Capítulo 3 Irmandade Britânica · Capítulo 4 de 4
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Capítulo 3

Londres - 1868

Jacob Frye

Desperto em um sobressalto ao ouvir o grasnado de um corvo; minha cabeça dói, indicando que estou com uma ressaca desgraçada. Lembro-me de onde estou quando vejo Alyssa deitada com um cobertor em volta do seu corpo nu. Esfrego o rosto, já pressentindo o sermão que irei receber da Evie.

Mas valeu cada centavo dessa noite; isso já melhorou quase cem por cento do meu dia de hoje. Recebi o que foi prometido pela Madame Evans e mal posso esperar para uma próxima vez.

Deixo um beijo no ombro desnudo de Alyssa, que se vira, enrolando-se na coberta. Olhei novamente para o medalhão em seu pescoço, que está com o brasão da família Winchester. Me levanto com cautela para não acordá-la enquanto pego minhas roupas, começando a me vestir. Avisto um papel e uma caneta na penteadeira, então os utilizo para deixar um bilhete.

Deixo o recado no criado-mudo ao lado da cama e ajeito o cobertor em seu corpo já que Londres é frio, saio do quarto me esgueirando de forma discreta pelo bordel até a saída pela porta dos fundos. O céu está bem escuro e pelo relógio Big Ben vejo que são seis horas da manhã, me sinto revigorado o que significa que entrei em um estado de sono profundo.

— Então era aqui que você estava? Agora já sei para onde foi o dinheiro que sumiu — a voz de Evie soa e dou um pulo de susto.

— Evie! Você quase me mata do coração! — falo me apoiando na bengala que contém uma espada.

— E você é um grande imbecil! Desde quando você gasta dinheiro com prostitutas?

— Ora, irmãzinha, às vezes uma distração diferente faz bem.

— Vejo que essa “distração” te fez esquecer de pegar o lenço.

Quando diz isso toco meu pescoço vendo que esqueci o principal, praguejo baixo vendo que terei que voltar de novo, mas antes de tudo decido contar o que descobri.

— A prostituta que fiquei carrega um medalhão de prata com o brasão da família Winchester. — revelo com um tom mais sério deixando a brincadeira de lado.

— Família Winchester? Tem certeza disso? — Evie indaga cética do que eu disse.

— Tenho, irmãzinha, você sabe que não brinco com isso.

— Se ela é uma Winchester isso é ruim, se os Templários descobriram que ainda há sobreviventes dessa família vão caça-la até o fim.

— A Maison Rouge é um ponto neutro, Templários e Assassinos visitam esse bordel por ser um ótimo lugar para passar informações, afinal as prostitutas são apenas ouvintes.

— Exato, bem então você está encarregado de cuidar da Winchester.

Fico com uma expressão de falsa irritação, mas não é algo que irei reclamar. Agora preciso pegar o lenço de novo e avisar a Irmandade sobre ter encontrado uma sobrevivente da família Winchester.

Alyssa Winchester

Desperto com os raios de sol atingindo meu rosto, abro os olhos aos poucos vendo que mais um dia se inicia. Me sento na cama vendo que estou nua indicando que prestei meu serviço, solto um bocejo notando que há um bilhete no meu criado-mudo.

Pego o papel envelhecido vendo uma escrita elegante, sinto o cheiro de pinho e pólvora enquanto leio.

“Querida Alyssa, espero que você não esteja sentindo minha falta, precisei sair antes que a Madame Evans me chutasse para fora. Espero que possamos ter mais noites como essa no futuro. J.F.”

— Idiota…— sussurro enquanto me levanto e pego roupas limpas no meu guarda-roupa.

Pego uma toalha indo para o banheiro tomar um banho, a Maison Rouge é uma das que tem o privilégio de ter água encanada. É uma das poucas coisas que ainda consigo fazer que é me banhar de forma decente, afinal não seria de bom tom receber um cliente com mau cheiro.

Entro na banheira sentindo meus músculos relaxarem com a água quente, uso um sabonete de lavanda pelo meu corpo para limpar os vestígios de ontem. Aproveito para lavar meu cabelo já que não uso nenhum penteado espalhafatoso por odiar grampos e outras coisas que usam para deixar o cabelo bonito.

Assim que termino meu banho me enxaguo e saio da banheira onde pego minha toalha secando meu corpo, passo alguns perfumes e óleos antes de colocar as roupas íntimas junto do vestido. Ajeito a barra do saiote antes de sair do banheiro, olho para o lenço vermelho do criado-mudo e reparo que há algo bordado nele.

Ando descalça pelo piso do quarto pegando o tecido que é de seda, vejo um desenho em dourado e franzo o cenho sem saber o que é. Dou de ombros amarrando o lenço em meu pescoço por cima da gola do vestido, prendo uma parte do meu cabelo com uma presilha em forma de mariposa.

Deixo o quarto indo para a cozinha onde escuto as garotas fofocando logo cedo, comentam sobre um cliente que eu atendi e como perderam a chance de se oferecer a ele. Parece que Jacob chama atenção até mesmo quando não está presente, ele têm zero discrição.

Me sirvo com as coisas e me sento tomando meu café da manhã, uma delas, a Clarice, se senta na minha frente ignorando o fato de que eu devo estar com a pior cara do mundo.

— Soube que você teve um cliente novo, Alyssa, confesso que fiquei surpresa com isso já que normalmente você é muito seletiva com os clientes. — ela fala apoiando o queixo na mão curiosa.

— Ela se interessou por eu ser “difícil” e parece que alcancei o objetivo. — expresso comendo a torrada.

— Você tirou a sorte grande, irmã! Aquele homem era um pedaço de mal caminho, um desses na minha cama eu estaria realizada! — Emma, uma das mais jovens, diz com animação.

— Meninas! Temos trabalho a fazer! — Melanie, a mais antiga e uma das mais caras, anuncia batendo palma.

— Mas já? A gente nem ouviu sobre como foi a noite da Alyssa com aquele cliente misterioso. — Emma expressa com cara de decepção.

Melanie nota o lenço no meu pescoço e faz uma cara estranha, bebo meu chá normalmente até que ela pergunta.

— Onde achou esse lenço, Ally?

— Achei por aí.

— Esse símbolo bordado é meio incomum, se eu fosse você tomava cuidado.

Arqueio uma sobrancelha terminando meu café da manhã, não vejo Clover junto das outras meninas então presumo que está com um cliente. Deixo a cozinha indo para o salão onde outras meretrizes já estão sentadas nos colos dos clientes rindo e sendo apalpadas, olho para um em específico que bebe uma taça de conhaque.

Álcool logo pela manhã, nem imagino como devem estar os órgãos.

Me aproximo dele que aceita minha presença fazendo um aceno para que eu me sentasse, puxo a cadeira acatando seu pedido.

— Bom dia, senhor! Álcool logo cedo não faz bem para a saúde. — o cumprimento antes de apontar para o conhaque.

— Quando se há problemas nada melhor do que um pouco de álcool para esquecer. — ele fala bebendo mais um pouco da bebida. — a senhorita é bem observadora para uma prostituta.

— É um hábito que tenho desde que vim para cá, costumo disfarçar isso, mas pelo visto achei alguém mais observador que eu.

— É algo que precisamos ter cuidado, pessoas que veem de mais acabam se tornando um problema.

Ele bebe todo o conhaque e entrelaça as mãos para esconder o rosto, o homem a minha frente usa um monóculo dourado que contrasta com os cabelos e bigode grisalhos.

— Sabe, querida, minha mãe já foi uma prostituta que me fez acreditar em um amor que nunca existiu, ela fingiu se importar comigo por causa de um homem que a engravidou e nunca quis. Isso me fez pensar que nem todas as mulheres nasceram para serem mães e nem todas as mães amam seus filhos.

O que ele diz me faz arquear uma sobrancelha confusa, me ajeito na cadeira estofada apenas ouvindo o que o homem diz. É um fato que muita gente se recusa a ver, nem todas as mulheres de fato nasceram para serem mães e no fim quem sofre é a criança.

— Sinto muito por isso, é doloroso ser rejeitado pela própria mãe.

— Não precisa sentir pelo meu infortúnio, querida, nem todas merecem o título de mãe, mesmo sendo seu próprio sangue.

Observo ele terminar sua bebida e deixa seis libras de prata que é o preço médio do bordel, achei estranho ele não ter pedido por nenhuma prostituta, contudo não questionei então apenas pego as moedas colocando em um saquinho.

— Obrigado pela companhia e pela conversa, se quer um conselho não ande pelas ruas de Londres no meio da noite. — o homem avisa antes de levantar sua cartola em sinal de despedida e sai do bordel.

Que homem estranho.

Coloco as moedas dentro de um saco levando para o cofre do bordel, lembro que estou sem uma reserva de balas o que significa que precisarei sair. Só espero que a Madame Evans não se incomode com minha saida.

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