Capítulo 2: A luz em meio a dor.
Mei Lian
O rangido suave da madeira da carruagem parecia acompanhar o peso que se instalava em meu peito. Tudo havia acontecido rápido demais, fazendo com que vários sentimentos se misturassem dentro de mim. A situação que eu me encontrava ainda era tão surreal, a perda dos meus familiares e o encontro com o avô que nunca tinha visto na vida. Havia ali uma história que eu sequer conhecia.
Enquanto divagava sentada naquele banco macio decorado com cetim roxo, apertei as mãos sobre o colo, observando o homem à minha frente.
Sua postura era imponente mesmo sentado. As vestes eram impecáveis, os bordados dourados refletiam a pouca luz que entrava pelas cortinas de seda. Seu rosto, marcado pelo tempo, carregava uma rigidez que me intimidava… até que ele quebrou.
Um som baixo escapou de seus lábios. No início, pensei ter imaginado. Mas então vi seus ombros tremerem. E, de repente, aquele homem que parecia inabalável… começou a chorar. Não era um choro contido e sim profundo, doloroso.
Fiquei imóvel, sem saber o que fazer.
— Eu… — sua voz falhou — eu a perdi.
A forma como ele disse aquilo fez meu coração apertar.
— Minha filha… — ele levou a mão ao rosto, tentando conter as lágrimas, mas sem sucesso — minha teimosa, impulsiva… minha criança…
Engoli em seco, pois nunca tinha ouvido ninguém falar da minha mãe assim. Com tanto amor e tanta dor ao mesmo tempo.
— Brigamos — continuou ele, agora com a voz embargada. — No dia do casamento dela, antes dela subir na liteira e ir para cerimônia, eu disse coisas… coisas que um pai jamais deveria dizer.
Ele apertou os olhos com força.
— Ela fugiu durante o trajeto da liteira até a casa do noivo, deixando o casamento arranjado para trás E eu… — sua voz se tornou quase um sussurro — nunca fui atrás dela, não sei se por vergonha, raiva ou orgulho.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase sufocante,
Eu senti meus dedos tremerem.
— Minha mãe, ela nunca falou de você. Só nos disse sobre sua existência quando os soldados inimigos invadiram o vilarejo e precisamos fugir. Ela disse que você nos ajudaria — murmurei, com cuidado.
Ele abriu os olhos lentamente e me encarou. Havia algo ali naquele olhar, talvez culpa, remorso ou tristeza, quem sabe uma mistura de todos esses sentimentos.
— Pelo menos ela se lembrou de mim na hora que mais precisava. Isso tudo é culpa minha, eu não a procurei para pedir desculpas — respondeu. — Por orgulho… por estupidez… por achar que ela voltaria.
Uma lágrima escapou novamente.
— Mas o tempo… — ele soltou uma risada amarga — o tempo não espera arrependimentos.
Meu peito doeu e pela primeira vez, senti que aquele homem não era apenas o Duque e sim alguém que também havia perdido tudo. Sem pensar muito, aproximei minha mão da dele. Hesitei por um instante, mas então toquei seus dedos.
Ele se calou e olhou para nossas mãos. E lentamente segurou a minha.
— Agora — disse com a voz baixa — só me resta você como lembrança dela.
Eu não soube o que responder, mas não soltei sua mão. Quando a carruagem finalmente parou, o som do mundo voltou aos poucos. A cortina da frente foi aberta, a escada para descer foi posta próxima a carruagem e então fui a primeira a sair.
Assim que desci, eu encarei a mansão na minha frente, ela era grandiosa e deslumbrante, foi impossível não prender a respiração. Meu avô desceu logo após, já recomposto, como se aquele momento na carruagem tivesse sido guardado em algum lugar invisível.
— Bem-vinda ao seu lar — disse ele, com firmeza — Venha comigo!
O segui e subimos uma escadaria, assim que paramos no portão de entrada da mansão havia uma placa pendurada com o sobrenome e o título do vovô. Duque Pei. Havia três servos que pareciam soldados, que controlavam a entrada das pessoas, fizeram uma referência de respeito quando passamos.
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Já dentro da mansão, não deixei de reparar nos telhados curvos adornados com detalhes finos, lanternas pendendo sob as beiradas. O jardim era amplo, com caminhos de pedra perfeitamente alinhados e árvores podadas com precisão quase artística.
Os servos se alinharam dos dois lados da passagem que levava a uma passarela para entrar na casa, em silêncio, cabeças baixas, esperando alguma ordem. Era um outro mundo.
De repente, uma mulher surgiu vindo na nossa direção, sua presença era elegante, mas seus olhos carregavam uma inquietação evidente.
— Meu senhor… — ela começou, mas parou ao me ver.
Meu avô respirou fundo. E então disse:
— Minha senhora, não tenho boas notícias a respeito da nossa filha mais velha, não sei como falar. — murmurou próximo a ela, que arregalou os olhos preocupada.
— O que houve com a nossa Xiu Ying? Não tenho um bom pressentimento sobre isso. E quem é essa garota que veio contigo? Ela não me parece estranha.
— Ela é nossa neta, filha da Xiu Ying.
Ela me olhou, por um longo instante, como se estivesse tentando encontrar algo de familiar em mim. Depois olhou ao redor como se procurasse alguém e de repente em questão de minutos levou a mão à boca. Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Se a nossa neta está aqui sozinha, nesse estado deplorável, toda machucada. E você não tem uma notícia boa para me dar a respeito de Xiu Ying. Então quer dizer que nossa filha morreu? Foi isso? — sussurrou, com a voz quebrada.
Meu avô assentiu e ela chorou de maneira desesperada, sendo amparada por uma de suas servas pessoais.
— Vamos para o escritório, lá conversamos melhor. — Sugeriu o pai da minha mãe e então entramos na mansão.
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O escritório do duque equilibrava autoridade, tradição e refinamento. Localizado na ala mais reservada da residência, ficava ligeiramente elevado em relação aos demais cômodos, simbolizando seu status.
No centro da sala, repousava uma grande mesa de madeira escura e sobre ela estavam organizados pincéis de caligrafia em suportes, uma pedra de tinta, pergaminhos e selos de jade usados em documentos oficiais.
Vovó sentou-se na cadeira por alguns minutos e meu avô contou tudo o que tinha acontecido. Ao absorver o relato dele, ela chorou desesperada e depois de alguns minutos limpou as lágrimas e se aproximou de mim e me abraçou.
— Minha criança… — murmurou — você sofreu tanto. Nós vamos te proteger.
Fiquei rígida no início, mas aos poucos relaxei e retribuí o abraço.