Capítulo 1 Irmandade Britânica · Capítulo 2 de 2
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Capítulo 1

Londres - 1868

Alyssa Winchester

É uma noite fria e nevoada na região de Whitechapel; o grande relógio Big Ben marca exatamente meia-noite, como um aviso de que todos precisam se recolher para suas casas. Caminho pela calçada, onde o único som que escuto é o do salto de minhas botas. Aquele horário é perigoso, principalmente para mulheres, mas nada que uma arma não traga o mínimo de proteção.

Quem diria que eu, uma herdeira de uma fábrica têxtil industrial e parte da elite londrina, acabaria em desgraça. Irônico ver que tudo o que o dinheiro poderia comprar se torna distante porque perdi tudo o que minha família conquistou devido a uma tragédia.

São o pagamento das dívidas — disseram eles —, mas algo nessa história não bate: que dívidas são essas que meus pais não foram capazes de pagar e ainda deixaram duas filhas na ruína?

Não deveria estar na rua a essas horas, porém minha irmã, Clover, ficou falando sobre os biscoitos que acabaram, então, como uma boa irmã mais velha, saí sabendo que estou arriscando meu pescoço para comprá-los. Apesar do silêncio que chega a ser irritante, não me deparei com nenhum ordinário tentando me roubar, não gostaria de gastar balas sem necessidade.

Suspiro, fazendo com que a fumaça saia da minha boca e nariz, entro em um beco pouco movimentado, onde vejo prostitutas que tenho certeza de que não são do bordel oferecendo seus serviços. Enquanto adentrava o local, escutei vozes masculinas em uma área mais isolada. Apertei minha reticule na mão esquerda enquanto descanso a direita na fenda do meu vestido.

Começo a me aproximar do barulho, vendo um homem de meia-idade ser intimidado por um trio de rapazes que riem e o amedrontam. Antes que pudesse sacar meu revólver, vejo um vulto saltar do telhado e nocautear os três. Arqueio uma sobrancelha, pois aquele ponto não deveria estar com civis, já que é uma área de prostituição. Quando ambos caem no chão, me aproximo e logo a figura escondida pelo capuz me nota.

— Ora, ora, o que temos aqui. Uma dama perdida ou apenas procurando confusão? O que uma alma tão bem vestida faz por essas ruas tão perigosas esta noite? — a voz grave, que presumo ser de um homem, soa enquanto se aproxima de mim.

— Apenas passando por aqui, não vim atrás de confusão. — respondo enquanto seguro a reticule onde está a lata de biscoitos que Clover pediu.

— Passando? Curioso porque esse beco é desértico. Sabe, Londres tem uma forma… interessante de encontrar confusão de quem procura ou quem se destaca na multidão sombria.

Aperto os lábios olhando para sua cintura, vendo dois revólveres gêmeos. Ele usa uma bengala que presumo ter uma espada dentro. Levo a mão para a fenda do vestido, onde saco um revólver, apontando para ele. Vejo-o arquear uma sobrancelha e não parece assustado com isso, pelo contrário, parece demonstrar curiosidade.

— Ah, que surpresa interessante, uma dama portando um revólver, um belo brinquedo. — ele fala enquanto ergue as mãos em um gesto de falsa rendição.

— Londres é uma cidade perigosa, principalmente para mulheres, por isso somos mais discretas ao carregar armas. — expresso com o cano apontado em seu peito.

— Justo, mas é melhor tomar cuidado, não seria bom para mim levar um tiro sem necessidade. — ele profere, apontando para o revólver com o queixo, enquanto fica próximo ao ponto do cano encostar nele.

Esse homem com certeza não tem amor nenhum à própria vida.

— Você é um Rook, não é? Me diga quem é você e o que faz nesse beco? — questiono, deixando o meu dedo no gatilho.

— Você tem bons instintos, boneca. Sim, sou um Rook, me chamo Jacob Frye. E quanto ao que faço aqui… bem, apenas limpando o lixo das ruas, já que os da política não fazem isso. — o homem de nome Jacob responde, apresentando-se e tento entender se ele está flertando comigo ou zombando de mim.

— E você sabia que aqui é um ponto de prostituição?

— Impossível não saber, algumas damas inclusive até ofereceram seus serviços, mas digamos que prefiro mulheres mais… diferenciadas, e você, de certo modo, é deveras interessante, querida.

— Você ou é corajoso ou muito estúpido de estar flertando com uma mulher armada.

— Já ouvi isso inúmeras vezes, mas prefiro acreditar que essas duas coisas andam lado a lado; isso dá mais emoção, querida.

Ah, que maravilha! Primeiro, um trio de Bligthers que fazem baderna no beco da Maison Rouge e assediam um civil, e agora um homem audacioso que está flertando abertamente comigo.

Quando foi que Londres se tornou o centro do caos?

Estou achando que a Revolução Industrial fez as pessoas, além de mais corruptas, mais idiotas.

Olho para os três homens caídos e desorientados por terem apanhado de Jacob, me afasto dele indo até o homem que treme de medo.

— O que esses vagabundos pegaram do senhor? — pergunto a ele com a voz calma, levantando as mãos,, mostrando que não irei lhe machucar.

— Meu dinheiro… disseram que era uma “taxa de proteção” e que, se eu não pagasse, iriam quebrar tudo… — o homem responde com angústia, suspiro indo até os três.

— Vocês três aí! O que fazem aqui? — indago com o revólver abaixado.

— Não é da sua conta, vadia! Esse território é nosso! — um deles, que está com uma mancha de sangue no lábio, responde com desdém. Levanto a arma, dando um tiro na parede, mostrando que não sou uma qualquer.

— Esse território é da Maison Rouge, não tolero vagabundos baderneiros atormentando trabalhadores.

— Seu trabalho é abrir as pernas, garota, não se meter onde não foi chamada.

Homens são todos iguais, pelo visto. Não tem um que se salve nesse mundo podre.

Dou um chute em seu joelho e o gemido de dor ecoa. Me abaixo, colocando o cano do meu revólver debaixo do seu queixo.

— Eu cobro caro para abrir as pernas e não é qualquer pé-rapado que pode estar na minha cama, nem na sua próxima vida poderia pagar pelos meus serviços. — falo com uma frieza calma que o assusta.

— Isso foi cruel até para mim, querida. — Jacob comenta com falso pesar, mas sei que deve estar se divertindo com isso.

— Quem mandou vocês aqui? — questiono enquanto o Bligther engole em seco, assustado.

— Maxwell Roth, a gente só estava cumprindo ordens! — o homem se defende, gaguejando.

— Certo, digam a ele que, se algum Bligther passar por esse beco, vou estourar a cabeça dele. Devolvam o que roubaram do vendedor e sumam daqui!

O trio assente freneticamente, deixando três saquinhos de moedas no chão, e se levantam desengonçados gritando: “Isso não vai ficar assim, iremos voltar e vocês irão se arrepender!” enquanto saem do beco. Pego os saquinhos, devolvendo-os ao vendedor, que me agradece antes de sair. Olho o tambor do meu revólver, vendo que agora só tem cinco balas.

— Uau, não sabia que uma dama da Maison Rouge tinha tanto entusiasmo para lidar com vermes. — Jacob fala com um tom de divertimento. — Diga-me, boneca, todas são assim ou você é uma exceção?

— Você deveria estar preocupado de morrer na minha mão, já que estou armada. — digo, girando o tambor antes de fechá-lo na arma.

— Eu lido com a morte todos os dias, querida, contudo você não me disse seu nome.

— Me chamo Alyssa, mas já aviso que não aceito flerte de graça. — expresso com um olhar desconfiado.

— Um lindo nome, assim como a dona. Sabe, as pessoas costumam gritar e tremer de medo quando me veem, mas você simplesmente saca um revólver do vestido e aponta na minha cara.

— Todo cuidado é pouco nessa cidade, e também percebi que está com revólveres.

— Observadora, gosto disso, contudo eu poderia ter te eliminado antes mesmo que pudessem sacar esse brinquedinho.

Quando fala isso, interpreto como ameaça, então coloco o cano do revólver debaixo de seu queixo. Ele não se sente intimidado; na verdade, acha como se fosse alguma brincadeira de criança e não um risco de morte.

— Me dê um bom motivo para não estourar sua cabeça aqui e agora.

— Ora, querida, primeiro que chamaria atenção desnecessária e, segundo, que posso ser útil se você for esperta.

Estreito os olhos, desconfiada, antes de tirar o cano do queixo. Ele pigarreia enquanto se apoia na bengala.

— Vamos fazer um trato: você finge que não viu o que aconteceu aqui e, em troca, me ajuda com esses Blinghters. O que acha?

— Não faço nada de graça.

— Ah, claro, imaginei que diria algo assim.

Jacob tira uma moeda de ouro do bolso de seu casaco, jogando-a para cima; apenas a pego, guardando-a no meu decote.

— Eu vou ajudar, mas não abuse muito, não tenho paciência para cafajeste.

— Ora, boneca, assim você me ofende. Mas enfim, negócio fechado. Preciso ir porque o dever me chama, até breve, Alyssa.

Observei Jacob sair do beco até desaparecer. De repente, vejo um lenço vermelho voando e o apanho. Amarro-o em meu cabelo para que não se perca antes de entrar pela porta dos fundos da Maison Rouge, onde pude ouvir sons de risadas e cheiro de álcool. Subi para o andar de cima, indo para o quarto de Clover.

— Clover? — a chamo enquanto abro a porta e a vejo na penteadeira.

— Alyssa! Você trouxe? — ela indaga, levantando-se e vindo até mim.

— Claro, não me arrisquei para voltar de mãos abanando.

— Você é a melhor irmã do mundo!

Entrego a lata de biscoitos e vejo os olhos de Clover brilharem como os de uma criança quando ganha um brinquedo. Ela me abraça antes de abri-los, começando a comer os doces.

— E esse lenço no seu cabelo?

— Ah, eu achei por aí.

— Sei, espero que não seja de algum Blinghter ou de um Rook. Ter algo ou se deparar com é sinônimo de problemas.

— Falando nisso, encontrei um trio desses Blinghters assediando um homem quando eu passei para cá. Fiz com que devolvessem o valor na base da bala e saíram correndo com o rabinho entre as pernas.

— Você não perde tempo, mana. Mas tome cuidado, não quero que algo aconteça a você.

Apenas assenti e saí do quarto, indo para o salão principal. Não demora muito para que eu seja abordada pela Madame Evans.

— Onde você estava, Alyssa? Esqueceu que temos clientes para atender?

— Fui apenas buscar uma coisa para a Clover, mas acabei me deparando com um trio de vagabundos dos Blinghters fazendo baderna no beco do bordel, já resolvi isso.

— Blinghters é? Vê se toma cuidado com quem você acaba encontrando, a Maison Rouge não precisa de problemas com vadios ordinários que causam arruaça. Vá trabalhar, que hoje a casa está cheia.

Apenas assenti em concordância, vendo que seu olhar pousou no lenço em meu cabelo, mas não disse nada.

Bem, hora de trabalhar.

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