Coração — Capítulo II
A MULHER QUE O MUNDO RESPEITA
A minha alma olhou para o que foi e viu que os sete amores que a tinham derrancado passageiramente eram ridículos e indignos de serem dados como explicação de um cinismo
sobremaneira satânico em que eu me andava ensaiando.
Antes, porém, que eu tornasse em mim, estive seis meses a dizer ao mundo, em prosas chamadas Meditações e em versos denominados gritos de alma, que estava cético, e cínico, e que havia de engolfar no lodo em que me atascaram o coração as virgens louras com o seu amor ingênuo, e quantas virgens de diversas cores a minha libertinagem atraísse às aras de sedenta vingança. Aqui vão
as cópias dos principais poemas que então fiz...
***
Nota
Defendo a paciência do leitor dos duros golpes que lhes estão iminentes. Ainda assim, há de levar-me a bem que eu lhe dê, à prova, uns relanços das poesias céticas do meu
amigo Silvestre. Entro pela mais filosófica:
Ontem me riu o céu; milhões de estrelas Falaram-me de amor.
Ontem flores a mil, e todas elas Davam-me, dos seus dons, das urnas belas,
Aroma à alma em flor!
Hoje, aí!, hoje um céu de negro, e a terra De crepe funeral!
Hoje um peito que em si peçonha encerra;
E a alma em fogo, que precita erra
Num regiro infernal.
As seguintes coisas são menos inocentes:
Mulher!, em ânsias me esforço,
Punge-me dentro o remorso
De te não calcar aos pés!
Tinha uma crença...mataste-a!
Tinha uma luz...apagaste-a!...
Mulher!, que monstro tu és!
Esta quadra da poesia LXIX é mais raivosa
Hei de essa alma perversa estrinçar-te!
Hei de à cara cuspir-te a peçonha Que verteste no meu peito, e ferrete
Hei de pôr-to de eterna vergonha!
Basta isto para terror das almas e amostra da poesia
contemporânea de Silvestre.
Nestas minhas confissões hei de ser modesto, e verdadeiro, como Santo Agostinho e J. J. Rousseau; mas, ainda assim mais honesto que o santo e que o filósofo. O pejo e a natural vaidade querem pôr-me mordaça; mas eu hei de expiar as minhas parvoíces, confessando-as. Se, por miséria minha, me baralhei e confundi com tantos e tão graúdos tolos, farei agora minha distinção pondo, em letra redonda, que ora, Não me consta que algum dos meus amigos fizesse
outro tanto.
Na minha qualidade de cético, entendi que a desordem dos cabelos devia ser a imagem da minha da minha alma. Comecei, pois, por dar à cabeça um ar fatal, que chamasse a atenção e aguçasse a curiosidade de um mundo já gasto
em admirar cabeças não vulgares. A anarquia dos meus
cabelos custava-me dinheiro e muito trabalho. Ia, todos os dias, ao cabeleireiro calamistrar os longos anéis que me ondeavam nas espáduas; depois desfazia as espirais, riçava-as em caprichosas ondulações, dava à testa o máximo espaço e sacudia a cabeça para desmanchar as torcidas deletriadas da madeixa. Como quer, porém, que a testa fosse menos escampada que o preciso para significar “desordem e gênio”, comecei a barbear a testa, fazendo recuar o domínio do cabelo, a pouco e pouco, até que me criei uma cara dilatada, e umas bossas frontais, como a
natureza as não dera a Shakespeare nem a Goethe.
A minha cara ajeitava-se pouco à expressão de um vivo tormento de alma, em virtude de ser uma cara sadia, avermelhada e bem fornida de fibra musculosa. Era-me necessário remediar o infortúnio de ter saúde, sem atacar os órgãos essenciais da vida, mediante o uso de beberagens. Aconselharam-me os charutos do contrato; fumei alguns dias, sem mais resultado que uma ameaça de tubérculos, uma formal estupidez de espírito e não sei que profundo dissabor até da farsa em que eu a mim próprio
mês estava dando em espetáculo. A cara mantinha-se na
prosa ignóbil do escarlate, mais incendiada ainda pelos acessos de tosse, provocados pelo fumo. Um médico da minha íntima amizade receitou-me uma essência roxa com a qual eu devia pintar o que vulgarmente se diz “olheiras”. Ao deitar-me, corria levemente algumas pinceladas sobre a cútis, que desce da pálpebra inferior até às proeminências malares; ao erguer-me, tinha todo o cuidado em não lavar a porção arroxada pela tinta, e com uma maçaneta de algodão em rama desbastava a pintura nos pontos em que ela estivesse demasiadamente carregada. O artístico amor com que eu fazia isto deu em resultado uma tal perfeição no colorido que até o próprio médico chegou a persuadir-me, de longe, que o pisado dos meus olhos era natural, e eu mesmo também me parece que cheguei à persuasão do médico. Fiz, pois, de mim uma cara entre o sentimental de Antony e o trágico de Fausto. Seria, no entanto, mais completa a minha satisfação se à raiz do cabelo, no ponto em que eu barbeava a cabeça para aumentar a testa, me não aparecesse um diadema azulado. Era a natureza a vingar-se. Cada vez que me eu via com aquele disco na
testa, experimentava a dor do poeta de Dom João
contemplando o seu pé coxo, por causa do qual, e com o
qual, tanto pontapé deu o raivoso lorde no gênero humano.
Assim amanhado de aspeto, saia de casa, à hora em que o Sol dardejava a prumo, ou quando as nuvens se rompiam em torrentes. O meu cavalo era negro, negro o meu trajar, tudo em mim e de mim refletia a negridão da alma. Cheguei a enganar-me comigo mesmo, e a remirar-me a mim próprio, com certo compadecimento e simpatia! Os grupos dos meus conhecidos viam-me passar abstraído e diziam: “Foi uma mulher que o reduziu àquilo!” Eu sabia que era corrente nos círculos da juventude a seguinte história ao meu respeito: “Que eu tinha amado uma neta de reis, filha de um titular, cujos avós já tinham os retratos de vinte gerações, antes de se inventar a pintura. Que a menina, fascinada pela minha mesma temeridade, descera, na hora da sesta, ao jardim, e me lançara uma flor, chamada ai!, na copa do chapéu. Que o jardineiro observava o ato e o delatara ao fidalgo. Que o fidalgo chamara a filha e, ouvida a resposta balbuciante dela, a fizera entrar no Mosteiro das Comendadeiras da Encarnação, onde se finava lentamente,
e eu cá de fora lhe andava, a horas mortas, falando,
mediante as estrelas do céu e os murmúrios misteriosos da noite, resolvido a morrer, logo que o anjo batesse as suas
asas imortais no caminho da glória eterna. Amém.”
Era isso o que se dizia; mas a verdade é outra.
***
É certo que eu, num dos meus passeios desabridos, quando o céu afuzilava relâmpagos, fui a caminho de Sintra, e vi na balaustrada de uma varanda, com os olhos postos no ocidente tempestuoso, uma mulher, que se me afigurou a pomba da boa nova ao quadragésimo dia do dilúvio. Retive as rédeas do cavalo, sofreei a respiração, contemplei-a com
petulante ternura, e ela foi-se embora.
Tornei no dia seguinte a Benfica, e vi a menina sentada na varanda a ler, com um papagaio pousado na espádua
esquerda.
O papagaio tomou medo aos galões do meu cavalo, saltou-lhe
do ombro para o regaço, sacudindo-lhe da mão o livro, o
qual caiu à estrada por entre os balaústres. Descavalguei de um salto apanhei o livro e esperei que um criado o viesse receber. Entretanto, abri-o, busquei o título na primeira página, e achei que era O Homem dos Três Calções. Inferi logo que a dama era uma altíssima
sonhadora de coisas etéreas.
Dei o livro ao criado de libré cor de canela, o qual, examinando o jarrete direito do meu cavalo, achou que ele tinha duas sobrecanas. Perguntei-lhe eu como se chamava a dona do livro, e ele respondeu que a fidalga se chamava Paula, que era morgada, que estava para se casar, e dos
costumes não disse nada.
Cavalguei, retrocedi depois de um curto passeio, e, ao passar-lhe à porta, vi Paula dando ginjas ao papagaio. Viu-me
, e fez-se da cor nacarina das ginjas.
Eu carecia de uma paixão que me sacudisse pelos cabelos, uma paixão que me levasse de inferno em inferno, que me empinasse ao apogeu da glória, ou me despenhasse na voragem da morte. Precisava disto, porque não tinha que fazer, e gozava robusta saúde, e alargava a testa há cinco
meses, não sei para que destinos!
Amar uma menina herdeira; contratada para casar; galante; lida nos bons catecismos espirituais; criada com passarinhos e flores; rodeada dos mágicos rumores das florestas: tudo isto me pareceu talhado à minha ansiedade de lutar, de sofrer, de viver com glória, ou morrer com honra. Quando pensava nisto, e me assaltava ao mesmo tempo a cobiça de entrar num restaurante à la carte, e pedir um pastel de pombos, corria-me de vergonha da
minha viloa natureza!
Encontrei, uma vez, o criado de D. Paula a passear os cavalos no Campo Pequeno. Dialogámos acerca de raças cavalares, e dos lamparões dos mesmos, que ele sabia curar com proficiência. Encaminhei a conversação até falarmos da fidalga, e obtive os seguintes esclarecimentos: perguntou-lhe a menina se eu dissera alguma coisa, quando entreguei o livro, e mostrara-se admiradíssima de eu querer saber o nome dela. Desejara muito saber se eu lera o título do livro: informação que o criado não soubera dar. Perguntara-lhe se me via algumas vezes na estrada, e ficara
muito pensativa quando soube que eu ali parava, olhando
para as janelas, quando o criado, à meia-noite, se erguia
para aquietar os cavalos.
Estas revelações animaram-me a pedir ao expansivo boleeiro que me aproximasse do coração da sua ama, por intermédio de uma carta respeitosa e digna dela. O criado, vencida a ficção dos escrúpulos, aceitou a carta, que eu escrevi numa mercearia do Campo Grande, a qual poderia entrar numa coleção de cartas para o uso dos anjos, se os amores lá de cima carecessem do favor do estilo e
prosperassem na razão direta do arredondado do período.
Ao outro dia, fui a Benfica. Vi o papagaio, que saltou da gaiola ao peitoril da varanda, quando eu passava, e disse: “Tô carrocha” pareceu-me isto um ludibrio do pássaro, ensinado pela dona; mas a Providência é tão boa para os tolos que os compensa com o engenho de imputarem ao acaso as caçoadas que racionalmente e acintemente os
castigam.
Depois de muitas diligências malogradas, encontrei o criado, que me asseverou a entrega da carta e o rubor da menina quando a leu. Falei-lhe na resposta, e ele redarguiu
que não ousava pedi-la por ser falta de respeito.
Nesta situação, tão dolorosa como ofensiva do meu orgulho, fui a um baile. Não foi de todo despressentida a minha entrada nas salas. A juventude de ambos os sexos encarou em mim com afetuosa benquerença. Os cabelos
iam fatais e as olheiras fatalíssimas.
Às onze horas, quando eu, no salão de espera, me atirava a uma almofada, como corpo que não pode com a alma, tangeu duas vezes a sineta do pátio, e em seguida entrou Paula, pelo braço de um homem bem figurado, com outras
senhoras e cavalheiros idosos no préstito.
Creio que me não viu, e, se me viu, fez o que fazem as mais inocentes e desartificiosas senhoras quando não querem
ver.
Segui-a. Avizinhei-a nas salas. Ouvi o som da sua voz. Tive indiretamente notícias do papagaio, pedidas por uma outra menina. Convidei-a para uma quadrilha. Vi-lhe um gesto de assentamento, e senti-me brutificar, pensando no que havia
de dizer-lhe.
Destes apertos têm saído grandes tolices e grandes
conceitos. Quer me parecer que não fui infeliz falando-lhe
deste teor:
— A providência dos infelizes encaminhou para aqui os meus passos. Eu não sabia que vinha aqui encontrar o anjo que fez da minha vida um suplício. Entrei nestas salas, como Dante, na região das lágrimas, como Trofónio no seu antro, donde não há mais sair com um sorriso nos lábios. V. Exa. Calca aos pés o mais devotado coração que ainda palpitou em peito de homem. Enganei-me, quando a vi, ao relumbrar dos relâmpagos, naquela tarde tempestuosa. Amei-a então, como o nauta suspiroso ama a cruz do adro da sua terra natal. Amei-a como o rouxinol a sombra dos sinceiros. Amei-a como o orvalho a flor e a aragem da tarde
as asas iriadas da borboleta.
Paula olhou-me e coçou a testa com o leque. Noutro intervalo da dança continuei:
— Por que não respondeu à minha carta?
— Era impossível. Eu já dei o meu coração. Por delicadeza lhe não devolvi a sua carta, e peço-lhe que me
não escreva outra, que me compromete — respondeu ela.
Não me soou bem este galicismo dos lábios de Paula. Eu, em todas as situações da minha vida, quando vejo a língua dos Barros e dos Lucenas comprometida, dou razão ao filósofo francês que, à hora da morte, emendava um solecismo da criada, protestando defender até ao último respiro os foros da Língua. E com que admiração eu leio aquilo do gramático Dumarsais, que, em trances finais de vida, exclamava: “Hélas! Je mén vais... ou je mén vas... car
je crois toujours que lún et l'autre se dit ou se disent!”(*)
[(*) Não suprimo este descabido incidente do filósofo e do gramático, posto que fútil e desgracioso. Silvestre ia muitas vezes derramado nestas divagações, que denotam pouca firmeza na composição e desleixada contextura nas ideias. Honra, porém, lhe seja pelo muito que ele amou a Língua, a apuros de esfriar subitamente em paixões vulcânicas, por causa das incorreções gramaticais das
cartas, que respondiam às suas, sempre castiças.]
Tinha-se achegado de nós o sujeito que lhe dava o braço à entrada. No rosto de Paula conheci o receio de ter sido
ouvida pelo cavalheiro, que a olhava com desconfiança.
Nunca mais tive a oportunidade de lhe falar. Às três horas,
saiu Paula, e eu fui para o meu quarto devorar o restante
da noite em repetir-me as palavras dela com tanto afeto que o próprio galicismo já me soava aos ouvidos como as
vernaculidades do meu querido Castilho.
Eu tinha à mão a Primavera daquele autor. Abria-a ao acaso, quando os raios do sol, coados pelo transparente
verde, me iluminavam alegremente o quarto.
Em pouco está transfigurar-se o espírito do homem. Com a luz parece que entraram as esperanças: era o anjo delas que descera nos raios do sol. Abri à ventura a Primavera, e saíram-me como prenúncios e maiores alegrias estes
versos:
Sobre as aras de Amor todas oferecem: Os ais do adorador nenhuma ofendem,
Comprazem-se de ouvir que as chamam belas...
Se nos ouvem cruéis, se esquivas fogem,
É porque insana lei de atroz costume
Lhes ordena o fugir...
A mãe universal, ou cedo ou tarde Vence, triunfa, e no triunfo leva
O sexo encantador já manietado.
Todas opões sabida resistência; Mas cumpre não ceder: por nós combatem
Seu mesmo coração, e a natureza...
Fui lendo os dulcíssimos preceitos com que o mimoso poeta aconselha os amantes desditosos, e, num arraiar de alegria louca, dei nestes versos: Começaremos ofertando às ninfas Sobre altares campestres, levantados Das árvores à
sombra, ao pé das fontes,
Ou nas grutas do fresco, ou sobre outeiros,
Festões, grinaldas, passarinhos, frutos
E capelas de búzios e de conchas...
O poeta ensina, nesta passagem, a amar as ninfas; e eu, afeito à nomenclatura da escola arcadiana, pensei que ninfa era um epíteto genérico para toda a mulher que se
ama.
Com este errado juízo, entendi em mandar a Paula.
Festões, grinaldas, passarinhos, frutos,
E capelas de búzios e de conchas.
Acorçoado pelo Ovídio português, comprei na Praça da Figueira muita flor, de que mandei tecer uma grinalda, muito de ver-se; num cabazinho de palha italiana dispus seis pêssegos aveludados, de cobiçável frescura; búzios não me foi possível arranjá-los, nem conchas; no tocante, porém, ao preceito dos passarinhos, fui muito feliz: comprei
um lindo periquito na Rua do Arsenal.
Fiz mais.
Chamei à puridade uma jovem e sécia saloia de Benfica, brindei-a com a saia escarlate listrada e um corpete de castorina amarela; enflorei-lhe os cabelos e enramalhetei-lhe o colo. Nunca vi coisa mais fresca, nem mais bucólica medianeira do amor de um sátiro urbano a uma ninfa
saturada da lição de maviosos idílios, como é já notório. Industriei a rapariga no modo de apresentar à fidalga Festões, grinaldas, passarinhos, frutos.
Devia ser à hora em que ela descia ao jardim, que uma gradaria separava da estrada. Melhor do que eu antevira se ocasionou a oportunidade da entrega. D. Paula reparou na esbelta saloia, que tinha numa das mãos o cabaz e na outra
a gaiola.
— Ai! Um papagaio! — exclamou a menina. — Isso é
para vender?
— Não, minha senhora — disse a saloia —, é para dar à
senhora fidalga.
— A mim?! Quem me manda isto?!
— Vossa Excelência verá numas letrinhas que vêm aqui
entre as flores.
— Letrinhas!? Quem é que me escreve? Você não sabe o
nome da pessoa?
— Não, minha senhora: mas o senhor que me cá mandou disse-me que aceitasse Vossa Excelência o periquito, e as flores, e os pêssegos, e, se não quisesse a carta, que a
rasgasse.
— Os pêssegos! — exclamou a fidalga. — Quem é que
me manda pêssegos?! — É ele — disse a saloia. — Leve, leve — acudiu D. Paula —, que não aceito nada.
— Pois eu tenho ordem de deixar ficar tudo — replicou a saloia, pousando sobre a padieira de uma porta interposta
na gradaria o cabaz e a gaiola.
A este tempo assomou numa janela o pai da menina, perguntando o que vinha a ser o cesto e o pássaro que estava sobre a porta. D. Paula, dominando rapidamente o
sobressalto da surpresa, disse que fora a prima Piedade
que lhe mandara aquele periquito e o cestinho das flores. O pai, que era amigo de periquitos, desceu ao jardim; e, no entanto, a filha escondeu a carta, que ia presa à grinalda com um laço de fita encarnada. O velho, examinada a ave, passou a espreitar o cabaz; e, como visse os convidativos pêssegos, que eram seis, comeu três com sôfrega delícia, deu um à filha, e guardou dois nas algibeiras do robe de chambre. Paula, para ler a carta, escondeu-se num caramanchel. A prosa vil seria descabida em cena tão eminentemente poética. Era, pois, em verso a minha carta, que, segundo os ditames da poética de Aristóteles e Longino, devo chamar epístola e não carta. A qual epístola foi ainda o sonoro Castilho que me induziu a escrevê-la com
os seguintes ditames da citada Primavera:
Formaremos cantigas, em que aos ecos Dos campos entre a lida repitamos As perfeições, os méritos, os nomes
Das Napeias, etc.
E noutra passagem:
Depois que pouco e pouco transformado Se houver em confiança o pejo, o susto, Mudaremos de estilo: nos nossos versos, E só, e de contínuo a formosura
Em fogo nos porá do estro as asas.
Hão de sorrir-se e comprazer-se, e muitas Suspenderão no seu caminho os passos. É a lei sem exceção; domina em todas
A sede, a glória, de chamar-se belas
Não entendi à letra o primeiro aviso, que diz: Formaremos cantigas. Pareceu-me que eu seria estranhamente recebido, se me andasse por Benfica em serenatas, que este século
de ferro moteja, com bazófia de ilustrado, ilustração oca e
estéril, que funda toda em regalos corporais, despe o coração da sua poesia nativa e tira ao amante o suave desafogo de formar ao século, em vez de cantigas, poetei em verso em decassílabo, predominando no sáfico, alternando com o alexandrino, e intercalando tudo de estribilhos de redondilha menor. Era cataplasma para fazer
supurar o coração mais cru!
***
No dia imediato fui, purpureado de cândido pejo, passar em Benfica. Este pejo é o meu elogio. Um verdadeiro amor é segunda inocência. Tal máxima, que eu atiro à circulação, deve ser a defesa de muitas senhoras de certa idade e de certos costumes, que respondem com imprevistas esquivanças às audácias de amantes, que as assediam com ares de César, pensando que chegar, ver e vencer é tudo o mesmo. O mundo chama matreiras a essas damas; e eu, que sei mais do coração humano que o trivial, digo e juro
que é uma segunda inocência com os adoráveis sustos do
pudor, que as torna esquivas. Eu tenho encontrado muito disto em peitos antigos. Se eu pudesse transfundir em corpos tenros os corações sensíveis que tenho conquistado em senhoras de uma idade anticanónica, a felicidade não seria a sede de Tântalo. O meu erro tem sido procurar a alma amante e sisuda na mulher dos vinte anos e a formosura e a graça na de cinquenta. A primeira é um sinal que todos me cobiçam; a segunda é um bem que ninguém
me questiona. Não me serve nenhuma, por isso. Voltando ao conto:
D. Paula de Albuquerque viu-me através das vidraças e gesticulou entre as fitas algumas das flores da grinalda. Jubilei doidamente no secreto do meu coração e compreendi o porquê de chamarem aos poetas antigos videntes, que soa como profetas. Abençoei a Primavera, meu livro de alma, e a inspirada voz do vate, que me
ensinara o filtro amoroso dos
Festões, grinaldas, passarinhos, frutos.
O periquito estava na sua gaiola bem pudera prender a atenção da posteridade como o decanato passarinho da Lésbia, do poeta romano. Se eu publicasse as poesias, que dedilhei no plectro, com referência ao periquito, o meu volume seria como um tratado ornitológico, em que os fenômenos dos amores das aves iriam desvendados
discretamente aos olhos da juventude.
Estas delongas estão afligindo a curiosidade de quem me
ler. Entro em matéria.
Paula respondeu, agradecendo a ave querida, as flores e a surpresa: só não mencionava os pêssegos, salvo se a
surpresa eram os pêssegos.
Ateou-se a correspondência, e tão fervorosa de paixão, de parte a parte, que tarde voltarão a este globo degenerado
duas pessoas com tanto amor e estilo ao que parecia.
Este amor tinha assumido as dimensões honestas do matrimônio; mas semelhante palavra não ousava escrevê-la o meu pulso plebeu. Tive então ódio aos meus avós, que viveram estupidamente lavradores honrados, citando com
inofensiva soberba a consideração que lhes dera o Senhor
Rei D. Dinis. Nem um hábito de Cristo na minha família! Nem sequer na invasão do Junot eu tive um parente que matasse dois franceses, ao menos, e fosse depois ao Rio de Janeiro pedir um hábito de Cristo ao Senhor D. João VI, que dava dez hábitos à família que matasse dez franceses! O meu pai tinha tido a imoralidade de dar de comer e pensar as feridas a alguns soldados de Napoleão que lhe pediram
abrigo! Nem sequer os deixou morrer!
Lembrei-me de arranjar uma comenda de Cristo, por me dizerem que era isso mais fácil do que descobrir quem a quisesse com direitos de mercê. Andava eu na bem agourada solicitação desta graça, quando a minha
desfortuna me pôs à prova de novas deceções.
Se medito no mau desfecho deste episódio da minha vida, caio sempre na triste opinião de que D. Paula caçoou
comigo.
É o caso que, indo eu uma vez a Benfica, não para vê-la, que muito alta ia a noite, mas para adorar o santuário em que ela a essas horas, devia estar sonhando com a minha imagem, vi encostado à parede caraira da sua casa um
vulto rebuçado, rebuçado amargo ao meu suspeitoso
coração! (comprazo-me de ter feito destes dois rebuçados uma elegância de estilo, que é minha, e, se alguma idêntica aparecer, sem a minha rubrica, será tida como furto, e os
falsificadores serão perseguidos na conformidade das leis).
Perpassei pelo vulto humano e, lá ao longe, descavalguei, prendi as rédeas e retrocedi sutilmente a espreitar o
escândalo, se escândalo era. Se era, leitores pios!...
O sino do mosteiro dominicano respirava pelos seus pulmões de bronze duas horas da manhã, quando uma janela do palacete se abriu com leve rumor, e a lua, sem velar de puro pejo a face, iluminou aos meus olhos o rosto
de Paula.
O encapotado avizinhou-se da gradaria e ciciou palavras que eu não pude ouvir, porque as minhas orelhas estavam sendo como vestíbulos do inferno que me ia lá dentro na
alma.
Este incomportável suplício durou uma hora, ao fim da qual era eu já um assassino programático daquele homem, que
viera atravessar-se ao meu amor feroz de tigre.
“Oh!”, exclamava eu no recôndito das arcadas do peito. “Oh!, para que vieste tu, desgraçado, assanhar a ira do homem que tem sede do teu sangue e fome das tuas carnes! Que demônio te lançou ao meu caminho, se eu hei de pôr-te um pé no peito e sacudir-te de lá o coração à cara da perjura! Não tens velha mãe que te chore, nem pai velho, que nos teus braços se ampare à borda do sepulcro? Não sabias que os teus dias estão contados, e que a autora de amanhã te verá a face morta, e que, na tua cara, e com o teu sangue escrita, o mundo lerá a tremenda palavra: ‘Vingança'? Oh!, tu não sabias que Paula era minha, minha como tu já agora és dos vermes, como nós três, ela, eu, e
tu, todos, ai!, todos seremos do Inferno!”
Disse, e fui procurar o cavalo. Tinha-se desprendido e estava a espolinhar-se em regaladas cambalhotas. As cilhas do selim estavam partidas; as rédeas também; a cabeçada
tinha apenas duas correias úteis.
Rugi de cólera, e o cavalo, espavorido, fugiu a
desapoderado galope, caminho de Lisboa.
A providência é mestra do ridículo, quando quer. O meu
rancor repartiu-se entre amante de Paula e o quadrúpede
fugitivo. Depois, sentei-me esbofado num degrau de escada, olhei para a lua, olhei para mim, olhei para o selim que eu
trouxera debaixo do braço, e ri-me.
E o meu riso era um espirro de ferocidade, uma destas coisas que sente o Lúcifer quando sacode a vertigem da
raiva impotente contra Deus.
Eram quatro horas da manhã quando emergi do meu letargo. Vi um padeiro, que me contemplava assustado: pedi-lhe que me levasse o selim entre a carga; e eu caminhei, admirando a impassibilidade da natureza, que parecia zombar de mim, pela voz dos seus rouxinóis, dos
seus cochichos e das suas calhandras.
***
O meu cavalo, afrontando-se com a barreira, parou. Quando eu cheguei, estava ele amarrado com um cabresto às grades da porta, e os guardas escreviam um ofício ao respetivo comandante, participando a presa que tinham
feito e pedindo ordens sobre o destino do vadio.
Convenci-os de que o cavalo oficiado era meu pelo testemunho convincente da sela e dos fragmentos d cabeçada; mas, como não quisessem perder o ofício, obrigaram-me a esperar a resposta da autoridade que houve a bem julgar-me o legal proprietário da besta. Receei que a lógica da sela não persuadisse o chefe daqueles
sujeitos.
Estas miudezas podem enfastiar os espíritos frívolos; mas para mim tenho que os menores episódios das vidas, predestinadas a grandes destinos, são fatos ponderáveis
nos ânimos reflexivos.
Recolhi-me ao meu quarto, sondei as profundezas da minha alma, e deste mergulho à consciência saí com má cara e
ideias sinistras.
Eu tinha um par de pistolas de coldres, carregadas muitos meses antes. Para as carregar com a certeza de levar nelas a morte, desfechei-as contra o saguão da casa. A detonação fez grande estrondo e causou grande susto a uma senhora grávida, que perdeu os sentidos. O marido desta matrona era cunhado do regedor, e foi queixar-se de mim, como
causa de um abalo que podia trazer as funestas
consequências de um motivo e a perda do menino, em que ele fiava as alegrias da sua velhice. A dona do hotel, quando tal soube, disse que eu era muito feliz em ter contra mim as queixas de um só dos pais daquele menino possível. Parece-me que esta mulher, com tal juízo sobre paternidades, ia de encontro às ideias que tenho sobre o
fenômeno da geração.
Ora o regedor, nesse mesmo dia, fez-me intimar para ir à sua presença, e interrogou-me, dali fui com um cabo e um ofício ao administrador, que me mandou com um ofício e um cabo ao Governo Civil. Aqui me foi pedida a licença de usar de pistolas; e, como eu não a tivesse, ia ser metido em processo, a não me valerem alguns amigos que podiam
muito com a autoridade. Vejam que trabalhos!
O menino da mulher do meu vizinho vingou, segundo vi passados tempos. Na minha vida não há sequer o pesar de
um infanticídio involuntário.
Carreguei as pistolas e fui na noite do seguinte dia a Benfica. A poucos passos distante do palacete de Paula apeei e fiz retroceder o criado com o cavalo a esperar-me
em determinado ponto.
Soou meia-noite.
A folhagem dos álamos rumorejava nas asas das brisas. A Lua, coada por entre os dosséis de trepadeiras, mosqueava a relva dos pradozinhos ajardinados de Paula. Lá do interior vinha uma toada suave de fonte que mais parecia
um gemer de saudade.
A intervalos, as lufadas da viração rolavam as folhas secas,
e a cigarra e o grilo pareciam calar-se para ouvi-las.
Este ouvir e sentir refrigerou-me a febre da alma. Contemplei-me nas minhas ferozes intenções, no centro de um espetáculo tão majestoso de poesia e inspirador de pensamentos afetuosos. A razão, resgatada momentaneamente pelos bons instintos e moralizadora educação que os meus pais me deram, sopesou os ímpetos do coração vingativo. Desceu o anjo da paz à minha alma, e renasceu-me lá a esperança de encontrar alguma vez a mulher digna de mim, cuja posse me não custasse o sangue
do meu rosto.
Ergui-me no intuito de abandonar para sempre à vingança
da providência a mulher fementida e o vitorioso rival; ao
dar, porém, os primeiros passos, relanceei os olhos ao jardim e vi um vulto vestido de branco, branco do mármore das estátuas tumulares. Estaquei, e o vulto caminhou direito à grade. “É ela”, disse o meu coração em ânsias.
“Que veio aqui fazer Paula? Enganar-se-ia ela comigo?”
Retirei-me a um lado para ficar encoberto pelo muro. O vulto acelerou o passo, abriu subtilmente a grade, meteu
fora a cabeça e murmurou:
— Já estão a dormir todos: podes entrar. Fiz-te esperar
muito tempo? Fiquei entre o palerma e o estupefacto.
— Anda, Caetano — disse ela —, que estou a arrefecer!
Tu não te mexes? Estás amuado?
— Vossa Mercê engana-se — disse eu, quando conheci a
cozinheira ao clarão da lua.
Mal proferidas estas palavras, o vulto deu um grito de
surpresa e fugiu, deixando aberta a grade.
A este tempo, ouvi passos na estrada, e, sem refletir, entrei
no jardim e sumi-me por entre a espessura dos arbustos.
Pouco depois, vi entrar um vulto do homem no jardim, caminhar afoitamente, subir a um patim e empurrar de manso uma porta, que não se abriu. Mais tarde, correu-se
uma janela superior à porta e travou-se este diálogo: — Caetano!
— Eufêmia!
— És?
— Sou. Abres?
— Não; tenho medo.
— Ora!, ainda estão a pé?
— Não é isso... Estava ali à porta do jardim um homem.
Pensei que eras tu. Não o viste?
— Isso havia de ser para a fidalga: não vi ninguém. — Não pode ser para a fidalga.
— Pois então quem era, senão o conde?
— Não era, que esse entrou às onze horas e está cá.
— Seja quem for; abre a porta.
— Hoje não: vai-te embora. Olha... tinha-se ali um
franguinho assado... queres que to dei-te? — Então é certo que não abres?
— Estou a tremer com medo. Será alguma espera para o
Sr. Conde?
— Será...
— A fidalga é uma doidivanas... Será ele o do periquito? — Lá se avenham... Então até amanhã.
— E o frango, querê-lo?
— Bota cá.
Pouco depois, o homem saiu, e eu, com o rosto entre as mãos, fiquei o tempo que pode gastar uma alma em descer ao Inferno e voltar ao mundo com uma brasa eterna nos
seios.
Sai do jardim; pôs os olhos na lua: levei a mão convulsiva à
testa e exclamei: “Anátema!”
Dito isto, vim para Lisboa.
***
Decorreram três meses, durante os quais fui à província vender uma parte da minha legítima paterna. Pensava a minha extremosa mãe que eu, dois anos ausente dela, ia enfim adoçar-lhe os últimos anos e resgatar os empenhos a que sacrificara os bens. Não a desenganei logo por compaixão; mas o aspeto melancólico da minha aldeia, o silêncio, a quietação penosa do lar doméstico e a sensaboria das práticas monótonas de quatro clérigos das partidas da minha mãe tornaram-me as saudades de Lisboa
em profundo tédio da minha terra.
Liquidada a venda de algumas propriedades, que a minha boa mãe, com engenhosa compaixão dos meus desatinos,
fez comprar por terceira pessoa, voltei a Lisboa.
Como disse, tinham passado três meses sobre o meu coração. Aquela eterna brasa que eu, por amor da retórica, há pouco disse que trouxera do Inferno nos seios da alma, estava quase apagada, como todas as brasas que a gente
inflama com assopros de estilo. Pelo modo como o homem e
o amor estão feitos neste tempo, três meses de ausência correspondem àqueles dilatados anos dos amores da Idade Média, que traziam da Palestina à castelã saudosa o coração leal do seu cavaleiro. Peitos de ferro deviam albergar corações de férrea tenacidade. Agora, é mais íntimo e doravante o amor, mais combustível o coração; a chama, batida por variados ventos, ateia-se mais enfurecida e o elemento dos afetos volatiza-se rapidamente. A mais aumenta a versatilidade humana, quando o amor-próprio sai anavalhado destas lutas, em que é grande parte o orgulho. Assim se explica o quase esquecimento de Paula quando voltei a Lisboa; e, se de todo não a esquecera, fora a curiosidade de saber a conta em que o mundo a tinha que
me levava a indagar os pormenores da sua vida.
O boleeiro, que já o não era da casa de Benfica, deu-me alguns, os mais agravantes à honra da menina; os outros comunicaram-mós as suas amigas, os seus turibulários, os poetas que a traziam em letra redonda nas décimas dos folhetins e os noticiaristas que a vinham sempre aclamando
rainha dos bailes.
As minhas averiguações vieram aos seguintes resultados: Paula estava prometida a um fidalgo do Alentejo, seu primo segundo, e amava com quantas provas se justifica o amor, um conde. Este conde devia ser o sujeito mencionado no diálogo de Eufêmia e Caetano, aquele fino amante que levou o frango assado com recheio dos suspiros da cozinheira. O conde pensava que a dedicação de Paula sem reserva lhe assegurava um casamento rico; ela, porém, do sacrifício reservara o que não podia dar nem tinha para dar
— o coração.
Um indivíduo que por nome não perca requestou Paula, quando o conde a julgava mais avassalada e perdida de
amor. Não sei se a comoveu com Festões, grinaldas, passarinhos, frutos.
O que afoitamente certifico é que o conde foi traído e caiu das nuvens quando viu escorregar por uma corda, das janelas de Benfica, um sujeito que era um dos seus quarenta amigos íntimos. O amante vilipendiado vingou-se divulgando o mais secreto da sua intimidade com Paula. A sociedade espantou-se no primeiro dia da nova e no
segundo esqueceu-se a ponto de redobrarem os adoradores
em redor de Paula e recrudesceram as invejas das damas,
que ao mesmo tempo a denegriam. Tudo isso se passou nos três meses da minha ausência.
Quando me narraram miudezas destes factos, contados pela rama, estava eu em S. Carlos, e D. Paula numa frisa. Achei-a mais danosa. O Demônio triunfa às vezes, aformosentando o vício. A candura nem sempre é bela. Há rostos angelicamente inocentes que dão ares de idiotismo. Tem o crime uns resplendores do Inferno que reverberam nas caras e as alindam. Assim o pensava eu de Paula, que
seduzia diabolicamente com o seu gracioso despejo.
E o mais é que me olhava com magnética sobranceria, e eu a ela com ignóbil humildade. Todo o homem tem as suas intercadências de parvo, de desprezível e de baixeza. A mim me quer parecer que lhe mandava outro periquito, se abro a Primavera do sedutor Castilho naquela noite!
Entendam lá o homem!
É certo que dormi sobressaltado e acordei a pensar nela. É engraçada coisa o modo como eu me queria a mim mesmo
explicar a renascença do antigo amor, para me não
envergonhar da razão, que me arguia de homem sem honra. Dizia eu, entre mim, que era honorífico vingar-me da afronta e que a vingança devia ser simulada com aparências de amor. Planeava levá-la ao escândalo, exibi-la à irrisão pública e lançar pregão do meu despique; quando porém ideava estas sordícias, indignas do meu gênero brando, imaginava ao mesmo tempo que, chegado o lance da vingança, a comprimiria ao seio e me faria sacerdote da
vítima.
Nestes e noutros pensamentos me ocorreu o dia seguinte, e outro, até chegar a noite em que D. Paula tinha camarote. Namorei-a sem recato, sem biocos, sem velhacaria. Odiei os rapazes que vinham segredar-me os sabidos escândalos; cheguei a defendê-la por negação, e a benquistar a gargalhada dos tafuis, que a não contemplavam com menos
arrebatamento que eu.
Ora, devo confessar que Paula encarava em mim com sorrir tão desacostumado, e uns trejeitos tão esquisitos, que só a minha boa-fé, irmã gêmea da inépcia, era capaz de aceitá-los como benignos e amoráveis. Além de que, reparei
algumas vezes que ela falava ao ouvido da prima Piedade, e
riam ambas à socapa, sem olhar para mim, senão três minutos depois de espirrarem a risota. Agora é que eu
penso circunspectamente na passagem.
D. Maria da Piedade era uma linguareira com graça sarcástica, um folhetim de gênio mordente, temida dos elegantes, a quem ela costumava crismar com epítetos truanescos. A mim sabia eu que ela me chamava Periquito, metendo a riso a dádiva sentimental, que seria minha glória aos olhos de uma mulher sensível. Não duvido apostar que a leitora, se eu alguma vez tiver uma leitora, simpatizará com a minha memória por ter visto a candura e lhaneza de coração com que eu ofertei à ingrata a avezinha. Estas singelezas do amor são as que mais enternecem as boas almas. Dê-me a leitora uma lágrima, que eu não quero outra vingança das mulheres que me escarneceram a
poética simplicidade, simbolizada naquele periquito.
À saída do teatro, notei que Paula me encarara com o leque de dentro da carruagem. Rarefez-se a nuvem negra da zombaria. Recolhi-me feliz ao Grêmio Literário, e fui nessa
noite eloquente em teorias de amor.
Às duas horas do dia seguinte, quando eu estava escrevendo as comoções alegres da noite desvelada, recebi uma carta da posta-interna. Conheci a letra de Paula. Parou-me o sangue no peito; tremiam-me as mãos como se as tomasse o horror de profanarem a missiva do anjo. Abri, e vi que eram versos. Versos! O idioma primitivo do coração! Os suspiros metrificados! A expressão suprema do amor que se envergonha de expandir-se em prosa!... Ó
júbilo intumescente!
Li:
Ao terno cantor, que em alma Tem da amante o nome escrito, Solitária amante envia
Saudades do periquito.
“Será isto escárnio?!”, exclamei. Respondeu-me a seguinte
quadra:
Ao meigo vate, que eu amo Com amor casto e infinito, Manda um doce e ardente beijo
O saudoso periquito.
Não tive alma para ler o terceiro insulto, que mais tarde
pude ver:
Na rocha alpestre Vaga Silvestre Todo aflito;
Na grande testa O vento intesta Com rouco grito, E ele a gemer
E o eco a dizer:
“Ó periquito!”
a letra destes ignominiosos versos era de Maria da Piedade; mas nem por isso fica sendo menos criminosa
Paula, que sobrescritara a carta.
A dor empedrou-me. Grande é a angústia do homem que de
si próprio quer esconder o seu aviltamento!
***
Este insulto foi providencial. Foi como mão de ferro, que me apertou o coração até esvurmar dele as fezes do vilipendioso amor. Saí de Lisboa, no mais agreste do Inverno, e fui para Santarém, onde vi o santo milagre largamente contado no livro das viagens do adorável poeta
da Joaninha do Vale.
Estava, naquela estação, desabrida em Santarém a natureza. Eu queria chorar sozinho em algum recanto daquelas frondosas encostas e dessedentar-me da sede de
amor, dando o coração às maravilhas da Terra e do Céu.
Esperava eu que a soledade e a contemplação me refrigerassem a alma e a depurassem das imundícies em que a pobrezinha caíra, como pomba que, fatigada de voejar, não achou outro poisadeiro. A estas esperanças me tinham induzido alguns filósofos, que tinham o mundo em ódio e acharam no ermo conforto e bem-aventurança. Neste pressuposto, fui dar o primeiro lance de olhos amoroso à natureza, subindo àquela empinada eminência que lá chamam a Porta do sol. Apenas assomei ao alto, fiquei comovido das blandícias da natureza, que fez favor de me tirar o chapéu da cabeça e mo enviou para além-Tejo nas asas de um furacão. Retrocedi vexado da grosseira e sentei-me a recomendar à natureza de Santarém e ao Diabo os filósofos encomiastas do campo. Rompeu-se uma nuvem, e eu abri o guarda-chuva contra a bátega do vento; uma refega contrária apanhou-mo por dentro em cheio e converteu-mo em roca. A fugir da trovoada desfeita, entrei por um portal. Um cão rafeiro, denominado pelos filósofos o amigo do homem por excelência, arremeteu contra mim e, covardemente, quando eu fugia, me arrancou a aba
esquerda do fraque. Deste feitio me recolhi à estalagem da
Sra. Felícia, pessoa de agradável sombra, que se condoeu
sinceramente da minha angústia muda.
Mal me tinha eu apaziguado dos frenesins da minha irrisória raiva contra a natureza, quando o administrador do conselho mandou perguntar-me quem eu era e que vinha fazer a Santarém, caso não apresentasse passaporte. Respondi categoricamente que era viajante e que o meu passaporte era a minha inocência das coisas alheias ao coração e o desprezo em que tinha futilidades com que a
república era administrada.
A autoridade, maravilhada de tão farfalhuda resposta, quis conhecer pessoalmente o discípulo de Diógenes que discreteava na estalagem da Sra. Felícia, e foi procurar-me. Corremos aos braços um do outro. Tínhamos sido condiscípulos na Universidade, e cinco anos amigos. Fui ser seu hóspede, e resolvi demorar-me alguns meses em
Santarém.
Uma tarde, recebeu o meu amigo, da mão de um oficial de diligências, um ofício do governador civil para imediatamente dar busca na estalagem da Sra. Felícia,
onde se presumia estar uma menina nobre, fugida de
Lisboa com um sedutor. Ordenava a autoridade superior que o raptor fosse enviado à cadeia e a menina recolhida,
até novas ordens, num convento.
O meu amigo lera em voz alta o ofício e mentalmente a participação do governador civil de Lisboa conteúda no ofício. Observei que ele, depois de um trejeito de pasmo, abriu os beiços para me dizer alguma coisa, mas susteve-se
, e sorriu com certa malícia.
— Queres tu vir na qualidade de aguazil acompanhar-me
nesta diligência? — disse-me ele.
— Vou — respondi —; mas, se tu és homem de coração, como creio, dá escápula aos infelizes, que se amam: não queiras sobre o coração a responsabilidade de dois suicídios. Não achas horrível a prisão para ele e um convento para a pobre menina? Que lucro tira a moral pública de redobrar o escândalo e juntar à vergonha uma
inútil barbaridade?! — Mas que queres tu que eu faça?
— Que vás à estalagem, que finjas a busca e por portas
travessas deixes fugir a mulher, que a lei chama raptada, e
o rapaz, que bem pode ser que, em vez de roubador, seja ele o verdadeiramente roubado. As vossas leis são assim... Uma mulher foge pela porta ou pela janela da casa paterna; manda adiante as trouxas do seu fato; amua-se contra a frieza do amante, se ele lhe faz reflexões para a conter em casa; vai ter, afinal, com ele, dizendo que já não pode esconder aos olhos da mãe o caro penhor que lhe palpita no seio. O pobre rapaz, obrigado pela honra, pela compaixão e pelo amor dela e do caro penhor, foge também aos pais e vai caminho de Santarém ou de outra parte. Vem depois atrás deles a lei, e diz: “Esta menina foi roubada aos pais; este homem é o raptor desta inocente, que vai violentada como a Fátima de Gonçalo-Hermigues, o Traga-Mouros.” E
depois...
— Apanha as velas ao discurso, que não há tempo —
atalhou o meu amigo.
— Vamos à Felícia, e lá veremos. Se tiverem ares de se amarem como nos romances, a minha misericórdia
administrativa velará o escândalo.
Fomos à estalagem. Eram nove horas da noite.
A Sra. Felícia, interrogada pela autoridade, revelou que tinha na sua casa, há dois dias e duas noites, um sujeito e uma senhora, que se diziam casados e nunca saíam do seu quarto. Ordenou o administrador que os fosse chamar à
sala, em observância de uma ordem da autoridade.
Meia hora depois entrou na sala o sujeito e a dama. Céus! Expedi do peito involuntariamente um ai agudíssimo, levei as mãos aos olhos e caí numa cadeira, que ia caindo
comigo. Era Paula! Oh!... Paula!
Reinou profundo silêncio alguns minutos na sala. Quando me recobrei do espasmo, ergui-me e saí, sem encarar na
desgraçada.
***
Na desgraçada — disse eu!... Que adjetivos tão tolos tem a nossa boa-fé para adaptar a certas mulheres que trazem a
desgraça e a opinião pública sovada aos pés!
O meu amigo, voltando às onze horas da noite, achou-me febril, e assistiu-me até à madrugada com todos os recursos
da medicina.
No dia seguinte, sossegando o pulso, contou-me assim o
seguinte da diligência:
— Declarou Paula de Albuquerque que não era raptada e seguira de muito sua livre vontade aquele homem, que amava e com queria casar. O homem que ela seguia declarou ser irmão do padre-capelão da casa da menina e mestre-escola régio nos arrabaldes de Lisboa. juntou mais o raptor, vertendo lágrimas caudais, que ele não queria de modo algum dar semelhante passo, mas que a fidalga fora ter com ele, dizendo que não havia outro meio de obterem consentimento para casarem e remediarem o mal feito. Acrescentou o meu amigo administrador que D. Paula, ouvindo tão ignóbil e covarde revelação do mestre-escola, rompera em vociferações contra ele, chamando-lhe miserável e pedindo que, sem demora, a enviassem ao seu pai para não ver mais um homem indigno do sacrifício dela. O mestre-escola abundava no parecer de Paula e pensava já
em retirar-se, quando o administrador lhe disse que fosse
esperar na cadeia que a inocência do seu passo fosse julgada. Em consequência do que o mestre de meninos
desmaiou.
A autoridade oficiou daí ao governador civil, narrando-lhe os sucessos. Respondeu este que, visto ser tarde para entrar no convento, pernoitasse a fugitiva na estalagem, com vigias e sob a responsabilidade dos donos da casa, até virem de Lisboa novas ordens. O irmão do capelão foi para a cadeia e Paula, no dizer da Sra. Felícia, dormiu até uma
quinta do seu pai em Azeitão.
***
Conclusão
Quando voltei a Lisboa, rara pessoa encontrei que me não contasse o sucesso com a hediondez natural das suas cores e com as outras exageradas, que a maledicência folga de
carregar.
O mestre-escola, depois de alguns meses de prisão, foi mandado embora, sem ser julgado; mas na cadeia passou a bordo de uma galera, que o desembarcou no Rio de Janeiro. É de crer que o fidalgo, para se forrar à vergonha dos debates no tribunal, perdoasse ao réu e conseguisse que o
ministério público não achasse provas para a querela.
Pelo mesmo tempo, D. Paula casou com o primo que lhe fora destinado desde a puerícia e voltou para o palácio de Benfica, em companhia do seu marido e já com um menino robusto, não obstante ter nascido tão sem tempo que ninguém pensou que vingasse. Dizia a avó de Paula que semelhante prodígio não era novo na sua família, porque ouvira sempre dizer que os primogênitos da sua linhagem quase todos nasciam antes dos seis meses de incubação.
Coisa notável!
Vi Paula no teatro: no seu camarote entravam as pessoas de mais brilho na sociedade lisbonense, e cortejavam-na com
reverência igual à adoração.
Vi Paula nos bailes: os grandes do reino, os milionários, os
anciãos reputados modelos de honra e austeridade,
honravam-se de lhe darem o braço e de se curvarem a
apanhar-lhe o leque do chão.
Vi o nome de Paula inscrito na lista das damas que socorrem os aflitos, pelo amor de Deus, e se chamam, na linguagem dos localistas, as segundas providências na
Terra.
Vi, finalmente, que D. Paula era a mulher que o mundo respeitava, sem embargo do conde, e dos amigos íntimos do conde, e do mestre-escola, único bode expiatório de
tamanhas patifarias!