelo bruto de gládio nu, saltei da janela à rua, e o ferocíssimo capitão saltou nas minhas costas, tendo-lhe eu apenas a vantagem de três passos em honrosa fuga. O homem tinha desnocado um pé no salto e perdera a esperança de me degolar. Gritou: “Agarra”, e a tempo que eu cavalgava, deixando o criado em risco de ser

preso e no maior risco de me denunciar.

No dia seguinte, escreveu-me Catarina apelando para o meu cavalheirismo. Dava-se como perdida no conceito do mundo e do irmão se eu não me desse pressa em casar com

ela. Respondi com sinceridade que era muito novo para

tomar um estado a que não estava de modo nenhum obrigado o meu cavalheirismo. Aquele dizer “de modo nenhum” feriu tão dentro a suscetibilidade da dama, que, em vez de réplica escrita, veio ela mesma pedir-me explicações com furial aspeto e trejeitos de energúmena. Tomei-lhe medo; mas nem assim casei. Quem tinha resistido à sedução dos burrinhos não sucumbia às ameaças da espada ferina do irmão, a qual, ao meu ver, podia disputar virgindade às vestais romanas. Catarina é que, já dez anos antes de me ver, não podia competir em recato e pureza com a espada fraterna. Eu disse-lhe isto em linguagem oriental, e ela respondeu-me em termos que depunham inexoráveis contra a inocência de costumes que

a colérica senhora alegava.

Acabou isto assim. O bravo oficial portou-se bem comigo, daí em diante. A senhora caiu em si e viu que não tinha

razão. Deixou-me.

Cinco anos depois, pedi em Lisboa notícias da Sra. D. Catarina, e soube que ela estava no Pará com o seu irmão, senhores de alguns centenares de contos, herdados de um

tio. Esperavam-se então na corte, visto que D. Catarina

mandara comprar um palácio arruinado em Benfica e apressar a reedificação com a máxima opulência de arquitetura. Perguntei pelos burrinhos de Cacilhas, e o maganão a quem fiz a pergunta disse-me que procurasse uns no Ministério e outros no Parlamento. Era um destes Voltaires do Chiado que fazem espírito, mesmo à custa dos

seus parentes e amigos.

***

Ninguém me há de acreditar a história da quarta mulher. Quer creiam, quer não, ela ai vai com pouca arte, a ver se a

sua mesma desnudez a faz menos incrível.

Fui um dia de agosto a Porto Brandão, onde estava a banhos um meu amigo. Numa quinta para lá da encosta houve uma reunião de famílias de Lisboa, à qual fui convidado. O meu amigo apresentou-me a um cavalheiro, que me tomou o braço e me apresentou a algumas senhoras, todas galantes, palreiras e doutoras em Paulo de

Kock.

Pedi miúdos esclarecimentos acerca de todas, e particularmente da mais bonita e modesta. O cavalheiro de todas disse mal, mal, porém, que eu indultei cordialmente, defeitos que são enfeites, vícios que alindam as formosas e denigrem as feias. O crime de todas era a casquilhice, que o leitor pode, se quiser, traduzir para coquetterie. Amavam toda a gente, segundo o informador. Fiquei satisfeito, pensando que o amarem elas toda a gente era boa

probabilidade para eu ser amado. Eu não queria mais nada.

Languiram em doce ternura meus olhos, fitos na mais amável das quatro. Algumas vezes nossas vistas se encontraram, e disseram profundos mistérios da alma. Fugi outras vezes da sala e fui a uma varanda, donde se ouvia o bramido do oceano, casar as melodias do meu amor com as dissonâncias formidolosas do estrugir das ondas. A lua prateava-me a testa, em que o sangue, aquecido no coração, subia em arquejos daquela poesia, que não sai em rimas, e enlouquece, se a paixão a não desafoga em

suspiros. Aquilo é que era!

Eu queria comunicar a exuberância da minha ventura, mas

tive sempre para mim que a felicidade quer-se recatada

para não suscitar invejas: é ela como a fina essência das flores destiladas, que perde o aroma, destapado o cristal que a encerra. Não contei nada ao meu amigo; simulei até desapego das mulheres mais belas do baile, e da preferida

nem se quer falei.

Ao romper de alva, vi que um rancho de meninas desciam ao jardim e colhiam flores. A minha amada ficou à janela conversando com senhoras idosas. “Tragam-me a mim uma rosa de musgo”, disse ela às amigas. E as amigas voltaram sem a rosa. Desci ao jardim, colhi duas rosas aljofradas das lágrimas da aurora, pedi licença para lhes oferecer, e disse: “Não as enxuguei, para não privar as florinhas das carícias

de um anjo.” Este meu dito foi celebrado em Porto Brandão.

Daqui encetámos um colóquio, em que o meu acanhamento foi digno de lástima. Perguntei-lhe abruptamente onde morava; e ela, com a mais casta naturalidade, respondeu-me

:

— Moro na rua da Rosa das Partilhas, n.º 101, segundo

andar.

Naquele dia vim para Lisboa, visto que o meu amigo se retirava. Quinze dias seguidos fui à Rua da Rosa, e vi

sempre fechadas as janelas do segundo andar.

Decara morava uma estanqueira. Afreguesei-me para lhe captar a benevolência: e, ao décimo sexto dia, perguntei-lhe

quem morava naquela casa.

— Ali mora um sujeito que é empregado no contrato do

tabaco — disse ela. — E tem família?

— Tem sim senhor. Vejo lá umas duas ou três meninas

que me parecem irmãs dele, ou coisa parecida.

— Uma de olhos pretos e cabelos cor de azeviche, será irmã? — a falar-lhe a verdade, senhor, a cor que ela tem nos olhos e no cabelo na sei. Ali há uma bonitota, que é mais triste que as outras e está sempre a ler, aos dias santos. As outras têm assim um ar de doidas, que faz rir a gente. Namoram de lenço branco e à meia-noite estão à janela a papaguear para a rua, que é mesmo um escândalo. Que eu, a falar a verdade, meto-me cá com a minha vida e

não quero saber quem é, nem o que faz, a vizinhança.

— Sabe dizer-me onde estão agora?

— Estão fora da terra; mas onde, não sei. Ontem

andavam lá a lavar a casa; é que não tardam aí.

Nesse mesmo dia, à noite, encontrei no Marrare das Sete Portas o cavalheiro que me tinha apresentado à mulher querida, em Porto Brandão. Falámos muito da divertida noitada e nas mulheres que converteram em paraíso terreal a casinha campestre. Ébrio de amor, deixei-me ir ao sabor do coração indiscreto e falei na mulher, cuja imagem me não dera tréguas de uma hora ao espírito cobiçoso dela. O sujeito destramente se insinuou na minha confiança e conseguiu que eu lhe dissesse a morada da dama a quem

ele me apresentara.

Riu-se o indivíduo, e sofreou logo a expansão.

— De que ri Vossa Senhoria? — Perguntei com desgosto. Deteve-se o homem a pensar, e respondeu:

— Rio da pouca ou nenhuma penetração da mocidade. Não se recorda de eu lhe ter dito que aquelas senhoras

amavam toda a gente?

— E se o senhor se apaixonar? — Apaixonado estou eu.

— Pois pior. Suponha agora que aquela mulher o

menospreza e ridiculiza!

— Suicido-me!

— Isso é asneira, Sr. Silvestre! Olhe eu já amei Clotilde. — Chama-se Clotilde?

— Chama. Que nome!, que poesia!, que lirismo!, não

acha?

— Acho!... Clotilde! Há não sei quê das paixões sanguentas da Idade Média neste nome!... Clotilde! Que bem fadado nome! Tem magia!... Clotilde!... Então o senhor

amou-a? — Amei. — E depois?

— Apaixonei-me. Pedi-lhe o coração exclusivo, e ela disse-me que o exclusivo do coração só o daria com o

exclusivo da mão. Entende o fraseado?

— Perfeitissimamente. Queria dizer que só amaria

exclusivamente o marido.

— É isso mesmo. Eu era menor, e o meu pai negava-me licença para casar. Clotilde era pobre, e eu, sem os benefícios do meu pai, era indigente: Tão inútil homem era

eu que fazia versos, e que versos, ó santo Deus! — E ela ama poesia?

— Gostava das décimas e embirrava com as odes. Fiz-lhe muita décima: estão todas impressas no Ramalhete. Vamos ao essencial. A paixão cegou-me. Clotilde, sabedora da repugnância do meu pai, parecia disposta a aproveitar o tempo com outro namoro. Suspeitei esta infernal resolução,

e... que passo eu dei, Sr. Silvestre!... que passo!... — Que passo deu o senhor?! — Casei com ela!

— O quê?! — exclamei eu, varando de agulhadas nos

olhos e nos ouvidos. — Casei com Clotilde.

— Pois Clotilde é casada?...

— Comigo; há cinco anos, quatro meses e nove dias!

Dito isto, o empregado público, depois de uma gargalhada estridente, afetou a mais cômica das seriedades e

continuou:

— O senhor não vá contar isso a ninguém, senão arrisca-se a dar mote para uma farsa, e lembre-se que o personagem mais ridículo dela será o Sr. Silvestre da Silva, com cuja candura eu simpatizo. Quer o senhor namorar uma das minhas cunhadas, se não está disposto a continuar o namoro com a minha mulher? Olhe que ambas têm nomes inspiradores: uma é Berta, a outra é Laura. Escolha, que eu

coadjuvo-o.

Creiam que estava corrido, e dei graças a Deus quando se aproximaram da nossa mesa três sujeitos conhecidos do empregado. Assim foi interrompida a conversação, em que a minha pobre vaidade estava sofrendo como em potro de escárnio. Ergui-me, despedi-me, apertei a mão ao marido de Clotilde, e fui rasgar as prosas e versos que escrevera numa brochura ad hoc enfeixado tudo sob o seguinte título:

A Ti!... E mais nada, a tal respeito (*).

[(*) Aproveitei o lanço de verificar a lealdade desta passagem das memórias do meu amigo. Como em nota à margem estava o nome do marido farçola, solicitei relacionar-me com ele há quatro dias, e fácil foi isso. À terceira palestra que tivemos, com ar de intimidade, falei no sucesso passado catorze anos antes. O funcionário público recordou-me, e disse: “É verdade o que o seu amigo deixou escrito. Só lhe falhou escrever o que, felizmente, não soube, e é que a minha mulher o amou...” Fiquei pasmado da ingenuidade e lembraram-me dois versos

franceses de não sei quem: “Quand on l'ignore, ce n'est rien;

Quand on le sait, c'est peu de chose.]

***

Ainda agora me não entendo bem, se penso na frieza do

meu coração às escaramuças que a dona do hotel lhe fazia!

Era a Sra. D. Martinha uma viúva de trinta e cinco anos, pequena, entroncada; mas bem feita e ágil. do seu tinha pouco cabelo; porém, com o abençoado capital que empregara em marrafas tecia um trançado tão abundante,

principalmente ao domingo, que nunca a arte dos Canovas

fez cabeça mais magnífica em adornos que a da Sra. D.

Martinha.

Eu bem a vi desfazer-se em atenções comigo, dando-me o melhor quarto, a melhor manteiga, e o café, depois do jantar, fora do ajuste; mas os olhos do meu coração andavam desvairados em contemplações de mais poéticas provas de amor, e não podiam baixar ao devido apreço da boa manteiga e do café de Cabo Verde, como amorosos

mimos e demonstração de ternura.

Aos Domingos, a Sra. D. Martinha honrava os hóspedes ao jantar com a sua presença. Eram banquetes estes jantares, obrigados a vinho de Setúbal, presente semanal de um tio da senhora, sujeito de sessenta anos, que remoçava aos

vinte, naqueles dias em que ele era certo à mesa.

A jovial dama erguia-se sempre escarlate até às orelhas e lançava-se a um tão voluptuariamente alquebrada, que seria muito para amar-se, se a hipótese consentisse que ela tivesse dentro do seio tanto coração como vinho de Setúbal. Vi-a dançar a jota com requebros de escandecente despejo;

não era menos lúbrica no lundum chorado; e, não sei se de

experiência, se de instinto, saracoteava-se tão peneirada

nas evoluções do fado, que eu estava pasmado do que via.

Convidava eu amigos a jantarem comigo aos domingos, prevenindo-os para gozarem as delícias gratuitas daquela dama, transfigurada em bacante, posto que as antigas bacantes não o eram sem a condição da virgindade, e neste ponto, de modo algum quero ultrajá-la com a comparação. Os meus amigos, já apodrentados de coração, encaravam na desenvolta Martinha com olhos cobiçosos, e, ao seu pesar, confessavam que o amado era eu, e unicamente eu. Maus conselheiros excitaram-me a pensar nos encantos, que eles viam, e — com pejo o digo — descobri que a mulher tinha reduzido a pântano uma parte do meu

coração para retouçar-se nele.

Amei-a; e ela, sem lho eu dizer, conheceu-o logo. Expôs-me ardentemente as suas raivas e ciúmes, quando me via namorar as vizinhas; e confessou que tivera o satânico pensamento de envenenar Catarina, quando eu a amava, e era amado, tendo ela depositado no coração da desleal

amiga o seu segredo.

Os dias corriam plácidos e felizes para nós, quando D.

Martinha tomou uma criada, que era mulata.

Mas que anjo das estuosas zonas onde a pele está calcinada, como devem está-lo as fibras do coração! Que mulata!, que inferno de devorante lascívia ela tinha nos olhos! Que tentação, que doidice me tomou de assalto apenas a vi em roda do meu leito, fazendo a cama! O menor trejeito era uma provocação; o frêmito das saias era um choque da pilha galvânica! Ó minha virtude pudibunda!

Estavas estragada por D. Martinha!

Amei a mulata, com todo o ardor do meu sangue e dos meus vinte anos! Pedi-lhe amor, como se pede a um Serafim de neve e rosas, a quem a gente ajoelha e ora de longe, com medo de os desmanchar com o bafo. Quando a exorava, parece que os nervos me retorciam os músculos; e os músculos se contraíam em espasmos de luciferina delícia! Lembra-me que me ajoelhei aos seus pés um dia, beijando-lhe as mãos, que perfumavam o aroma de cebola do refogado. Melhor me lembra ainda que me ergui dos seus pés vitorioso, e feliz como nunca um réu perdoado se

ergueu dos pés de rainha do Congo!

Perguntai às aves do céu, e às alimárias dos pedregais

africanos, como se amam!

O meu amor tinha da ave a meiguice e do tigre a insaciável

sofreguidão.

A mulata sabia que eu tinha amado a ama e era ainda perseguido por ela. Disse-lhe eu que a tolerava por compaixão do seu aferrado afeto. Riu-se a mulata e disse: “Uma vez hei de mostrar-lhe a Sra. D. Martinha no

momento em que ela for mais digna da sua compaixão.”

Ainda lhes não tinha dito que a folha do Brasil era extremamente engraçada, esperta e maliciosa. Aquelas

poucas palavras bastam a defini-la.

Chegou o dia em que ela me havia de mostrar D. Martinha

no momento em que mais digna fosse da minha compaixão.

Desceu a mulata do terceiro ao segundo andar e disse-me: “Siga-me pé ante pé.” Segui-a, e entrei numa alcova, que tinha portas cortinadas para uma saleta. A condutora afastou um todo-nada da cortina e mandou-me espreitar

através da vidraça.

Vi D. Martinha despeitorada e reclinada sobre a otomana. Com os joelhos no estrado estava ele a calçar-lhe as meias nas pernas abandonadas aos seus carinhos. Ele, depois, estendeu-lhe os braços seio acima, abraçou-a pelo pescoço e apoiou a face na porção mais flácida do peito. Ele,

depois... “Ele, quem?”, pergunta quem isto ler.

Era o tio, que dava o vinho de Setúbal aos domingos. Quando saí do observatório, inclinei o ouvido à mulata, que

me dizia:

— É, ou não é, mais digna da sua compaixão do que

nunca foi? — E de nojo! — acrescentei.

Dois dias depois, tive de retirar da hospedaria, em razão de ter dito à Sra. D. Martinha que ela não valia as garrafas de

Setúbal que lhe dava o incestuoso sexagenário.

A mulata... (agora me lembro que se chamava Tupinyoyo — que nome tão amável!) ficou de me visitar todos os domingos; mas ao terceiro, depois da promessa, contou-me um aguadeiro de um ricaço, vindo do Brasil, se apaixonou

por ela e a levara consigo para o Minho.

Não mentiu o galego. Três anos depois a vi eu na segunda ordem do Teatro de S. João do Porto, vestida ricamente, ao lado de uma grande cabeça, que estava cotada na praça do

Porto em dois milhões.

Viu-me, fitou-me; não sei se corou; o pudor naquela ordem de peles não sei a cor que toma. Para ouvir a opinião pública, perguntei a diferentes elegantes quem fosse a mulata, e todos. À uma, me responderam que era filha de

um titular brasileiro e que fora educada em Londres.

Não desmenti a opinião pública. Seria uma ingratidão à mulher que me ergueu dos seus pés, quando eu lhe pedia o seu amor com lágrimas. Se eu fosse opulento como o homem vindo do Brasil, talvez que ao lado dela, no

camarote de S. João, estivesse eu, e não ele.

Falta-me falar da sétima mulher.

***

Eu tinha um amigo que se namorara de uma modista francesa e me pedia que fosse intérprete do seu coração, na língua de Vítor Hugo. Não me pareceu custoso fingir a língua de Vítor Hugo, sendo a semelhança julgada pela modista. Parece-me que Vítor Hugo não entenderia as minhas cartas escritas no seu idioma; quero, porém, acreditar que a francesa não acharia mais poesia nem mais

correção raciniana no poeta das Orientais.

As minhas cartas pertenciam ao sistema que os mestres em epistolografia amorosa determinaram para as modistas. Era o sistema da precipitação dos sucessos e da catástrofe. À oitava carta, convencionou-se o encontro do meu amigo com a francesa numa quinta em Carnide, indo ela acompanhada de uma sua amiga na carruagem, que devia

esperá-las à porta oriental do Passeio Público.

— Como há de ser isto?! — disse eu ao meu amigo —;

como te hás de tu entender com ela? Cibrão ficou um pouco enleado e respondeu:

— É verdade!... como hei de eu entendê-la!... Há quinze

dias que comprei um dicionário português-francês e uma

guia de conversação; mas pouco ou nada sei...

— Como há de ser isto? Eu acho ridícula a tua posição se, às primeiras palavras da francesa, tens de lhe dizer, numa língua que ela não entende, que não percebes a língua que ela te fala. Vocês afinal acabam por se rirem

francamente um do outro, e com o ridículo matam o amor. — Vais tu comigo? — acudiu Cibrão, de golpe.

— Vou; mas, ainda assim, o que faço é aumentar com a minha ida os personagens da farsa. Como queres tu que a francesa me faça a língua do seu coração, se eu suponho que a sua vontade é dizer-te coisas que envergonham dois amantes na presença de terceira pessoa? E calculas tu quanto seria cômico estar eu entre ti e ela compondo para francês e traduzindo para português a linguagem intraduzível dos suspiros? Afinal rir-nos-íamos todos três. A minha opinião é que não vás. Inventa um pretexto, que dê em resultado uma outra entrevista, em que se dispense um longo prefácio de palestra e em que o silêncio seja necessário como recato e cautela. Não vás a sítios em que a natureza campestre te obrigue a discorrer acerca de flores

e delícias das tardes estivas. Procura um encontro nas

trevas, de modo que a tua inteligência de línguas fique também em trevas, dando-lhe tu em compensação as mais significativas provas da tua sensibilidade, sem alardo de espírito. Às frases responde suspirando. O je vous aime virá

sempre a propósito. Aprende a conjugar bem o verbo aimer. — Esse já eu sei.

— Já? Eu amo?

— J'aime.

— Eu amarei.

— J'aimerai.

— Bem. Je t'aimerai pour la vie, par toujours,

éternellement. Entendes? — Perfeitamente.

— O mais que pudesses dizer seria um pleonasmo. Cifra-te nisto. Adão amou Eva, sabendo dizer muito menos, se me não engana o juízo que eu formo da organização das línguas. Os irracionais também se amam sem diálogo, se não devemos chamar diálogo ao gorjeio dos passarinhos e

aos bramidos da leoa sedenta de amor, quando o querido

lhe ruge da vizinha selva. Imitemos os bichos para sermos

naturais alguma vez.

— Mas afinal — interrompeu Cibrão — que dizes tu? Aconselhas-me que não vá a Carnide?

— Parecia-me imprudente...

— A boa hora me vens pregar prudências! Hei de ir, e tu vais comigo. Prometo dispensar os teus conhecimentos para me fazer entender. Conjugarei o verbo desde o tempo presente do modo indicativo até ao imperativo. Eu darei o braço à francesa e tu ficarás com a outra. A quinta está ajardinada com sombrinhas grutas de murtas; nestas

grutas mora o amor; o amor nos ensinará a falar. — Sendo assim... vamos. E fomos.

A sege das meninas chegou pouco depois da nossa. Saltaram com buliçosa graça; e, sem biocos de cerimônia ou pudor (pudor!... é o que faltava!), nos tomaram os

braços.

“Je vous aime”, disse Cibrão à risonha criatura, osculando-a base do nariz. “Je vous aimerai éternellement”, prosseguiu ele, levando-a consigo a doces repelões, com a impetuosa ternura que eu imagino em Júpiter, feito boi, para arrebatar

a Europa.

E eu, para também me parecer com Júpiter, fiquei dizendo suavíssimas endeixas em prosa mélica, como aquele famoso

cisne as cantava a Leda.

O meu amigo, com a sua flexível haste de tarlatanas e grinaldas artificiais no chapéu, desapareceu nos caramanchéis das murtas, onde o amor os esperava para

lhes ensinar a vernácula linguagem.

A francesa, que me escutava as maravilhas amorosas em vasconço, era uma esbelta rapariga que devia ter sido muito festejada no seu Paris, antes dos trinta anos, e viera naturalmente reflorir a estranhos climas, em país de tolos, como este nosso, tolos esquisitos que, até no amor, adoram o galicismo, ainda mesmo que, na boa linguagem francesa, ele já tenha caído em desuso por antiquado e de mau quilate. Mademoiselle Florence Carlin era termo obsoleto

lá na sua terra. Cá entre nós, andava encarecida nas

palestras dos peraltas e requestada com finezas pelos mais gentis rapazes da roda (como quem diz enjeitados da fortuna), e com promessa de grosso cabedal por alguns velhos ricos, velhos digo ao dizer do vulgo, que em Lisboa só se sabe que Fulano ou sicrano era velho, quando morre, se a lista da mortalidade nos diz em que cemitério foi enterrado e os anos que tinha. Em Lisboa não há velho nenhum vivo. É frequente ouvir a gente esta pergunta feita a um homem de cinquenta anos: “Esteve em Sintra?” “Oh!”, responde, anediando a estriga do bigode encapada em lúcido verniz, “estive em Sintra, minha senhora.” “Estava muita gente no jantar da prima viscondessa?” “Sim, minha querida senhora marquesa; damas eram

trinta; rapazes éramos vinte e sete.”

Tornando à francesa, coisa a que não pode chamar-se vaca-fria

:

Dei-lhe uma ideia da minha alma. Contei-lhe os meus sofrimentos em demanda da mulher, que a fantasia em sonhos me vestia com as roupas cândidas do anjo. Disse-lhe mais que a sua imagem como resplendor de lua

instantâneo, na horrível cerração de noite borrascosa, dans

l'affreuse obscurité de orageuse nuit, me tinha transluzido

nas trevas do meu viver.

A francesa ouviu-me pasmada, e assim a modo de medrosa, como pomba, que se teme da garrulice de um papagaio. A cada movimento melodramático das minhas mãos davam-lhe rebate os nervos, com menos alvoroço de pudor que o de Virgínia nos assaltos lúbricos do decênviro Appius

Claudius, de desonesta memória.

Convencida da inocência da minha mímica cobrou ânimo a dama e contou-me que era menina de boa família de Paris, e como tal se julgara digna consorte de um duque fementido, que a raptara e abandonara. À terceira tentativa inútil contra sua vida, resolveu a vítima do duque fugir de Paris para que a sua sociedade a não visse na perdição. Acaso soubera ela que uma notável modista francesa, estabelecida em Lisboa, mandara escriturar em Paris algumas oficias. Mademoiselle Elise de La Sallete mudou o nome, escriturou-se, e veio expiar a sua culpa na hora do trabalho. Eis aqui a história, que eu ouvi com os olhos

marejados de lágrimas.

Depois desta revelação, a minha linguagem baixou a prosa vil; mas o sentir da alma era mais íntimo e nobre. Tratei-a com o respeito que impõe a desgraça, mormente se a vítima caiu do altar das adorações à ara negra do holocausto da sua santa e virginal confiança. Ao entardecer, quando Cibrão voltava dos maciços de arbustos, pedi licença à nobre infeliz para lhe apertar a mão e dar-lhe o

nome venerável e venerador de amigo. Despedimo-nos.

Cibrão convenceu-me de que o amor estava nas murtas e saíra, ao vê-los, segregando a cada um a linguagem com que cabalmente, e quantum satis, se perceberam. Eu vinha pasmado do que ele me contou; e, se o não transmito, é que não quero ter os leitores em pasmo. Ora ele também vinha pasmado de mim. Eu a dizer-lhe, em pungimentos de ânimo, a sorte infausta de Mademoiselle Elisa de la Sallete, e ele a rir, e clamar: “Que araras tu engoles! Leve o diabo a

poesia, que faz um homem tolo!”

Entendi que o meu amigo era um estúpido feliz, e calei-me.

Escrevi muito nessa noite. Ainda tenho os dois primeiros capítulos de um romance, então começado, com o título: Abismos do Amor. No primeiro descrevo Elisa ab ovo, quero dizer, na incubação dos anjos, que a tinham gerado. Isto orçava por parvoíce; mas era original — merecimento raro nas parvoíces que por aí se escrevem e dizem. No segundo capítulo deito-a em berço de ouro, rodeio-a de boas e más fadas, de anjos fiéis ao Senhor e de anjos despenhados no Inferno. Tencionava, no terceiro, dar o horóscopo da mafaldada, em resultado da vitória alcançada por Lúcifer sobre o anjo-custódio. Era uma coisa de muito trabalho e

engenho.

Fora meu intento publicar o romance por assinaturas, em

cadernetas de 15 réis, e dedicá-lo deste feitio: AO ANJO

QUE CONSERVA SUA PUREZA NA DESGRAÇA E QUE, ANTES DE SER MÁRTIR,

SE CHAMOU MADEMOISELLE Elise de la Sallete, E HOJE SE CHAMA APENAS

A SANTA,

CONSAGRA O AUTOR ESTA URNA das suas LÁGRIMAS

Naqueles primeiros dias vi de relance a mártir, à hora da

tarde em que despregava da costura.

Concentrava-me e dizia-lhe no verbo de um suspiro: “Ó santa do amor!, mal dirão as mulheres que hoje pompeiam nos salões com os vestidos que lhes fizeste quantas lágrimas verteste no estofo, que te estava insultando e

escarnecendo no infortúnio!”

Uma tarde de julho estava eu no Passeio Público, quando as duas francesas entraram. De longe e reverenciosamente as cortejei. Elisa respondeu-me com um gesto de imensa melancolia, como quem diz: “Oh!, não reveles a esses

homens de pedra a desgraçada que aqui vai!”

Atrás de mim estava um grupo de homens, que falaram e riam, quando as modistas passaram. Apurei o ouvido e escutei, com preferência, a voz de um sujeito, entre os

dizeres zombeteiros dos outros. Dizia assim:

“[...] Parece incrível! Quando eu a conheci, há quatro anos, estava ela com um estudante brasileiro, que estudava o

Curso Superior de Letras. Encontrei-a nas guinguettes, a

dançar o cancã com admirável mestria. Depois, o brasileiro endossou-a a um italiano; o italiano deu-a de mão beijada a um tenor; o tenor passou-a ao corifeu dos coristas; e daí começou a descer, e perdi-a de vista. Eis senão quando, dou com ela no armazém da *** com a mais pudica das caras e a mais mesurada das linguagens. Recordei-lhe em termos hábeis o passado, as guinguettes, o cancã, o brasileiro e a caterva magna das dinastias que lhe avassalaram o coração; e ela, com as mais marmóreas das caras, disse-me que eu, se não estava enganado, era um infame. Mas o melhor de tudo é ela ter-se encampado a um provinciano, que por aí anda, conhecido do Cibrão Taveira, a título de menina seduzida por um duque, e diz chamar-se, em Paris,

Elise de la Sallete!”

Riram todos, e eu pus a mão no lado esquerdo, a rebater o coração que partia as costelas e rasgava as membranas. Fitei o homem, que falava ainda, e disse mentalmente: “Se

mentes, pagarás a infâmia com a vida!”

Procurei o meu amigo Cibrão Taveira e contei-lhe o que ouvira. Cibrão, sem escarnecer a minha dor, respondeu

com ar sisudo:

— É verdade o que esse homem disse. Não quis desmentir as tuas presunções, porque sabia que te fazia mal. Eu sei-o da outra, que ela tem na conta de amiga íntima. Ambas são da mesma farinha. Nenhuma delas serve para poetas, que andam no encalço dos anjos. Se te serve assim, dá louvores ao Céu por ela ser quem é. Se queres mulheres para romances e prosas, pede-as à tua imaginação e deixa o mundo real como ele está, que não

pode ser melhor.

Nesse mesmo dia fui para Mafra com tenção de morrer de tédio: o sítio era azado; mas a minha robusta organização

resistiu.

Quando voltei a Lisboa, em começo de setembro, tinha chegado a companhia lírica. Um dos figurantes escriturados era o tenor que em Paris sucedera ao pintor seu patrício. A francesa viu-o, reconheceram-se, amaram-se outra vez, e estavam de casa e pucarinho numa sobreloja

na Rua do Outeiro.

Encontrei-me uma vez com eles em casa do Mata, no Cais do Sodré. Aproximei-me dela, que comia um pastel de

camarões, e disse-lhe:

— Posso ter a honra de ser apresentado ao Sr. Duque? Fitaram-me ambos, e a francesa parecia corrida. Acrescentei:

— Vejo que o sedutor por fim cumpriu os deveres de cavalheiro, Sra. Duquesa! Bem sabe quanto me deve ser grata a sua ventura. Agora, em paga do que as suas desgraças me penalizaram, queira a Sra. Duquesa dar-me o

prazer de a ver dançar o cancã.

O Italiano ergueu-se de salto e arremesso; eu saí da sala devagarzinho; e ele, enquanto a mim, tornou a sentar-se.

Fez bem, que eu não era para graças.

Acabou assim a história das sete mulheres, número cabalístico, de cuja misteriosa influência me ficou a alma

um pouco derrancada.

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