Conferência: parte II O Descobrimento do Brasil · Capítulo 3 de 6
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Conferência: parte II

Os conhecimentos geographicos dos antigos eram limitadissimos, não

conhecendo os europeus mais do que duas terças partes do seu continente,

o norte da Africa e o sudoeste da Asia, acreditando Ptolomeu que a

Africa se estendia até ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano

Indico a um simples lago ou pequeno mar interior. Nessa época, o que se

chama India comprehendia a Indo-China, o Indostão, as ilhas e regiões do

extremo Oriente. Era a India considerada como um paiz de fabulosas

riquezas e nella dizia-se que habitava o Prestes João, soberano

Christão, que reunia o poder temporal ao espiritual e era o summo

pontifice do Oriente.

O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso e considerado

innavegavel, povoado por monstros, coalhado de escolhos, coberto de

nevoa densa. Era um mar onde, para uns, reinava a eterna calmaria podre,

para outros, era constantemente açoutado por violentos tufões, de sorte

que era uma barreira á communicação entre os dois hemispherios.

Não contentes de limitar a tão pouco os seus conhecimentos geographicos,

os antigos inventavam lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias, de

estatuas e de columnas, que impediam os navegantes de marchar.

As columnas de Hercules fechavam o caminho do Atlantico, outras duas

columnas erguiam-se num estreito, impedindo a entrada do mar da India. A

phantasia não tinha diques e os mappas, principalmente o de Marco Polo,

marcavam milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava o paraiso,

o purgatorio e o inferno! Na ilha de Salomão, onde se dizia estar o

cadaver desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio, tres estatuas

faziam retroceder o navegante sob pena de morte. O cabo Bojador era um

ninho de serpentes e na ilha de Ceylão estava o tumulo de Adão!

Ainda em 1375 a costa africana só era conhecida de Ceuta até ao Cabo

Bojador, e ainda em 1436, já em pleno seculo XV, o mappa de André

Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo, reproduz as lendas e

figuras da edade média, collocando Jerusalém no centro do mundo e

determinando o local do paraiso terrestre!... Toda a terra conhecida

resumia-se num unico continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes

estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter chegado em 1492, quando

aportou ás Antilhas.

Lendas de origem portugueza só havia duas--a do gigante Adamastor, no

Cabo das Tormentas, que o grande épico dos Lusiadas tão lindamente

narrou em verso sonoroso, e a do cavalleiro de pedra, na ilha do

Corvo--mas este, ao contrario dos outros que intimavam o navegante a

retroceder, mandava-o avançar, apontava-lhe o caminho a seguir,

demandando novas regiões.

Taes eram os conhecimentos geographicos até ao primeiro terço do seculo

XV.

Foi então que appareceu o famoso projecto do infante d. Henrique,

projecto que revolucionou o systema do mundo.

Até ahi só se conheciam dois caminhos para chegar ao Oriente, ambos por

terra, ambos partindo do Mediterraneo. Conhecida a India como um paiz de

riquezas fabulosas e tendo cessado para os portuguezes, com a tomada de

Ceuta, o trafico dos generos do sertão pelo Mediterraneo, cogitou o

infante d. Henrique em chegar á India por um outro caminho--a via

maritima, pelo occidente. Mas, para isso, tinha de affrontar o Mar

Tenebroso, esse oceano inçado de escolhos e de monstros, impenetravel e

mysterioso. Como o seu intuito era explorar as riquezas indianas e levar

a fé aos musulmanos, com os quaes esperava combater, elle sentiu a

necessidade de um alliado e o alliado natural era o Prestes João, o

summo pontifice da christianidade indiana.

Era preciso, pois, procural-o, mas seguindo pela via maritima.

«Provêm desta origem, diz o sr. Faustino da Fonseca na sua obra

admiravel, as explorações para o sul e para o occidente; as grandes

viagens do occidente e do oriente; o encontro de duas passagens a leste

e a oéste,--o Cabo da Boa Esperança e o estreito de Magalhães; as

descobertas da costa da Africa e das ilhas do Atlantico, da America do

Norte e do Brazil.»

«Obedece tudo a este proposito, subordina-se tudo a este projecto, são

tudo soluções ao problema: os conselhos de Toscanelli e de Monetario, o

erro de Colombo, a audacia de Magalhães.»

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