Conferência: parte III O Descobrimento do Brasil · Capítulo 4 de 6
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Conferência: parte III

Não é difficil provar que Colombo não descobriu a America e que quando

chegou ás Antilhas, em 1492, já a America havia sido descoberta pelos

portuguezes, muitos annos antes. O difficil seria provar hoje, em face

dos documentos encontrados pelo sr. Faustino da Fonseca e dos quaes me

vou soccorrer nesta conferencia, que o ousado genovez fez tal

descoberta.

Esmiucemos o interessante assumpto.

Quando o infante d. Henrique fundou a escola de Sagres com observatorio

astronomico, para o qual fez vir cosmographos e mathematicos

estrangeiros, e mandou construir nos seus estaleiros as primeiras

caravelas e ordenou que ellas sahissem, para o mar tenebroso e pelo

occidente, dizendo aos capitães que avançassem sem receio, fazendo-se ao

largo, já Gonçalves Zarco havia descoberto a ilha da Madeira e já o

infante conhecia o livro de Marco Polo, que existia em Portugal desde

1418, trazido pelo infante d. Pedro, que o recebera como dadiva do

senado de Veneza, assim como conhecia tambem o mappa do mesmo Marco Polo

onde se veem as regiões do oriente muito proximas das do occidente. No

seu livro, Marco Polo assegurava que Catay estava no Atlantico (que elle

chama o mar de Cyn) a pequena distancia da Europa e que, no Atlantico,

estavam tambem Cypango e outras ilhas de especiarias.

As primeiras caravelas, construidas e equipadas pelo infante em 1431,

começam a perscrutar o mar vasto e, um dia, de uma dellas, Gonçalo Velho

Cabral descobre as Formigas. Um anno depois, em 1432, descobre ainda

Santa Maria. As expedições maritimas portuguezas, desde então,

succedem-se ininterruptamente e, annos depois, é descoberta grande parte

das ilhas do archipelago dos Açores pelo mesmo Gonçalo Velho e depois as

do Cabo Verde (1460) por Antonio Gomes e Diogo de Nola.

Em 1435, já o mappa-mundi de Bechario representa a Antilia e outras

ilhas, a oéste dos Açores, acompanhadas da seguinte legenda:--Insule de

novo reperte (ilhas recentemente descobertas.)

Em 1436, um anno após, apparecem o mappa-mundi de André Bianco e o seu

portulano cujas cartas já representam o mar de Baga, o mar dos Sargaços,

as Antilhas e o Brazil, figurando este como se fosse uma grande ilha. Em

1447, uma nau parte do Porto e descobre a Groelandia aonde os

marinheiros desembarcaram.

No entretanto, do celebre promontorio de Sagres, o infante d. Henrique

vê sumirem-se no mar intermino as caravelas, que successivamente iam

partindo á descoberta, e já em 1448, numa carta do portulano de André

Bianco, tratando dos descobrimentos dos portuguezes, se regista o Brazil

de uma forma precisa, na parte oéste e sul do Cabo de S. Roque, ao sul

das ilhas do Fogo e Brava de Cabo Verde, na sua verdadeira posição, em

frente á costa africana, sendo designado por ilha authentica e

assignalada a sua distancia exacta de 1500 milhas do archipelago de Cabo

Verde.

Esta carta do portulano de Bianco, bem como os anteriores de 1436

mostram, pois, meus senhores, que o Brazil foi descoberto em 1435, ou

antes, por navegantes portuguezes e que até das Antilhas já havia

noticia nessa época.

Mas, não fica nisto. As caravelas portuguezas continuam a singrar o mar

tenebroso e, em 1452, Diogo de Teive e seu filho João de Teive descobrem

as ilhas Corvo e das Flores e chegam á latitude da terra que se chamou

mais tarde «do Lavrador» (porque a descobriu um portuguez deste nome)

não desembarcando nella com receio do inverno.

Em 1460 morre o infante d. Henrique, deixando reconhecida toda a costa

africana até Serra Leôa e legando ainda á sua patria os descobrimentos

dos archipelagos dos Açores, de Cabo Verde e do Brazil.

A morte do infante não faz, porém, arrefecer o enthusiasmo lusitano

pelos descobrimentos e já dois annos depois, em 1462, d. Affonso V, por

carta regia de 29 de outubro, faz doação a seu irmão o infante d.

Fernando, filho adoptivo de d. Henrique e seu herdeiro universal, de uma

terra achada no mar alto, a noroeste das ilhas Canarias e da Madeira,

que Gonçalo Fernandes havia descoberto. Essa terra não podia ser outra

senão a America.

Mezes antes, por carta régia de 19 de fevereiro, esse mesmo Affonso V

havia feito doação a João Vogado de duas ilhas por elle descobertas no

mar oceano, ás quaes dera os nomes de Lono e Capraria. Nos documentos

da época, a expressão mar oceano era usada para designar o mar que

banhava a America, que então ainda não tinha esse nome. Esta doação a

João Vogado prova que as duas ilhas Lono e Capraria eram ilhas ou pontos

da costa americana.

Onze annos depois, em 1473, d. Affonso V, por carta régia de 12 de

janeiro, faz doação á sua sobrinha d. Beatriz, filha do infante d.

Fernando, de uma ilha que apparecera, em 1468, através da ilha de

Santiago, e que era uma das Antilhas, aonde só 24 annos depois aportou

Colombo. Convém notar que esta descoberta é feita por navegadores

portuguezes 5 annos antes da chegada de Colombo a Lisboa.

Do exposto se conclue que as proprias Antilhas já tinham sido

descobertas pelos portuguezes muitos annos antes de Colombo lá ir tomar

dellas posse para a corôa da Hespanha.

Todas estas consecutivas viagens para o occidente formam uma série que

já constitue uma brilhante e indiscutivel documentação da prioridade dos

portuguezes na descoberta da America.

Mas ha ainda outros e valiosos documentos que melhor provam esta

asserção áquelles a quem ella possa parecer um pouco vaga.

Vejamos quaes são.

Em 1472, tendo vagado a capitania da Ilha Terceira por fallecimento de

Jacome de Bruges, a infanta d. Beatriz fez doação a João Vaz Côrte Real

da capitania dessa ilha, na parte de Angra, doando a parte da Praia a

Alvaro Martins.

Na carta de doação, encontram-se as seguintes palavras: «havendo eu, por

informação, estar ora vaga a capitania da ilha Terceira de Jesus

Christo... por se affirmar ser morto Jacome de Bruges... houve por bem

de a partir entre o dito João Vaz e o dito Alvaro Martins, mandei ao

dito João Vaz que escolhesse e elle escolheu a parte de Angra... E

considerando eu, de outra parte, os muitos e grandes serviços que o

dito João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu filho, tem

feito ao infante meu senhor e seu padre que Deus haja (é o infante d.

Fernando), e depois a mim e a elle, em galardão dos ditos serviços,

lhe fiz mercê da dita capitania da ilha Terceira.»

Annos após, em 1488, confirmando essa doação, o duque de Vizeu, filho de

d. Beatriz, alludiu aos grandes serviços de João Vaz Côrte Real a seus

paes, dizendo: «querendo lhe fazer graça e mercê pelos muitos serviços

que tem feito ao infante meu senhor e padre, que Deus haja, e a mim,

espero que ao deante fará.»

Quem era esse João Vaz Côrte Real, que assim era galardoado e que

serviços relevantes eram esses que havia prestado para receber tal

galardão?

Era um homem que, nesse mesmo anno de 1472, vinha de chegar da Terra

Nova ou Terra dos Bacalhaus, trazendo essa nova descoberta americana

para a corôa portugueza, vinte annos antes de Colombo aportar ás

Antilhas.

As provas desta descoberta de João Vaz não escasseiam e encontram-se:

1.º--Na carta relativa á America do Norte do Atlas de Fernão Vaz

Dourado, existente na Torre do Tombo, onde se lê, na parte referente á

Terra Nova, a seguinte designação: B. de João, Terra de João Vaz.

2.º--No mappa-mundi do Atlas de Jomard, feito em pergaminho por ordem de

Henrique II da França (1547-1559), onde a mesma designação para a Terra

Nova se encontra.

3.º--No mappa-mundi de Mercator, do mesmo Atlas de Jomard, onde vem por

extenso, designando a Terra Nova--Terra de Joam Vaz, Rio de Joam

Vaz.

4.º--Num manuscripto feito entre 1672 e 1711 nos Açores, onde melhor se

conheciam os descobrimentos de João Vaz, no qual é encontrada a seguinte

referencia á doação de d. Beatriz a João Vaz: «Estando as cousas nesta

forma, morreu o capitão Bruges, não deixando herdeiros. Chegaram então á

ilha dois fidalgos que vinham de descobrir a Terra do Bacalhau; estes

pediram a ilha a d. Beatriz, mulher do infante d. Fernando, por serviços

que lhe tinham feito, lhes fizesse mercê da capitania da ilha Terceira,

a qual ella lhe concedeu. A João Vaz Côrte Real, que era um destes

fidalgos, ficou a de Angra.»

5.º--Finalmente, nestes trechos das Saudades da Terra, de Gaspar

Fructuoso, nascido nos Açores em 1522: «João Vaz Côrte Real, primeiro

capitão da ilha Terceira da parte de Angra, por serviços que fez a

el-rei de Portugal nas guerras contra Castella, andando por capitão de

grossa armada; do qual dizem que foi tão grande aventureiro no mar que

neste Reino não tem segundo; e alguns querem dizer que descobriu a

mesma ilha Terceira e algumas partes do ponente e do Brazil, Cabo

Verde, onde foi o primeiro que houve vista da ilha do Fogo... e

vindo, como atrás tenho dito, João Vaz Côrte Real do descobrimento da

Terra dos Bacalhaus que, por mandado de el-rei foi fazer, lhe foi dada

a capitania de Angra, da Ilha Terceira e da ilha de S. Jorge... Dizem

alguns que Jacome de Bruges, primeiro capitão da ilha Terceira de Jesus

Christo, era flamengo... e, estando-a povoando veio ter ahi João Vaz

Côrte Real... e vinha do descobrimento da Terra Nova do Bacalhau e o

Jacome de Bruges o recolheu e lhe disse que lhe largaria metade da ilha,

a qual acceitou, e depois Jacome de Bruges se foi para sua terra e

desappareceu, de maneira que não tornou mais, e a infanta d. Beatriz,

por vaga, deu a ilha ao dito João Vaz Côrte Real.»

Não ha nada de mais positivo, de mais claro e comprovante, do que estes

cinco documentos, que venho de citar, no ultimo dos quaes se allude,

nada menos de trez vezes, ao descobrimento feito por João Vaz Côrte Real

da Terra Nova ou Terra do Bacalhau, na America do Norte, em 1472,

vinte annos antes de Colombo aportar ás Antilhas.

Mas, não foram sómente João Vaz e outros navegadores portuguezes, já

citados, os precursores de Colombo na descoberta da America.

João Vaz Côrte Real tinha tres filhos--Vasco Annes, Miguel e Gaspar

Côrte Real--os quaes, como o pae, foram ousados navegantes,

principalmente o ultimo, Gaspar, que ficou captivo dos indigenas numa

das suas viagens á America. A carta regia de 12 de maio de 1500, fazendo

doação a Gaspar Côrte Real de terras que vae descobrir (carta passada

poucos dias após a chegada de Cabral ao Brazil, chegada essa de que

ainda não havia noticia em Portugal) regista importantes trabalhos do

mesmo Gaspar, anteriores ás duas viagens suas de que ha noticia e

refere-se ás suas explorações maritimas feitas com muito trabalho,

despeza e perigos, realizadas por Gaspar á sua custa com seus navios e

homens. Diz ainda essa carta de doação que elle vae continuar a

descobrir ou reconhecer ilhas e terra firme das quaes lhe são

outorgadas as capitanias.

A expressão vae continuar a descobrir, empregada na carta regia,

significa que Gaspar já havia anteriormente feito descobertas.

Infelizmente, Gaspar Côrte Real, partindo de Lisboa em 1501 para uma

nova exploração na America, por lá ficou captivo dos naturaes, voltando

todavia ao reino os dois navios que o haviam acompanhado. Em 1502, seu

irmão Miguel sahiu com outros dois navios no intuito de o procurar e

remir, mas tambem não regressou. Vasco Annes quiz ainda ir em busca dos

dois irmãos, mas D. Manoel não lh'o consentiu.

Documentos posteriores ao desapparecimento dos dois irmãos, Gaspar e

Miguel Côrte Real, registam os seus feitos e os de seu pae João Vaz.

Taes são: a carta régia de 17 de setembro de 1506 e principalmente a 4

de maio de 1567, de doação a Manoel Côrte Real, filho de Vasco Annes e

neto de João Vaz, na qual se encontra a seguinte phrase: «seu pae e tios

mandaram descobrir a Terra Nova».

Mas, anteriormente, a carta régia de 4 de novembro de 1501, de d.

Manoel--o venturoso--filho do duque de Vizeu e de d. Beatriz, concedendo

a tença de 30.000 cruzados a Miguel Côrte Real por serviços feitos a d.

João II, que falleceu em 1495, fixa ás viagens maritimas dos Côrtes

Reaes uma data anterior a 1495.

Ora, a sete de junho de 1494, d. João II assignou com a Hespanha o

tratado de Tordesillas, abrangendo na demarcação portugueza não só a

costa do Brazil (aonde Pedro Alvares Cabral só aportou 6 annos depois)

como a terra dos Côrtes Reaes, isto é, a Terra Nova ou dos

Bacalhaus, o que prova que a descoberta dessa terra é anterior ainda a

1494. Por ultimo, Bartholomeu las Casas, amigo de Colombo e companheiro

do genovez numa das suas viagens ás Antilhas, na sua Historia das

Indias, apontando ingenua e sinceramente as indicações que Colombo teve

para ir ás Antilhas, indicações, aliás, confessadas pelo proprio

Colombo, cita, entre outras, as viagens dos Côrtes Reaes, empregando

estas expressões: «Os Côrte Reaes que foram em diversos tempos buscar

aquella terra.»

E isto prova ainda que o descobrimento da Terra Nova ou dos

Bacalhaus e, portanto, da America, é anterior á primeira viagem de

Colombo ás Antilhas, isto é, anterior a 1492 e mesmo anterior a 1484,

porque foi em 1484 que Colombo sahiu de Portugal, onde obteve taes

indicações e onde viu e conheceu Miguel e Gaspar Côrte Real, filhos de

João Vaz Côrte Real, e Affonso Sanches, que descobriu as Antilhas de

1473 a 1484. As expressões que Las Casas emprega, referindo-se ás

confissões feitas pelo seu amigo Colombo são as seguintes, que reproduzo

textualmente: «Disse, pois, Christovam Colombo entre outras cousas

que poz em seus livros por escripto... e accrescentou mais que tinha

visto dois filhos do capitão que descobriu a ilha Terceira, que se

chamavam Miguel e Gaspar Côrte Real, ir em diversos tempos a buscar

aquella terra.»

Aquella terra era a Terra Nova ou Terra dos Bacalhaus.

Ainda relatando Las Casas as indicações e informações que conduziram

Colombo ás Antilhas, cita a viagem de Vicente Dias e mais uma outra a

respeito da qual assim se exprime: «uma caravela ou navio que tinha

sahido de um porto de Hespanha (não me recordo ter ouvido indicar qual

fosse, ainda que creio que do reino de Portugal, se dizia)... veio...

parar a estas Antilhas e que esta caravela foi a primeira que as

descobriu. Que isto assim acontecesse alguns argumentos ha para

demonstral-o.»

E ajunta que o piloto dessa caravela, «que alguns escriptores hespanhóes

chamam Affonso Sanches e dão como natural de Cascaes, recolhido por

Colombo em sua residencia na ilha da Madeira, ao sentir perto a morte

lhe revelara o segredo e lhe dera por escripto os rumos e caminhos que

tinham levado e trazido por carta de marear e pelas alturas e paragem

aonde estava a ilha.»

Esta confissão de Las Casas, amigo e companheiro de viagem de Colombo, é

importantissima.

Diz ainda Las Casas que, quando foi com Colombo ao primeiro

descobrimento de Cuba, «os indios vizinhos daquella déram noticia de

terem chegado a esta ilha Hespanhola outros homens brancos e barbados,

como nós outros, antes que nós outros não muitos annos.»

Mas, não fica nisto.

Em 1501, Pietro Pasqualigo, referindo ao senado de Veneza a segunda

viagem de Gaspar Côrte Real á America, disse que Gaspar e seus

companheiros acreditavam que «a terra achada era firme e estava ligada

com a outra (Terra dos Papagaios ou Brazil) que o anno passado (1500)

foi descoberta por outras caravelas de S. Magestade, acreditando estar

ligada com as Antilhas.»

Humboldt confirma este conceito, quando diz «que antes mesmo das

viagens de Colombo a Honduras e Veragua, em outubro de 1501, já se sabia

em Portugal que as terras do norte eram cobertas de neve e gelo,

contiguas ás Antilhas e á terra dos Papagaios novamente achada.»

E admiradissimo, Humboldt accrescenta: «esta adivinhação que proclama,

apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, uma ligação

continental entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador é muito

surprehendente.»

Nem foi adivinhação nem cousa para surprehender; os élos

intermediarios, estabelecendo a ligação continental entre o Brazil e as

terras geladas do Lavrador, existiam e eram conhecidos dos portuguezes

pelas viagens e descobrimentos que haviam feito na sua pertinancia de

procurar o caminho para a India, navegando constantemente para o

occidente e para o sul, desde 1431. Ora, todos os documentos que citamos

demonstram de um modo cabal e decisivo que os descobridores da Terra

Nova e portanto da America do Norte foram João Vaz Côrte Real e seus

filhos e que este descobrimento foi feito muitos annos antes que Colombo

aportasse ás Antilhas.

Mas o estudo dos documentos portuguezes e castelhanos que o sr. Faustino

da Fonseca exhumou da Torre do Tombo, dos archivos açorianos e

hespanhóes e a que deu publicidade no seu luminoso livro, referentes ás

viagens maritimas dos seus antepassados, provam de um modo

incontestavel que desde 1435, ou antes havia em Portugal conhecimento

perfeito de terras americanas (o Brazil ou terra dos Papagaios com a sua

posição determinada no mappa de Bianco e a sua distancia de 1500 milhas

entre as ilhas de Cabo Verde e o Cabo de S. Roque precisamente marcada

no mesmo mappa) e tambem que, desde 1475, as viagens dos portuguezes

para o occidente já se realizavam, não tanto no empenho de procurar por

ahi o caminho para chegar á India, como no de «colonizar, de aproveitar

as terras americanas e nellas commerciar, como se commerciava na costa

africana e nas ilhas dos seus mares.»

Era pelo sul da costa da Africa que os navios da corôa portugueza

procuravam o caminho do oriente e as viagens á Guiné eram então

privativas dos navios reaes, não podendo os particulares emprehendel-as.

Já para o occidente a navegação era francamente aberta ás naus dos

particulares, dando-lhes ensejo ás descobertas e explorações

commerciaes.

A carta de doação a Fernão Dulmo, em 1486 e a confirmação do seu

contracto com João Affonso Estreito, feita pela carta regia de D. João

I, vem demonstrar de um modo cabal, como muito bem diz o sr. Faustino da

Fonseca, «a existencia de trabalhos de mór importancia relativos á

America em que se não trata já da descoberta, mas da posse effectiva,

da conquista, da occupação.»

Nessa carta de doação diz o rei que Fernão Dulmo, capitão da ilha

Terceira, «lhe queria dar achada ao occidente uma grande ilha, ou ilhas,

ou terra firme por costa», ilha essa que se presumia ser a das Sete

Cidades, e isto prova «que não se julgava ser a India, como pensava

Colombo, nem Catay, nem Cypango, terras do oriente, que o genovez

procurava e que até morrer julgou ter descoberto.»

Era uma outra terra a que se dava o nome de Sete Cidades por causa de

uma velha lenda. Effectivamente, o que Fernão Dulmo queria dar ao rei

achada era, não uma ilha, mas terra firme, isto é, um continente.

Dava-lhe a carta regia poder e autoridade para tomar posse real e autual

de todas ilhas e terra firme que descobrisse, «podendo enforcar, matar e

applicar toda outra pena criminal» e accrescentava que, «se as ilhas e

terra firme não quizessem sujeitar-se, elle rei mandaria com Fernão

Dulmo gentes e armadas de navios para as sujeitar.»

Tão amplas eram as autorizações e poderes conferidos a Fernão Dulmo,

contrastando com as restricções feitas nas doações anteriores, nas quaes

a corôa reservava para si «a alçada de morte ou talhamento de membro,»

que taes concessões levam a crer, com relativa segurança, que na terra,

que Dulmo queria dar achada ao seu rei, já elle havia estado, havendo

encontrado resistencia á occupação por parte da população indigena.

Nessa terra do occidente, ou America, que Dulmo queria dar achada á

corôa portugueza, já elle estivera, portanto, em 1486, ou antes. Que

tinha havido luctas na America entre os donatarios e os indigenas

prova-o ainda a carta de doação a Vasco Annes Côrte Real na qual se

refere que Miguel Côrte Real (irmão de Vasco Annes), ao partir, em busca

de seu irmão Gaspar, que ficara captivo das tribus americanas na terra

onde aportara, ia «buscar, achar e remir o dito seu irmão.» Que Fernão

Dulmo estivera na America em 1486, ou antes, prova-o ainda o contracto

por elle feito com João Affonso Estreito pelo qual este fazia todas as

despesas da expedição, e ainda o prazo marcado para irem e voltarem,

ficando Dulmo com o commando da frota durante os primeiros 40 dias e

assumindo-o João Affonso após esse tempo, o que significa que Fernão

Dulmo estava seguro de attingir a terra achada em 40 dias e que João

Affonso não receiava empregar o seu capital numa empresa temeraria,

seguindo com o seu socio para o desconhecido.

Estabelecia o contracto que as caravelas seriam abastecidas para 6 mezes

ou 180 dias approximadamente. E dahi se deduz que, sendo precisos 80

dias para a viagem de ida e de volta, ficavam 100 dias para a

permanencia na America, para a exploração, marcação e divisão das

capitanias de que eram donatarios os dois associados e, finalmente, para

a sujeição dos indigenas.

A confiança de João Affonso Estreito na expedição era tal que, além de

todas as despesas com o abastecimento das caravelas e sua equipagem,

ainda deu 6.000 reaes brancos a Fernão Dulmo.

Ora, o conhecimento que temos de Colombo ter gasto, posteriormente, 48

dias na sua primeira viagem de regresso das Antilhas, com atrasos

devidos a temporaes e a uma arribada á ilha de Santa Maria, e ainda o

facto de Pedro Alvares Cabral ter gasto 43 dias na sua viagem ao Brazil,

apesar da calmaria que encontrou, e ainda a circumstancia de ter gasto

Colombo, exactamente, 40 dias na sua viagem de Cadiz á Dominica, prova

que 40 dias era o tempo, em média, preciso para ir da Europa á America e

que, portanto, o facto de tal prazo ter sido fixado no contracto de

Dulmo com João Affonso Estreito mostra que Dulmo tinha perfeito

conhecimento do tempo que era preciso para chegar á terra achada por

elle em 1486, ou antes, e que essa terra era positivamente a America.

Desta expedição de Dulmo fazia parte um allemão chamado Martim Behaim,

que o Dr. Monetario, ou Montaro, na sua carta a d. João II, chama

Martinho Bohemio. Ora, este allemão, que, de 1484 a 1486, acompanhou

Diogo Cão, como cosmographo, rezidindo nos Açores de 1486 até 1490,

seguia a opinião dos antigos de que o caminho para a India era pelo

occidente. Foi, pois, nesta viagem de Dulmo que Behaim obteve o

conhecimento da costa Americana, o qual registou depois no globo que

construiu ao regressar á Europa e que tambem representou no mappa, que

existia no erario do rei de Portugal e ao qual allude Pigaffeta. Nesse

globo terraqueo de Behaim foram representados a peninsula da Florida, o

golfo do Mexico e as Antilhas, embora sem estas denominações. Estes

trabalhos geographicos de Behaim confirmam que Dulmo estivera na America

do Norte e estabelecem de um modo preciso que as terras achadas por elle

eram a Florida, as Antilhas e o golfo do Mexico.

Em 1499 fez d. Manuel doação a João Fernandes Lavrador da capitania da

ilha ou ilhas que elle descobrir ou achar novamente. Não tendo meios

para custear a expedição, João Fernandes Lavrador associou-se a

Francisco Fernandes e João Gonçalves, escudeiros, naturaes dos Açores, e

com tres negociantes inglezes de Bristol, os quaes, provavelmente,

forneceram o capital preciso, e com elles obteve do rei Henrique VII da

Inglaterra nova carta de doação das terras que descobrisse.

A expedição seguiu a sua rota e conseguiu descobrir a terra avistada em

1452 por Diogo de Teive e seu filho João de Teive, á qual foi dada o

nome de Terra do Lavrador, que era o do seu novo descobridor e

donatario.

Ora, João Fernandes Lavrador, quando organizou a expedição, já sabia da

existencia da terra que ia achar porque nella estivera com Pedro de

Barcellos de janeiro a abril de 1492, e o fim de sua expedição com os

negociantes de Bristol não era outro senão tomar posse da terra

anteriormente achada.

Portanto, ainda alguns mezes antes de Colombo, que só a 8 de agosto de

1492 partiu para as Antilhas, dois navegantes portuguezes, João

Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos haviam estado na America.

Assim, synthetizando esta série de provas de ida e estada de navegantes

portuguezes na America, anteriormente a Colombo, encontra-se o seguinte

quadro chronologico registador dessas viagens e descobrimentos:

1436--Regista André Bianco nas suas cartas e no seu portulano as

descobertas do Brazil ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaços.

1447--Um navio parte do Porto e vae á Groelandia onde os marinheiros

desembarcam.

1448--Regista André Bianco nas suas cartas a existencia do Brazil á

distancia precisa de 1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do Cabo

Verde e o Cabo de S. Roque.

1452--Diogo de Teive e seu filho João descobrem a ilha das Flores e

chegam á latitude da terra do Lavrador.

1472--Descobre João Vaz Corte Real a Terra de João Vaz, ou Terra Nova,

ou Terra dos Bacalhaus, na America do Norte.

1473-1484--Affonso Sanches descobre as Antilhas.

1487--Viagem á America de Fernão Dulmo e João Affonso Estreito,

acompanhados de Martim Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo

que construiu e no mappa do erario real portuguez, a existencia da

peninsula da Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.

1492--Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 de abril, da terra do

Lavrador, por João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.

Todas estas viagens, todos estes descobrimentos são anteriores á

primeira viagem de Colombo, realizada a 8 de Agosto de 1492 e

estabelecem a prioridade dos navegantes portuguezes no descobrimento da

America.

A carta do dr. Jeronymo Montaro, ou Monetario, de Nuremberg, a d. João

II, em 1493, quando ainda ignorava a primeira viagem de Colombo ás

Antilhas, aconselhando o monarcha lusitano a que demandasse a India pelo

caminho do occidente, confirma o conhecimento que tinham os portuguezes

das terras americanas.

Ignorando, como Colombo (que até morrer suppoz sempre que chegando ás

Antilhas havia chegado á India) que as terras do occidente constituiam

um novo continente, formando a parte quarta do universo até então

conhecido, o dr. Montaro elogia na sua carta o saber dos mareantes

portuguezes, usando das seguintes expressões: «sabios que navegaram a

largura do mar, que tomaram o caminho dos Açores por quadrantes

chilindricos e astrolabio e outros engenhos, onde nem frio nem calma os

anojara e mais navegaram a praia oriental sob uma temperança

(temperatura) muito temperada do ar e do mar.»

Nestas expressões--navegaram a largura do mar, tomando o caminho dos

Açores--(que era o ponto de partida dos navegantes que iam ao novo

continente) põe Montaro em evidencia as viagens dos portuguezes á

America, muito embora ignorasse que essa terra era o Novo Mundo.

Empregou a expressão praia oriental suppondo sempre que era a India

cujo caminho pelo oriente já havia sido descoberto, cinco annos antes,

por Bartholomeu Dias, quando em 1487 dobrara o cabo da Boa Esperança,

indo em busca do reino do Prestes João.

Não admira que o dr. Montaro estivesse nessa ignorancia quando Colombo

permanecia nella e insistia em acreditar que a America era a Asia e que,

atravez della, havia um caminho por agua, que abreviava a viagem pelo

occidente para a India.

Esse caminho, que o audaz e astuto genovez embalde procurou até morrer,

existia de facto, mas, em vez de abreviar, alongava a viagem para a

India. Esse caminho, que elle nunca conseguiu achar, descobriu-o ainda

um portuguez, Fernão de Magalhães, quando, a soldo da Hespanha, mas com

marinheiros portuguezes e com o cosmographo portuguez Ruy Faleiro,

transpoz o estreito a que ligou o seu nome, no extremo sul da America, e

fez a primeira viagem de circumnavegação, dando a volta ao mundo e

confirmando a doutrina da espheroicidade da terra.

De tudo o que fica exposto resulta, meus senhores, de um modo

indiscutivel, com uma veracidade esmagadora, que não foi Colombo quem

teve a prioridade na descoberta da America e que essa grande gloria cabe

de direito e de facto aos destemidos e desinteressados navegantes

portuguezes do seculo XV, que á America foram e que na America estiveram

muito antes do genovez.

Qual delles, qual desses ousados lusos, precursores de Colombo, foi o

primeiro a pôr o pé no solo americano?

Evidentemente, aquelle que, em 1435, ou antes, segundo o registo de

André Bianco, descobriu o Brazil. Desse, infelizmente, a historia não

guardou o nome. Mas, daquelles que foram á parte norte da America e que

lá estiveram, dando-lhe o seu nome, ha noticia; e o que firmou o direito

á prioridade na descoberta foi evidentemente João Vaz Corte Real que, em

1472, vinte annos antes de Colombo, descobriu a Terra Nova, que os

mappas, portulanos e manuscriptos da época designaram por essa

denominação, pela de Terra dos Bacalhaus, pela de Terra de João Vaz

e ainda de Terra dos Corte Reaes, em homenagem ao grande navegante

luso e a seus filhos, que á mesma terra foram, no mesmo ardor empenhados

de engrandecerem a sua patria.

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