Conferência: parte V O Descobrimento do Brasil · Capítulo 6 de 6
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Conferência: parte V

Portuguezes que me ouvis, meus amigos e meus irmãos; a monarchia

tradicional que, por tantos seculos, regeu os vossos destinos, começou a

dissolver-se na batalha de Alcacer Kibir, e, combalida, ruiu de todo com

a quéda e com a fuga do ultimo Bragança, em 5 de outubro de 1910.

Depois de tanta luz offuscante, que o seculo XV projectou da occidental

praia lusitana, veio a sombra e veio o marasmo, que vos não deixou

avançar mais.

Dir-se-ia que, desde 1500 até ha pouco, vivestes acorrentados,

manietados, sem poder dar expansão ao vosso genio irrequieto e

aventuroso, sem poder tirar partido das conquistas feitas com tanto

sacrificio e perigo.

Raiou para vós agora a aurora da liberdade com a proclamação da

Republica em vossa terra.

Uma nova era, promissora e fecunda, apresenta-se, durante a qual podeis

resgatar os erros de quatro seculos e achar as energias precisas para

conquistar o antigo esplendor.

Vejo-vos, com pesar, divididos nos campos maninhos da politica esteril,

da politica dissolvente dos partidos. Que quereis obter com a lucta

perturbadora neste momento em que a vossa patria mais precisa de paz, de

dedicações e de tino? A reconquista de um regimen que vos amesquinhou,

que vos empobreceu, que vos fez descer do alto da columna onde já

estivestes erguidos, dominando o universe? A reconquista de um regimen

que vos deu o jugo da Hespanha, por 60 annos, a vergonha da fuga da

vossa familia real e da sua côrte para o Brazil, e o abandono da vossa

patria á invasão estrangeira? a reconquista de um regimen que vos deu o

vergonhoso «ultimatum» de 1890? Sois ainda hoje os depositarios de dois

legados sagrados, que vos deixou o creador fecundo da Escola de Sagres e

o grande épico, que, em verso estridente, cantou as vossas glorias e

descortinou ao mundo o vosso saber e as vossas gloriosas jornadas.

Que quereis fazer dessa herança, levando-a á labareda das vossas

disputas domesticas? Enfraquecer mais a patria, desprestigial-a, deixar

que, considerada ingovernavel, vá parar ás mãos do estrangeiro, ávido e

cobiçoso, que já pensa como repartir entre si o precioso legado do

previdente infante? Não, não! Deixae o velho regimen sepultado nas

trévas do passado, cessae as vossas luctas fratricidas, e, unidos todos,

em blóco, trabalhae pela rehabilitação do vosso formoso paiz, pela

consolidação das suas actuaes instituições, sendo sempre portuguezes,

mais portuguezes ainda no regimen da democracia e da liberdade, sendo

sempre os briosos descendentes de d. Henrique, que mandou a descobrir

esta formosa terra que, em vinte annos de Republica, tem avançado sempre

e tem sabido sempre impor-se ao respeito e á admiração das potencias.

Tenho dito.

Notas e Noticias

NOTAS

NOTA A

A revista hespanhola España Moderna, de Junho de 1910, consagrou um

longo artigo, á nacionalidade de Colombo e chegou á conclusão de que

elle era hespanhol, natural de Pontevedra e, portanto, gallego. Entre os

argumentos apresentados para firmar a sua asserção, cita o facto da

caravela Santa Maria, uma das trez da frota com que Colombo foi ás

Antilhas, ser appellidada vulgarmente La Gallega.

O historiador hespanhol D. Celso Garcia de la Riega, filho de

Pontevedra, sustentou a affirmação da España Moderna em um longo

artigo que, posteriormente, em Janeiro de 1911, publicou no Heraldo,

de Madrid.

A Hespanha reclama, pois, para si, a gloria de ter dado nascimento a

Colombo, que ainda é lá conhecido por Colon.

Todavia, Las Casas, amigo intimo de Colombo, affirma que este era

genovez e Toscanelli, em uma das suas cartas ao proprio Colombo,

considera-o portuguez!...

Eis ahi porque dissemos que a nacionalidade de Colombo ainda hoje é

discutida.

NOTA B

Não se tractou nesta conferencia de Americo Vespucio porque, a despeito

de affirmarem que elle legou o seu nome á America, della ainda foi menos

descobridor do que Colombo. Quem se lembrou de baptisar com o nome de

America a terra, que João Vaz Corte Real e outros navegantes lusos

descobriram, foi o cosmographo francez Mathias Ringmann que, na sua

Cosmographiae introductio in super quatuor Americi navigationes,

publicada em 1507, em Saint-Dié, na Alsacia franceza, escreveu:[6]

[Nota de rodapé 6: A Cosmographia de Ringmann foi publicada em Saint-Dié

a 25 de Abril de 1507. Ringmann falleceu em Strasburgo em 1511. A

França, querendo perpetuar a leviandade de Ringmann, festejou este anno

o quarto anniversario da sua morte, sob o pretexto de ter sido elle o

baptizador do Novo Mundo! Eis ahi como se escreve e como se faz a

Historia!...]

«No mundo existe mais uma quarta parte que Americo Vespucio descobriu e

que, por essa razão, poderiamos chamar America, isto é, Terra de

Americo.»

O alvitre de Ringmann foi aceito e á nova terra descoberta deu-se o nome

desse usurpador da gloria alheia, que nunca passou de um cosmographo,

que veio ás terras americanas com Hojeda, muito depois que os Corte

Reaes, Lavrador, Dulmo, Affonso Sanches e outros navegantes lusos nellas

estiveram e ainda mesmo depois de Colombo, que já foi um retardatario.

Accresce que ha quem affirme (é o erudito Snr. H. Vart) que o nome

America, dado ao Novo Mundo, provêm, não do prenome de Vespucio, mas da

denominação que os indios de Nicaragua davam ás «terras altas» dessa

região americana de onde extrahiam o ouro que empregavam nos seus

utensilios e adornos, terras essas que elles chamavam America, expressão

equivalente a Eldorado ou Terra do Ouro, que, primeiro, os companheiros

de Colombo e, depois, todos os outros navegadores foram acceitando e que

serviu para designar, não só as terras altas de Nicaragua, mas todo o

novo continente.

A ser verdadeira a affirmação de H. Vart, o nome America é de origem

americana.

NOTA C

A 6 de Maio de 1895, quando eu ainda desconhecia o livro do Snr.

Faustino da Fonseca, que só veio a lume muitos annos depois, publiquei

no O Paiz da Capital Federal o seguinte artigo sobre a commemoração

official da data do pretenso descobrimento do Brazil, feito por Pedro

Alvares Cabral, em 1500:

«O dia 3 de Maio é officialmente commemorado como data anniversaria do

descobrimento do Brazil. E todavia é um erro, é um anniversario falso,

porque a verdadeira data anniversaria desse descobrimento é 22 de Abril,

pois foi a 22 de Abril de 1500, que Pedro Alvares Cabral, em demanda das

terras da India, avistou na frente da sua frota um morro elevado da

terra brazileira para o qual mandou aproar fundeando a seis leguas de

distancia.

Celebrava então a igreja catholica as festas da Paschoa e d'ahi a razão

porque Cabral deu a esse morro o nome do Monte Paschoal.

Os historiadores dos seculos XVII e XVIII e notadamente a obra de Fr.

Gaspar da Madre de Deus é que, no dizer de Pereira da Silva, induziram

os estadistas fundadores do imperio brazileiro ao erro de estabelecerem

a data de 3 de Maio como a do descobrimento. Todavia a carta de Pero Vaz

Caminha, publicada pela Academia Real de Sciencias de Lisboa e escripta

a el-rei D. Manoel em 1.º de maio de 1500, annunciando-lhe a descoberta

e os documentos deixados pelo physico-mór da armada de Cabral e por um

piloto que fazia parte da frota, não deixam duvida sobre o dia exacto em

que o almirante viu e mandou aproar para a terra brazileira.

Basta a circumstancia de ser a carta de Pero Vaz Caminha, que ia n'uma

das treze náos da frota de Cabral como futuro escrivão do almoxarifado

que o almirante devia fundar nas Indias, datada de 1.º de maio, para

tornar patente a impossibilidade do descobrimento a 3 desse mez. Nessa

carta, onde Vaz Caminha dá conta do descobrimento, lê-se que elle foi

effectuado a 22 de abril. Nesse dia, que era uma quarta-feira, Cabral

limitou-se a approximar-se de terra, fundeando ás 4 horas da tarde, em

ponto em que havia 19 braças de profundidade. Só no dia seguinte, 23 de

abril, aproximou-se mais de terra com as precisas cautelas e, ao chegar

á desembocadura de um rio, mandou que Nicoláo Coelho fosse em uma

almadia explorar as plagas que se avistavam da frota. Partiu Coelho e

vendo homens nús na praia, sem comtudo desembarcar, atirou-lhes alguns

objectos que levara comsigo e delles recebeu outros em troca,

entabolando assim relações amistosas com os naturaes da terra.

Voltou a bordo e deu conta do succedido ao almirante. Nessa noite,

porém, levantou-se forte vento do sueste e Cabral, não se considerando

seguro no ponto em que estava, tratou de procurar um ancoradouro para

abrigo dos navios e, continuando a navegação em rumo de norte, mas

sempre á vista da costa, foi fundear de novo, dez leguas adiante, em

uma bella enseada á qual deu o nome de Porto Seguro. Isto passava-se

n'uma sexta-feira, 24 de abril de 1500. Essa enseada, mais tarde, passou

a denominar-se bahia Cabralia, sendo transferido o seu primitivo nome de

Porto Seguro para a povoação que se fundou nas suas proximidades.

Na enseada de Porto Seguro appareceu logo uma piroga com indigenas e,

aos poucos, a costa foi-se enchendo de gentios, manifestando intenções

pacificas. Só no dia 25 o almirante dirigiu-se a terra. No dia 26, que

era domingo de Paschoela, foi erguido um altar em terra e ahi celebrada

a primeira missa no Brazil, acontecimento este que Victor Meirelles

celebrisou e commemorou n'um magnifico quadro, o melhor e o mais

commovente que o seu pincel produziu.

A essa missa assistiu o gentio que dansou e cantou após a cerimonia,

fraternisando com os portuguezes.

Só no dia 1.º de maio é que o almirante resolveu dar conta a D. Manoel

do seu feito e nesse dia, depois de mandar dizer segunda missa, tomou

posse official da terra e despachou para Lisboa a nao que devia levar ao

rei a noticia da nova terra descoberta, a que elle deu o nome de Vera

Cruz, mais tarde substituido por Santa Cruz e ainda depois por Brazil.

Foi nessa nao, commandada por Gaspar Lemos, que seguiu para o reino a

carta de Pero Vaz Caminha escripta nesse mesmo dia 1.º de maio de 1500.

Tal é, em resumo, a narração contida nos tres documentos da época, aos

quaes allude com interesse e perfeito conhecimento do assumpto o

conselheiro Pereira da Silva na segunda serie dos interessantes

escriptos que denominou A Historia e a Legenda.

Ora, se isto é assim, se hoje não pode restar mais duvida a ninguem, em

presença desses documentos do seculo XVI, que determinam com perfeita

exactidão a data da chegada de Cabral ao Brazil, por que havemos de

conservar officialmente um anniversario falso, que, se ao tempo em que

foi decretado pelos estadistas fundadores do imperio, se justificava

pela ignorancia em que viviam desses documentos, não se justifica nem se

explica mais hoje, que estão publicados e ao alcance de toda a gente?

É que os estadistas da Republica, que conservaram o erro, fundam-se na

correcção que soffreu o calendario Juliano mandado executar pelo papa

Gregorio XIII, que, em 1582, mandou supprimir 10 dias a esse anno,

ordenando que o dia 5 de outubro fosse designado pelo numero 15, o

immediato 16 e assim por diante, encurtando esse anno de dez dias para

compensar a differença para mais desse mesmo espaço de tempo, que o

calendario Juliano já accusava no fim do seculo XVI.

E assim, em virtude dessa corrigenda, o dia 22 de abril de 1500 passou a

ser, em qualquer dos annos posteriores a 1582, correspondente ao dia 3

de maio.

Mas tal razão será sufficiente para manter na tradição popular uma

crença falsa? Pensamos que não. Officialmente, o dia consagrado como

data anniversaria do descobrimento do Brazil é o dia 3 de maio. E assim

o povo, que não sabe das correcções que soffreu o calendario Juliano,

nem dos motivos que as determinaram, fica persuadido que effectivamente

foi no dia 3 de maio de 1500 que se realizou o descobrimento, quando os

documentos do seculo XVI, que as historias populares do Brazil já

registram, não consignam tal data, mas sim a de 22 de abril.

Sou de parecer que, se ao tempo da descoberta ainda não existia no

calendario Juliano a correcção ordenada por Gregorio XIII, que só se

realizou 82 annos depois, se para Pedro Alvares Cabral o dia desse feliz

successo foi o de 22 de abril, essa é a data que deve ser officialmente

consagrada para assim manter-se na tradição popular.

De 1500 a 1582 acontecimentos houve que ficaram registrados na historia

da nossa terra e, todavia, ninguem se lembrou de applicar aos seus

respectivos anniversarios a correcção ordenada por Gregorio XIII,

limitando-se a corrigenda tão sómente ao successo, isto é, á data da

chegada de Cabral ao Brazil.

Ora, uma de duas, ou os estadistas da Republica têm de mandar fazer uma

revisão completa de todas as datas mais ou menos celebres da historia, e

principalmente da nossa, no periodo comprehendido entre 1500 e 1582, ou,

para serem coherentes, têm de mantel-as taes como ainda hoje a tradição

as conserva; mas, nesse caso, preciso se torna que a consagração do

feito de Cabral seja feita não mais a 3 de maio, mas sim a 22 de abril.

Tal é o meu modo de ver, salvo melhor juizo.»

GARCIA REDONDO

NOTICIAS

Conferencias portuguezas

Não podia ser mais auspiciosa a inauguração da primeira série das

conferencias portuguezas, promovidas pelo Centro Republicano Portuguez

desta capital.

A despeito da noite fria e chuvosa, o amplo salão do Instituto Historico

e Geographico encheu-se completamente, de uma assistencia distincta e

brilhante, quer pela quantidade, quer pela qualidade.

Além de muitas senhoras e senhoritas, compareceram tambem á primeira

conferencia do Centro Republicano Portuguez os srs. Jacques Dupas,

consul da França, Daniel Monteiro de Abreu, consul do Paraguay e

encarregado de negocios de Portugal, o representante do sr. general

Ferreira de Abreu, inspector da decima região militar, o dr. Paula

Souza, director da Escola Polytechnica, commendador Mondim Pestana,

official de gabinete do sr. dr. secretario do interior, dr. Bettencourt

Rodrigues, dr. Rodolpho de Santiago, dr. Ricardo Severo, dr. Eugenio

Egas, e muitas outras pessoas gradas.

O sr. Antonio Luiz Gomes, Ministro de Portugal, chegou ao Instituto

Historico ás 8 e meia da noite, em companhia do dr. Bartholomeu

Ferreira, secretario da Legação Portugueza, sendo recebido á porta pela

directoria do Centro.

Em seguida, s. exa. foi introduzido no salão pelos srs. drs. Bettencourt

Rodrigues e Ricardo Severo, tomando assento na mesa, ao lado da

directoria do Centro, e tendo á sua esquerda o dr. Bettencourt

Rodrigues.

Abrindo a sessão, o sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, presidente do

Centro R. Portuguez, explicou o fim das conferencias portuguezas,

dizendo que, antes de apresentar á assistencia o conferencista sr. dr.

Garcia Redondo, cumpria lhe o dever de agradecer á directoria do

Instituto Historico, que promptamente poz á disposição do Centro o seu

salão, afim de ahi serem realisadas as conferencias. Agradece tambem a

honrosa visita do sr. ministro portuguez, que, com sua presença, veio

dar maior solennidade á primeira conferencia.

Alludindo á pessoa do conferencista, o sr. presidente diz que o dr.

Garcia Redondo é por demais conhecido do auditorio que, sobejamente,

conhece a sua bagagem literaria, pelo que se dispensa de apresental-o.

Em seguida, é dada a palavra ao sr. dr. Garcia Redondo para proceder á

leitura de sua conferencia sobre «O descobrimento do Brasil--Prioridade

dos portuguezes no descobrimento da America.»

Por ser muito longo o trabalho do dr. Garcia Redondo, e não dispomos,

hoje, do necessario espaço, só amanhan poderemos dar na integra a sua

conferencia.

As ultimas palavras do conferencista foram abafadas com uma grande

salva de palmas, sendo s. s. abraçado e cumprimentado pela directoria do

Centro e pelo sr. ministro de Portugal.

Antes de ser encerrada a sessão, o sr. ministro de Portugal solicita a

palavra pronunciando um discurso do qual damos o resumo que se segue:

O sr. Antonio Luiz Gomes começa dizendo que não vinha com a intenção de

tomar a palavra nesta assembléa. Vinha apenas, na qualidade de

representante do seu paiz, trazer as saudações mais affectuosas ao

Gremio Republicano Portuguez de S. Paulo e aos iniciadores destas

magnificas conferencias.

«Quando vi o assumpto de que se ia tratar, diz o orador, despertou-se

logo no meu espirito e na minha alma a certeza absoluta de que estas

conferencias deviam ter uma influencia muitissimo grande na pacificação

dos espiritos dos portuguezes, um pouco revoltados, e que ellas teriam,

como conclusão final, approximar ainda mais a familia portugueza da

familia brazileira.

E, senão bastara isso, eu tambem não podia conservar-me calado depois de

ouvir a palavra brilhantissima do sr. dr. Garcia Redondo. Seria uma

crueldade, uma injustiça que eu, em publico, deixasse de attestar, não

só o meu reconhecimento, mas, o que é mais, o reconhecimento do meu

paiz, por este formosissimo e esplendido trabalho. (Muito bem).

Se por ventura o nome do dr. Garcia Redondo não fosse sufficientemente

conhecido, não só nas boas letras, como na sciencia, bastava esta

conferencia para justificar o elevadissimo conceito em que o seu nome é

tido entre portuguezes e brazileiros.

Trabalho magnifico, soberbo, onde se alliam, indiscutivelmente, altos

pensamentos com uma forma burilada e perfeita, e que vem coroar a sua já

larga obra na sciencia e nas letras.

E depois de prestar um enorme serviço, de vir levantar a minha patria á

altura a que indiscutivelmente ella tem direito, porque Portugal, embora

pequeno como disse s. exa., aquella mancha pequena, que se encontra no

ponto occidental da Europa, prestou serviços á humanidade, e á

civilisação humana, que, positivamente, não foram excedidos por povo

algum do mundo. (Muito bem.)

A civilisação do mundo, meus senhores, firma-se em tres peninsulas, nos

tres pontos que observaes naquelle mappa.

Se na Grecia nasce a civilisação, nascem as artes, a philosophia, a

sciencia; se naquella peninsula italica nasce o direito, porque o

direito romano, pode-se dizer, é a propria razão humana feita lei; foi

naquella pequenina peninsula iberica, naquelle extremo do occidente,

que, numa época em que os grandes povos de hoje viviam uma vida

inteiramente apagada, numa época em que a valorosa Inglaterra ainda não

tinha historia; em que a Allemanha apenas se preparava para esse

movimento augusto e sublime que proclamava perante o mundo inteiro a

liberdade de consciencia; em que a França fazia os ultimos retoques na

sua lingua e se preparava para escrever paginas brilhantissimas sobre a

historia da humanidade, é certo, entretanto, que nenhuma dellas, por

assim dizer, tinha ainda firmada a sua civilisação.

Por esse tempo, naquelle «pontinho» se levantava um povo pequenino de

lavradores e de guerreiros, que deixava a patria, para levar o pendão

das Quinas aos extremos mais remotos, aos confins do mundo.

Essa historia é assombrosa: é inacreditavel.

Custa a acreditar que esse povo, como disse um dos grandes philosophos

contemporaneos, Max Nordau, fosse o precursor em todos os grandes

acontecimentos.

Elle tinha dispersado os arabes sem que a Hespanha o conseguisse em

duzentos annos.

É que durante esse tempo a essa grande raça nada faltava: tinha força,

tinha talento, tinha sciencia.

Foi precisamente esse povo pequenino que deixou sementes por toda a

parte da grandesa do genio de sua raça.

Por isso, meus senhores, espero que a invocação do dr. Garcia Redondo

produza bem rapidamente seus frutos.

Estas lutas não podem continuar, e não podem continuar, sobretudo, no

campo em que infelizmente foram postas.

Eu, quando vim representar a Republica Portugueza, não vim com o desejo

de que todos os portuguezes se fizessem republicanos: não precisamos de

tanto. A unica coisa que desejamos, que eu desejo, como patriota, é que

todos sejamos bons portuguezes. (Muito bem, muito bem.)

Eu louvo até, com a franqueza que me caracteriza, que hajam convicções

monarchicas no meio de portuguezes. O que é necessario é que os

republicanos respeitem os monarchistas e que os monarchistas respeitem

os republicanos (Muito bem).

O que nós pedimos é muito pouco: é que nunca confundam as glorias da

patria, da terra onde nasceram com as pequeninas paixões que possam

viver no nosso espirito. (Muito bem, muito bem).

E, posta a luta nestes termos, como é facil todos nos entendermos! Basta

que cada um de nós se esforce para ser o melhor portuguez que possa ser;

trabalhe pelo engrandecimento do seu paiz; honre o nome portuguez por

toda a parte; defenda as suas convicções politicas, mas honradamente,

honestamente.» (Muito bem. Palmas).

Depois de varias considerações termina o sr. Antonio Luiz Gomes.

«Para realisar a nossa obra não queremos que todos sejam republicanos; o

que queremos apenas é que ninguem se esqueça que a patria está acima das

paixões de cada um. (Muito bem).

E eu estou convencido de que esse tempo vae chegar rapidamente.

A Republica vae, dentro de pouco tempo, ter a sua constituinte, a sua

constituição.

Nas ultimas eleições, que foram feitas em condições excepcionaes, depois

de uma revolução, depois de boatos aterradores, a Republica já teve a

sua consagração.

Nunca as urnas portuguezas foram tão concorridas como neste momento: 80

por cento do corpo eleitoral de Lisboa foi votar.

O Porto, considerado como reaccionario, não para nós republicanos,

porque foi precisamente lá que tiveram inicio todos os grandes

movimentos de Portugal, no proprio Porto, a votação foi maior do que em

qualquer outro ponto.

Portanto, todos vêm a situação definida e clara em que se encontra hoje

Portugal.

Vindo a S. Paulo, eu dirijo as minhas saudações mais affectuosas não só

ao povo de S. Paulo, mas tambem á auctoridades do Estado, que nos deram

a alta honra de se fazer representar nesta conferencia, e remato por

agradecer a todas as senhoras, a todos os cidadãos que aqui vieram e,

finalmente de novo, dirijo os meus agradecimentos mais sinceros e

profundos ao dr. Garcia Redondo, não só em meu nome, como no de

Portugal, que tenho a honra de representar.»

As ultimas palavras do dr. Antonio Luiz Gomes foram abafadas com uma

estrepitosa e prolongada salva de palmas da grande assistencia.

(Noticia do ESTADO DE S. PAULO de 4 de Junho de 1911).

Conferencias portuguezas

Em carro reservado ligado ao nocturno de luxo, chegou hontem a esta

capital, conforme era esperado, o dr. Antonio Luiz Gomes, ministro de

Portugal junto ao nosso governo, acompanhado de seu secretario, sr. dr.

Bartholomeu Ferreira.

Á noite s. exc. assistiu á conferencia que o sr. dr. Garcia Redondo, com

grande successo e brilhantismo, realizou no salão nobre do Instituto

Historico e Geographico, tendo por thema: «O descobrimento do Brazil e a

prioridade dos portuguezes no descobrimento da America».

Publicaremos amanhã, na integra, esse importante trabalho do distincto

membro da Academia Brazileira de Letras, que foi, pelo successo que

alcançou, vivamente applaudido e felicitado.

Depois da conferencia do dr. Garcia Redondo, o dr. Antonio Luiz Gomes,

usou da palavra, produzindo bellissima allocução, durante a qual era

constantemente interrompido por estrepitosa salva de palmas.

(Noticia do SÃO PAULO de 4 de Junho de 1911).

Conferencias portuguezas

No salão nobre do Instituto Historico e Geographico de S. Paulo,

realizou-se hontem á noite, conforme se annunciára, a primeira

conferencia da série promovida pelo Centro Republicano Portuguez, desta

capital.

Coube o inicio das conferencias ao dr. Garcia Redondo, que tomou por

thema de sua oração--«O descobrimento do Brazil» «Prioridade dos

portuguezes, no descobrimento da America».

Precisamente ás 8 horas e meia, constituida a mesa da presidencia pelo

sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, tendo a seu lado o ministro

plenipotenciario de Portugal no Rio de Janeiro, sr. Dr. Antonio Luiz

Gomes, que para tal fim veio a esta capital; dr. Bitencourt Rodrigues, e

membros da directoria do Centro Republicano Portuguez, era o

conferencista introduzido no salão, que já regorgitava de numerosos

cavalheiros e gentilissimas senhoras e senhoritas.

Pudemos mesmo notar entre os assistentes, os seguintes:

Commendador Tiburtino Mondim Pestana, segundo-tenente Carlos Rocha,

representando o general Ferreira de Abreu, inspector da 10.ª região

militar, com séde nesta capital; major Arthur da Graça Martins,

secretario do commando geral, da Força Publica; Jacques Dupas, consul da

França, e sua familia; commendador Daniel Monteiro de Abreu, consul do

Paraguay e encarregado do consulado de Portugal; dr. Eugenio Egas,

Arthur Vautier, Nestor Rangel Pestana, Gelasio Pimenta, José Vicente

Sobrinho, dr. Antonio Francisco de Paula Sousa, director da Escola

Polytechnica; dr. Rodolpho S. Thiago, lente da mesma escola; dr. Ricardo

Severo, dr. Leopoldo de Freitas, consul de Guatemala, dr. Alfredo

Redondo, dr. Manoel Redondo, Jayme Redondo e sua familia.

Abriu a sessão o sr. Cunha Barbosa.

Referiu-se s. s. com palavras elogiosas ao dr. Bettencourt Rodrigues, de

quem partira a idéa das conferencias, cujo grande valor salientou, pois

ellas viriam cada vez mais estreitar os vinculos que unem os dois povos

portuguez e brazileiro.

Saudava a patria portugueza, alli directamente representada na pessoa do

seu ministro plenipotenciario, cuja presença, agradecia.

Á directoria do Instituto Historico e Geographico agradecia tambem,

penhorada, a gentileza de haver cedido o salão da sua séde, para a

realização da conferencia.

Isto dito, e como não desejava prender por mais tempo a attenção do

auditorio, naturalmente ancioso, dava a palavra ao dr. Garcia Redondo,

cuja apresentação julgava desnecessario fazer, pois tinha absoluta

certeza de que nem uma só pessoa alli presente, desconhecia, quer

através da imprensa ou da literatura, os altos meritos do conferencista.

Uma prolongada salva de palmas ecôa pela sala.

Levanta-se então o dr. Garcia Redondo que começa agradecendo aos

circumstantes a sua temeridade em affrontar os rigores daquella noite

humida e fria, não para ouvir a sua modesta palavra, pois não tinha

sobre isso illusão alguma, mas para corresponder ao appello que lhes

dirigiram os promotores daquella conferencia.

Sobretudo, era-lhe grato constatar alli a presença das representantes do

sexo gentil, que á festa emprestavam a nota brilhante.

Diz que o thema da sua conferencia havia sido para elle objecto de

longos e profundos estudos. Poderia por isso dissertar sobre elle sem

ter necessidade de ler, nem mesmo simples annotações.

Mas, importando o que tinha de dizer responsabilidades que queria

assumir e receiando que a memoria o trahisse, considerava mais prudente

ler a sua conferencia.

Em seguida, offerece alguns esclarecimentos sobre um grande mappa que

está ao seu lado, e que elle organizou para illustrar a conferencia, e

entra finalmente no assumpto.

Ás ultimas palavras da brilhante oração do dr. Garcia Redondo, uma

calorosa e prolongada salva de palmas se fez ouvir no salão.

S. s. foi distinguido com a offerta de um lindo «bouquet» de flôres

naturaes.

Levantou-se então o ministro plenipotenciario da Republica de Portugal,

sr. Antonio Luiz Gomes.

Recáe sobre a sala um profundo silencio.

O illustrado diplomata começa affirmando que não comparecera áquella

reunião com o intuito de falar.

Mas, cumpria-lhe o dever de agradecer em nome de Portugal, que tinha a

honra de representar, o bello trabalho do dr. Garcia Redondo.

Tratando da moderna phase da sua patria, fala sobre o Portugal antigo,

cujos feitos enchem as paginas da historia universal.

Refere-se á Monarchia, dizendo que ella teve tempo mais que sufficiente

para demonstrar a capacidade dos seus homens.

Por occasião do assassinato de d. Carlos, levaram os republicanos a sua

generosidade ao ponto de prestigiar--sem o sacrificio, porém, das suas

convicções politicas--as instituições então vigentes, desde que isso

concorresse para o bem do paiz.

Entretanto a Monarchia mostrou-se impotente; nada fez porque nada poude

fazer para manter o prestigio de Portugal.

As crises ministeriaes succediam-se de um modo assustador e a situação

chegou a tal ponto que só a Republica poderia salvar as gloriosas

tradições do paiz.

E a Republica veio, não a Republica do terror, das perseguições, como

apraz aos boateiros vulgares, mas a Republica que tem por lemma o

levantamento moral do tradicional paiz das quinas.

End of Project Gutenberg's O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo

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