Capítulo 4: Conflito ou solução?
Mei Lian
No dia seguinte, acordei cedo, e os preparativos para o funeral de minha mãe e irmã já tinham sido preparados durante a madrugada pelos servos. Como não tínhamos os corpos delas para velar, colocamos as placas memoriais no salão dos ancestrais, onde foi preparado a cerimônia fúnebre. Tecidos brancos foram pendurados. Incensos queimavam sem parar. Os servos caminhavam apressados ainda organizando alguns detalhes do funeral.
Infelizmente o vovô se recusou a colocar a placa memorial do papai lá, alegando que tinha seus motivos e como eu não queria brigar, aceitei.
A mansão, antes silenciosa, tornou-se um palco de movimento constante. Eu observava tudo como alguém que ainda não pertencia àquele lugar. Mas que… talvez estivesse começando a entender seu papel ali.
No meio da manhã, os nobres começaram a chegar para o funeral, as carruagens luxuosas preencheram a entrada. Roupas formais, expressões contidas, olhares curiosos. Todos vieram prestar respeito.
E, talvez… observar a nova peça daquele tabuleiro. Vi meu primo pela segunda vez naquele dia. Ele se aproximou com passos firmes, acompanhado de uma mulher de expressão rígida.
— Então… você é a filha da minha irmã mais velha? — perguntou a mulher, me analisando com atenção.
Assenti levemente.
Ela desviou o olhar por um instante, claramente abalada, porém suspirou e me abraçou forte.
— Tudo vai ficar bem, minha querida, estou aqui! Sou sua tia Su Lin e esse é seu primo, vocês já devem se conhecer.
— Muito obrigada pela força, tia. E sim, eu e o primo já nos conhecemos.
— Vai dar tudo certo, prima… qualquer coisa que precisar é só me pedir. — murmurou próximo do meu ouvido e acariciou minha mão com delicadeza, me fazendo corar de maneira involuntária.
Ao notar meu rubor, ele sorriu de canto e se afastou de mim junto com a mãe dele e foi em direção a minha avó que estava ajoelhada rezando próxima as placas memoriais.
*********
Mais tarde, outra presença chamou a atenção de todos, era o primeiro-ministro, que tinha chegado e silenciado até mesmo os pequenos sussurros. Ao seu lado, um homem mais jovem, de postura refinada e olhar observador, pelo que ouvi as servas murmurarem, se tratava do seu terceiro filho que era diretor imperial de artes.
Os dois caminharam diretamente até o meu avô, e mesmo de longe, eu percebi que a atmosfera mudou quando eles começaram a conversar. Meu primo que se encontrava próximo de imediato ficou carrancudo, como se estivesse indignado com alguma coisa. A minha desconfiança de que havia algo de errado só aumentou quando eles rapidamente saíram do salão fúnebre e foram em direção ao corredor que levava para dentro da residência.
Depois de algum tempo, um servo se aproximou de mim, inclinando-se levemente.
— Senhorita — disse ele — o duque solicita sua presença no escritório.
Meu coração acelerou e olhei em direção ao interior da mansão. E, sem entender exatamente o porquê, senti algo estranho, um peso no peito, como se algo de ruim fosse acontecer.
Segui o servo pelos corredores silenciosos e assim que me aproximei da porta entreaberta. Ouvi vozes, baixas, tensas, que me fizeram parar e me inclinar um pouco mais em direção a porta, foi quando uma única frase escapou de dentro do escritório:
— …ela não sabe de nada, duque. Ainda.
Meu corpo gelou e naquele instante, eu tive a certeza que havia algo sobre mim, que estavam escondendo. E que provavelmente mudaria a minha vida no momento que eu entrasse lá e soubesse.
*********
A porta se fechou atrás de mim com um som baixo e já dentro do escritório senti que o ar estava pesado, sufocante.
Assim que dei alguns passos, enxerguei o meu avô, que estava de pé próximo à mesa, sua feição estava bem séria. Enquanto o primeiro ministro permanecia sentado, ereto, como se aquele fosse apenas mais um encontro político e não algo que envolvesse diretamente a minha vida.
Olhando para o lado, avistei o meu primo e o filho do ministro, que estavam nos fundos da sala encostados na parede observando o que acontecia. Senti o olhar dos dois sobre mim, me analisando.
Então respirei fundo e me sentei próxima ao meu avô e ao primeiro ministro.
— O senhor me chamou — falei, tentando manter a voz firme, apesar do desconforto crescente no peito.
Meu avô demorou um instante para responder. Quando falou, sua voz já não carregava mais a fragilidade da carruagem, mas sim a imponência do duque.
— Mei Lian… o que vamos lhe dizer agora… exige que você mantenha a calma.
Nesse instante, o meu coração apertou, eu sabia que nunca era um bom sinal quando começavam a falar assim.
— Seu pai — ele continuou com cautela — está sendo investigado.
O meu mundo pareceu parar neste momento.
— Investigado? — repeti num sussurro.
— Ele era diretor de fiscalização do comércio na fronteira — acrescentou o primeiro-ministro, finalmente intervindo. Sua voz era fria, precisa. — E houve um desaparecimento significativo de armas e suprimentos militares.
Senti o sangue gelar na hora.
— Isso é impossível, meu pai jamais faria uma coisa dessas. — respondi de maneira imediata, quase instintiva.
— Ainda não há uma condenação — disse meu avô rapidamente — mas a suspeita recai sobre ele.
Levantei-me de súbito.
— Suspeita baseada em quê?! Em conveniência?! Em política?!
Minha voz ecoou pelo escritório, mas eu não me importei.
— Calma, Mei Lian, é só uma suspeita. Engraçado que nem eu fiquei sabendo disso. Ninguém me reportou sobre essa investigação e olha que sou vice-ministro da justiça — interveio meu primo se aproximando de maneira protetora.
— Claro que isso ainda não lhe chegou aos ouvidos, senhor Yang, pois quem está conduzindo essa investigação são os censores e investigadores ligados diretamente a sua majestade — replicou com um tom arrogante na voz.
— Ele dedicou a vida inteira ao império! — continuei, sentindo a raiva crescer por dentro — Ele mal dormia, mal comia, tudo para cumprir seu dever!
— Ninguém disse que ele é culpado, minha neta — interveio meu avô.
— Mas estão desconfiando dele, como se ele fosse o culpado, isso é injusto! — Minhas mãos tremiam e meu corpo também.
O silêncio que se seguiu foi tenso, pesado, meu avô fechou os olhos por um instante e suspirou cansado parecendo tentar puxar forças de algum lugar.
— É exatamente por isso… que precisamos protegê-la.
Aquela frase me fez parar.
— Proteger? — apenas repeti desconfiada.
Troquei um olhar com o primeiro-ministro e foi então que ele disse:
— Você irá se casar com o meu terceiro filho.
Fiquei em silêncio, a sala inteira o fez, e meu primo estreitou os olhos incomodado. Resolvi manter a calma, pois não aguentava mais tanta coisa vindo à tona, minha mente pareceu que simplesmente parou.
— Como assim? — questionei atordoada.
— Nossas famílias tinham um acordo — continuou ele, como se estivesse discutindo negócios — um casamento que deveria ter sido realizado entre minha casa e a de sua mãe.
Senti um aperto estranho no peito.
— Mas sua mãe fugiu — completou ele.
Meu olhar escureceu.
— E agora — ele continuou — essa união será restaurada através de você.
Soltei uma risada curta e sem humor algum.
— Então é isso? — encarei meu avô — Meu pai é acusado… minha mãe e irmã morreram… e a solução é me casar com um estranho?
— Não é apenas isso — disse meu avô, firme — Este casamento a colocará sob proteção direta de uma das famílias mais poderosas do império.
— Até que seu pai seja inocentado — acrescentou o primeiro-ministro.
Aquelas palavras ficaram ecoando na minha mente: “Inocentado”.
Então eles também acreditavam que ele era inocente. Isso me fez respirar de novo, lentamente fechei os olhos por um instante, organizando meus pensamentos e tentando controlar a tempestade dentro de mim.
Quando os abri novamente, eu já não era apenas a filha indignada. Eu precisava ser… estratégica.
— Se eu aceitar — comecei, devagar — esse casamento…
Todos na sala me observavam com atenção.
— Ele será apenas de fachada.
O silêncio foi imediato, mas vi um sorriso ligeiro passar pelos lábios de meu primo, como se tivesse gostado do que eu disse.
— Não haverá obrigações conjugais — continuei, firme — nem interferência na minha liberdade.
Meu olhar foi direto ao primeiro-ministro e depois para o seu filho.
— E, assim que meu pai for inocentado esse acordo será encerrado.
Meu avô me observava com surpresa contida. O primeiro-ministro, por outro lado, parecia intrigado.
— Você negocia bem — disse ele, após alguns segundos.
— Eu acho que puxei a família da minha mãe — respondi, sem hesitar.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios.
— Muito bem — murmurou ele — Aceito suas condições.
Olhei imediatamente para meu avô, que hesitou, mas então… assentiu.
— Eu também concordo.
Soltei o ar que nem percebi que estava prendendo.
— Então temos um acordo.
Mas, no fundo… Aquilo não parecia um acordo, mas o início de algo muito maior.
Meu futuro marido se aproximou, porém não chegou muito próximo a mim, pois meu primo ficou na sua frente.
— É melhor que você cumpra o acordo, se pensar em não respeitá-la uma única vez, eu vou fazer da sua vida um inferno. Está ouvindo, Hong Long? — ameaçou o filho do ministro, que gargalhou.
— Me poupe, Xing Ming, eu não sou você. Ela estaria em risco se casasse com você. Que não pode ver um rabo de saia que corre atrás.
— Vovô, eu sou o filho do Chanceler, também posso casar com a prima se você quiser. Meu pai também tem influência na corte…
— Eu até pensei em você meu neto, mas Hong Long tem razão, você não seria um bom marido para sua prima, seria um perigo, com certeza você não cumpria o acordo e me daria muita dor de cabeça.
— Isso só porque tenho cinco concubinas e alguns casos por fora? Não é justo!
— Parece que você não tem chances contra mim, amigo! — brincou meu noivo dando um soquinho em Xing Ming, que ficou carrancudo.
— Se isso é tudo, vou me retirar, meu avô. Peço licença a todos — Fiz uma reverência e saí da sala em direção ao pátio florido da mansão, porque eu precisava de um lugar tranquilo para pensar sobre tudo o que tinha acabado de saber.