Cabeça — Capítulo II Coração, Cabeça e Estômago · Capítulo 6 de 7
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Cabeça — Capítulo II

PÁGINAS SÉRIAS DA MINHA VIDA

Vi no baile do barão de Bouças as três herdeiras mais ricas da sociedade portuense. Das três, a mais velha e rica era viúva e regularmente feia. A mais nova tinha uns longes sedutores: mas, examinada ao pé, era uma cara sem vida, coisa muito parecida com a alvura de leite, encarnada nas maçãs do rosto, como as bonecas de olhos de vidro, e beiços purpurinos de malagueta. A terceira era uma verdadeira mulher, trigueira como as prediletas de toda a

gente.

Consultei a minha cabeça, e a cabeça me disse que requestasse a viúva. Senti que o coração punha embargos; mas a veleidade foi de momentos. Caiu-lhe em cima a cabeça com todo peso da razão; e o pobrezinho, que já não servia para mais que centro das funções sanguíneas,

gemeu, contorceu-se e amuou.

À roda da viúva giravam os mais graúdos paraltas do Porto, sujeitos que andavam sempre de esporas e que se frisavam todas as manhãs para irem passar as tardes em casa do seu alfaiate, discutindo as belezas de uma lapela de fraque e a

lista mais ou menos enflorada das pantalonas.

Eram estes os terríveis açambarcadores das almas das senhoras do Porto; mas com almas se comentavam, como

convinha a pessoas puramente espirituais.

Pedi que me apresentassem à viúva. O elegante de quem

solicitei este favor, antes de me apresentar, disse-me: — Fala-lhe de mim, a ver o que ela te diz.

— Vê-se que a amas... — atalhei eu.

— Amo deveras; mas não lhe amo a fortuna.

— A fortuna é galicismo — interrompi com azedume. — Diz antes os haveres. Morra o homem de paixão, sendo necessário, mas salve-se a língua dos Lucenas, dos Sousas

e dos Bernardes.

Este meu amigo incorreto foi depois dizer a outro que eu

era tolo. A ignorância é muito atrevida!

Falei com D. Justina Mendes, e para logo adivinhei que dentro daquele peito não havia senão membranas, tecidos adiposos e ossos com as respetivas cartilagens. Fez-me doer a cabeça com três palermas respostas que me deu. Perguntando-lhe eu se tinha saudades do seu tempo de

casada, respondeu-me:

— O boi solto lambe-se todo.

Devia dizer vaca, se gostava do anexim. Perguntei-lhe se amava os bailes. Resposta: — Bons bailes é cada um na sua casa.

A terceira pergunta:

— Que juízo faz Vossa Excelência do cavalheiro a quem

eu devo o favor de lhe ser apresentado?

— Não é feio; mas eu não gosto — respondeu. — Então de quem gosta, minha senhora?

— De ninguém: tomara eu que me deixem.

— Vossa Excelência há de necessariamente gostar de

caldo de repolho com feijão branco — repliquei.

Esta facécia de mau gosto foi ouvida, repetida e lançada à

circulação por duas senhoras que nos ouviam atentas. D. Justina envesgou-me os olhos e murmurou:

— Não acho graça nenhuma ao seu atrevimento. — E,

voltando a cara, sentou-se de esguelha.

Tornando ao apresentante, disse-lhe que a viúva o achava

bonito.

Pedi que me apresentassem à mulher trigueira, e logo me disseram que não gastasse o meu tempo com um coração

rendido aos encantos de Josino.

Este Josino, esta criatura que eu cantei em oitava rima, era um homem de biscuit, engelhado de refegos na cara como a frontaria da Batalha, velho dengoso, que tinha amado as mães das meninas casadoiras que requestava. Mas que

terrível homem!... Era amado, e casou com ela.

***

Nota

Diz Silvestre que cantara Josino em oitava rima. O leitor decerto me agradece a reprodução do poema, que passou despressentido e sem assinatura num jornal literário daquele tempo. Foi ele escrito na véspera do matrimônio de Josino com a formosa trigueirinha. Não louvo semelhante desafogo de despeito, nem encareço o quilate da poesia. Reza assim a coisa, depois de ter resumido em estiradas

oitavas o epitome da sua vida e a resolução de se casar:

Josino amigo meu, velho incontrito, Há trinta anos conheço em cata duma, Que tenha coração, e algum saquito

Daquilo com que a vida mais se arruma.

É velho o meu Josino; mas bonito, E bem conservadinho; ainda se apruma,

Quando vê na janela da vizinha

A travessa criada da cozinha.

Nos bailes, faz-me inveja o seu meneio, E os trejeitos, que faz coa perna fina, E o garbo, que lhe empresta o bom recheio

Do túmido algodão com que fascina.

Do cume de gravata, em doce enleio, Contempla as graças da gentil menina, Já neta de uma avó, que foi deveras

Namoro de Josino em priscas eras.

Já tem um pouco os olhos desvidrados; Porém, não sei que graça tem, se os pisca! Eu, se fosse mulher... ai!, meus pecados!,

Caia neste anzol de antiga isca.

Há homens tão fatais e endiabrados, Que mal sabe a mulher ao que se arrisca, Se palestra lhes dá! Ai!, pobrezinha!

É a história do sapo e da doninha!

Mas que importa o poder que tens no peito Das cândidas donzelas, velho audaz! Tu consegues fazer com manha e jeito

O que a natureza pérfida desfaz.

Já consta por aí que tu és feito De pródigo algodão, múmia falaz! Suspeita-se também ser de algodão

A coisa a que tu chamas coração.

Josino, ainda assim, já mais fraqueia; Ousa dar-se o valor de uma antigalha, Camafeu de Herculanum ou de Pompeia,

Que no mundo não tem mulher que o valha.

Isto diz muita vez, à boca cheia, À criada Jacinta, quando ralha, Porque a pobre, mulher de sã lisura,

Se ri quando ele encaixa a dentadura.

Josino tem caleche e tem cavalo, Que aos triunfos de amor lhe presta ajuda. Quando silva da pita o agudo estalo

Donzelinha não há que não sacuda

A ceroula do pai, para espreitá-lo,

Tingida do pudor, que o gesto muda; Enquanto ele lhe mostra o dente amante,

Que outrora adorno foi de um elefante.

Nestes meses de Inverno, o reumatismo Costuma apoquentá-lo; e ele afeta Que está numa razão de ceticismo,

E rebate do amor a doce ceia.

Diz que o seu coração é fundo abismo, Onde entesoura imagem predileta Da mulher que há de vir; e, à vista disto,

Presume-se que vem co Anticristo.

Mas, apenas repinta a Primavera

Espargindo matiz de lindas flores,

Josino sai da cama, onde gemera,

E remoça nutrindo outros amores.

Ludibrio miserando da quimera, Que o mangara no leito de agras dores, Ei-lo, de novo, em coração repoisa

De menina, que pese alguma coisa.

Não pensa que perdeu do seu quilate Enquanto pode as rugas rebocar. Diz sempre que lá dentro ainda lhe bate

O quer que seja, que precisa amar.

Assim, como quem diz um disparate, Pergunta se será néscio em casar:

Conta os logros, que fez, nunca sabidos,

E teme a previdência dos maridos.

Sem embargo, porém, deste palpite Josino vai pedir a mão de esposa A formosa menina, das do elite,

Que a detração abocanhar não ousa.

Assente o pai ao digno convite, Que é pássaro bisnau, velha raposa, E vira um vulto de homem presumível

Sair do quarto dela(ó vista horrível)

Josino, alfim, casou, e partiu logo (Ah!, que não sei de nojo como o conte!) Todo ânsia, paixão, ardor e fogo,

Com ela para o Bom Jesus do Monte.

Ai!, que lua-de-mel, que desafogo De cadente paixão ao pé da fonte, Que trépida repete em magno anelo

As falas que murmura o Esganarello.

Esganarello... sim!... (Se saber quer Alguém, que o não conhece, aquele herói, Procure-o, que há de achá-lo em Molière,

Ou lá na vizinhança.)

Que, extinta a Lua incasta do prazer, A esposa diz que já em alma lhe dói Saudades do teatro italiano,

E do primo doutor... grande magano.

***

Acabo de demonstrar que é débil, se não impossível, armar romance com as meninas do Porto. Pode ser que este aranzel de coisas nunca faça gemer os prelos do meu país; porém, quem me diz a mim que eu não tenha o póstumo regalo de ser impresso e lido? Nesta hipótese, com que a vaidade se incha, quisera eu vestir a nudez dos meus contos, enfeitá-los com as joias do estilo, que dão realce aos assuntos frívolos, e recompor mais literalmente com embelecos de imaginação as securas da verdade, dura de engolir neste tempo, se o engenho não a arrebica de

pechisbeques e desvarios da natureza.

A viúva, bem aproveitada, podia dar alguns capítulos. Tolice tinha ela de mais saciar o espírito público, sempre faminto de ver em letra redonda as tolices próprias às costas alheias. Se eu tivesse sido mais moderado na minha linguagem, a criatura dava um livro; mas a minha razão, inconciliável com as parvoiçadas da milionária, saiu com aquela pergunta do caldo de repolho, mais para castigar os

seus admiradores que para chasquear a tola. Bem pode ser

que esta senhora, se fosse pobre, tivesse o siso comum, que o dinheiro produz milagres de variados feitios: a certas pessoas pule-as, espiritualiza-as, dá-lhes estilo sentencioso e inspiração para falarem de tudo com público aplauso; a outras pessoas despoetiza-as, materializa-as e embrutece-as

. Conheço exemplos de tudo, e o leitor também.

A viúva, segundo me consta, antes de casar, era uma menina como são todas as meninas. Tinha os seus namoros, a quem respondia com bonita letra, e pensamentos, se não engenhosos, pudibundos. Casou com u riquíssimo velho por escolha dos seus pais e condescendência sua. Fez as delícias do esposo, e as próprias, comendo e dormindo para ter sempre as faculdades do coração em torpor. Enviuvou ao sétimo ano de casada, quando da sua primeira natureza já não tinha vislumbres. Soube então que era riquíssima e requerida pelos homens notáveis da terra, e continuou a comer e a dormir. Porém, como os pés lhe inchassem por falta de exercício, e os médicos a mandassem passear e agitar-se, a viúva apareceu de repente nos passeios, nos bailes e nos teatros, onde adormecia do segundo ato em

diante. Dispararam-lhe à queima-roupa as mais

incendiárias declarações, e ela ouviu-as a dormir, enquanto a não incomodaram. Depois, como a pusessem em cerco e não a deixassem tomar fôlego, a mulher despegou em despropósitos e rusticarias, que a tornaram mais amável

aos concorrentes. Aqui está o que era a viúva.

Assestei o olhar à terceira, à menina que tinha aspeto de serafim de tribuna de igreja. Disseram-me logo que o Dr. Anselmo Sanches a requestava traiçoeiramente. Ora, o Dr.

Anselmo Sanches era um homem honesto.

Convém saber que em toda a parte do mundo sublunar a

honestidade soa como hipocrisia velhaca.

O homem honesto dali é o que logra embair a opinião pública; recatar a impudência com o exterior sisudo da catadura; acentuar a expressão no tom sentencioso do preceito; contar com a mobilidade do globo visual para o revirar ao céu, quando o ânimo afeta confranger-se com a notícia de um escândalo; franzir os beiços e avincar a testa, se é forçoso chancelar com voto cominativo a pena de

alguma imoralidade a retalho.

Conheci alguns homens honestos no Porto. Custou-me muito. Venci, para vê-los ao pé, estorvos desanimadores. Fez-me mister iniciar-me nos arcanos da desonestidade para entrar no segredo de certas existências que, dantes, me pareciam bem fadadas da virtude, ou dotadas de compleição refratária ao vício. Quando me avistei com eles na mesma zona, senti-me corrompido, escorria-me do coração o pus tábido das chagas; dei como impossível o regenerar-me diante do meu próprio senso íntimo; estava ou devia estar perdido, porque julguei necessária à vida a

hipocrisia cínica.

É que, sem ter descido as escaleiras todas da protérvia e do opróbrio, não se devassa o latíbulo em que se encovam os

homens honestos.

A corrupção periódica das almas, empestadas pelo exemplo, ou impelidas pelo instinto, não tem que ver com a corrupção por grosso, que o acaso ou o ardil vos depara no secreto viver dessa cabilda de beduínos, salteadores da

honra alheia, e nojentíssimos farsistas da sua (*).

[(*) Aqui está uma amostra das desordenadas imprecações de Silvestre contra a

sociedade. Escreveu-as provavelmente durante a passagem da cabeça ao

estômago. A trovoadas tais de estilo é o que andavam sacrificados todos os jornais em que ele escrevia. Era impossível que o assinante, no fim do trimestre, não recebesse o cobrador do jornal como a última palavra do insulto. pela minha vontade, podava muito destas páginas; mas, sobre ser deslealdade à memória do autor, seria supor que os homens sinceramente honestos do Porto se ofendem da sátira que reverbera os velhacos. O que eu quisera concertar é o desmancho de ideias deste capítulo; não posso, nem sei o que ele pensava, nem porque estava assim assanhado contra a sociedade portuense. Devia de ser escrita esta objurgatória no fim de algum trimestre, quando o proprietário do jornal lhe intimou silêncio.]

O mundo é péssimo; há, porém, providência nesta péssima

organização.

A hora certa, dentre as flores da vida, cultivadas por mão

ilesa de espinhos, salta a víbora, que a morde.

Não há felicidade completa para a verdadeira honra: menos

a haverá para a falsa.

A virtude, conquanto escudada por si própria, é vulnerável,

porque se dói aos golpes da injustiça.

Ora, a hipocrisia, estribada na manha e na fraudulência, há de, em desaire da justiça de Deus, rebater os tiros da indignação? É impossível. Embora o látego não fira uma

fibra sensível nas espáduas do fariseu abroquelado pela

impostura; embora a sátira recue espavorida dessas almas impermeáveis à vergonha, é preciso que se escreva um livro, ou se delineiem os traços desse livro, o único, o

urgente, o possível, o capitalíssimo para o Porto.

Cansei-me de ouvir dizer que a segunda cidade de Portugal é um enxame de moedeiros falsos, de contrabandistas, de mercadores de negros, de exportadores de escravos e de magistrados de alquilaria. Venalidade, crueza e latrocínio são três eixos capitais sobre que roda, no entender da

crítica mordente, o maquinismo social de cem mil almas. A minha análise aprofunda mais o espírito vital do Porto.

Ali, o viver íntimo tem faces desconhecidas ao olho da polícia e da economia social. Conhecem-se as librés dos chatins de negros; discrimina-se pelo brasão o fabricante de notas falsas do outro seu colega heráldico, opulentado em roubos ao fisco; ignora-se, todavia, o mais observável e ponderoso da biografia desses vultos, que a fortuna estúpida colocou à frente dos destinos e da civilização do

Porto.

Ó cidade dos livres, que é da liberdade dos teus escritores?

Se aí há homem de alma, que sacode os sapatos na testeira da riqueza bruta, que testemunho nos dá da sua

independência?

O jornalismo do Porto está acorrentado às ucharias dos ricos. O jornalista por via de regra é um pobre homem, que vive do estipêndio cobrado com franciscana humildade à porta do assinante. Para os festins do fidalgo de raça era chamado o versista com as consoantes prévias do soneto na algibeira, onde não havia outra coisa. Nos tumulentos jantares do fidalgo de indústria há talher para o gazeteiro, que já deixou na estante dos caixotins a local sumarenta, inspirada pelo antegosto das viandas, que lhe arrastam na

torrente a alma para o estômago.

***

Nota

Perdoe-me a memória de Silvestre. A calúnia, conquanto escrita em palavras cultas e penteadas, é sempre calúnia. Elegâncias da linguagem, por mais que valham na retórica, valem nada para o desconceito de quem injustamente difamam. O jornalismo do Porto teve e tem admiráveis e valentes mentenedores da honra contra classes poderosas pela infâmia nobilitada. A conta de muitos poderia escrever-se o que o finado Silvestre disse de um, nestes

termos, que trasladamos dos seus manuscritos:

Havia aí uma forte alma e audaciosa inteligência, que levou a mão à máscara de alguns para lhes estampar o ferrete na

testa.

O jornal honroso, que a tanto ousara, expirou à míngua de subscritores, porque os afrontados por ele iam, de porta em porta, mandar uns e pedir a outros que retratassem as moedas de cobre à receita do escritor, que as não queria

para si.

O heroico rapaz, rodeado de inimigos até ameaçado na vida, cruzou os braços, descorçoado, e disse: “É impossível! Pensei que teria por mim os incorruptos; mas a peste não

respeitou consciência alguma.”

Num país em que o Governo atalaiasse os interesses do Estado, e o renome honrado da cidade, aquele jornal seria sustentado a expensas do tesouro; aquele jornalista seria acrescentado em bens e honras; aqueles réprobos, indigitados pelo órgão da voz pública — que é sempre a voz dos fracos e dos inermes —, seriam pelo seu mesmo decoro e dos poderes que os nobilitariam, obrigados a refutarem a detração ou a despirem nas praças os arminhos com que

escondem o pescoço à corda de esparto. Doces e nobres quimeras!

O jornalista austero será sempre um ente malsinado e odioso para todos os governos. Hão de expulsá-lo sempre do sacrário poluto das mercês, onde reina o ladrão laureado, que tem o segredo de abater ministros erguidos e

exaltar ministros despenhados. E acrescenta Silvestre da Silva:

Que outro homem há aí que se aventure a entrar na trilha daquele, que esmoreceu, afinal, diante das conveniências

sociais? Serei eu...

Fez bem! Partiu o braço, querendo parar o movimento da roda. Desbaratou a melhor parte do seu Patrimônio em publicações panfletárias, que não rasgam sulco algum para as searas do futuro progresso da humanidade. Criou inimigos, que nem sequer lhe tinham lido as diatribes, nem lhe podiam perdoar pelas graças do estilo — inimigos que

não sabiam ler, os piores de quantos há. É o que ele fez!

***

Tornando ao Dr. Anselmo Sanches.

Dois meses depois que fui ao baile, planeando casar-me com uma das três representantes de ações bancárias no valor de trezentos contos para cima, vi uma senhora, que

devia ter sido formosa, encostada ao braço do seu marido.

Trinta e quatro anos teria ou menos; mas os precoces vincos da velhice denunciavam quarenta anos ou mais. Lá estava o fulgor dos olhos para desmentir a denúncia das rugas, fulgor embaciado de lágrimas, mas ainda vivido

como clarão crepuscular quando uma barra de púrpura e

ouro tinge a orla do céu. De feito, era aquela uma vida em crepúsculo da tarde; já tudo para além-túmulo era

escuridade e pavor para a triste senhora.

Chamava-se Rita e era brasileira, pura carioca, linda como

todas as cariocas que não tem mais de dezoito anos.

Francisco José de Sousa, marido dela, era um português que enriquecera no Brasil. Tinham viajado longo tempo; e como Francisco José de Sousa tivesse ido do Minho e as saudades da Pátria o não deixassem nunca, escolhera o

Porto para residência.

O fino trato, aliado à opulência, estimulou invejas, caprichos, competências e ódios mesmo na sociedade portuense. De todas esta más paixões surdiu um bom resultado: aumentou o número dos bailes, entraram em emulação as equipagens, enriqueceram as modistas, acudiram os jornalistas a fazer ata, qual delas mais encomiástica, dos bailes profusos e luxuosos; o Porto, enfim, poliu-se mais em dois anos que nos nove séculos de vida que a mitologia, vulgarmente chamada história

portuguesa, lhe dá.

Estava designada a noite de um baile em casa de Rita Emília, quando os convidados receberam aviso da súbita

doença de Francisco José de Sousa.

Correram amigos e indiferentes a visitar o enfermo. Fui entre os segundos: achei-o prostrado e taciturno; e não vi a esposa ao pé do leito, nem na antecâmara. Perguntavam por ela as pessoas mais familiares; mas a brasileira não

recebia sequer as amigas íntimas.

Grande mistério, grande burburinho, a curiosidade em ânsias, a maledicência espionando, a calúnia imaginosa a segredar por praças, e salas, e botequins, desaforadas conjeturas. Andou pois a difamação explicando às cegas, por vários modos, a enfermidade moral de Francisco de

Sousa e a misteriosa ausência de D. Rita.

Quinze dias depois fecharam-se as portas e janelas da casa do brasileiro, e os criados, quase todos despedidos,

disseram que os amos tinham ido viajar.

Aqui é que a curiosidade ia dando um estouro. Houve aí bisbilhoteria ilustre que se encanzinou de raiva por não

poder esquadrinhar o segredo desta saída, a qual, de força,

devia ter um escândalo por causa, escândalo que a

hipocrisia pudera abafar ardilosamente.

Havia nesta casa uma menina de dezasseis anos, órfã, muito rica, pupila do brasileiro e filha doutro, que morrera

no Brasil, quando andava em liquidação.

Mariana acompanhara-os na misteriosa saída do Porto: soube-se, porém, que, ao passarem em Braga, a órfã

entrara nas Ursulinas, mosteiro de educação. Esta menina era a terceira mulher rica do baile.

Sabido isto, respirou um pouco a maledicência. Já os arpéus da hipótese achavam duro onde morder. Acordaram, portanto, em conciliábulo, algumas famílias honestas, que Mariana fora encontrada em flagrante desprezo do seu

pudor e, por isso, enclausurada no mosteiro bracarense.

Toda a gente ia ter com o Dr. Anselmo Sanches para

evidenciar a conjetura.

***

Era o doutor amigo íntimo da família, pertencia ao conselho tutelar da órfã, curava dos negócios litigiosos do brasileiro e podia muito na casa, dominando a vontade do dono, que se fiava dele, mais seguro que em si próprio. Trinta e oito anos teria Anselmo. Em conta o tinham de homem exemplar em todas as qualidades boas, exceto na jurisprudência, em que era ignorante mais que o ordinário. Isso, porém, não lhe danificava o bom nome. Os seus muitos apologistas, se duvidavam dar-lhe procuração para os representar no foro, sobramente o indemnizavam, confiando-lhes mulheres, filhas e — o que mais é no Porto

— o dinheiro.

Tinha o Dr. Sanches uma cara mais que feliz para se fazer benquisto. Nunca fechava a boca. O queixo inferior, pedindo sempre, servia-o às maravilhas, quando parecia escutar com dor os escândalos que os oradores encartados da Assembleia Portuense (*) expectavam do peito sujo, onde a asma senil desafogava pela detração injuriosa.

[(*) Ao tempo que Silvestre da Silva escrevia esta impertinência contra a Assembleia Portuense, tinha esta sociedade uma sala privativa de alguns

indivíduos, que se divertiam contando passagens da vida alheia, em linguagem

acomodada aos assuntos. Os sócios desta congregação, chamada “Palheiro”,

eram pessoas respeitáveis, maiores de cinquenta anos, qualificadas na jerarquia eclesiástica, no comércio nobilitado e na magistratura, sendo o principal elemento do Palheiro negociantes aposentados, vindos do Brasil. A razão de chamar-se “Palheiro” àquela reunião não a sei. Conjeturalmente diziam alguns etimologistas que palheiro derivava de palha, querendo concluir que o pensamento de quem dera o nome à coisa fora significar o alimento natural dos sócios reunidos naquele ponto do edifício. Acho muito violenta e sobremaneira desatenciosa a hipótese. Os cavalheiros, ofendidos com tal interpretação, eram pessoas que tinham boas lembranças, propósitos salgados e instrução variada para enfeitar as desgraciosidades da maledicência. Estas

qualidades intelectivas não se nutrem com palha, penso eu.

Conquanto não fosse extremamente agradável ouvir um sexagenário a discorrer em termos lúbricos acerca das suas libertinagens de rapaz, eu tenho mais que muito para mim que o sal ático dos eufemismos havia de encobrir a

impudicícia da ideia.

O que havia de menos louvável nas sessões daqueles cavalheiros era a obrigação que reciprocamente se impunham de esmiuçarem os pormenores das desonras meio veladas para os contarem de modo que a difamação pudesse dali sair a desenrolar o sudário das chagas sociais à luz do sol. Quando os relatores não tinham que expender, era permitida a calúnia para gastar o tempo: quer-me parecer que este artigo dos estatutos do Palheiro não merece louvores. Homens a escorregarem à sepultura, uns entrajados com as severas vestes da religião de Cristo, outros com o peito honrado por cruzes e crachás, outros com numerosa posteridade de filhos e netos, não davam de si boa prova indo para ali afiar a linguagem do impudor, decretar a publicidade de desgraças, que não precisavam da infâmia pública para o serem, e inventar escândalos para

aligeirar os tédios da noite.

O que tinham de mais humano aqueles sujeitos era comerem muito biscoito de Valongo e forragearem nos tabuleiros às mãos-cheias para levarem à família. Isto, que não parece bonito, era a coisa de mais sainete e folia que os velhinhos

faziam na assembleia.

O tempo foi matando uns e espalhando os outros, de modo que o Palheiro, à falta de concorrentes dignos, ficou devoluto, à espera que a geração nova passe

da torpeza militante para as pacíficas recordações das suas façanhas.]

Se a vítima era senhora casada, o doutor abanava um pouco a cabeça, punha os olhos no teto, e dizia: “Vão-se os

costumes... ” Se o escândalo recitava as gargalhadas gosmentas do auditório, Anselmo sorria por complacência e murmurava: “É remarcável o deboche em que está o grande mundo!” (O celerado conspurcava a língua pátria!). Não consentia ele que se erguesse voz a desculpar imoralidades, se raro sucedia algum confrade, por sestro de

contradição, indulgenciar fraquezas ordinárias, em verdura

de anos, ou obrigadas por circunstâncias especiais.

Era para ver como o inexorável Sanches se enfurecia em investidas contra Pedro, que passava diariamente duas vezes em tal rua, para inquietar a rapariga incauta!

Chegava a chorar no apuro do sentimental, que

prodigamente consumia, descrevendo os funestos resultados da sedução. Menos perdoaria a Martinho, que, impudico e sacrílego, ousava ir aos domingos, à missa do meio-dia, aos Congregados ou Clérigos, para ver pelas costas a mulher do seu vizinho Januário, depois de ter sujado a fama da mulher do seu vizinho Timóteo! E, em seguida, punha em miúdos a história do descrédito daquelas senhoras, casadas com os seus amigos, e havia risos à conta dos maridos, e ficavam todos sabendo o que até então ignoravam. Momentos depois, se lhe pediam novidades, o doutor respondia que não só se abstinha de indagar a vida alheia, mas até quisera, se pudesse, cerrar ouvidos às histórias torpes que todos os dias germinavam

da corrupção do corpo social.

Francisco José de Sousa prezava no doutro o que muitos chamavam sobejidão de escrúpulos. Parecia-lhe, a ele, brasileiro, vilã e torpe a incessante detração em que entretinham os saraus algumas dezenas de velhos, de cuja língua a palavra licenciosa dos bordéis saia mais nojenta do que é em si. Anselmo, para não cair no desagrado do seu

amo, dizia que o mal não era a sátira, mas sim o

estragamento dos costumes que a autorizava. Escusando os velhos, acrescentava que as cãs eram um pouco

intolerantes; porém, inofensivas.

Simpatize o leitor com o Dr. Anselmo, para que se não diga

que a virtude é mal vista como a verdade nua.

***

No espaço de três meses, a contar da violenta introdução de Mariana nas Ursulinas de Braga, saiu a lume o tenebroso mistério; mas sem estrondo, porque andava muita gente apostada a encobrir Anselmo Sanches para não ter de proclamar a infâmia do apostólico varão, que tinham

santificado.

Eu hei de abreviar em poucas páginas o que sei. Não me posso ver muito tempo encharcado nesta lama, onde me atirou um dos empurrões da sorte. Lama por toda a parte onde me impeliu o coração e a cabeça! Toda a gente se goza de algumas paragens risonhas; a todo o peregrino da

vida é dado assomar de barrancos resvaladiços às chãs

pitorescas, e descansar, e esforçar-se aí para se afrontar de novo com as fadigas da jornada. Eu, de mim, não tive o que têm todos. Onde quer que parei, resvalei num atascadeiro. Quando os acicates do amor me arremessavam às aventuras do coração, ia-me esbarrar com tolas ou devassas, ou desgraçadas tais como Marcolina. Se era a razão que me induzia com os seus cálculos egoístas a tomar o meu quinhão daquilo que o vulgo chama senso comum, já sabem que consequências eu vou tirando das minhas racionais primícias. Vi três mulheres à luz serena do raciocínio. Saiu-me parva a primeira, a ponto de me obrigar, sendo eu em extremo delicado, a perguntar-lhe se gostava de caldo de repolho. A segunda, para me humilhar e abater o orgulho, deu-me em Josino um rival preferido. Esta terceira, a Mariana dos olhos doces e jeitos de

inocência lorpa, vão agora saber no que deu.

***

Grandes considerações!

Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo ótico. A imagem objetiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas diletas. Os certos casos em que acima de modifica a generalidade da definição vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê de algumas simpatias esquisitas, extravagantes e estúpidas que nos enchem de

espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja.

E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista quanto a alma da pessoa enferma, vítima da sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos que

o mais digno homem requestaria com orgulho.

Se me desarmam deste convencimento, cimentado em doze anos de experiência e observações, não sei como hei de

explicar o amor de D. Rita Emília ao Dr. Anselmo Sanches.

Defendo-a desta vergonha como defenderia o réu de um crime extremamente execrável. A alucinação, a doença dos nervos, a demência, enfim, explicam o crime, e deviam no máximo das vezes absolver a mãe que mata o seu filho, o filho que mata o seu pai e a mulher que se dá em alma e

corpo aos Anselmos Sanches.

Posto isto, dispensam a história das repugnantes conjeturas, que então fiz, sobre o inarrável mistério dos amores de Rita e Anselmo. Indulte-se a infeliz em nome da depravação do nervo ótico, em nome da física e da patologia, em nome da caridade evangélica, em nome de

tudo que move à lástima, à piedade e ao perdão.

Rita amava Sanches: aceitou o facto consumado. Ora Francisco José de Sousa, ileso da enfermidade visual da sua mulher, via o doutor, qual a natureza o fabricara, feio, canhestro, mazorral, abrutado, refratário aos dardos do deus de Gnido. Embalde se cansaria a malquerença insinuando ao brasileiro com cartas anônimas — expediente em voga, e creio mesmo que inventado no Porto — a suspeita de que a sua mulher encarava no doutor com olhos

menos ajuizados que os dele marido.

E a suspeita era já de si tão absurda que não houve no Porto alma de sobra danada que denegrisse, até rebentar o

escândalo, a virtude conjugal de Rita. D. Margarida Carvalhosa disse-me um dia:

— Vou contar-lhe uma enjoativa novidade, Sr. Silvestre.

Prepare-se para rebater um ataque de inveja.

— De inveja, minha querida senhora? Vai Vossa Excelência dizer-me que mimoseou o mais feliz dos mortais

com o seu coração?... Invejo, realmente invejo... — Cale-se. Não se trata de mim: é um escândalo.

— Ah!... disse-me Vossa Excelência logo que era um escândalo: ser-me-ia impossível associar o nome da vossa Excelência a um escândalo. Trata-se de Guilherme do Amaral? Do barão de Bouças? De Cecília? De João José

Dias?

— Não, senhor. Trata-se daquela Rita brasileira de quem

o Sr. Silvestre disse que andavam enamorados os anjos.

— E os demônios, minha senhora! Diga, diga, que eu

interesso-me em aspirar todos os aromas que rescendem

das essências angélicas. Margarida Carvalhosa descompôs-se a rir e continuou:

— Pois o aroma da tal essência angélica está sendo um

aroma de arruda, meu caro poeta. — Arruda, minha senhora?! Queira explicar-se.

— Rita deixou de ser a cara-metade do seu marido e

passou inteira para o Dr. Anselmo Sanches. — Calúnia torpe! — exclamei com sincero espanto.

Margarida Carvalhosa tange a campainha, sorrindo com

irônica piedade da minha boa-fé.

— Venha cá, Josefa — disse ela à criada, que entrava. — Repare se a mamã está por aqui perto...

A criada disse que a senhora baronesa estava no jardim.

— Conte — prosseguiu Margarida — diante deste senhor, sem acanhamento nem receio, o que me contou a

respeito da brasileira.

E, voltando-se para mim, acrescentou:

— Esta criada hesitava; mas, animada pela ama, disse

com visível repugnância:

— A brasileira... Então que quer Vossa Excelência que

eu conte?

— Como se chamava o amante da sua ama? — disse

Margarida. — Era o Sr. Dr. Anselmo. — Como soube você que ela amava o Dr. Anselmo?

— Como soube? Soube-o porque eu era a criada do

quarto da senhora.

— Aquilo é muito significativo, Sr. Silvestre — disse, sorrindo com gentil malícia, a filha do barão, e acrescentou

voltada para a rapariga: — E como tem você a certeza?

— Ora essa! A senhora não sabe?! Eu sabia tudo. De mim só se escondia ele. Até ela, quando o doutor começava a querer seduzir a pupila do Sr. Sousa, chorava muito e

desabafava só comigo.

— Conte lá essa história da sedução da pupila. Como era

isso? — disse eu.

O Sr. Doutor sabia que a Sra. D. Marianazinha era rica, e disse à Sra. D. Rita que o melhor modo de continuarem a viver de perto sem que o mundo botasse fel era ele fazer com que o marido consentisse no casamento dela com a menina. Depois, a minha ama deu-lhe um desmaio, e esteve às portas da morte. Quando melhorou, abraçou-se à menina e perguntou-lhe se o doutor já lhe tinha dito alguma palavra a respeito de casar com ela. A menina pegou a chorar e não disse uma nem duas. Isto mais apoquentava a minha ama, e desesperava-se que metia medo. Tanto fez que a menina confessou que o doutor a perseguira quatro meses todas as vezes que a senhora não estivesse ao pé, e que, vindo uma vez com ela de Guimarães, onde a menina

tinha ido visitar umas parentas...

A criada, neste ponto, levou o avental ao rosto para encobrir que não corava; e no entanto, Margarida, relanceando os olhos dela para mim, e de mim para ela, com um brilho de alegria só compreensível às mulheres despenhadas, que folgam a cada vítima abismada com elas,

disse com império:

— Acabe a história, Josefa.

— A história está acabada, Sra. D. Margarida — disse

eu.

Faltam os comentários, que tanta gente faz pela sua conta. Esta D. Rita, Sr. Silvestre, quando me estendia a mão e os lábios numa sala, fazia-o com um ar de soberania que me incomodava. Ouviu-lhe muitas vezes, falando de Cecília, dizer com virtuosas caretas: “Vergonha das mulheres!” Rejeitou convites para casa de certas senhoras que não aspiravam a santas. A mim me disse com pedantesco ar maternal: “Menina, as exterioridades, por muito francas e inocentes que sejam, bastam para condenar. Coíba-se de todas as ações que possam dar pasto à maledicência. Olhe que a honestidade não está somente no coração: um olhar e uma palavra irrefletida bastam a depor contra as mais

sisudas intenções.” E continuou com rancorosa satisfação:

— De Mariana só lhe direi que ainda há quinze dias a vi com o seu ar virginal voltar-se à brasileira, que estava ao pé de mim na missa dos Clérigos, e murmurar ao meu respeito palavras que eu não pude compreender. Esta

criada, que estava ao pé delas, ouviu-as: “Aquela Margarida

Carvalhosa tem modos tão desenvoltos e impróprios de menina solteira!” Ora isto dito por quem oito dias antes, vindo de Guimarães, aceitara uma catástrofe tão imprópria de menina solteira, não me parece crítica muito frisante aos meus costumes. (Eu ri-me por dentro, quando ela disse

“meus costumes”... )

Enquanto ao Dr. Anselmo Sanches — continuou D. Margarida, cortando as palavras com frouxos de riso —, esse deixo eu à perspicácia do Sr. Silvestre avaliá-lo...

Retire-se, Josefa, que vem aí a mamã.

***

A polícia correcional

Escrevi um artigo contra Anselmo Sanches, pensando que assim vingava o gênero humano. Saiu o artigo na secção dos comunicados: o proprietário do jornal declinou a responsabilidade moral e legal da ofensa ao doutor.

Rompeu-me assim das entranhas o ódio que as queimava:

Sr. Redator:

Há casos em que o silêncio é um crime! À vista de infâmias que sobre-excedem e transbordam a paciência humana, não

há aí peito de ferro que se contenha!

Nam quis iniquae

Tam patiens urbis, tam ferreus, ut teneat se...?

Aqui é o caso de dizer como o cantor de Camões:

Ergo-me a delatar tamanho crime

E eterna a voz me gelará nos lábios.

Vinde a mim, hipócritas!

Vinde ao sevo do escândalo, celerados que andais nas encruzilhadas assalteando a honra dos infelizes descautelosos! Aqui tendes charco para vos rebalsardes,

cerbos!

Aqui está um dos vossos, que apunhalou a alma de um marido, crucificou uma esposa ao madeiro de eterno

opróbrio e sovou aos pés uma coroa virginal.

Isto era o exórdio, que os meus inimigos chamaram farfalhada. Seguia-se depois a exposição chã da protérvia de Anselmo Sanches, arranjada em três capítulos, cada um com uma epígrafe. A primeira era: Quousque tandem, Catilina?... Achou toda a gente literata muita novidade nesta passagem de Cícero a propósito de Anselmo. A segunda epígrafe era Proh pudor, proh dolor! — também nova. O terceiro capítulo rompia com o Me, me adsum qui feci, in me convertite ferrum. O todo era broslado de passagens latinas, que tornavam o meu artigo um parto de

indignação e outro parto de sapiência.

Guardava eu as justas conveniências em embuçar os nomes das duas mulheres, que figuravam no quadro infesto à dignidade humana; mas abstive-me de cerimônias com o

doutor.

O meu artigo levantou contra mim celeuma de pessoas honestas, e até jornais honestos me saíram de revés,

acoimando-me de indiscreto, licencioso e causa ocasional

de escândalo. É boa tolice esta! Uma gazeta sisuda, maravilhando-se de que eu fizesse queixumes, não sendo sequer marido da dama, aplicou-me os sabidos versos de

Nicolau Tolentino:

Apóstolo impertinente Pra que hás de tu suar,

Se não sua o padecente?

Anselmo, como visse que a imprensa e a opinião pública estavam com ele contra o jornal, por abuso. O responsável declinou sobre mim, e eu fui sentar-me no banco dos réus

em polícia correcional.

O advogado de acusação era um jurisperito de grande nomeada e uma gravidade de colarinhos assustadora. O meu patrono foi, nomeado ex-ofício: era um bacharel verde

em anos e sorvado em inteligência.

A acusação fez o panegírico dos séculos áureos em que não

tinha imprensa, nem as vidas das famílias estavam expostas

aos enxovalhos de escrevinhadores devassos.

“Sr. Dr. Juiz de Direito!”, exclama ele, “o santuário da família não pode continuar à mercê destes esfoladores de reputações! A mulher casada treme no pedestal da sua virtude; o esposo honrado, num país de imprensa livre, anda como ovos em peneira; a virgem honesta é estrangulada no seu decoro, quando se embala no inocente berço das suas afetuosas aspirações aos sacratíssimos, direitos da maternidade. (Neste ponto, o escrivão do processo limpou as lágrimas ao lenço vermelho do tabaco.) Sr. Dr. Juiz de Direito, prossegue o Demóstenes, com os braços em arco e o rosto em lavaredas de transporte. Todos temos mulher e filhas, filhas estremecidas e esposas ternas. Que importa a inviolabilidade destas santas afeições, se a pena do foliculário, estilando o negro fel da calúnia, nos verte no coração a peçonha da desordem doméstica e nos expõe às vaias públicas?! Um marido vive em boa paz com a sua mulher: vem um refalsado escritor e diz-lhe: “A tua mulher é desleal!, tua mulher roubou-te os doces mimos!” Horrível, Sr. Dr. Juiz de Direito!, horrível! Desde este

momento a paz da família é como diz Job; o esposo tornou-se

a fábula do povo; e a esposa, maculada sem mácula, aí fica infamada em si e na sua posteridade, por todos os séculos dos séculos! O cidadão probo e laborioso, se pensa que a honradez da sua vida o há de escoar dos tiros da

calúnia, engana-se.

Aqui está o exemplo palpitante da atualidade. O Dr. Anselmo Sanches alcançou o quadragésimo ano da sua existência, sem que o ódio ou a inveja lho denegrisse com a baba pestilente da aleivosia. Todas as famílias se honraram de o terem na sua confiança. Em todas as casas honestas ele tem tido acesso como amigo, como irmão e como brasão das virtudes familiares em que ele é conselheiro, e baluarte, sem rebuço o digo, e baluarte —, hei de chamar-lhe sem lisonja baluarte, paládio sancta sactorum, das virtudes das famílias suas relacionadas. Pois ei-lo aqui pedindo às leis que o justifiquem perante o mundo e impondo ao fel cuspido por infamadora boca que volte ao

negro peito donde saiu!...

Esqueceu-me o restante do discurso, que não precisava deter-se mais para ganhar o bom êxito. Os espectadores, os

escrivães, o juiz, os esbirros, as testemunhas de acusação,

todos estavam comovidos, quando o meu advogado tomou a palavra e disse que eu escrevera um romance sem intenção de ofender designadamente pessoa nenhuma. Anselmo Sanches é um nome — argumentava o causídico — que eu inventara, sem talvez saber que ele já estivesse inventado, e tanto assim era que o seu cliente ficara pasmado de se ver citado aos tribunais para responder pelos involuntários devaneios da sua imaginação opulenta e já provada noutros

muitos contos de que ninguém se queixara. Isto fez sensação.

O doutor pediu licença para dizer que, se era verdade eu não o querer ofender, declarasse que todas as alusões, julgadas pela opinião pública em descrédito dele autor,

eram um mero composto de fantasia. O juiz voltou-se para mim e disse:

— Declara, pois, o Sr. Silvestre da Silva que é romance o

seu artigo? — Nada, não declaro.

— Como?! — disse o juiz.

— O meu Anselmo Sanches é aquele — redargui

apontando a grão-besta.

Este gesto, se fosse visto por gente fina, devia de produzir a comoção que faz nos espectadores o “Ninguém!” de D. João de Portugal apontando o seu retrato na tragédia de

Garrett.

— Pois o Sr. Silvestre insiste em caluniar o cavalheiro

que generosamente lhe perdoa?!

— Rejeito o perdão de quem o deve a Deus, e à sociedade, e ao seu amigo que atraiçoou, à mulher do seu amigo que cobriu de ignomínia, à pupila do seu amigo, que

debalde quer lavar nas lágrimas a nódoa eterna.

— Mas que testemunhas dá o senhor da verdade das

suas acusações? — Três — respondi.

— Quais?! Do processo não consta alguma, nem o

senhor aduziu alguma na sua defesa. — As minhas testemunhas depõem em silêncio.

— Isso é absurdo.

— Pois, Sr. Dr. Juiz, creia Vossa Senhoria no absurdo,

como Tertuliano: “ Quod absurdum, credo.”

— Não tenho que ver com Tertuliano; provas de arguição é do que a lei conhece aqui. Quem são as três

testemunhas?

— É um marido que está prostrado de vergonha e de aflição num leito. É a mulher deste marido, que está doida. É uma órfã, recolhida nas Ursulinas de Braga, que está...

prostituída. São estas as três testemunhas. Anselmo Sanches pôs os olhos no teto e exclamou: — Ó Céus!

— É a repetição da calúnia, que o Sr. Silvestre nos está

dando? — interpelou o juiz.

O juiz recolheu-se ao santuário da sua consciência. Reinou profundo sossego de meia hora, finda a qual os autos

passaram à mão do escrivão, que leu a sentença.

Fui condenado em cinquenta mil réis de multa, três meses

de prisão e custas do processo.

Bati, como Galileu, o chão com o pé e disse: “Seja como for,

o Sr. Sanches é um infame.”

Paguei a multa e custas e remi o tempo de prisão a

dinheiro.

Anselmo Sanches recebeu os emboras dos seus numerosos

amigos.

A mim deram-me o epíteto de caluniador convicto. Os jornais acharam cordata a sentença e lamentaram que as aberrações do bom senso comprometessem a imprensa em semelhantes derrotas, desprestigiando-a e armando contra

ela os inimigos.

Olhei em derredor de mim, procurando amigos que me roborassem a consciência da minha justiça, esmagada a coices dos seus sacerdotes. Fugiam das minhas declamações os que me tinham excitado a verberar o

doutor.

Tive então nojo mortal da sociedade e de mim, que Deus fizera de um barro menos vil, mas amassado no fel e vinagre do que se chama força da alma e desprezo do

martírio.

Entendi que devia corrigir a obra do Criador. A minha primeira operação de reforma foi renunciar para sempre às manifestações da inteligência, e jurei comigo de nunca mais dar na estampa escrito que não abonasse uma conscienciosa parvoíce, talismã de tantos que aí correm, e à conta dos quais muitos meus colegas na imprensa se

afortunaram e benquistaram com o mundo. Acabou, pois, aqui, minha vida intelectual.

Nem já coração, nem cabeça. Começa agora o meu

auspicioso reinado do estômago.

***

Nota

O autor remata aqui o período da sua vida de escritor, omitindo fases importantes e subsídios preciosos para a história literária das províncias do Norte. Em romance

dispensam-se bem certas miudezas, que não deleitam, nem

fazem chorar nem rir; é porém minha opinião que as menores coisas, na vida de um homem estremado do vulgo,

são factos significativos.

Silvestre estudou conscienciosamente o viver íntimo da cidade heroica e enfeixou as suas observações sob o título O mundo Patarata, que, no seu modo de sentir, era

sinônimo de mundo elegante.

No vigésimo oitavo caderno dos seus manuscritos li as seguintes páginas, que merecem entrar no templo da

imortal memória com o seu autor:

Se o mundo elegante no Porto será o mundo patarata de

toda parte?

O mundo elegante é a sociedade polida, lustrada, envernizada no corpo e no pensamento, na ação e na

palavra, na intenção e na obra. Patarata quer dizer ostentação vã. Elegância quer dizer escolha.

Poderão as duas coisas emparceirar-se num mesmo

indivíduo, numa mesma classe?

É onde bate o ponto.

Demonstrado que ostentação vã é a máxima pataratice, o

mundo elegante geme sob a pressão racionalista da lógica.

Por outro lado, evidenciada a urgência da patarata na vida real, como as visualidades na ilusão teatral, a pataratice é

incremento da civilização.

É o luxo o estímulo das artes e da circulação do numerário — dizem os economistas infalíveis. A pataratice é a arte amestrada pelo aguilhão do luxo. Ora, se o mundo elegante é o consumidor das espécies, que constituem o luxo, e o fomentador da prosperidade das artes, segue-se que o

mundo elegante é o mundo patarata.

Crê nisto toda pessoa que já ouviu dizer que há uma coisa chamada lógica pela qual se prova que o mundo cabe num

cesto, se o cesto for maior que o mundo. A elegância também é sinônimo de beleza.

A sociedade elegante não pode ser substancial e

formalmente a sociedade bela.

A tomarmo-la assim, fumigaríamos com incenso derrancado

olfatos modestos que já espirrariam contra a lisonja.

A lisonja é a assa-fétida das boas almas, das almas

escolhidas, ou elegantes.

Na sociedade escolhida há pessoas que têm a consciência

de serem feias.

Aí se compreendem todas as caras possíveis desde a malaia

até à georgiana.

Todas as inteligências imagináveis.

Todas as progênies admissíveis na ordem da propagação. Todas as virtudes, ainda as mais hipotéticas.

Há uma sociedade que não tem obrigação de ser outra

coisa logo que é elegante.

A sua missão é andar à tona do mar revolto da vida como as

alforrecas.

O pássaro é um animal volátil, o peixe é um animal nadador, o réptil é um animal rasteiro, o elegante é um

animal... elegante.

Diz A. Karr que Deus fizera a fêmea e o homem fizera a

mulher.

Ora, a mulher não se limitou a fazer do macho um homem: fez uma brochura dependente do engenho do

encadernador.

O espírito subiu da glândula pineal para o frisado; o entendimento desceu a reluzir no polimento das botas; o coração entumecido enfumou os bofes da camisa; as aspirações grandiosas acolchetaram-se à abotoadura dos diamantes; os apertos de alma atribulada passaram para o

atesamento da luva.

A alma, conquanto seja um ser imponderável, veste tafetás e lemistes, calça verniz, enluva-se de pelica, bamboa-se em coxins; e, se exercita algumas operações intelectuais e filosóficas, é quando se mete no estômago, como Diógenes

na cuba.

Do mundo elegante são excluídas as pessoas de todos os sexos possíveis as quais não provarem que dependem como

se tivessem para mais de doze mil cruzados de renda.

Se os têm ou não, essa averiguação incumbe aos lançadores da décima, impostos anexos e quinto para a

amortização das notas.

Cá, o essencial e condicional é parecer que os tem; porquanto: A benigna lei econômica da circulação

monetária aceita como factos do dinheiro;

Porque a modista, o alfaiate, sapateiro, luveiro, boleeiro, camaroteiro, e os demais satélites do orbe elegante, são entes de índole tão sincera, que nem por pensamento suspeitam da má natureza dos mananciais donde a moeda

deriva pelos meandros da sociedade escolhida.

Como quer que seja, a sociedade honesta não fica desairada encansando-se no mundo elegante. A pataratice de alguns raios postiços da boa roda não tem que ver com o eixo — a parte sã e legitimamente escolhida da alta

sociedade.

O mundo elegante, na segunda cidade de Portugal, denota

civilização muito adiantada.

Aqui é tudo asiático, menos o espírito que se ala quase

nada às idealizações do Oriente.

Regalias materiais, fausto, cortesania, gentileza, puritanismo de raça, bizarria, donaire, feitiço de gestos e

maneiras, é um pasmar o que por aí vai disso!

Não se explica a celeridade com que as camadas se desbastaram nestes últimos vinte anos. A que estava então no topo da jerarquia social ficou fazendo as mesuras solenes das velhas açafatas, por se não mesclar com o gracioso despejo da sociedade média. Esta, porém, com toda a pujança de um sangue novo, surgiu de salto, feita, e

composta, como se o bom-tom lhe fosse herança de séculos. É pasmoso!

As damas portuenses são muito mais iluminadas que os

homens portuenses.

Entra-se num salão e admira-se o desembaraço das senhoras e o encolhimento canhestro dos galãs. O mais audaz encosta-se ao batente da porta e não ousa transpor o limiar sem que a rebicada do coro, núncia da primeira contradança, autorize a entrada em gorgolões, como a dos

rapazes pela escola dentro.

Este acanhamento, porém, é de bom agouro.

Homens de talento e espírito são os que mais se acovardam diante de senhoras. No Porto há muito talento e espírito

por força.

Os patetas, os lorpas, os atiradiços, são por via de regra os mais festeiros e festejados na sociedade, umas vezes com a cristã virtude da indulgência, outras com o riso zombeteiro

da ironia. Há por cá de tudo. Deus louvado!

E bom é que haja para que os tédios da uniformidade não volvam o mundo elegante às fórmulas dorminhocas da sociedade velha, em que o casquilho tomava a quinta chávena de chá, a pedido da dona da casa, e torcia um tendão a dançar o minuete, enquanto a menina fazia tossir ao cravo notas roufenhas, com grande aplauso e grandes abrimentos de boca, de seis velhas entendidas em cravo.

Etc.

Não é menos valioso elemento, para quem se der a escrever a fisiologia do Porto, um artigo de Silvestre, que

trasladamos de um jornal coevo. Dedica ele o seu escrito.

***

Pela primeira vez, na minha vida, sinto a legítima vaidade

de ser útil à humanidade padecente.

Por imprevisto acaso, entrei no grêmio dos “humanitários”,

como agora se diz.

Oferece-se mais uma cabeça às bênçãos da humanidade por entre as cabeças do Hollowe dos unguentos, do inventor da Revalenta, do inspirado manipulador da pílula da família, do mirífico engenho que espremeu do fígado do

bacalhau o óleo restaurador dos pulmões.

Declaro desde já que não inventei o remédio para a epizootia, nem os pós inseticidas, nem a cura do mormo

real.

Os meus estudos patológicos atuam todos sobre a raça humana, posto que as enfermidades do gado vacum e suíno chamem de preferência a atenção do homem, animal carnívoro, que come o boi, porque o boi se não emancipou ainda e está dois séculos mais atrasado que o jumento, cuja

emancipação é hoje indispensável.

De passagem direi que me espanta e indigna o desvelo que os governos empregam no exame das moléstias, que

dizimam os animais prestantes para a cozinha.

É uma questão de estômago e não há aí questão de estômago que não avulte as proporções de uma questão

nacional.

Se acontece grassar uma febre que devora centenares de pessoas, os conselhos de saúde descuram de averiguar os sintomas do andaço, não delegam visitadores às farmácias homicidas de província, nem aviltam os melhoramentos

higiênicos de que depende a salubridade pública.

Adoece, porém, o boi, e para logo surgem os Hipócrates bovinos escrevendo aforismos e as corporações medicatrizes instauram congressos de sanidade e destacam

membros científicos a vencerem tanto por dia.

Não se cura tão pressurosamente de valer ao homem, porque o homem não é comestível. Pois indivíduos há que comem o boi, e são por isso mais antropófagos que se

comessem o homem.

Fecha-se a digressão impertinente.

No que eu trazia há muito empenhadas as minhas vigílias

era no descobrimento de um antídoto contra a melancolia.

A medicina conhece uma doença moral chamada “hipocondria”. Os sintomas desta enfermidade são as desordens digestivas, as flatulências, os espasmos, a exaltação da sensibilidade, os terrores pânicos, a impertinência dos sentimentos morais, etc. Os indivíduos mais inteligentes e mais imaginativos, quando irritados pelas paixões, ou fatigados pelo trabalho de espírito, são mais sujeitos a estes sucessos incuráveis, quando as

influências morais os não curam.

Não era esta enfermidade, de origem corpórea, a que me preocupava. A melancolia, sem flatulência nem perturbações estomacais, a que tanto ataca os inteligentes

como os idiotas, era esse o meu olhar.

Horas e dias terríveis passam por nós como períodos

negros da existência.

Cai-nos a cara para o seio, onde o coração nos dói premido por mão de ferro. Não há lembrança feliz que possa

estrelar-nos o caos da imaginação: não há raio de sol que

faça abrir flor de esperança na nossa alma arada pelo

desconforto.

Essa situação é comum a muitas pessoas: só não a conhecem aquelas que travam aliança ofensiva e defensiva com a estúpida alegria, contra as intermitências dolorosas

do espírito.

O amador ditoso tem horas de melancolia terna: essas são as melhores da sua vida. Aí dele quando o murmúrio do regato, e a cruz do ermo, e a Lua espelhada nas águas, lhe

dão humedecer os olhos de dulcíssimas lágrimas!

O amante infeliz tem sezões aflitivas que o excruciam e desesperam. Para esses dois, tão diferentes no padecer, há uma só panaceia: é o coração da mulher, essa divina botica de todos o bálsamos para todas as feridas, abertas na

refrega das paixões nobres.

***

Mas, afora a melancolia do amor, há uma outra sem causa, sem preexistência dolorosa, sem antecedentes que possam

indicar ao médico da alma os meios terapêuticos.

Sentem-na aqueles mesmos que a fortuna acaricia com

todos os mimos deste mundo.

É a que mata os ricaços da Grã-Bretanha e a que tortura os ricos ociosos de todas as nações, onde há Sol e Lua, onde o

céu é azul e a atmosfera diáfana.

Não é costume nosso matarmo-nos quando o aborrecimento

da vida nos enjoa.

Em país algum seria maior a estatística dos suicídios do

que em Portugal, se o tédio nos vencesse. E no Porto? Deus nos livre disso!

O vestíbulo do teatro lírico seria em cada noite um cemitério; nos bailes, a cada instante, se ouviria a denotação de um tiro; as senhoras levariam cristais de ácido prússico para se matarem ao cabo da tediosa parolice

do par dançante; do Jardim de S. Lázaro, aos domingos, iria

o pároco levantar algumas dezenas de cadáveres; os próprios templos onde há organistas seriam borrifados de

sangue suicida.

Aqui no teatro não se morre de tédio; mas abre-se a boca e

buzina-se um vagido sonolento.

No baile ninguém se mata; mas devoram-se gelados para apagar o vulcão da ideia suicida, ou abarrota-se o estômago de sanduíches para que a alma bruta predomine sobre a outra, ou tresfega-se a garrafeira do dono da casa para alucinar e entreter o espírito, como coisa exótica, do ar

artificial de uma estufa.

Mas estes remédios não passam de paliativos. A reação, depois, é pior. Falecida a vida de empréstimo, o espírito fica letárgico, marasmado e até inábil para exercer as funções

da presidência de uma câmara municipal.

Depois do artigo de fundo, a coisa que mais brutaliza a

alma é a melancolia.

O poeta, que vos encampa as suas amarguras em redondilha maior, escreveu as trovas, com ânimo folgado,

no intervalo de duas orgias.

A melancolia é sorna e estéril. Camões escreveu a sua

epopeia nos dias da esperança.

Quando a tristeza desanimadora o entrou, já não pôde escrever para o fidalgo, que lha pedia, uma paráfrase dos

salmos.

Uma inteligência em quietismo não danifica os interesses materiais de um país, e até certo ponto pode considerar-se providencial o pousio; mas um cidadão analfabeto, embrutecido pela melancolia, se a sua qualidade civil é importante como deve ser, pode prejudicar gravemente os

interesses da cidade.

Ainda bem que a melancolia raro se atreve a perturbar o funcionalismo intelectivo de certas cabeças, cuja organização é maravilha. Daí provém a traça metódica e auspiciosa com que o homem supinamente ignorante regula os seus negócios. Há nessa cabeça a perene claridade de um fundo de garrafa de cristal. As ideias impedem-lhe congeladas da abóbada craniana como as estalactites de uma caverna. Dessa imobilidade

imperturbável de cérebro resulta a fixidez da mira posta

num alvo, a pertinácia das empresas e o conseguimento dos

bons efeitos.

Ainda não vi tão cabal e logicamente explicado o fortunoso

êxito de algumas riquezas granjeadas pela inépcia.

Não obstante, o número dos bastardos da fortuna é muito

maior.

O leitor é de certo um dos que tem em cada dia uma hora de enojo, de quebranto, de melancolia, de concentração dolorosa, de desapego à vida, de misantropia e de diálogo

terrível com o fantasma da aniquilação.

É para esse que eu vim, à hora decretada pela providência dos descobrimentos, com o coração a trasbordar de

filantrópico júbilo, anunciar o antídoto contra a melancolia.

Bem pudera eu, à imitação de famigerados varões, apresentar, como de engenho meu, o invento da receita, que um obscuro químico deixou como legado de penosas lucubrações. Quem ele fosse não posso eu dizê-lo, porque o modesto inventor julgou-se um átomo da humanidade e,

doando-lhe o seu óbolo de talento, não quis glorificar-se de

um tesouro que não era mais que transitório depósito nas

suas mãos.

Eis aqui a receita:

Junco cheiroso — onça e meia. Íris-de-florença — uma onça. Pau sândalo — onça e meia Pau de roseira — onça e meia Casca de laranja e limão — onça e meia Cravo-da-Índia — uma oitava

Vinagre rosado — quatro onças

Estes ingredientes lançam-se numa vasilha, que se coloca ao fogo. A pessoa melancólica aspira-lhe o perfume por alguns segundos. A primeira sensação é deliciosa para o olfato. Segue-se um geral sentimento de bem estar físico, de desopressão cerebral, de transporte e contentamento de

espírito.

Resta fazer uma reflexão toda pessoal que entende com o desinteresse do signatário do artigo. Não vão pensar que se tem de olho uma daquelas medalhas com que a Real Sociedade Humanitária galardoa os que socorrem o próximo em aflição. Por enquanto o instituto desta munificentíssima sociedade não premeia os socorros prestados à alma: a caridade destes bons tempos de máxima ilustração verte os seus bálsamos somente sobre o corpo. Quando, porém, retrogradarmos ao ponto de se considerarem beneméritos da Real Sociedade Humanitária os propagadores de receitas contra a melancolia, hipocondria e outras enfermidades espirituais, então, não só as medalhas humanitárias, mas até os hábitos de Cristo que a munificência régia dá aos pianistas virão galardoar os obreiros do espírito que se dedicam a melhorar a alma

do seu semelhante.

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