II. O desvio não resultou de erro de navegação
II. — Que os navios foram desviados para oeste por erro cometido na navegação. [10]
Esta hipótese tambem se decompõe em duas, egualmente destituidas de fundamento:
1.ª Erro cometido no rumo ou orientação da derrota;
2.ª Erro na latitude ou na estimativa da distancia percorrida.
A 1.ª hipótese não podia dar-se pelas razões seguintes:
j) As posições e orientação da costa ocidental da África e a situação do Cabo da Boa Esperança já eram bem conhecidas pelas viagens anteriores de Diogo Cam, Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, e portanto os pilotos sabiam perfeitamente soltar o rumo para ir dobrar o Cabo. [11]
k) Orientando-se a derrota pela agulha magnetica e experimentando esta uma variação para leste, comprehendida entre 5° e 10°, na região considerada e na epocha em questão, não podia a pequena differença do rumo da agulha, mesmo que não fosse atendida a variação, que já era conhecida, influir no grande desvio que a frota teve para oeste. [12]
l) Tendo a expedição partido do Tejo com rumo feito às Canarias, dado pelas agulhas de bordo, experimentando estas uma variação egualmente comprehendida entre 5° e 10° para leste, passou entre elas não commettendo erro de orientação. Largando depois daqui para as Ilhas de Cabo Verde, nas mesmas condições, tambem deparou com este archipelago sem erro de rumo. E portanto continuando a regular-se pelas mesmas agulhas e dentro dos limites da mesma variação, não se pode admittir, nem há documento algum que prove, ter-se dado erro de rumo proveniente da falsa indicação das agulhas. [13]
A 2.ª hipótese tambem não tem fundamento:
m) Porque qualquer erro cometido na latitude calculada pela observação do sol, ou na distancia estimada pelos pilotos, devia ter sido accusada pelas observações feitas em terra por mestre Johan, facto que não se deu, porquanto não consta da carta deste fisico, que especialmente se ocupa do assumpto, notando até certas particularidades do rigor das observações feitas durante a viagem, pelo sol e pelos astros, e das differenças que se encontravam por um e outro processo. [14]
n) Porque conhecendo as latitudes e os rumos, navegando em uma paragem de fracas correntes marítimas, e com vento prospero, não era possivel commetter erro sensivel no calculo ou estimativa do caminho andado, que desviasse a expedição tantos graus para oeste. [15]
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Como acaba de ser demonstrado, tambem a 2.ª hipótese, atribuida a erro cometido na navegação, não tem fundamento algum, tanto no que diz respeito a falsa orientação da agulha magnetica, como a erronea determinação das latitudes diarias e das distancias percorridas em cada singradura, factos que ainda menos podem ser acceites desde que na expedição iam navegadores tão experimentados e conhecedores do Atlântico sul, como: Bartolomeu Dias, Pero Escobar, Nicolau Coelho e tantos outros pilotos notaveis, secundados para maior garantia por homens científicos do valor de mestre Johan e Pedro Álvares Cabral.
É pois evidente: que nem caso de força maior, nem erro de navegação determinaram o desvio da expedição para oeste, restando portanto, por exclusão de partes, a considerar a ultima e unica hipótese admissivel de um desvio propositado a caminho do ocidente.