Nos Campos de Manjericão
Nos Campos de Manjericão
Uma manhã cinzenta, quando o vento trazia consigo o hálito salgado e terroso do mar, misturado ao odor Úmido do barro e das ervas esmagadas sob os pés, Esther adentrou apressadamente a tenda, o rosto iluminado por uma expressão ambígua, na qual o temor ainda lutava com uma esperança que mal ousava nascer, como se ela própria não soubesse se estava prestes a anunciar um milagre ou a pronunciar uma mentira que, para aquela mulher devastada pela perda, precisaria adquirir a forma de uma verdade para que pudesse ser aceita.
— Valéria... — sussurrou, aproximando-se do leito, a voz trêmula de quem carrega nos lábios uma notícia.
Grande demais para ser pronunciada sem medo. — Olha... teu filho.
Os olhos da jovem se arregalaram, e seu corpo vacilou diante da visão daquela criança que lhe era apresentada como uma devolução impossível; por um instante, Valéria pareceu incapaz de respirar, como
Se o sofrimento prolongado houvesse ensinado seu coração a desconfiar de qualquer forma de felicidade, e então um som lhe escapou da garganta, entrecortado pelo espanto, pela dor e por uma esperança que ressurgia das próprias cinzas, metade soluço, metade oração. — Mamãe... — murmurou, estendendo os braços com uma cautela quase reverente. — Deus me devoluiu?
Esther limitou-se a assentir, incapaz de oferecer à filha uma resposta que fosse maior ou mais convincente. Do que aquele simples movimento de cabeça, enquanto as lágrimas lhe enchiam os olhos e desciam silenciosas pelo rosto; Valéria, então, recebeu o menino nos braços com um fervor que beirava o sagrado, apertando-o contra o peito como quem teme que a morte.
— Deus é bom... — murmurou, entre lágrimas, fechando os olhos enquanto encostava o rosto à cabeça da criança. — Trouxe você de volta. Aquelas palavras, pronunciadas na penumbra da tenda, sob o cheiro de terra, manjericão e incenso,
Pareciam carregar uma fé renascida das profundezas do desespero, e, enquanto Valéria embalava o menino contra o peito, acreditando receber de volta o filho que a morte lhe havia roubado, a cena adquiria
Uma solenidade que ultrapassava a própria compreensão daqueles que nela estavam presentes, porque sem que ninguém soubesse, aquela mulher não recebia apenas uma criança: recebia uma vida arrancada de um pai.
Do coração de Roma, um sangue destinado aos palácios e aos mármores imperiais, uma existência cuja verdadeira origem deveria permanecer escondida sob o nome de outro homem, sob a memória de outro.
O rumor distante do mar confundia-se com o vento que atravessava o campo de manjericão. Nas lágrimas que molhavam o rosto da criança começava, sem que ninguém o soubesse, uma história marcada por uma verdade oculta e por uma linhagem que, um dia, poderia reivindicar aquilo que lhe fora negado.
A criança chegava como uma dádiva, embora sua existência repousasse sobre uma mentira.
Roma, distante, nada sabia.
Nos anos seguintes, a cidade conheceria epidemias, mortes prematuras, conspirações e disputas que exporiam as fragilidades de seus homens mais poderosos. Chuvas devastariam campos, rios transbordariam, famílias abandonariam suas casas e crianças morreriam antes de alcançar a idade adulta. No Senado, a ambição continuaria a disputar espaço com a prudência, enquanto o poder, incapaz de conter a própria cobiça, alimentaria as desordens que pretendia governar.
Diante de tantas perdas, muitos procurariam uma causa que desse sentido à desventura. Os homens raramente se conformam com o acaso quando o sofrimento se prolonga; preferem atribuir às calamidades uma origem, um erro antigo, uma transgressão esquecida que lhes permita acreditar numa ordem por trás da ruína. Assim, aquilo que não compreendem acaba por adquirir a forma de uma culpa.
Muito depois, ao rememorarem os infortúnios de Roma, alguns talvez reunissem mortes, epidemias e conspirações numa mesma narrativa, como se os acontecimentos obedecessem a um desígnio que ninguém soubera reconhecer. E, nessa busca por uma explicação, poderiam voltar o pensamento àquela manhã no campo de manjericão, quando uma mulher atravessara um umbral carregando nos braços uma criança e, sem conhecer a verdade, acolhera o filho de outra vida como se lhe tivesse sido devolvido o seu.
Que espécie de dádiva poderia trazer consigo tamanha dívida? E quem teria o direito de chamar de maldição aquilo que, para uma mulher enlutada, fora a própria esperança?
Talvez as tragédias mais difíceis de suportar sejam aquelas que não oferecem explicação. Diante delas, o coração humano procura uma culpa que possa compreender, pois é mais fácil aceitar a existência de um erro do que admitir que o sofrimento nem sempre obedece a uma ordem, e que impérios, famílias e vidas podem sucumbir sem que o mundo lhes revele a razão.
Nenhum pergaminho revelaria a origem do sangue que corria nas veias daquele menino.
Tibério na Villa Jovis
O Estábulo
A chuva da noite ainda escorria pelas encostas do Monte Tiberio quando a primeira claridade encontrou as pedras da Villa Jovis. As nuvens permaneciam baixas sobre a montanha, e o ar úmido trazia do mar um gosto salgado que se misturava ao cheiro das murtas, dos ciprestes e da terra revolvida; das partes mais altas da residência, a água acumulada nos telhados descia pelos condutos até as grandes cisternas, enquanto, nas áreas de serviço, portas começavam a abrir, baldes passavam de mão em mão e os primeiros homens retomavam o trabalho interrompido durante a noite.
Junto às dependências dos animais, porém, a manhã chegava de outra maneira, conservando nas pedras do estábulo o frio da madrugada. As vigas escuras, marcadas pela fumaça das lamparinas, sustentavam o teto baixo, e o vapor que subia dos corpos dos cavalos permanecia algum tempo preso sob ele antes de desaparecer pelas aberturas; no chão, a palha encharcada, o estrume e a lama trazida dos caminhos formavam uma camada espessa, de onde vinha aquele cheiro quente e acre que nenhum estábulo perdia, por mais que fosse limpo.
Tibério César Augusto estava diante de uma das baias, vestido com uma túnica simples, úmida na barra, e as sandálias, ainda trazendo a lama dos caminhos da villa.
Não havia escolta junto à porta, nem criados suficientemente próximos para interferir; dentro do estábulo, os homens continuavam seus afazeres com um cuidado maior que o habitual, evitando olhar demoradamente para ele.
Sobre a palha, o potro permanecia deitado.
Dias antes, corria pelos terrenos da propriedade com aquela desajeitada violência dos animais jovens, tropeçando nas próprias pernas e levantando-se sem perceber que havia caído; agora mantinha os membros recolhidos junto ao corpo, o pelo colado à pele pelo suor e a cabeça baixa, respirando depressa, enquanto, de tempos em tempos, fazia força para erguer-se, apenas para terminar com o focinho novamente mergulhado na palha.
Marcus estava ajoelhado junto à perna traseira, afastando o pelo com os dedos enquanto examinava a pele e passava o polegar ao redor de uma pequena ferida quase escondida sob a sujeira. Pediu água, e um rapaz aproximou-se com uma bacia; Marcus lavou a região até que a pele aparecesse sob a lama, revelando uma inflamação avermelhada que já avançava para além da abertura.
Tibério esperou. — Dize-me, Marcus.
O veterinário não levantou os olhos. — A ferida é pequena, César.
— Não foi o que perguntei.
Marcus passou um pano embebido em vinho sobre a pele, fazendo o potro estremecer e tentar recolher a perna, que o homem segurou com firmeza, sem apertar mais do que o necessário.
— Está com febre e deixou de comer; a inflamação já alcançou a carne ao redor.
Tibério aproximou-se e agachou-se com dificuldade, apoiando uma das mãos sobre o joelho enquanto observava a ferida por alguns instantes. — Quando apareceu? — Não sei dizer. — Não sabes?
Marcus finalmente ergueu os olhos. — Na última inspeção, ele comia normalmente e não havia febre; a ferida estava escondida sob o pelo. Tibério voltou a olhar para o animal. — Ainda assim, alguém deveria tê-la encontrado.
Marcus limpou novamente a região. — Deveria.
A resposta ficou entre os dois enquanto o veterinário continuava o trabalho. Com uma pequena pinça, afastou a carne inflamada e retirou de dentro da ferida um fragmento escuro de madeira, pouco maior que uma unha. O potro puxou a perna, e Marcus esperou que se aquietasse antes de mostrar a pequena lasca.
— Estava aqui. Tibério examinou o fragmento. — E ninguém a viu? — Não.
— Então agora sabemos.
Marcus deixou a lasca sobre um pano limpo e tornou-a ao ferimento, onde voltou a trabalhar com cuidado.
— Vou lavar com vinho, aplicar o que temos para conter a inflamação e cobrir a região; depois da limpeza, porei mel sobre a ferida. Se continuar sem comer, teremos de ajudá-lo a recuperar as forças. — E sobreviverá?
Marcus não respondeu de imediato. Passou os dedos pela base do pescoço do animal, verificou a temperatura e observou a respiração antes de finalmente dizer: — Se a febre ceder, há boas chances.
Tibério permaneceu em silêncio enquanto Marcus preparava a faixa.
— Vou manter a ferida coberta e trocar o curativo sempre que estiver sujo; terá de ficar longe da umidade e sem esforço. — Faça o necessário.
— Farei. Tibério lançou um olhar para a pequena vasilha de vinho.
— É bom?
Marcus percebeu a pergunta e quase sorriu. — Para o tratamento, é suficiente.
— Ainda bem; seria uma pena matar um cavalo por falta de vinho.
O veterinário deixou escapar um breve sorriso antes de voltar ao curativo, enquanto Tibério tornava a observar o potro e passava devagar a mão pelo pescoço quente, sem que o animal se afastasse.
— Não quero ouvir depois que faltou alguma coisa.
— Não faltará.
A mão do imperador permaneceu sobre o pelo por alguns segundos, até que um dos cavalos da baia vizinha sacudiu a cabeça e fez as ferraduras baterem contra a pedra, enquanto, lá fora, uma roda passava sobre o caminho molhado, rangendo sob o peso da carroça.
O potro tentou erguer-se, e Marcus segurou-lhe o peito, mas as pernas dianteiras avançaram sobre a palha, enquanto as traseiras permaneciam dobradas.
— Devagar. O animal insistiu, e Tibério deu um passo para dentro da baia. — Levanta-o.
Marcus olhou para ele. — Agora?
— Agora. — Ele está fraco.
— Eu sei. — Pode cair.
Tibério segurou o pescoço do animal.
— Então nós o levantaremos novamente.
Marcus hesitou por um instante, depois passou o braço sob o corpo do potro e firmou os pés na palha, enquanto Tibério sustentava a parte dianteira. O animal se debatia entre a fraqueza e o esforço de obedecer ao próprio corpo, as patas traseiras escorregando uma vez antes que Marcus reforçasse o apoio. — Vamos.
O potro respirou fundo, reuniu o pouco de força que ainda possuía e tornou a empurrar o chão. As pernas tremeram; uma delas cedeu, recuperou-se e encontrou novamente a pedra, até que, depois de mais um esforço, o animal conseguiu sustentar o próprio peso.
Ficou de pé.
Ninguém precisou dizer nada.
O potro permanecia instável, com o pescoço baixo e a respiração curta, mas estava erguido, e Tibério retirou lentamente a mão depois de se certificar de que não cairia.
— Ainda não morreu.
Marcus passou a mão pelo peito do animal. — Ainda não.
Tibério olhou para ele. — Continue.
Marcus assentiu.
Foi então que um relincho atravessou o pátio, vindo da direção das tamareiras, e Tibério ergueu a cabeça enquanto os cavalos do estábulo respondiam com movimentos inquietos, alguns levantando o pescoço, outros batendo os cascos contra a pedra. Tibério conhecia aqueles sons, conhecia o ruído das carroças, o chamado dos tratadores, o passo dos animais trazidos da estrada e até a diferença entre um cavalo assustado e um cavalo cansado; aquele animal, porém, não pertencia à villa.
Ele saiu da baia e, entre as tamareiras, surgiu um cavaleiro.
O cavalo avançava coberto de espuma e lama, com as narinas dilatadas e o peito subindo violentamente, enquanto o homem permanecia inclinado sobre o pescoço do animal, segurando as rédeas com as duas mãos. Ao alcançar o pátio, desmontou e quase caiu, mas recuperou o equilíbrio, caminhou até Tibério e curvou-se.
— César? Perguntou Marcus. Tibério não respondeu.
O mensageiro levou a mão para dentro das vestes e retirou um pequeno pergaminho preso por uma tira de couro, cujo selo permanecia intacto. Tibério estendeu a mão, recebeu-o, rompeu o selo e desenrolou o pergaminho.
Leu.
Não disse nada.
Marcus, ainda junto ao potro, percebeu apenas que o rosto do imperador havia mudado. Não houve gesto brusco; Tibério tornou a ler a mensagem, desta vez mais devagar, como se procurasse alguma palavra que pudesse ter compreendido mal, mas não havia nenhuma. — Quando?
A voz saiu baixa. — Durante a noite, César.
Tibério continuou olhando para o pergaminho. — Ela está viva?
O mensageiro hesitou apenas o necessário. — Está, César.
Tibério fechou os olhos por um instante.
Júlia havia perdido a criança.
O pergaminho continuava aberto em sua mão, e ele o dobrou uma vez, depois outra, com um cuidado excessivo para um pedaço de pele que já não podia alterar coisa alguma.
Marcus não se aproximou.
Tibério guardou o pergaminho. — Podes partir.
O mensageiro curvou-se e voltou pelo caminho por onde viera, enquanto o cavalo ainda arfava no pátio. Tibério permaneceu imóvel até que o homem desaparecesse entre as árvores; atrás dele, ouviu o potro mover uma das patas e virou-se. O animal continuava de pé.
Tibério aproximou-se e pousou a mão sobre seu pescoço. A pele estava quente, e o pelo úmido grudava-se aos dedos. Permaneceu assim por alguns instantes, enquanto Marcus aguardava, até que finalmente disse:
— Continue o tratamento.
— Sim, César.
Ele retirou a mão e saiu.
Atravessou o pátio sem chamar ninguém. Os homens que encontravam afastavam-se para lhe dar passagem, e alguns baixavam os olhos; Tibério caminhava ainda com a túnica úmida, trazendo nas roupas o cheiro de palha, couro molhado e animal, como se carregasse consigo, pelos corredores da residência, uma parte daquele estábulo que acabara de deixar.
Ninguém lhe perguntou nada.
Entrou na residência e passou pelos corredores que começavam a receber a luz da manhã, pelas colunas úmidas dos pátios e pelas áreas onde criados já carregavam bandejas, tecidos e recipientes de água. A villa despertava ao redor dele com a indiferença disciplinada de uma casa acostumada a continuar funcionando, como se a perda de uma criança pudesse ser apenas mais um acontecimento que o dia aprenderia a acomodar.
Tibério entrou em seus aposentos e fechou a porta.
Não abriu as cortinas.
Sentou-se no leito, ainda vestido, e permaneceu algum tempo com as mãos apoiadas sobre os joelhos, lembrando-se de que Júlia lhe dissera que a criança se movia. Não pensou no império, nem no Senado, nem no que aquela perda significaria para a sucessão, para a casa imperial ou para os homens que fariam cálculos a partir dela.
Pensou apenas na criança que se movera dentro dela. Depois imaginou uma mão pequena fechando-se em torno de um dedo seu, uma criança correndo pelo pátio, uma voz que ainda não existia chamando-o de pai.
A lembrança não era uma lembrança.
Era justamente essa a crueldade.
Tibério baixou a cabeça e permaneceu assim durante muito tempo, enquanto, lá fora, a chuva cessava por completo e a claridade atravessava as frestas das cortinas, avançando lentamente pelo chão. No estábulo, o potro ainda estava de pé. Dentro da casa, Tibério permanecia no escuro.
E, muito longe dali, uma criança viva começava a desaparecer do mundo de Tibério.