Capítulo 3: Surpresa Inesperada Sob o Céu Escarlate! · Capítulo 3 de 3
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Capítulo 3: Surpresa Inesperada

Xu Hong Long

O pátio da academia de artes estava movimentado como raramente se via fora dos festivais, do alto da varanda principal, apoiei as mãos no corrimão de madeira entalhada, observando o fluxo elegante e, por vezes, caótico dos estudantes. Filhos de nobres, herdeiros de famílias influentes, artistas por obrigação ou vocação, todos misturados sob o mesmo céu dourado do fim de tarde.

O som dos instrumentos se entrelaçavam no ar numa perfeita sincronia que só quem entendia de música percebia, então guiado por aquela sinfonia, eu caminhei pelo corredor e desci a escadaria feita de madeira escura, chegando logo no piso inferior.

Entrei num grande salão, onde estavam reunidos vários alunos, à minha esquerda, havia uma moça nobre tocando guqin, as cordas vibravam com delicadeza. Mais adiante, o ritmo preciso de tambores marcava o compasso de um grupo de dançarinos, seus trajes leves girando em perfeita harmonia. Entre eles, alguns cortesãos, reconhecíveis não apenas pela postura impecável, mas pela forma como ocupavam o espaço, como se cada gesto fosse calculado para ser observado.

A arte, aqui, nunca era apenas arte. Tudo era uma mistura de política, poder e sobrevivência.

— Diretor, diretor.

A voz baixa me trouxe de volta. Não precisei me virar para reconhecer meu assessor, ele sempre surgia com uma fofoca nova, gostava de falar dos outros.

— Espero que tenha algo útil a dizer — respondi, ainda observando uma jovem que executava uma sequência de arpejos na Pipa, particularmente difícil e incomum.

Ele se aproximou, parando a uma distância respeitosa e olhando para os lados para ver se não tinha nenhum aluno próximo.

— A cidade já tem um novo assunto — disse, num tom que denunciava satisfação. — A neta do duque chegou na cidade, ela foi encontrada desacordada nas margens do rio por um agricultor, que a trouxe em sua carroça para cá. Os mais velhos dizem que a mãe dela é a filha do duque que fugiu no dia do casamento.

Isso, por si só, não seria suficiente para despertar o meu interesse. Virei-me lentamente.

— E?

— Sobreviveu a um ataque na fronteira. Soldados inimigos. Dizem que todo o vilarejo foi massacrado, que ela conseguiu com muita sorte fugir.

Silêncio, por um breve instante, o som da academia pareceu se afastar, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível ao meu redor.

— As pessoas falam muitas coisas — respondi, por fim.

— Dizem também — continuou ele, inclinando-se ligeiramente — que ela não saiu ilesa, perdeu todos os familiares. E que o duque está… mais interessado em protegê-la do que em exibi-la.

Isso, sim, era interessante.

— Coitada, espero que se recupere logo. Agora que já me contou a fofoca, pode voltar para o escritório e terminar de verificar a matrícula dos novos estudantes. — resolvi encerrar a conversa, senão ficaria até amanhã ouvindo.

— Sim, senhor.

Suspirei e me virei para voltar pelo corredor, assim que alcancei a escada, subi vagarosamente os degraus. Chegando no topo olhei pela janela da varanda e o sol já começava a se inclinar, tingindo os telhados com tons de cobre.

O movimento da escola de artes diminuía gradualmente e o silêncio aos poucos tomava conta do lugar.

Deixei o edifício quando a luz da lua refletiu na lagoa, que ficava próxima a passarela que levava a porta de frente do pavilhão de artes.

Os criados já preparavam as lanternas e o aroma distante de incenso começava a se espalhar pelo ar da noite que se iniciava.

*******

Caminhei pelo portão principal com passos medidos, ignorando as reverências automáticas dos guardas.

Foi então que a vi, a carruagem imponente, escura, marcada com o selo que não precisava ser anunciado, todos que o viam sabiam que ele pertencia ao primeiro ministro. Parei por um instante ao lado da carruagem e a cortina foi levemente afastada por dentro, como se já soubessem exatamente quando eu chegaria.

Aproximei-me, sentindo o peso invisível que sempre acompanhava aquela presença.

— Pai.

— Entre, precisamos conversar — gesticulou sério e o cocheiro me fez uma reverência e arrumou um banquinho para eu subir na carruagem.

Sem alternativa, apenas obedeci e entrei.

******

Lá estava ele, me encarando com um olhar sério e intimidador. Seus olhos estavam atentos, analisavam-me com a mesma precisão de sempre, como se eu ainda fosse uma peça em um tabuleiro que ele próprio desenhou.

— Você demorou — disse, sem rodeios.

Sentei-me à sua frente, mantendo a postura ereta.

— A academia exige atenção.

— Tudo exige atenção — respondeu ele. — Alguns apenas fingem não perceber.

Fiquei em silêncio tentando adivinhar o que meu pai queria comigo, pois raramente ele aparecia no meu trabalho ou vinha me buscar. Alguma coisa tinha acontecido ou ele estava planejando algo que me envolvia.

— Vamos ser diretos, pai. O que você quer de mim? — perguntei sério enquanto o som das carruagens ao redor podiam ser ouvidas.

— Você ficou sabendo sobre a neta do duque? O que aconteceu com ela?

— Sim, eu ouvi algo a respeito disso.

— Você irá se casar com ela, já falei com vossa majestade.

— Como assim? Eu já sou casado com a terceira filha do vice-ministro da agricultura. A tornei minha concubina, porque você pediu. E agora você quer me arrumar outra mulher. Por que eu não posso ser consultado antes de você tomar uma decisão importante que diz respeito a mim? — protestei chateado.

— Eu não te consultei antes sobre esse assunto porque não preciso fazer isso. Por acaso você não está feliz com a concubina que te arrumei? Ela não é bonita e atenciosa? — retrucou arrogante.

— Ela me sufoca, é ciumenta, maldosa e ardilosa. Você está muito bem lembrado do que ela fez com a outra concubina que eu arrumei.

— Bem… todos nós temos nossos defeitos, é normal uma mulher da posição dela ser ciumenta, isso acontece. — tentou justificar.

— A concubina Fen quase matou a concubina Lin, durante uma briga. Para salvar a Lin Lin eu tive que a devolver à família. O pai dela, o diretor da biblioteca imperial até hoje me olha atravessado quando nos vemos, por causa do divórcio.

— A neta do duque será sua esposa oficial. Sendo assim, ela terá autoridade sobre a concubina Fen.

— O duque já sabe desse casamento arranjado? Será que ele vai concordar? — questionei sério, fazendo meu pai franzir a testa.

— Ele ainda não sabe e acho muito difícil que recuse esse casamento diante do problema que surgiu. — respondeu num suspiro me encarando.

— O que o senhor quer dizer com isso? Me diga qual é o real motivo desse casamento apressado. O que está acontecendo? — perguntei curioso.

— Eu tenho uma dívida de gratidão com a mãe dessa garota. Se a mãe dela não tivesse fugido do nosso casamento naquela época, eu não teria casado com a mulher que amo. Só estou ajudando essa moça, por gratidão. O imperador prometeu que vai me dar tempo para ajeitar as coisas, antes que o problema com o pai da neta do duque venha a público. Vamos amanhã cedo na mansão do duque.

— Que problema?

— Não posso falar, é melhor que você saiba na hora certa.

— Odeio quando você faz todo esse mistério… — suspirei e cruzei os braços.

Assim que encerramos a conversa, a carruagem parou e descemos, fomos recepcionados pelos servos de sempre.

Entrei na mansão perdido em meus pensamentos. Antes de seguir para o pátio onde eu morava, meu pai pediu sigilo sobre o casamento. Apenas concordei e caminhei lentamente pelo corredor lateral que levava aos fundos da mansão.

********

No momento que entrei no meu escritório, pude sentir um cheiro delicioso de comida, dei mais alguns passos e a enxerguei em cima da mesinha que eu usava apenas para isso, pois a mesa maior eu utilizava para escrever, ler e estudar.

— Marido, trouxe a sua janta, espero que goste — murmurou uma voz feminina melodiosa atrás de mim.

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