Óstia: O Coração Aberto
Parte II
Capítulo II
Óstia: O Coração Aberto
Ao longe, entre a cortina úmida da madrugada, surgiu uma pequena embarcação sendo preparada às pressas. Homens carregavam ânforas, puxavam cordas e acomodavam as últimas mercadorias; na penumbra, eram apenas vultos indo e vindo junto à água, obedientes àquela disciplina dos portos em que todos sabem o que fazer, embora poucos saibam a quem pertence aquilo que carregam.
Chap, chap.
O som se perdia entre as tendas adormecidas, o que, naquela hora, talvez fosse uma vantagem.
Quando as pernas fraquejavam, procurava na sacola remendada algum pedaço de pão seco; às vezes encontrava um resto endurecido, outras, apenas o fundo vazio, e então apertava mais o menino contra o corpo, como se pudesse aquecê-lo com o pouco calor que ainda lhe restava. Ele murmurava de tempos em tempos, inquieto pelo frio, e Valéria o amamentava enquanto caminhava, escondendo-lhe o rosto sob a dobra da túnica para protegê-lo da chuva.
Valéria aproximou-se sem perguntar para onde iam.
Aprendera que, em certas ocasiões, uma pergunta podia ser mais perigosa que uma mentira.
Subiu e escolheu um canto onde pudesse manter o menino junto ao peito, baixando o rosto para parecer apenas mais uma passageira entre tantas outras. Uma mulher sozinha, àquela hora, carregando uma criança, chamaria atenção em qualquer lugar; por isso, quanto menos olhares recebesse, melhor.
Sob a túnica, junto ao corpo, trazia o pequeno alforge costurado às pressas.
O ouro pesava pouco; o medo, muito mais.
Sabia quantas moedas havia ali, embora nunca tivesse possuído tantas. Dinheiro fora sempre coisa que outros homens administravam por ela; agora precisava escondê-lo, gastá-lo com prudência e impedir que alguém descobrisse o que carregava junto à pele.
O menino, porém, não podia ser contado em moedas.
Valéria baixou os olhos. Ele dormia.
Pensou em Mathias, no breve repouso que encontrara ao lado daquele homem e que a guerra lhe arrancara, devolvendo-lhe a antiga necessidade de partir.
Qumran também ficara para trás, com os pais, as peregrinações, os dias de trabalho e as terras que nunca chegaram a ser suas. Talvez sua vida tivesse sido feita mais de partidas do que de moradas.
Inclinou-se sobre o menino. — Não tenha medo.
A voz quase desapareceu sob o rumor da água.
Não pronunciou nenhum nome.
Júlia,
Tibério
e Augusto.
Havia nomes perigosos até no pensamento.
A embarcação afastou-se da margem, e Valéria sentiu o balanço irregular do casco enquanto o filho sentia os solavancos e choramingava contra seu peito. Ao redor, os passageiros cuidavam das cargas: ânforas de azeite, rolos de papiro, cerâmicas, especiarias e fardos amarrados com cordas. Algumas mercadorias seguiriam para Óstia; outras seriam trocadas pelo que faltasse em seus lugares de origem.
Vinho, grãos, garum — o comércio seguia indiferente às razões que levavam um homem a comprar, vender ou fugir.
O cheiro do molho de peixe misturado à madeira molhada trouxe-lhe a lembrança da cozinha de sua mãe, e o estômago contraiu-se. Procurou o pão. Restava pouco.
Partiu um pedaço e comeu devagar, medindo a fome contra o alimento. O menino mexeu-se, e ela baixou os olhos.
Ainda dormia.
Pouco depois, entre os homens que se ocupavam das cargas, Valéria reparou em um estrangeiro de feições asiáticas, seguido por um menino de sua mesma origem, que avançava pelo convés carregando grandes embrulhos contra o peito, com uma agilidade silenciosa e precisa, adquirida talvez antes mesmo de saber que o descanso também pudesse pertencer-lhe.
O garoto movia-se sem chamar atenção, desviando das ânforas, dos cordames e dos pés dos passageiros com a cautela de quem aprendera a fazer do próprio corpo uma coisa pequena, quase invisível; mas, quando uma mudança mais brusca no movimento da embarcação fez o convés molhado inclinar-se sob seus pés, ele perdeu o equilíbrio, esbarrou em Valéria e, no mesmo instante, recompôs-se, curvando-se diante dela numa rápida demonstração de desculpa. Ela demorou um instante a responder, surpreendida menos pelo encontrão que pelo gesto.
— Está bem.
O garoto voltou para junto do seu patrão, e Valéria acompanhou-o por alguns segundos. Havia alguma coisa naquela maneira de andar, obedecer e mover-se sem alarde que lhe chamara a atenção, mas o barco prosseguia, e a impressão logo se perdeu entre o ruído das cargas e o movimento da água.
A noite avançou sem que Valéria dormisse. O cheiro das especiarias misturava-se ao de madeira úmida, suor e peixe, enquanto o vento entrava pelas laterais da embarcação e encontrava a pele fria dos passageiros. Cada ruído fazia-a levantar os olhos; cada homem que se aproximava era observado por um instante e depois esquecido. Ninguém parecia interessado nela.
Era o que desejava.
Horas mais tarde, o barqueiro anunciou a mudança de embarcação. Valéria levantou-se com dificuldade, ajeitou o menino contra o peito e desceu para a margem, onde outra embarcação já recebia passageiros. O céu começava a clarear, mas a manhã não trazia calor; o vento vinha das águas e entrava pelas roupas como uma lâmina fina.
A cada margem deixada para trás, diminuía alguma coisa que ela não sabia nomear. Primeiro haviam ficado as tendas; depois, as estradas; agora desapareciam os rostos conhecidos. Não olhou para trás.
Na nova embarcação, recolheu-se outra vez. O menino acordou, procurou o peito da mãe, e ela o alimentou enquanto perguntou ao mocinho que lhe esbarrara: — Óstia.
Valéria guardou o nome.
A embarcação continuou avançando, recebendo passageiros e trocando mercadorias, até que tecidos, tapeçarias e ânforas de azeite ocupassem os espaços restantes. O movimento aumentava à medida que a manhã se firmava, e o rumor de uma cidade começava a chegar antes dela, trazido pelas vozes e pelas cargas que convergiam para o mesmo destino.
Quando o dia já estava claro, o barqueiro gritou: — Óstia! Final da embarcação!
Valéria levantou-se.
O rapaz de feição asiática entregou uma moeda ao barqueiro. Valéria abriu a sacola e retirou uma moeda de ouro, mas não a soltou imediatamente. O rosto de Augusto estava gravado no metal.
O avô do menino.
Ficou olhando para aquela pequena face cunhada em ouro, enquanto o mundo ao redor continuava a mover-se com a indiferença dos portos. Era apenas uma moeda, mas trazia consigo uma ironia que Valéria conhecia bem: o rosto de um homem cujo nome dominara terras, leis e exércitos estava agora reduzido, para ela, ao preço de uma passagem.
Fechou os dedos e entregou-a.
Apertou o menino contra o peito e desceu.
Óstia surgiu diante dela como um rumor que tomava forma: cordas sendo puxadas, ânforas arrastadas sobre a madeira, homens gritando preços, animais inquietos, remos batendo contra a água, carregadores disputando espaço e vozes cruzadas em línguas diferentes. O cheiro do peixe, do azeite, do sal, da madeira úmida e das especiarias vinha das docas antes mesmo que Valéria pudesse distinguir as ruas.
Parou por um instante.
Não sabia onde dormiria naquela noite nem quem encontraria, mas sabia que precisava continuar.
Apertou o menino e caminhou.
Atrás dela, a embarcação soltou as amarras; à frente, Óstia despertava para mais um dia de comércio, trabalho, fome e lucro, sem perguntar de onde vinham aqueles que chegavam nem o que haviam deixado para trás.
Valéria entrou na cidade com o menino junto ao peito e o alforge escondido sob a túnica.
Não sabia que, entre aquelas ruas, encontraria uma casa onde finalmente poderia repousar.
Sabia apenas que precisava continuar.
E continuou.
Óstia começava a trabalhar quando o céu ainda guardava a última sombra da noite. Muito antes de Roma despertar entre suas colinas, o porto já se movia na claridade incerta da madrugada: cordas eram arrastadas sobre as pedras, rodas de carro rangiam sob o peso das cargas e vozes se chamavam de um cais ao outro, enquanto o mar devolvia aos poucos o frio da noite e deixava nas pedras o sal da água.
Valéria percebeu primeiro o cheiro. Depois vieram os sons.
Havia dias que permanecera encerrada no espaço estreito da embarcação, respirando madeira molhada, lã úmida e o ar viciado dos homens que dormiam mal. Quando finalmente pisou no cais, a terra firme pareceu larga demais. Puxou o ar com força, sentiu o sal arranhar-lhe a garganta e apertou o menino contra o peito.
Flávio Severius dormia sob o manto, a cabeça escondida junto ao ombro dela, indiferente ao despertar da cidade.
Valéria permaneceu alguns instantes imóvel, deixando que o corpo se acostumasse à terra firme. Ao redor, os homens já trabalhavam. Nas pedras escuras do cais, ainda molhadas da noite, os anéis de ferro recebiam as cordas grossas dos navios, que estremeciam sob a tensão e soltavam um rangido profundo sempre que alguma embarcação se movia contra a água.
Carregadores passavam com ânforas apoiadas nos ombros, alguns curvados pelo peso, outros avançando com a segurança de quem conhecia cada desnível daquelas pedras. As mãos, marcadas pelo trabalho, agarravam as cargas sem hesitação.
Mais adiante, os horrea de tijolos avermelhados começavam a receber as mercadorias que chegavam pelo rio e pelo mar. Sacos de grãos, ânforas de azeite, vinho e outras cargas desapareciam rapidamente sob os telhados dos armazéns. Uma ânfora quebrara-se junto a um carro, espalhando vinho entre as pedras. Dois homens discutiam, enquanto um terceiro recolhia os cacos com a ponta de uma pá.
O cheiro do garum vinha dos tanques abertos, espesso e agressivo, feito de peixe fermentado, sal e matéria que o tempo transformara até perder qualquer semelhança com aquilo que um dia fora vivo. Perto das tabernas, o pão começava a sair dos fornos e, por alguns passos, conseguia vencer o odor das águas sujas que escorriam pelas ruas; depois desaparecia, misturado ao suor, à urina, ao peixe e à gordura velha acumulada nas paredes.
Valéria caminhou.
Não procurava uma casa específica, nem conhecia ainda o nome das ruas pelas quais passava. Precisava apenas continuar andando até que alguém deixasse de olhar para ela, até que seu rosto se confundisse com tantos outros que atravessavam Óstia todos os dias levando crianças, mercadorias, ferramentas, sacos, histórias e problemas que ninguém tinha interesse em conhecer.
Ao passar por uma fileira de insulae, ouviu-se o ranger de uma janela que se abria acima de sua cabeça. Uma mulher bradou: — Lá vai merda!
Logo, um jarro foi inclinado, despejando excrementos humanos sobre a rua, que respingaram junto aos seus pés. Num pavimento superior, uma criança chorava; mais adiante, alguém soltou uma gargalhada rouca, enquanto uma porta batia e uma voz chamava por um homem que não respondia.
As construções subiam estreitas junto às ruas, algumas com varandas de madeira tão próximas umas das outras que pareciam prolongamentos das próprias paredes. Entre elas passavam libertos, estivadores, artesãos, viúvas, vendedores e estrangeiros, todos empurrados pelo mesmo movimento que fazia o porto crescer. Em cada abertura havia alguma coisa acontecendo, e a cidade parecia não possuir espaço suficiente para separar uma vida da outra.
Valéria continuou com Severius nos braços.
Um grupo de homens passou por ela falando grego. Dois carregavam pequenas caixas de madeira; o terceiro trazia uma bolsa presa à cintura e não parava de contar alguma coisa nos dedos. Mais adiante, um comerciante sírio discutia o preço de um tecido com um homem de barba curta, enquanto uma mulher egípcia acomodava pequenos amuletos sobre uma esteira.
Papiros apareciam enrolados em feixes, tapetes bordados capturavam a primeira luz do dia, e, entre uma banca e outra, palavras em latim, grego e aramaico se sobrepunham, desaparecendo umas dentro das outras antes que Valéria pudesse compreender de onde vinham.
Óstia recebia tudo.
Navios, grãos, azeite, vinho, peixe, tecidos, moedas, escravos, libertos, viajantes, soldados, mercadores e homens que chegavam sem saber se permaneceriam por uma semana ou por toda a vida; nada parecia atravessar aquelas ruas sem deixar algum vestígio, fosse uma marca de roda na lama, uma ânfora vazia, uma moeda trocada de mão, uma palavra aprendida de outra língua ou simplesmente um cheiro que permanecia nas paredes depois que o responsável por ele já havia desaparecido.
No Decumanus, o movimento engrossava.
Os primeiros comerciantes haviam formado pequenos círculos junto às fachadas, alguns sentados em bancos baixos, outros de pé, inclinados sobre tábuas onde números eram registrados com rapidez. Não anunciavam suas mercadorias em voz alta. Conversavam entre si, calculavam, comparavam pesos, mencionavam navios que ainda não haviam chegado e cargas que talvez já estivessem vendidas antes mesmo de tocar o cais.
Valéria passou por eles devagar.
Tentou não escutar.
Era difícil.
Uma palavra chegou primeiro, pronunciada em grego; depois outra, desta vez em latim. Um dos homens riu baixinho. Outro respondeu alguma coisa que ela não compreendeu, mas então ouviu claramente o nome de uma cidade.
Parou por um instante.
O menino se mexeu contra seu peito, e ela baixou os olhos para o rosto adormecido antes de tornar a olhar para os homens.
Eles continuavam falando.
E, embora ainda não soubesse, naquela manhã Óstia começava a lhe entregar, entre mercadorias, ruídos e palavras estrangeiras, a primeira coisa que ela realmente procurava: um lugar onde pudesse desaparecer.
Um homem de mãos manchadas de vinho reclamava que novas leis surgiam a cada estação, enquanto as antigas continuavam penduradas nas paredes e esquecidas nas ruas; dizia aquilo com a irritação de quem já havia pago mais de uma vez pelo mesmo direito, e o homem mais velho, sentado diante dele, respondeu que não era bem assim, porque as leis eram cumpridas quando Roma precisava que fossem cumpridas, e que a ordem tinha seu preço, como qualquer mercadoria que chegasse pelo mar.
O terceiro, que até então permanecera calado, inclinou-se para a frente e murmurou que tudo acabava sendo chamado de necessidade do império.
Ninguém riu.
O homem das mãos manchadas de vinho passou o polegar pela borda da taça e disse que, quando uma cobrança recebia o nome de equilíbrio, já não havia muito o que discutir.
O mais jovem do grupo, ainda com sal endurecido nos cabelos, olhou para os outros antes de perguntar se Roma realmente conseguiria sustentar tudo aquilo por muito tempo, e sua pergunta permaneceu entre eles por alguns instantes, pequena demais para provocar uma discussão e incômoda demais para desaparecer imediatamente.
O velho sorriu de lado.
Não respondeu de pronto. Baixou os olhos para a própria sandália, onde a lama havia secado entre as tiras, e só depois disse que nada caía de uma vez; antes, alguma coisa começava a ranger, quase sempre tão baixo que ninguém se dava ao trabalho de escutar.
Valéria já havia retomado o caminho.
A frase a acompanhou por alguns passos, não porque tivesse compreendido nela alguma ameaça, mas porque certas palavras permanecem no ouvido mesmo depois que a voz desaparece, sobretudo quando encontram dentro de nós um espaço que não sabíamos possuir. Ela não conhecia aqueles homens, não conhecia suas contas, seus navios ou as razões pelas quais discutiam Roma, e tinha coisas mais urgentes com que se preocupar; precisava encontrar abrigo, água, alimento e um lugar onde pudesse deitar o menino sem que alguém lhe perguntasse de onde vinha.
Quando a noite caiu, a chuva voltou.
As marquises que durante o dia protegiam mercadorias passaram a abrigar corpos, e junto aos muros juntaram-se homens, mulheres e crianças que traziam consigo o pouco que possuíam, enrolado em panos ou apertado contra o peito.
Encontrou um espaço entre eles e se sentou no chão ainda úmido, encostando as costas à pedra enquanto mantinha Flávio Severius protegido sob o manto; ao redor, os corpos se comprimiam uns contra os outros, não por intimidade, mas porque a chuva não deixava outra escolha, e o calor que passava de um corpo ao seguinte era suficiente para tornar suportável aquela primeira noite.
Havia tosses abafadas, dentes batendo, o ruído da água escorrendo pelas paredes e o cheiro pesado de lã molhada, pele, fumaça e barro. Uma mulher dormia com a cabeça apoiada sobre um saco vazio; perto dela, um homem mantinha os braços cruzados sobre o peito, imóvel, enquanto uma criança respirava contra seu colo. Ninguém perguntou quem era Valéria, de onde vinha ou por que carregava um menino tão pequeno naquela hora da noite.
Talvez ninguém tivesse forças para perguntar.
Talvez, naquela parte da cidade, a vida alheia fosse apenas mais uma coisa que se aprendia a não tocar.
Abaixou o rosto e verificou se Severius ainda dormia. O menino se mexeu, procurou o calor do corpo dela e tornou a aquietar-se.
Ela permaneceu assim por muito tempo, ouvindo a chuva bater sobre as telhas e escorrer pelas pedras, enquanto Óstia continuava respirando ao redor deles, indiferente aos nomes que chegavam e desapareciam, aos homens que tinham dinheiro e aos que não tinham sequer onde estender um pano para dormir.
Naquela noite, ninguém quis saber seu nome.
E, pela primeira vez desde que deixara para trás tudo o que conhecia, Valéria percebeu que havia lugares onde ser desconhecida não era uma ameaça.
Era uma proteção.
Roma ainda não sabia que ela existia.
Óstia também não precisava saber.
Sob o Pórtico dos Esquecidos
A umidade começava a subir do calçamento quando Ostia enfim se calou. Havia poucas horas, as ruas ainda ressoavam com os pregões dos vendedores, o ranger das carroças e as discussões que escapavam das tabernas. Agora permaneciam apenas a luz vacilante de algumas lamparinas alimentadas por azeite barato, a fuligem agarrada às paredes e o cheiro acre que a cidade nunca conseguia abandonar. De vez em quando passava um homem embriagado, tropeçando mais por hábito do que pelo vinho. Um cão respondia ao outro, perdido em alguma viela. O restante da noite pertencia aos que não tinham porta para fechar nem cama para esperar.
Valéria parou diante de uma pequena padaria já fechada.
O pórtico de madeira avançava alguns palmos sobre a rua e oferecia abrigo suficiente contra o sereno. As vigas, escurecidas por muitos invernos de fumaça, ainda conservavam o perfume do pão que deixara o forno ao entardecer, misturado à farinha impregnada nas tábuas e ao calor que a pedra devolvia lentamente à noite.
O forno já estava frio. Ainda assim, o perfume do pão permanecia preso às vigas, como se a fartura demorasse mais a partir do que aqueles que nunca a possuíram.
Sob aquele pórtico, os esquecidos recebiam apenas aquilo que o dia deixava para trás. Ali já havia gente acomodada.
Um velho dormia sentado, abraçado às próprias sandálias para que ninguém as levasse antes do amanhecer. Perto dele, um rapaz encolhia-se sobre um saco de juta vazio, usando uma telha quebrada como travesseiro. Uma mulher dividia a única manta com duas crianças; mantinha o menor entre o próprio corpo e a parede, protegendo-o do vento e das mãos ligeiras que rondavam as madrugadas.
Ninguém conversava.
A convivência ensinara que o silêncio economizava forças e evitava perguntas.
Foi Noêmia quem se levantou.
Aproximou-se sem demonstrar curiosidade. Não perguntou o nome da jovem nem quis saber de onde vinha. Os rostos marcados pela fadiga raramente carregavam histórias diferentes; apenas dores com nomes distintos.
Trazia debaixo do braço duas mantas gastas e um pedaço de linho, tantas vezes remendado que já era difícil distinguir o tecido original. Ajoelhou-se junto ao muro e estendeu tudo com o cuidado de quem preparava um leito digno, embora soubesse que continuava sendo apenas chão.
Só então ergueu os olhos.
Neles havia a serenidade de quem aprendera que certas perguntas apenas prolongavam a dor.
— Deite-se aqui, filha. A pedra suga o calor da gente.
Valéria agradeceu com um discreto movimento da cabeça. Sentou-se devagar. As pernas ainda guardavam o peso da longa caminhada. Soltou o ar lentamente, como quem só naquele instante permitia ao próprio corpo reconhecer o próprio cansaço.
O menino permaneceu adormecido contra seu peito. Respirava com a regularidade das crianças que ainda ignoram a extensão da miséria ao redor. Ela acomodou melhor a manta sobre suas costas, verificou se os pezinhos continuavam cobertos e, por instinto, aproximou-o da parede antes de envolver ambos com o próprio corpo.
Naquele instante, o perfume do pão voltou a alcançá-la.
Era um cheiro morno, quase acolhedor.
Fez o estômago lembrar aquilo que a vida insistia em esquecer.
Ela fechou os olhos por um momento.
Olhou ao redor.
Ninguém lhe pediu explicações.
Naquela parte de Roma, cada um carregava ausências suficientes para não exigir as dos outros.
A noite avançava, e cada qual retomava os gestos que os anos haviam convertido em segunda natureza.
Um velho repartiu um pão ressequido em porções rigorosamente iguais, medindo-as com a gravidade de quem sabia que uma única migalha bastava para despertar antigos ressentimentos. Pouco adiante, uma mulher aqueceu água numa panela enegrecida pelo fogo e nela lançou algumas ervas colhidas às margens do Tibre. Dois irmãos disputaram a mesma manta até que o menor, vencido pelo sono, deixou que metade do tecido escorresse sobre o corpo do outro.
Ninguém lhes ensinara semelhante delicadeza.
Ela germinara justamente onde quase tudo o mais escasseava.
Valéria observava sem dar mostras de fazê-lo.
Conhecera casas em que o mármore polido devolvia o fulgor das lamparinas e os criados deslizavam de olhos baixos para não perturbar o repouso dos senhores; ali, porém, sobre o frio das lajes e sob mantas consumidas pelo tempo, via homens e mulheres repartirem o pouco com uma naturalidade que dispensava reconhecimento.
Sentiu, pela primeira vez, que havia uma forma de riqueza incapaz de ser erguida sobre colunas ou revestida de mármore.
O cansaço desceu-lhe lentamente sobre as pálpebras.
As pernas ainda conservavam a memória da longa caminhada; os ombros ardiam pelas horas em que sustentara o menino adormecido; das pedras subia um frio antigo, paciente, como se brotasse da própria idade da terra.
Ainda assim, uma serenidade desconhecida desde sua chegada a Roma acomodava-se, silenciosa, em seu espírito.
Foi então que uma voz rompeu a quietude.
— Moça... ouve-me.
Ela abriu os olhos.
Junto à entrada do pórtico, um rapaz permanecia suspenso entre a luz vacilante de uma lamparina e a sombra espessa da rua.
Precisou de alguns instantes para reconhecê-lo.
Era o criado do mercador chinês; o mesmo que, dias antes, a derrubara involuntariamente no convés da embarcação e se desculpara com um embaraço tão desarmado que quase lhe arrancara um sorriso.
Aproximou-se sem pressa, desviando dos corpos adormecidos com o mesmo cuidado de quem atravessa um santuário.
Cada passo evitava perturbar um repouso conquistado a preço de fadiga.
— Perdoe-me... é a senhora que viaja com um menino?
Valéria pousou a mão sobre a manta e ergueu-se apenas o bastante para fitá-lo.
— Sou.
Antes que o rapaz prosseguisse, Noêmia interpôs-se entre ambos.
Não elevou a voz.
Não ensaiou qualquer gesto de ameaça.
Apenas ocupou o espaço.
Por um instante, pareceu tão imóvel quanto uma das colunas que sustentavam o velho pórtico.
— Que deseja dela, rapaz? O jovem hesitou.
Os olhos desceram ao chão antes de regressarem ao rosto severo da velha. — Não venho fazer-lhe mal.
Noêmia sustentou-lhe o olhar sem vacilar.— Não foi isso que perguntei.
O jovem baixou os olhos por um breve instante, como se buscasse no chão as palavras que lhe faltavam, e, quando tornou a erguê-los, disse em voz contida: — Minha senhora pediu que eu a encontrasse.
Noêmia deixou escapar um resmungo curto, daqueles que pareciam nascer menos da desconfiança do que da longa convivência com as decepções, e respondeu sem alterar o semblante:
— Senhora?... E desde quando senhoras deixam o conforto de suas casas depois do anoitecer para procurar quem dorme sobre pedra fria? — Ela mandou-me.
A velha inclinou ligeiramente a cabeça.
— Então volta e diz à tua patroa que esta mulher já encontrou onde atravessar a noite.
O rapaz permaneceu imóvel. Via-se que a timidez lhe prendia as palavras antes mesmo que alcançassem os lábios; respirou fundo, como quem reúne coragem para contrariar alguém mais velho, e tornou a falar:— Ela deseja recebê-la em sua casa.
Noêmia deu um passo à frente, não para intimidá-lo, mas para que o rapaz compreendesse que, antes de alcançar Valéria, teria de passar por seus olhos.— Recebê-la?... Assim, sem conhecê-la?... Ou pensas que vivi anos bastantes para acreditar na primeira bondade que bate à porta dos pobres?
— Minha senhora não costuma prometer o que não pretende cumprir.
Os traços da velha não se alteraram.
— Nem os lobos mostram os dentes antes de fechar o cerco.
Seguiu-se um silêncio que nenhum deles se apressou em romper. A lamparina vacilava sob o pórtico; ao longe, ouviam-se vozes dispersas vindas de alguma taberna ainda desperta, enquanto, junto às paredes, os adormecidos permaneciam imóveis, indiferentes àquela breve disputa de palavras, porque haviam aprendido que certas conversas podiam decidir o rumo de uma vida inteira.
O rapaz tornou a falar, agora com a voz mais baixa, como se receasse despertar os que dormiam ou desfazer, por excesso de insistência, a frágil confiança que ainda esperava conquistar. — Ela não manda esmolas.
Fez uma breve pausa. — Mandou buscar a senhora.
Valéria moveu-se entre as mantas e, sentiu uma picada na perna direita, só sacudiu o vestido longo.
Desde que chegara em Óstia, o corpo começava a compreender que existiam dores demasiado pequenas para reclamar delas. Sacudiu devagar a poeira acumulada nas pregas da túnica, tomou o menino nos braços, envolveu-lhe a cabeça com o linho para defendê-lo do frio crescente da noite e, por fim, recolheu a pequena bolsa que ainda trazia consigo, último vestígio de uma existência que já lhe parecia pertencer à memória de outra mulher.
Noêmia estendeu a mão e segurou-lhe o braço com inesperada delicadeza. — Escuta uma velha, minha filha.
Valéria voltou-se.
A velha demorou alguns instantes antes de prosseguir, como quem conhecia o peso de cada palavra que estava prestes a entregar.
— A fome faz sofrer.
Seus dedos apertaram de leve a mão da jovem.
— Mas é a esperança que mais vezes perde os pobres.
Valéria sustentou-lhe o olhar por alguns instantes. Não respondeu. Inclinou apenas a cabeça, num agradecimento silencioso, e voltou-se para o rapaz, cuja expressão revelava menos a segurança de um mensageiro do que a inquietação de alguém que receava chegar tarde demais.
Ele retomou a marcha, caminhando com rapidez pelas vielas estreitas, e Valéria seguiu-o, apertando o filho contra o peito enquanto procurava acompanhar-lhe os passos; as sombras das construções desciam pesadas sobre o calçamento irregular, um fio de água escura corria rente às pedras, e as gargalhadas embriagadas que escapavam de uma taberna distante pareciam pertencer a outra cidade, incapaz de perceber que, poucas ruas adiante, uma mulher caminhava ao encontro de um destino do qual nada sabia.
Sentiu o suor frio nascer-lhe na nuca. O coração batia-lhe com violência crescente, não apenas pelo esforço da caminhada, mas porque cada passo a afastava do velho pórtico, daquelas mantas gastas, da prudência de Noêmia e da única certeza que possuíra desde que chegara a Roma.
Adiante, tudo era desconhecido.
Talvez encontrasse a salvação.
Talvez encontrasse a ruína.
Naquela noite romana, ambas ainda caminhavam sob o mesmo céu, ocultas uma na sombra da outra.
A Casa acolhedora
O rapaz conduziu Valéria por ruas que se estreitavam à medida que se afastavam do rumor das tabernas, dados oficinas ainda fumegantes e das hospedarias onde as vozes embriagadas insistiam em prolongar a noite, até que o estrépito da cidade começou a dissolver-se pouco a pouco, restando apenas o compasso das sandálias sobre o antigo calçamento e, muito ao longe, aquele rumor incessante de Roma, semelhante ao mar ouvido de costas: invisível, mas sempre presente.
Por fim, deteve-se diante de uma residência discreta, comprimida entre duas construções de fachada severa, tão desprovida de qualquer desejo de ostentação que um transeunte apressado talvez lhe passasse diante da porta sem lhe conceder um segundo olhar. Ainda assim, havia nela uma proporção tão exata, um domínio tão absoluto da medida, que Valéria percebeu, antes mesmo de cruzar-lhe o umbral, que aquela casa obedecia a leis diferentes das que governavam o restante da cidade.
Não era pobre.
Também não era rica.
Era ordenada.
E havia uma espécie de riqueza que apenas a ordem sabia produzir.
O jovem pousou a mão sobre o pesado portão de madeira, abriu-o sem provocar o menor ruído e afastou-se para lhe ceder passagem com uma discrição que fazia daquele gesto menos um convite do que um sinal de respeito por um silêncio já existente. Valéria permaneceu imóvel durante um breve instante; depois, vencendo a hesitação que ainda lhe prendia os passos, transpôs lentamente o umbral.
Foi então que lhe ocorreu — não como pensamento, mas como sensação — haver atravessado uma fronteira invisível. Tudo quanto encontrara desde o desembarque em Óstia parecia permanecer do lado de fora. Até o silêncio, ali, possuía outra natureza.
O pequeno pátio interior recebia a luz branda de lanternas revestidas de seda avermelhada, cujo clarão não expulsava a sombra, mas apenas a domesticava, espalhando sobre as pedras um brilho morno que oscilava ao sabor da brisa.
O ar era atravessado por perfumes que jamais encontrara nas casas romanas: não o azeite aquecido, nem a fuligem, nem as ervas queimadas, mas o aroma delicado do chá recém-infundido, da madeira umedecida pela água do jardim, de raízes secas cuidadosamente guardadas em pequenos recipientes de cerâmica e de um incenso resinoso cuja fumaça ascendia em espirais tão tênues que parecia desfazer-se antes de alcançar as vigas do telhado.
Nenhum objeto buscava ser admirado.
Nenhum reclamava atenção.
Cada peça parecia existir apenas para cumprir a função que lhe cabia, como se tivesse encontrado, havia muito tempo, o único lugar onde poderia permanecer sem perturbar o repouso das demais.
Valéria caminhou devagar.
À medida que avançava, compreendia que aquela serenidade não nascera da ausência de riqueza, mas da renúncia ao excesso. Nas casas patrícias, o luxo parecia disputar o olhar de quem chegava; ali, porém, tudo conspirava para que o visitante deixasse de olhar os objetos e começasse, quase sem perceber, a ouvir o próprio silêncio.
Foi então que lhe ocorreu uma ideia estranha.
Talvez as moradas conservassem algo daqueles que as habitavam.
Se assim fosse, ainda sem conhecer a dona daquela casa, Valéria já começava a encontrá-la em cada detalhe: na sobriedade da madeira, na contenção da luz, na harmonia das proporções e na paz que parecia repousar sobre cada pedra, como se a própria casa respirasse segundo o ritmo tranquilo de quem a edificara por dentro antes mesmo de habitá-la por fora.
Chim Lee conduziu Valéria por um corredor estreito, onde pequenas lamparinas suspensas derramavam sobre a madeira uma luz tão branda que as sombras pareciam envelhecer mais devagar do que a própria noite; à medida que avançavam, o rumor distante de Roma desfazia-se pouco a pouco, como se cada porta deixada para trás encerrasse uma parcela do mundo exterior, até restarem apenas o discreto ranger das tábuas sob os passos, a respiração quase imperceptível do incenso entre as vigas do teto e aquele silêncio que parecia não nascer da ausência de sons, mas da perfeita harmonia entre eles.
Ao alcançarem o extremo do corredor, Chim Lee pousou a mão sobre uma porta de madeira escura e fê-la deslizar com tamanha suavidade que a própria madeira pareceu recordar, antes de obedecer; imediatamente, uma respiração morna espalhou-se pelo corredor, trazendo consigo o perfume de ervas recém-aquecidas, raízes maceradas e resinas aromáticas que Valéria jamais encontrara nas casas de Roma.
— Entre.
Valéria transpôs o portal e, antes mesmo de dar o segundo passo, deteve-se, porque seus olhos precisaram de alguns instantes para aprender a quietude daquele aposento, onde a simplicidade parecia haver sido preservada com o mesmo cuidado com que outros preservavam o ouro.
No centro do recinto repousava uma ampla tina de barro polido. De suas bordas elevavam-se delicadas espirais de vapor que lentamente se desfaziam sob a luz das lamparinas, enquanto a superfície da água recolhia o ouro vacilante das chamas e o convertia em ondulações luminosas que deslizavam pelas paredes caiadas como reflexos de um rio invisível.
Não era uma água que convidasse apenas ao repouso; parecia guardar consigo a silenciosa promessa de que ninguém sairia dela exatamente igual àquele que nela entrasse.
Sob um banco baixo encontravam-se toalhas de linho dobradas com precisão quase cerimonial; junto à parede, pequenos recipientes de cerâmica guardavam óleos perfumados, ervas reduzidas a pó, raízes cuidadosamente cortadas e cristais de sal impregnados pelo aroma das madeiras resinosas.
Lentamente, aqueles perfumes desalojavam de sua memória o cheiro persistente das ruas, da maresia, da fumaça e da poeira acumulada ao longo da viagem, como se a própria lembrança do caminho começasse, sem violência, a desprender-se de sua pele.
Valéria permaneceu imóvel, não por receio da água aquecida, mas porque lhe pareceu, de súbito, que a poeira endurecida na barra da túnica, as mãos tornadas ásperas pelo sal e pelo vento, os cabelos embaraçados e o peso que lhe vergava os ombros pertenciam a outra existência. Seu corpo ainda ignorava aquilo que sua alma começava, enfim, a acreditar: que lhe era permitido descansar.
Sem dizer palavra, Chim Lee aproximou-se. Recebeu a criança com a natural segurança de quem muitas vezes sustentara a fragilidade da vida; antes de envolvê-la novamente na manta, afagou-lhe de leve os pequenos pés, gesto tão breve que quase se confundiu com a própria sombra da mão, recompôs o linho junto ao rosto adormecido, observou-lhe a respiração por um instante e voltou-se para Valéria.
Em seus olhos não havia piedade.
Havia paz.
— Ele ficará comigo.
Valéria hesitou apenas o tempo suficiente para contemplar o rosto do filho. Encontrou nele a mesma serenidade que via estampada no semblante de Chim Lee e compreendeu, com discreto espanto, que poucas horas bastaram para tornar possível aquilo que, ao cair da tarde, lhe pareceria inconcebível.
Entregou-lhe a criança.
Chim Lee inclinou levemente a cabeça, como quem recebia menos uma confiança do que uma responsabilidade, retirou-se em silêncio e tornou a fechar a porta. O suave deslizar da madeira pareceu separar não apenas dois aposentos, mas duas etapas de uma mesma vida.
Valéria permaneceu sozinha.
Diante da água fumegante.
Do perfume das ervas.
Da luz tranquila das lamparinas. Por um longo instante não se moveu.
Era como se compreendesse que certas travessias não começam quando os pés avançam, mas quando a alma encontra coragem para abandonar aquilo que já não pode continuar sendo. Então aproximou-se da tina.
Pela primeira vez desde que chegara a Roma, o silêncio tinha um som.
O acolhimento
A água quente envolveu-lhe o corpo, e por alguns instantes Valéria não fez movimento algum. O calor alcançou primeiro os ombros, endurecidos pela viagem, depois desceu pelas costas vergadas e pelos braços que haviam sustentado Severius durante tantos dias. Ali, dentro daquela água, o corpo parecia lembrar de si mesmo antes que ela pudesse fazê-lo.
Valéria soltou o ar devagar.
Fechou os olhos.
O vapor subia da tina e pousava-lhe no rosto, desfazendo o contorno das paredes, das mãos, da própria luz. Não havia nada que precisasse fazer naquele instante. Ninguém lhe perguntava de onde vinha, para onde iria, quanto possuía ou o que poderia oferecer em troca daquele banho. Pela primeira vez em muitos dias, podia permanecer imóvel sem que a imobilidade lhe parecesse perigosa.
Passou as mãos pelos cabelos. Entre os dedos ainda havia sal da travessia, poeira entranhada junto à raiz, pequenos grãos que a viagem deixara para trás. Molhou-os outra vez e esfregou devagar o couro cabeludo, sentindo a água escorrer pela nuca e pelas têmporas. Depois lavou os braços, demorando-se nos pulsos que tantas vezes haviam sustentado o peso do menino, e desceu até os tornozelos, onde a pele ainda ardia das pedras.
A água foi ficando turva.
Valéria olhou para ela.
Durante a viagem, aprendera a não desperdiçar nada: comida, água, tecido, palavras. Até o sono precisava ser dividido em pequenos intervalos, porque dormir profundamente era entregar-se ao desconhecido. Agora havia água suficiente para lavar o corpo inteiro, e ninguém estava à porta contando quanto tempo ela demorava.
Mergulhou as mãos outra vez e deixou que a água passasse entre os dedos.
Foi então que percebeu uma coisa pequena.
Não estava escutando.
Durante dias, escutara tudo.
Passos atrás dela. Vozes baixas. Portas. Cavalos. Homens que se aproximavam. Homens que paravam de falar quando ela passava. Mesmo quando dormia, uma parte dela permanecia acordada, à espera daquele ruído que anunciaria algum perigo.
Ali, porém, havia apenas o rumor da água e, além da parede, os sons indistintos da casa.
Valéria esperou. Nada aconteceu.
Abriu os olhos e ficou algum tempo olhando para as próprias mãos.
Ainda eram as mesmas mãos. As unhas gastas. A pele áspera. As pequenas marcas deixadas pelos dias de viagem.
Nada havia mudado nelas. Mesmo assim, pela primeira vez desde que deixara sua terra, Valéria não sentiu necessidade de escondê-las. Encostou a cabeça na borda da tina.
O cansaço continuava ali. Nas costas. Nos braços. Nas pernas. Talvez permanecesse por muitos dias.
Mas já não estava sozinho.
E Valéria ficou quieta, ouvindo a água tocar a madeira, como se aquele som tivesse estado esperando por ela.
Quando tornou a erguer os olhos, a superfície da água devolveu-lhe o reflexo de uma mulher que conservava o mesmo rosto, as mesmas cicatrizes, os mesmos sinais da viagem. Ainda assim, havia qualquer coisa que já não parecia estar nela. O sal da travessia, a poeira das estradas, o sobressalto das noites dormidas ao relento havia ficado na água, misturados àquela camada turva que lentamente se afastava de seu corpo.
Um discreto bater à porta devolveu-a ao presente. — Valéria? Era a voz de Chim Lee.
Envolveu-se na toalha de linho e entreabriu a porta.
A anfitriã aguardava do lado de fora, trazendo nos braços uma túnica cuidadosamente dobrada. O tecido era de seda branca, fina e leve, muito diferente das roupas que Valéria conhecera durante a viagem. A brancura não tinha o aspecto rígido das vestes usadas pelos homens em cerimônias públicas; era uma cor mais suave, quase quente, que lembrava o arroz recém-colhido. Da roupa vinha um perfume discreto, despertado pelo calor do aposento e pelo tempo em que permanecera dobrada.
Chim Lee estendeu-lhe a veste e, por um breve instante, observou a esbelteza de Valéria, o corpo ainda frágil, de formas delicadas, que conservava os traços de uma menina em formação. — Vista esta. Já banhei seu filho; amamente-o com calma e depois venha comer conosco. A comida estará quente.
Nada mais disse.
Valéria recebeu o filho nos braços. O cheiro delicado do attar permanecia sobre a pele do menino, misturado ao perfume das ervas do banho. Sentou-se na baixa cadeira de cedro e acomodou-o junto ao peito, estendendo as pernas diante de si.
A porta tornou a fechar-se.
Durante alguns instantes, permaneceu imóvel, olhando para o filho. Os olhos azuis, a pele clara, os cabelos dourados, ainda úmidos em alguns fios. Havia quanto tempo não recebia alguma coisa sem primeiro perguntar o que deveria fazer para merecê-la?
O corredor permanecia mergulhado na mesma penumbra tranquila, mas agora outro cheiro atravessava a casa. O pão recém-saído do forno misturava-se ao aroma do chá e do mel aquecido, e Valéria permaneceu um instante parada, seguindo aquele cheiro como quem, depois de tantos dias, descobria que também era possível caminhar em direção a alguma coisa.
Na cozinha, o calor da lareira preenchia o aposento. As brasas ardiam entre grossos toros de madeira, e a luz avermelhada percorria as paredes caiadas, detendo-se nos objetos e desaparecendo depois nas sombras.
Nada havia de abundante ali.
Havia, porém, o bastante.
Ao vê-la surgir à porta, Jim Lee ergueu discretamente os olhos e fez um leve movimento com a mão, indicando o lugar junto à mesa. Havia naquela simplicidade uma espécie de acolhimento que não exigia explicação. — Venha, sente-se. Tome um pouco de chá com mel e coma enquanto o pão ainda está quente; depois de tantos dias na estrada, seu corpo precisa receber alguma coisa antes que o cansaço cobre o que lhe foi negado.
A voz conservava a mesma gravidade tranquila que parecia habitar todos os seus gestos, e Valéria aproximou-se devagar, ainda sem compreender por que aqueles desconhecidos lhe ofereciam tamanha generosidade sem lhe perguntar de onde vinha, o que perdera ou o que poderia lhes dar em troca. Seus olhos, porém, procuraram primeiro o filho.
Encontrou-o junto à lareira, acomodado num cesto de vime cuidadosamente forrado com tecidos claros. Dormia profundamente; os cabelos ainda guardavam o brilho deixado pela água do banho, e um perfume discreto de ervas permanecia sobre sua pele. As pequenas mãos estavam abertas sobre o tecido, entregues àquele abandono sereno que Valéria já não via havia muitos dias.
Ela parou.
Por alguns instantes, apenas olhou.
Chim Lee acompanhou a direção de seus olhos e deixou escapar um sorriso breve, quase doméstico. — Dei-lhe banho enquanto você se lavava. Ele estava cansado e dormiu logo depois; daqui a pouco vai acordar com fome, por isso coma agora, antes que precise carregá-lo outra vez nos braços.
Valéria baixou os olhos para a mesa. Havia coisas tão simples diante dela — pão, uma tigela quente, mel — que justamente por isso lhe pareciam difíceis de receber. Sentou-se.
Chim Lee serviu-lhe a bebida numa pequena tigela de cerâmica, com a naturalidade de quem repetia um gesto aprendido ao longo de muitos anos. O vapor subiu diante do rosto de Valéria, trazendo consigo o perfume suave das folhas aquecidas e do mel, enquanto o pão ainda conservava o calor do forno. A lareira crepitava mansamente, lançando reflexos de cobre sobre as paredes, e, naquela luz baixa, o movimento das duas mulheres pela cozinha tinha qualquer coisa de tão cotidiano que Valéria quase se esqueceu de estranhar a própria presença ali.
Levou a tigela aos lábios.
Bebeu devagar.
Não procurou com os olhos a porta. Não contou os passos no corredor. Não tentou distinguir, por trás das paredes, o ruído de alguém que pudesse estar à sua procura. Pela primeira vez desde que deixara o caminho do exílio, percebeu que seus ouvidos haviam deixado de vigiar antes que ela própria tivesse consciência disso.
O medo, naquela noite, adormeceu antes dela.
Noites de delírios
Depois da refeição, Chim Lee conduziu Valéria ao aposento preparado para ela e para o menino. O quarto ficava na parte mais resguardada da casa, afastado da cozinha e do pequeno pátio interno, e, antes mesmo de atravessar a porta, Valéria percebeu o cheiro da madeira envelhecida, do linho recém-lavado e das ervas deixadas para secar em algum ponto da residência.
A porta deslizou quase sem ruído.
Por um instante, Valéria permaneceu no limiar.
Do outro lado, o mundo parecia ter perdido a aspereza.
O aposento era simples, embora tudo ali revelasse um cuidado que ela já não estava acostumada a receber. Um leito baixo de madeira ocupava a parede principal, coberto por mantas claras cuidadosamente estendidas; as almofadas sustentavam a cabeceira sem ostentação, e entre as dobras do linho permanecia o aroma tênue de flores secas.
Próximo à cama, um biombo de seda translúcida dividia discretamente o ambiente. Garças repousavam entre juncos e águas enevoadas, traçadas com linhas delicadas que a luz vacilante das lamparinas fazia parecer quase móveis. Quando a chama oscilava, a névoa pintada parecia avançar sobre as aves e recuar novamente, como se a imagem respirasse ao ritmo do fogo.
Num dos cantos, o cesto de vime aguardava o menino. Chim Lee havia deixado ao lado uma manta cuidadosamente dobrada e, acima dele, preso por fios vermelhos, pendia um pequeno sino de metal. Quando uma corrente de ar atravessava as frestas da casa, o objeto vibrava de leve e produzia um som tão fino que logo se confundia com o silêncio.
Sobre uma mesa baixa havia uma tigela com água fresca, algumas ervas amarradas em pequenos feixes e uma lamparina cujo fogo discreto afastava a escuridão sem vencer a quietude do aposento.
Valéria aproximou-se do leito.
Passou a mão sobre o linho.
A maciez do tecido fez com que retirasse os dedos quase imediatamente, como se aquele conforto pudesse desaparecer ao menor toque. Depois se deitou.
O corpo, enfim aquecido, cedeu à exaustão que vinha reclamando repouso havia dias. Ao lado, o menino continuava adormecido no cesto; a lamparina espalhava uma claridade branda pelo aposento, e os ruídos da casa chegavam tão distantes que pareciam pertencer a outra morada.
Valéria fechou os olhos.
Dessa vez, acreditou que dormiria.
A noite, entretanto, não lhe concedeu o descanso por inteiro.
Primeiro veio o frio.
Um frio profundo, que lhe atravessou o corpo apesar das mantas. Depois, uma dor começou a pulsar na perna esquerda, lenta e persistente, como se alguma coisa se movesse sob a pele. O calor veio logo depois, subindo pelo corpo em ondas, enquanto a cabeça se tornava pesada e a respiração perdia o compasso.
Valéria se agitou entre os lençóis.
Levantou a mão até a perna.
Os dedos encontraram o tornozelo inchado, rígido, dolorido. Ao tocá-lo, uma lembrança rompeu a névoa que já começava a lhe turvar os pensamentos: a marquise onde havia procurado abrigo, os panos amontoados junto ao corpo, um movimento quase imperceptível que ela não tivera forças para investigar e, depois, aquela ferroada rápida, tão pequena que parecera não merecer atenção.
A picada.
Agora a dor se espalhava para além daquele ponto.
Horas mais tarde, Chim Lee atravessou o corredor com uma pequena lamparina. Talvez fosse verificar o menino; talvez apenas tivesse ouvido alguma alteração no silêncio da casa. Ao entreabrir a porta, parou.
Valéria ardia em febre.
Os cabelos úmidos estavam presos à fronte; a respiração saía pesada, entrecortada, e um rubor intenso cobria-lhe o rosto. A perna esquerda permanecia parcialmente descoberta, mostrando o inchaço que avançara a partir do tornozelo, acompanhado por manchas escuras que não estavam ali quando a mulher se deitara.
Chim Lee aproximou-se.
Pousou a mão sobre a testa de Valéria e permaneceu assim por um instante.
Seu semblante mudou.
Foi uma alteração pequena, quase imperceptível, mas suficiente para apagar a tranquilidade que até então acompanhara seus movimentos. Ela colocou a lamparina sobre a mesa e saiu rapidamente.
Pouco depois, voltou com Jim Lee.
Jim ajoelhou-se junto ao leito. Examinou primeiro o rosto de Valéria, depois a perna. Com a ponta dos dedos, tocou cuidadosamente a região ao redor da inflamação, observando a pele, o inchaço e a reação de dor que atravessou o semblante da mulher.
Jim Lee ergueu os olhos para Chim.
— A picada está piorando — disse em voz baixa. — O corpo dela já estava enfraquecido quando chegou. Se o inchaço continuar subindo, teremos pouco tempo para descobrir o que a feriu e conter essa febre.
Chim Lee aproximou a lamparina, iluminando melhor a perna.
Jim observou a marca por alguns segundos antes de completar:
— Traga água limpa, as ervas e tudo o que usamos para tratar inflamações. E não deixe o menino sozinho. Se ela piorar durante a noite, precisaremos estar aqui.
Enquanto Chim Lee aquecia a água e reunia os utensílios necessários, Jim Lee abriu um estreito armário de madeira, escurecido pelo uso. De pequenas caixas retirou raízes secas, ervas reduzidas a pó e pequenos recipientes de cerâmica, alguns vedados com cera.
Movia-se sem pressa, mas também sem hesitação. Cada gesto parecia obedecer a uma ordem antiga, aprendida mais pela repetição do que pelas palavras: escolher, esmagar, aquecer, esperar. O rosto permanecia sereno enquanto seus dedos examinavam as raízes, separando umas das outras com a atenção de quem sabia que, diante da dor, até uma pequena diferença podia importar.
Lavou primeiro a região atingida com uma infusão de ervas amargas, cujo perfume terroso logo se espalhou pelo aposento. Depois triturou raízes e macerou folhas até obter uma pasta espessa, que espalhou cuidadosamente sobre a pele inflamada.
Um gemido quase imperceptível escapou dos lábios de Valéria.
A mistura ardia.
Jim Lee não retirou a mão. Esperou que a primeira reação passasse e continuou o trabalho com a mesma delicadeza, observando a pele, o inchaço e a respiração da jovem.
A dor, aos poucos, pareceu mudar de lugar. Continuava intensa, mas já não se aprofundava da mesma maneira; vinha em ondas, recuava por instantes e retornava logo depois, como se o corpo lutasse sozinho contra aquilo que o havia atingido.
Jim Lee aqueceu então pequenas pedras lisas, envolveu-as em tecido e dispôs algumas ao redor da perna, deixando que o calor se infiltrasse lentamente. Por fim, preparou uma infusão escura numa pequena tigela de barro e, com o auxílio de Chim Lee, ergueu delicadamente a cabeça de Valéria para que pudesse beber.
Ela engoliu dois goles.
O líquido trazia o amargor das raízes e um vestígio de mel. Valéria fez uma careta quase imperceptível, e Chim Lee, pela primeira vez naquela noite, deixou escapar um sorriso. — É amargo — murmurou.
Valéria abriu os olhos com dificuldade. — Se é para me devolver as forças, poderia ao menos fingir que é doce.
O sorriso de Chim Lee aumentou por um instante. Jim Lee permaneceu atento à respiração da jovem, como se não tivesse ouvido a pequena provocação. Só depois de alguns segundos disse: — Se fosse doce demais, talvez você bebesse depressa.
Valéria não teve forças para responder. Fechou novamente os olhos.
Pouco depois, o suor aflorou-lhe à fronte.
A noite avançou.
Chim Lee renovava os panos úmidos sobre o rosto de Valéria; Jim Lee substituía a pasta sobre a perna e, de tempos em tempos, inclinava-se para escutar a respiração. Quase não falavam. Quando alguma palavra era necessária, bastava uma frase baixa, um gesto com a mão ou o simples movimento dos olhos.
A lamparina crepitava.
Ao longe, o vento fazia estremecer o pequeno sino junto à janela.
Óstia dormia.
Naquela casa perdida entre as vielas de Óstia, duas sombras permaneciam acordadas junto ao leito de uma estrangeira que, poucas horas antes, lhes era completamente desconhecida.
O alívio da Febre
Uma semana se passou.
Quando a manhã do sétimo dia chegou, Valéria já conseguia permanecer sentada junto à janela, com o menino adormecido no colo. A palidez ainda lhe cobria o rosto e a perna continuava protegida por faixas limpas, mas a febre havia recuado, deixando para trás apenas o cansaço de quem passara dias entre o sono e a vigília.
Chim Lee entrou trazendo uma pequena tigela de infusão e encontrou a janela aberta.
— Hoje está mais frio.
Valéria levou a mão ao tecido que cobria os ombros e sorriu.
— Então preciso sair antes que o frio entre.
Chim Lee olhou para ela, como se quisesse contrariá-la, mas conhecia aquele olhar.
— Só até onde conseguir.
Valéria assentiu.
Depois de beber a infusão, entregou a tigela e permaneceu algum tempo junto à janela. Do lado de fora, a manhã se movia devagar sobre os telhados de Óstia. O ar trazia o cheiro do mar, misturado ao das ervas do jardim, e havia, além dos muros, um rumor contínuo de rodas, vozes e animais que ela não escutava havia muitos dias.
O menino dormia.
Valéria o deixou junto ao leito, acomodado entre os tecidos, e saiu do quarto.
Atravessou a casa devagar, apoiando a mão nas paredes quando a perna lhe lembrava que ainda não estava recuperada por completo. Passou pela cozinha, onde o fogo ardia baixo sob uma panela de barro, e alcançou a porta que dava para fora.
Parou.
Durante alguns instantes, apenas respirou.
O sol tocava as pedras do pátio, e a luz fazia brilhar pequenas gotas de água que ainda permaneciam sobre as folhas. Havia vasos junto às paredes, ervas crescendo em canteiros estreitos e, mais adiante, o início de uma escadaria que subia acompanhando o terreno.
Valéria desceu os primeiros degraus.
Depois parou novamente.
Olhou para cima.
A propriedade se estendia muito além do que conseguira imaginar a partir do quarto. A pedra, os canteiros, as passagens e as varandas apareciam pouco a pouco à medida que a vista se abria, e, mais acima, a casa erguia-se sobre o ponto mais alto do terreno.
Ela apoiou a mão no corrimão de pedra.
Então subiu mais um degrau.
E outro.
Atrás dela, a casa permanecia silenciosa; à frente, a propriedade de Jim Lee começava a revelar-se.
A propriedade dos Lee
Havia naquele pedaço de terra uma espécie de afronta à lógica dos homens de Óstia: enquanto os terrenos planos eram disputados, medidos, cercados e vendidos por valores cada vez maiores à medida que o porto se aproximava, aquele permanecera durante anos entregue às pedras, ao declive e às ervas bravas, uma extensão irregular que ninguém parecia querer, como se a própria terra tivesse sido condenada pela natureza a não servir para coisa alguma.
Jim Lee não viu inutilidade onde os outros viam obstáculo.
Viu espaço.
Comprou o terreno por uma quantia que cabia em suas economias e, quando os primeiros homens começaram a trabalhar ali, as pedras que haviam afastado os compradores passaram a determinar a própria arquitetura da propriedade; o aclive foi preservado, as rochas maiores permaneceram onde estavam, e, acompanhando suas inclinações, Jim mandou abrir escadarias de um lado e de outro, fazendo do desnível uma sucessão de caminhos que conduziam para cima, até a parte mais elevada do terreno, onde ergueu a casa.
O terreno pouco ultrapassava mil metros quando foi comprado, mas Jim compreendeu cedo que uma propriedade não termina necessariamente onde termina a escritura. Aos poucos, adquiriu parcelas vizinhas, algumas estreitas, outras de formato pouco conveniente, até ampliar o espaço ao redor da casa; reservou uma parte para o cultivo das ervas, outra para o jardim, abriu passagens de terra entre os canteiros e deixou que o perfume das plantas se misturasse ao cheiro salgado que vinha do mar, de modo que, em determinadas horas, quando o vento soprava do litoral, era difícil saber onde terminava o jardim e começava a presença do porto.
A casa foi erguida sobre a rocha mais alta.
Não possuía uma frente que se impusesse às demais faces da construção, porque as varandas a contornavam quase inteiramente, acompanhando a pedra e abrindo-se para diferentes direções; quem chegasse por uma das escadarias poderia tomar aquele lado pela entrada principal, enquanto outro, vindo do caminho oposto, encontraria outra varanda, outra porta, outra perspectiva da mesma casa. Havia nela algo de deliberadamente voltado para todos os lados, como se Jim soubesse que, naquela parte de Óstia, nenhuma propriedade poderia permanecer de costas para o movimento que crescia ao seu redor.
Do alto, o mar estava logo adiante.
O porto ficava um pouco mais distante, mas sua presença chegava antes dos navios, trazida pelo rumor das cargas, pelo ranger das rodas, pelos gritos dos trabalhadores, pelo cheiro de peixe, sal, madeira molhada e garum; e, conforme os anos passavam, as construções começaram a se aproximar da propriedade de Jim, primeiro aqui e ali, depois em número suficiente para transformar inteiramente a rua.
Surgiram lojas dos dois lados, encostadas umas às outras, abrindo suas portas desde as primeiras horas da manhã, recebendo carregadores, vendedores, compradores e viajantes, até que o comércio deixasse de parecer uma sucessão de estabelecimentos isolados e adquirisse o ritmo próprio de uma criatura que cresce alimentando-se do movimento dos homens.
A residência de Jim Lee, então, já não parecia estar à margem de Óstia.
Estava dentro dela.
A fachada voltada para a rua era ocupada pelo pequeno estabelecimento onde, desde a manhã até o declínio do sol, mercadorias trazidas por rotas que atravessavam desertos, montanhas e mares mudavam de mãos sem perder inteiramente o perfume das terras de onde provinham; quando as largas folhas das portas de madeira eram abertas contra as paredes, a rua parecia prolongar-se para dentro da loja, e a cidade podia entrar ali sem convite, carregando consigo o rumor áspero das carroças, o pregão dos vendedores, o passo dos animais e a pressa dos homens que iam e vinham entre o porto e as casas de comércio.
Lá dentro, porém, o ruído parecia perder força.
As prateleiras, cuidadosamente ordenadas, sustentavam rolos de seda cujos fios guardavam um brilho semelhante ao da água em repouso, caixas de chá seladas com caracteres que poucos romanos saberiam nomear, pequenos vasos de barro contendo pós, resinas e ervas medicinais, feixes de raízes suspensos nas vigas escuras do teto e delicadas peças de cerâmica de esmalte leitoso, nas quais a claridade se demorava com uma suavidade quase líquida; nada parecia disposto ao acaso, e havia naquela ordem uma disciplina silenciosa, uma espécie de rigor que fazia cada objeto parecer menos uma mercadoria do que uma coisa que finalmente havia encontrado o lugar que lhe pertencia.
Da loja escapava um perfume singular, difícil de confundir com o hálito pesado das tabernas vizinhas, onde pão recém-saído dos fornos, fumaça de carvão, couro curtido, suor de animais e azeite aquecido se misturavam ao pó das ruas; dali vinha uma combinação mais discreta de cânfora, madeira resinosa, folhas secas, cascas aromáticas e ervas maceradas, um aroma que não procurava conquistar quem passava, mas permanecia suspenso sobre a calçada, persistente e quase estrangeiro, como se alguma parte de terras muito distantes tivesse atravessado o mar e decidido permanecer ali.
E, enquanto a rua se adensava diante da loja, a propriedade continuava subindo pela pedra, entre escadarias, canteiros e varandas, até a casa que Jim construíra no ponto mais alto.
Foi assim que o terreno que todos haviam desprezado acabou se tornando uma das partes mais vivas daquela região: embaixo, o comércio; ao redor, as ervas e o jardim; acima, a casa; adiante, o mar.
E Óstia continuava crescendo.
A cada ano, parecia chegar um pouco mais perto.
Valéria adaptava-se bem à nova vida com os Lee. Ajudava na cozinha, cuidava da limpeza da casa, mantinha o quintal em ordem e dedicava parte do tempo à horta. Severius, cada dia mais desperto, já balbuciava, sorria para os três e enchia a casa de alegria com suas pequenas descobertas.
Quando Jim precisava ir a Portus para tratar de negócios, Valéria ficava responsável pela loja. Aproveitava os momentos de menor movimento para limpar e organizar o espaço, separando os pequenos retalhos de tecido por cores e tamanhos, de modo que fossem encontrados com facilidade. Aos poucos, tornava-se parte da rotina da família, contribuindo com seu trabalho e conquistando a confiança dos Lee.
Sentadas à mesa do jardim, durante a primeira refeição do dia, Valéria observou o ventre de Chim, que começava a arredondar-se, e depois os tecidos brancos que a vira bordar nas últimas semanas, enfeitados com delicados fios de seda azul e dourada. Esperou um pouco antes de perguntar:
— Para quem você está bordando?
Chim sorriu, baixou os olhos para o tecido e continuou a costurar por alguns instantes. Depois, pousou a mão sobre o ventre. Valéria acompanhou o gesto e compreendeu.
Nos dias seguintes, algumas mudanças começaram a aparecer pela casa. Novas ervas chegaram com as compras, certos tecidos passaram a ser guardados separadamente e os espaços foram reorganizados para acomodar o que estava por vir. Valéria observava os preparativos e, quando necessário, ajudava no que podia, respeitando os costumes da família e o tempo de cada coisa.
Sem perceber, Valéria começava a compreender a língua dos Lee, primeiro pelas palavras repetidas durante o trabalho, depois pelas conversas e orientações que acompanhavam as tarefas diárias. Aos poucos, os sons antes estranhos ganhavam sentido, e ela já reconhecia expressões que começava a usar naturalmente.
A cada quinze ou trinta dias, Jim Lee atravessava de barco o curto trecho até Portus, certo de que encontraria nos armazéns de Cho Ao as mercadorias de que precisava para abastecer a loja. A viagem raramente tomava mais de meia hora, mas, nos últimos tempos, o retorno lhe custava uma preocupação que o percurso, por si só, não justificava. As sedas eram quase sempre as mesmas, os fios mais finos escasseavam e as encomendas começavam a ultrapassar aquilo que ainda podia oferecer aos clientes.
Cho Ao, seu tio-avô, recebia-o com a cordialidade habitual e repetia a mesma explicação: o filho viria da Ásia para ajudá-lo nos negócios. Jim já ouvira aquela promessa tantas vezes que deixara de perguntar quando o rapaz chegaria.
Não ignorava a idade avançada do velho comerciante, tampouco desconhecia as dificuldades de manter um negócio de pé quando as forças já não acompanhavam as exigências do ofício. O que o inquietava era a dependência em que se encontrava. A loja dos Lee prosperava, os pedidos aumentavam e os clientes procuravam tecidos que ele já não conseguia obter com a regularidade desejada. Continuar a comprar de Cho Ao significava aceitar que o futuro de seus negócios permanecesse sujeito à disposição de um homem que, por mais respeitável que fosse, já não podia garantir o que prometia.
Alexandria surgia como uma alternativa, embora não fosse uma decisão que pudesse tomar com a mesma facilidade com que atravessava até Portus. A viagem pelo Mediterrâneo exigia vários dias, dependia dos ventos e das condições do mar, e uma ida sem planejamento poderia consumir recursos sem produzir resultados duradouros. Comprar uma carga de tecidos seria simples diante do verdadeiro propósito que o levava a considerar a jornada: encontrar comerciantes capazes de fornecer mercadorias de qualidade, negociar preços justos e manter os compromissos assumidos mesmo quando ele estivesse longe.
Sobre a mesa, Jim estendeu a lista de nomes que seu tio lhe havia recomendado. Conhecia a reputação de alguns daqueles homens por ouvir falar de seus negócios, mas sabia que uma indicação, por mais valiosa que fosse, não bastava para entregar a um desconhecido a continuidade de sua loja. Precisaria examinar os tecidos, comparar os preços, observar a maneira como cada comerciante tratava seus clientes e descobrir quais deles dispunham de mercadorias em quantidade suficiente para atender a pedidos regulares. Uma boa negociação podia assegurar uma compra; somente a experiência lhe diria a quem poderia confiar as seguintes.
Foi então que começou a calcular o tempo de que precisaria. Não bastariam alguns dias nos mercados, nem uma sucessão apressada de visitas. Teria de permanecer em Alexandria por semanas, talvez dois meses, se quisesse conhecer os negociantes, estabelecer acordos e organizar o transporte das mercadorias até Portus. Pretendia negociar remessas quinzenais pelo Mediterrâneo, de modo que a loja recebesse novos tecidos sem depender de suas viagens pessoais. Sabia que os ventos poderiam atrasar uma embarcação e que nenhum acordo impediria todos os imprevistos, mas uma rede de fornecedores confiáveis lhe permitiria distribuir os riscos e evitar que a falta de uma mercadoria comprometesse todo o negócio.
Naquela manhã, ao conferir novamente os registros do estoque, percebeu que a decisão já estava tomada. Permanecer em Portus, esperando que Cho Ao cumprisse uma promessa antiga, significava adiar um problema que só se tornava maior. Alexandria exigiria dinheiro, tempo e discernimento, mas lhe oferecia a possibilidade de construir algo mais seguro do que a dependência de um único fornecedor. Fechou os registros e reuniu as anotações que levaria consigo.
Restava resolver uma questão: durante sua ausência, alguém precisaria cuidar da loja, atender aos clientes e manter a organização que sustentava os negócios da família. Jim ergueu os olhos para o interior do estabelecimento, onde Valéria trabalhava entre os tecidos, já familiarizada com as prateleiras, os pedidos e as pequenas exigências do comércio. Observou-a por alguns instantes, ponderando o que até então talvez não tivesse considerado por inteiro. A viagem lhe permitiria ampliar seus negócios; a confiança que depositasse em Valéria revelaria se também podia ampliar as responsabilidades que lhe cabiam dentro daquela casa.
Naquela noite, Jim permaneceu à mesa por mais tempo do que de costume, examinando as anotações que levaria consigo. Chim e Valéria costuravam perto da lamparina quando uma corrente de ar atravessou a janela. Chim ajeitou o manto sobre os ombros e queixou-se da friagem. Valéria interrompeu o bordado, levantou-se e fechou a janela, prendendo o ferrolho antes de retornar ao seu lugar.
— Alexandria poderá nos dar o que Portus já não consegue oferecer — disse Jim, sem tirar os olhos dos registros. — Mas não quero apenas comprar. Preciso conhecer os comerciantes, verificar a qualidade das mercadorias e descobrir por onde passam antes de chegarem aos mercados.
Chim ergueu os olhos.
— Quanto tempo ficará fora?
— Algumas semanas, talvez mais, se as negociações exigirem. Tudo dependerá dos ventos e do tempo que eu precisar para encontrar bons fornecedores.
Ela voltou ao bordado, mas, depois de alguns instantes, tornou a perguntar:
— E a loja?
Jim fechou os registros e olhou para Valéria, que retomara o trabalho junto à lamparina.
— Ficará em boas mãos.
Valéria levantou os olhos do tecido, surpreendida pela resposta, mas não disse nada. Jim tampouco se explicou. A confiança que lhe oferecia não vinha acompanhada de elogios ou promessas; estava contida na própria decisão de deixar sob seus cuidados uma parte importante dos negócios da família.
Nos dias seguintes, a viagem tomou forma. Jim separou os registros que levaria consigo, reviu os pedidos pendentes e preparou uma relação das mercadorias que precisava adquirir: sedas de diferentes qualidades, fios mais finos, agulhas e fitas que começavam a faltar. Consultou os preços anotados nas últimas compras, refez os cálculos e organizou as informações dos comerciantes que pretendia procurar em Alexandria.
Na véspera da partida, chamou Valéria para lhe dar as últimas orientações.
— Você ficará com Chim. Já conhece a casa, sabe onde encontrar os tecidos e começa a reconhecer as pessoas que entram pela porta. Quero que cuide da loja com atenção e mantenha os registros em ordem. Se tiver dúvidas, converse com Chim antes de tomar uma decisão. Confio no seu discernimento.
Valéria escutou sem interrompê-lo.
— Jimim poderá ajudá-la no que for preciso. Não carregue os fardos mais pesados, pois ainda está se recuperando, e tenha cuidado ao circular pelo terreno debaixo das árvores. Deixe a limpeza dessa parte da propriedade por conta dele.
Ela assentiu, mas uma dúvida lhe ocorreu antes que Jim se afastasse.
— E se alguém vier cobrar uma dívida?
Jim sorriu discretamente. — Primeiro, descubra se ele realmente tem alguma coisa a receber.
A resposta arrancou um sorriso de Valéria. Jim voltou aos preparativos, satisfeito por vê-la compreender que cuidar da loja também exigiria atenção às pessoas, e não apenas às mercadorias.
Quando ele partiu para Alexandria, Valéria passou a dedicar mais tempo ao balcão. No início, limitava-se a auxiliar Chim no atendimento e na separação dos tecidos; pouco a pouco, começou a reconhecer os pedidos, calcular as quantidades, distinguir os pesos e as medidas e memorizar os nomes dos clientes que levavam mercadorias para pagar mais tarde.
As anotações nas tábuas de registro deixaram de ser simples nomes e números: cada uma passou a corresponder a um rosto, e cada rosto, a hábitos que ela aprendia a reconhecer.
Alguns homens examinavam os tecidos antes de perguntar o preço; outros queriam saber o valor primeiro e só então fingiam avaliar a mercadoria, como se a qualidade da seda pudesse mudar conforme a quantia exigida. Havia quem regateasse por costume, quem realmente não tivesse recursos para pagar e quem chegasse à loja com uma história cuidadosamente preparada para despertar compaixão. Valéria aprendeu a escutar sem acreditar de imediato, a observar sem demonstrar desconfiança e a distinguir, tanto quanto lhe era possível, a necessidade verdadeira da desculpa conveniente.
A loja começou a revelar-lhe um mundo que ia muito além do comércio.
Cada peça que atravessava o balcão atendia a uma necessidade ou alimentava um desejo. Para um homem, o tecido podia ser apenas parte de uma encomenda; para uma mulher, talvez representasse a roupa que vestiria um filho, uma ocasião aguardada havia meses ou uma compra que assumiria como dívida, sem saber ao certo de onde viria o dinheiro para pagá-la.
Algumas demoravam os dedos sobre as sedas mais caras, examinando a trama com atenção, embora soubessem que não poderiam levá-las. Não perguntavam pelo preço, nem tentavam negociar. Pareciam apenas querer conhecer de perto aquilo que permanecia fora de seu alcance.
Valéria reconhecia aqueles gestos. Já os vira em outros lugares, sob circunstâncias diferentes, entre pessoas que pouco tinham em comum além das necessidades que procuravam satisfazer. Na loja dos Lee, mudavam os tecidos, as moedas e as palavras, mas ela reconhecia a hesitação de quem precisava escolher, o cuidado de quem não podia desperdiçar e a esperança de quem desejava oferecer algo melhor à própria família.
Com o passar dos dias, compreendeu que atender a um cliente exigia mais do que conhecer a mercadoria e calcular seu preço. Era preciso perceber o que ele procurava, o que podia pagar e aquilo que não conseguia dizer abertamente. Nem sempre acertava, mas começava a entender que o comércio, como tantas outras relações humanas, dependia de uma combinação delicada de atenção, memória e discernimento.
O Grande pedido
O grande Pedido
Foi numa dessas noites que bateram à porta dos fundos.
A loja já estava fechada, as portas da frente permaneciam cerradas para a rua e as últimas lamparinas começavam a perder a chama quando Valéria reconheceu as vozes do outro lado. Era a mãe da jovem que se preparava para casar, acompanhada pelas mulheres da família, cuja chegada se anunciava por um murmúrio de conversas e risos contidos, antes mesmo que a porta fosse aberta.
Valéria franqueou-lhes a passagem e recebeu primeiro as mulheres mais velhas, depois as moças, que entraram acompanhadas de criadas e trazendo uma animação tão viva que, em poucos instantes, a quietude da loja cedeu lugar ao rumor de passos, saudações e comentários apressados.
— Perdoe-nos a hora — disse a mãe da noiva, sorrindo diante da própria inconveniência. — Mas elas não quiseram esperar até amanhã.
— Amanhã talvez já tenham escolhido tudo de novo — respondeu Valéria.
As moças riram, e uma delas, tomando a observação como uma provocação, apressou-se em protestar:
— Não mudaremos de ideia!
— Então será mais fácil para mim.
Valéria pediu que se acomodassem nos bancos, colocou água para aquecer e preparou uma infusão, enquanto as jovens se aproximavam dos baús, tentando adivinhar o que havia dentro antes mesmo que as amarras fossem desfeitas. Quando levantou a tampa do primeiro, todas se inclinaram para ver, algumas apoiando as mãos na borda do balcão, outras esticando o pescoço por cima dos ombros das irmãs, receosas de perder o instante em que as primeiras peças fossem reveladas.
Valéria retirou uma das sedas e deixou que o tecido deslizasse lentamente sobre a madeira, revelando, à luz das lamparinas, um brilho profundo que parecia mudar conforme as dobras se abriam.
— Esta! — exclamou uma das moças.
— Você nem viu a outra — observou a irmã.
— Não preciso.
— Precisa, sim. Como vai escolher melhor sem comparar?
A segunda peça surgiu mais espessa, de brilho discreto e caimento diferente, e logo uma das jovens a acomodou sobre os ombros, voltando-se para as demais à espera de aprovação. Outra já havia retirado uma fita do balcão e a aproximava da seda, comparando as cores com a seriedade de quem examinava uma questão de grande importância.
— Esta combina.
— Com essa cor? — perguntou a noiva.
— Com a outra.
— Qual outra?
— Ainda não sei.
Valéria riu e começou a medir o tecido, estendendo-o sobre a madeira com movimentos firmes, atentos à trama e às margens.
— Primeiro escolham a seda; depois decidiremos o restante.
Chim Lee entrou trazendo a infusão fumegante, distribuiu as tigelas e voltou às suas tarefas, enquanto as bebidas passavam de mão em mão sem interromper o exame das mercadorias. Uma moça bebia enquanto mantinha uma faixa diante do rosto; outra havia colocado uma fita estreita sobre os cabelos e consultava as irmãs sobre o lugar mais adequado para usá-la, se no vestido ou no penteado. Duas discutiam ao mesmo tempo sobre a mesma peça, cada qual defendendo sua preferência, até que Valéria abriu outro fardo e a curiosidade suspendeu a disputa.
Foi então que uma das jovens, inclinada sobre as sedas recém-desdobradas, levou a mão ao nariz e espirrou com tanta força que precisou recuar um passo, apertando os olhos, enquanto as irmãs se afastavam por um instante, entre o susto e o riso.
— Foi o pó do fardo — justificou ela, ainda com a voz alterada.
— Ou a seda que não lhe agradou — brincou uma das irmãs.
— Se fosse esse o problema, eu teria espirrado desde a primeira peça.
A resposta provocou novas risadas. Valéria lhe ofereceu um pano limpo e esperou que a jovem se recompusesse antes de tornar a estender o tecido, sem dar ao incidente maior importância do que merecia. A moça aceitou o pano, agradeceu e logo voltou à escolha, agora mantendo certa distância dos fardos que acabavam de ser abertos.
A loja começava a parecer pequena para tantas mãos.
Enquanto uma peça era examinada, Valéria media outra, cortava o comprimento escolhido, enrolava o tecido restante e anotava na tábua a quantidade retirada do estoque. Aproximava duas cores, dispunha uma fita sobre ambas e afastava-se um pouco para observá-las à luz da lamparina; quando alguma das jovens lhe apresentava uma trança ou um ornamento, experimentava-o junto à seda antes de emitir sua opinião, examinando não apenas a beleza de cada elemento, mas também o efeito que produziam quando reunidos.
— Esta fica melhor — disse, afastando uma das fitas.
— Por quê?
Valéria tocou de leve a borda do tecido, alisando uma dobra que se recusava a desaparecer.
— Porque não disputa com a seda. O vestido deve ter harmonia; se cada detalhe exigir que olhem para ele primeiro, nenhum deles permitirá que se veja o conjunto.
A jovem tornou a examinar as duas peças, como se procurasse descobrir o que lhe escapara.
— Você sempre fala assim?
— Assim como?
— Como se já soubesse!
Valéria ergueu os olhos, divertida.
— Nem sempre sei. Mas posso olhar outra vez.
A resposta provocou novas risadas, e até a mãe da noiva, que acompanhava as escolhas com a compostura de quem procurava impedir que a alegria das filhas se transformasse em desordem, deixou escapar um sorriso.
Enquanto as moças se afastavam para examinar outro fardo, a mãe permaneceu junto ao balcão, observando Valéria trabalhar. Já havia reparado, nas visitas anteriores, na elegância discreta de suas roupas, sempre bem cortadas e adornadas com bordados delicados, cuja beleza parecia residir justamente na moderação dos desenhos e na precisão dos pontos. Agora, vendo-a combinar cores, avaliar a queda das sedas e afastar os ornamentos que julgava excessivos, compreendeu que aquele cuidado não se limitava à escolha das mercadorias: havia nele uma habilidade que se revelava tanto no que Valéria acrescentava quanto naquilo que decidia deixar de fora.
Quando a filha se aproximou para comparar duas peças, a mulher aproveitou a ocasião e inclinou-se ligeiramente sobre o balcão.
— Valéria, posso lhe pedir uma coisa?
— Claro.
A mãe passou os dedos pela seda escolhida, sentindo a textura entre o polegar e o indicador antes de tornar a pousá-la sobre a madeira.
— Tenho observado suas roupas desde que começamos a frequentar a loja. Você tem muito bom gosto. Os cortes são elegantes, e seus bordados são delicados, sem excesso de enfeites. Gostaria que fosse você a bordar o vestido de minha filha.
Valéria interrompeu por um instante o movimento das mãos e voltou o olhar para a jovem, que se aproximara ao ouvir a conversa. A noiva não parecia surpresa com o pedido; ao contrário, examinava as próprias escolhas com uma atenção renovada, como se a possibilidade de vestir uma peça feita especialmente para ela já tivesse começado a tomar forma.
— Já escolheu o tecido? — perguntou Valéria.
— Ainda não — respondeu a moça. — Mas, se minha mãe conseguir o que deseja, acho que também já sei quem quero que cuide do bordado.
Valéria sorriu, examinou as sedas espalhadas sobre o balcão e tornou a olhar para as duas, ponderando o trabalho que a encomenda exigiria.
— Então precisaremos escolher com cuidado. O bordado deve acompanhar o tecido e o corte do vestido, e quero que você se sinta bem nele, sem que os enfeites lhe impeçam os movimentos.
— Confio no seu julgamento — disse a mãe.
— E eu confio que ela não me fará usar um vestido que pareça pertencer a outra pessoa — acrescentou a noiva.
— Nesse caso, já temos duas condições importantes — respondeu Valéria. — A primeira é que o vestido lhe sirva; a segunda, que você se reconheça nele.
A jovem pareceu satisfeita, e a mãe assentiu, contente por ver seu pedido recebido com tanta naturalidade. Não houve necessidade de prolongar a conversa. Valéria tornou a ocupar-se das sedas, enquanto a noiva, agora mais interessada nos detalhes do que antes, passou a examinar as cores à procura daquela que melhor corresponderia ao vestido que começava a imaginar.
A escolha prosseguiu com renovado cuidado. Reuniram seda para a roupa da noiva, outras peças para as mulheres da família, tecidos menores para as crianças, fios destinados aos bordados, fitas, agulhas e ornamentos. Valéria separava cada conjunto, media novamente, cortava o necessário e registrava as quantidades na tábua, sem permitir que a animação das moças confundisse as contas. Quando duas queriam o mesmo tecido, estendia a medida diante delas, mostrava o que ainda restava no rolo e procurava outra possibilidade, até que a disputa cedesse lugar a uma escolha aceitável para ambas.
Entre uma conta e outra, ria com elas, ouvia suas objeções e aceitava que examinassem novamente uma peça já escolhida, embora seus olhos, atentos ao movimento das mãos e ao avanço das horas, não perdessem de vista o trabalho que se acumulava sobre o balcão.
A mãe da noiva acompanhava os preparativos com crescente satisfação. A filha já não discutia apenas as cores e as fitas; perguntava também sobre os pontos do bordado, o lugar em que seriam aplicados e a maneira como poderiam acompanhar o desenho do tecido sem sobrecarregá-lo. Valéria respondia conforme as escolhas avançavam, explicando o necessário, mas reservando o julgamento definitivo para quando tivesse diante de si o corte do vestido e pudesse avaliar a composição inteira.
Ao final, restaram sobre o balcão várias pilhas de tecidos cuidadosamente dobrados, cada qual destinada a uma parte da encomenda. Valéria reuniu os registros, refez as somas e permaneceu por alguns instantes diante da última linha, conferindo as quantidades antes de encerrar a venda. Tornou a examinar os números, percorreu com o olhar as pilhas dispostas sobre a madeira e percebeu que a soma das escolhas ultrapassava o que havia disponível na loja.
— Ainda temos uma questão — disse, por fim.
As moças se aproximaram do balcão, e a noiva, que até então acompanhara cada escolha com crescente satisfação, inclinou-se para examinar a tábua.
— O que foi? — perguntou.
Valéria indicou os tecidos reunidos diante delas.
— Vocês escolheram mais do que temos em estoque.
A jovem percorreu as peças com os olhos, como se a diferença pudesse ser encontrada entre uma dobra e outra.
— Então não podemos levar tudo?
— Podem. Mas precisarei providenciar uma parte da encomenda.
A mãe da noiva compreendeu primeiro a consequência daquela observação e se voltou para Valéria com interesse renovado.
— Você consegue conseguir os tecidos que faltam?
Valéria pousou a mão sobre a tábua, junto aos registros.
— Consigo, desde que façamos o pedido a tempo.
— E chegarão antes do casamento?
— Farei o necessário para que cheguem.
A noiva abriu um sorriso, satisfeita com a resposta, e as demais pareceram considerar encerrada a única dificuldade capaz de ameaçar suas escolhas.
— Então está combinado.
Valéria retomou o trabalho, dobrando os tecidos, separando as encomendas e conferindo o que deveria permanecer na loja até a chegada das peças faltantes. A mãe confirmou os detalhes do vestido com a filha, enquanto as criadas recolhiam as tigelas vazias e as jovens voltavam a discutir fitas e ornamentos, agora tranquilas, como se a questão do estoque já estivesse resolvida e o casamento pudesse prosseguir sem outros obstáculos.
Quando finalmente se prepararam para partir, a loja recuperou aos poucos a ordem, embora ainda conservasse, entre as dobras da seda e o calor das lamparinas, alguma coisa da animação que aquelas mulheres haviam trazido consigo. Sobre a tábua, as contas estavam conferidas; entre as encomendas, porém, permanecia o compromisso de Valéria de providenciar os tecidos restantes e preparar o bordado que daria ao vestido da noiva sua forma definitiva.
Quando a porta dos fundos se fechou atrás das últimas clientes, a loja voltou ao silêncio. Valéria olhou para os baús abertos, as prateleiras desfalcadas e a tábua onde registrara cada medida, cada quantidade vendida e cada peça que ainda faltava. Quase tudo havia sido levado naquela noite. O restante da encomenda, porém, dependeria de mercadorias que ela ainda precisava encontrar.
Refez as contas à luz da lamparina, abriu os fardos, examinou os tecidos restantes e tornou a somar as medidas. Mesmo vendendo tudo o que podia sair naquela noite, ainda lhe faltariam sedas, fios e fitas para completar os pedidos. Sentou-se diante da tábua e anotou as quantidades necessárias, as medidas, os preços que estava disposta a pagar e os artigos que precisariam vir de Alexandria. Conferiu cada número duas vezes, percorreu a lista com a ponta do dedo e, ao chegar à última linha, levantou-se.
Foi ao quarto de Chim. Encontrou-a adormecida, com Severius junto ao corpo e os pequenos dedos enroscados em suas madeixas. Por alguns instantes, permaneceu à porta, observando a respiração tranquila de ambos e o ventre arredondado da amiga. Depois se aproximou da janela, por onde uma claridade pálida começava a diluir a escuridão das paredes.
A manhã chegara.
Geradius embarcaria cedo.
Valéria apertou a tábua contra o peito e saiu.
Óstia despertava enquanto ela atravessava as ruas. Das padarias vinha o cheiro do pão recém-saído dos fornos, misturado ao aroma de gordura, especiarias e carne que começava a ser preparada nas bancas. Homens sonolentos empurravam carroças carregadas de ânforas, escravos seguiam curvados sob o peso das sacarias e estivadores apressavam-se em direção ao cais. De algumas portas abertas escapavam vozes, tosses, água despejada sobre as pedras e o ruído seco das primeiras ferramentas.
Valéria caminhava depressa, desviando-se dos carregadores e protegendo a tábua sempre que alguém passava rente a ela. Sentia a umidade das ruas sob os pés e o ar salgado que vinha do porto, enquanto o movimento da cidade se adensava à medida que se aproximava das docas.
Ali, cordas arrastavam-se sobre as pedras, as madeiras rangiam sob o peso das cargas e os homens gritavam uns para os outros, coordenando o embarque das mercadorias. O cheiro do rio, do peixe e do lodo misturava-se ao das especiarias vindas de terras que Valéria conhecia, até então, apenas pelos nomes.
Foi entre os homens que preparavam a travessia que avistou Geradius. Ele conferia as sacarias e examinava as marcas nos fardos quando ouviu o próprio nome.
— Geradius!
O rapaz voltou-se. Valéria chegou até ele ainda recuperando o fôlego e lhe estendeu a tábua.
— Preciso que leve isto a Alexandria.
Ele recebeu o registro e abriu-o ali mesmo.
— Para Jim?
— Para ele. Preciso que providencie essas mercadorias e as envie assim que puder.
Geradius percorreu as linhas com os olhos, demorando-se nas quantidades anotadas.
— É muita coisa.
— É uma encomenda que prometi entregar antes do casamento.
Ele ergueu o rosto.
— E prometeu sem ter todas as mercadorias?
— Prometi porque acredito que conseguirei encontrá-las.
Geradius voltou a examinar a lista, agora com maior atenção.
— Onde encontro Jim?
— Na pensão em que está hospedado. Diga que a encomenda veio da loja e que preciso receber as mercadorias antes da data marcada.
O rapaz fechou a tábua, mas não a devolveu imediatamente.
— Valéria, parte desses artigos talvez possa ser encontrada em Portus. Você não precisa esperar que tudo venha de Alexandria.
Ela hesitou. Chim lhe havia indicado a distribuidora de Cho Ao, mas a lembrança das últimas compras de Jim ainda lhe inspirava cautela.
— Você conhece algum lugar onde eu possa encontrar sedas de boa qualidade?
— Conheço comerciantes que trabalham com tecidos vindos de diferentes regiões. Vale a pena procurar antes de fazer um pedido tão grande.
Valéria considerou a sugestão. Se conseguisse parte das mercadorias em Portus, poderia adiantar a encomenda e deixar para Jim apenas aquilo que realmente precisasse vir de Alexandria.
— Vou tentar ir até lá — respondeu. — Mas não deixe de entregar a lista a Jim. Há tecidos e fios que ainda não consegui encontrar, e quero que ele providencie essas novidades.
Geradius sorriu de lado.
— Direi que Valéria já escolheu por ele.
Ela quase sorriu.
— Diga apenas que preciso das mercadorias que estão na lista.
O rapaz guardou a tábua entre as roupas e voltou-se para os homens que terminavam de preparar a carga. Valéria permaneceu por alguns instantes junto ao cais, acompanhando o movimento dos carregadores e as últimas providências para a partida. Quando a agitação a obrigou a recuar, tomou o caminho de volta.
Levava consigo uma decisão ainda por cumprir. Em Alexandria, Jim receberia o pedido e poderia providenciar o que faltava; em Portus, ela procuraria os tecidos que talvez conseguisse obter mais depressa. O prazo da encomenda continuava correndo, e Valéria teria de fazer sua parte para honrar a palavra que dera.
Capítulo — As Mercadorias de Terras Distantes
A viagem a Portus começou a tomar forma quando Valéria expôs a Chim Lee os motivos que a levavam à procura de novos fornecedores. A encomenda do vestido de noiva exigia tecidos que já rareavam na loja, e seria imprudente assumir um compromisso daquela importância sem antes conhecer as possibilidades de reposição. Chim escutou suas ponderações, examinou os detalhes da encomenda e, por fim, autorizou a partida. Havia, contudo, algo que lhe merecia atenção: o céu carregado sobre o litoral, onde nuvens escuras se acumulavam, anunciando uma mudança no tempo. Recomendou-lhe, portanto, que não empreendesse a viagem de volta sob chuva intensa; se a tormenta sobreviesse, o melhor seria passar a noite em Portus e aguardar a bonança, pois a urgência de um negócio não justificava os riscos de uma travessia imprudente.
Chim Lee não se contentou em indicar-lhe o caminho. Preparou uma carta destinada ao tio, Cho Ao, comerciante estabelecido em Portus, na qual lhe apresentava Valéria e recomendava que a acolhesse com a consideração devida a alguém que chegava sob sua confiança.
Deu-lhe instruções para alcançar a região comercial e orientou-a a entregar a carta assim que entrasse na loja, antes de iniciar qualquer negociação. O nome de Cho Ao era conhecido entre os comerciantes e fornecedores que mantinham relações com a família, e Chim confiava que aquela apresentação lhe facilitaria o acesso às mercadorias e aos contatos de que necessitava.
Valéria acomodou a carta entre seus pertences, conferiu o dinheiro reservado às compras e examinou uma última vez as anotações da encomenda, atenta às quantidades, aos tipos de tecido e aos prazos que precisaria negociar. Não lhe bastava regressar com algumas amostras ou a promessa de uma remessa futura; precisava conhecer a disponibilidade das peças, assegurar o fornecimento nas medidas necessárias e estabelecer quando os tecidos poderiam chegar a Óstia.
Na manhã seguinte, partiu com os preparativos concluídos e o pensamento voltado para os negócios, levando consigo a prudência de quem conhecia o propósito da viagem, embora ainda não pudesse prever as circunstâncias que a aguardavam em Portus.
O trajeto até Portus foi feito por água. A embarcação seguia carregada de mercadorias e transportava alguns passageiros, cujos pertences eram acomodados nos espaços que restavam entre os volumes. Valéria encontrou um lugar onde pudesse permanecer sem atrapalhar o trabalho dos tripulantes e, durante a travessia, observou a maneira como conferiam as amarras, distribuíam o peso da carga e se comunicavam sempre que uma manobra exigia atenção.
O movimento do barco alterava a posição de alguns fardos, obrigando um dos homens a verificar novamente as cordas, enquanto outro examinava a passagem entre os volumes para garantir que ninguém precisasse atravessá-la às pressas.
À medida que avançavam, a margem se modificava diante de seus olhos, e o movimento das embarcações, dos trabalhadores e das estruturas portuárias anunciava a importância daquele lugar para o comércio. Portus não se apresentava apenas como um ponto de chegada. Ali, as mercadorias eram recebidas, conferidas, armazenadas e encaminhadas a outros destinos, num trabalho que dependia de muitos homens e de uma sucessão de tarefas cuja ordem nem sempre era percebida por quem se limitava a comprar o que encontrava nas lojas.
Valéria pensou nas sedas que costumava estender sobre o balcão de Óstia e nas mãos que haviam trabalhado para produzi-las, muito antes que chegassem às suas prateleiras. Entre a fabricação de um tecido e sua venda, havia distâncias, negociações e despesas que raramente apareciam no preço anunciado ao cliente. A viagem começava a lhe mostrar, de maneira concreta, uma parte desse percurso.
Ao desembarcar, procurou as indicações que Chim Lee lhe dera e seguiu em direção à região comercial. Precisou confirmar o caminho com alguns trabalhadores, pois os armazéns e as lojas se sucediam em ruas movimentadas, onde carregadores transportavam fardos, negociantes examinavam registros e compradores se detinham diante das mercadorias expostas. O ruído das rodas sobre as pedras misturava-se às vozes dos vendedores e às ordens daqueles que precisavam liberar a passagem para os carregamento.
Caminhou sem se deixar apressar pelo movimento. Levava consigo uma carta cuja importância não dependia do tamanho do documento, e preferia chegar ao destino com a atenção preservada a desperdiçá-la tentando observar tudo de uma vez. Quando finalmente reconheceu o estabelecimento descrito por Chim Lee, conferiu o nome da loja e retirou a carta de onde a guardara, protegida do atrito com os demais pertences.
A entrada dava para um espaço comercial organizado com cuidado. Os tecidos ocupavam parte das prateleiras e dos suportes, alguns enrolados em peças compactas, outros dispostos de modo que suas cores e tramas pudessem ser examinadas. Havia caixas de madeira, pequenos recipientes, adornos e objetos cuja função Valéria não identificou imediatamente. A variedade não parecia resultar de uma acumulação desordenada; cada grupo de mercadorias tinha seu lugar, e até as peças menores estavam acomodadas de maneira a facilitar o manuseio.
obrigação que ele não cogitava deixar de cumprir. Valéria agradeceu e aceitou a oferta. Trouxeram-lhe a bebida numa tigela, acompanhada de pequenas porções de alimento, e Tsung esperou que ela se acomodasse antes de retomar a conversa.
O lugar escolhido ficava suficientemente afastado da entrada para que os clientes não a incomodassem, mas permitia observar parte do estabelecimento. Foi então que Valéria percebeu a variedade de mercadorias expostas. Os rolos de seda ocupavam as prateleiras em cores e desenhos distintos, alguns tão delicados que pareciam guardar a luz entre os fios, enquanto outros, mais encorpados, exibiam bordados e padrões que ela não se lembrava de ter visto nas lojas de Óstia. Havia também caixas recém-abertas, tecidos dobrados em pilhas cuidadosas e artigos dispostos com uma ordem que facilitava a escolha dos compradores. O interior parecia ter recebido atenção recente, e a abundância de produtos sugeria que o comércio atravessava uma fase muito diferente daquela que ela conhecera por relatos.
Enquanto repousava, Valéria percebeu que os ajudantes trabalhavam sob a orientação de Kim, que conferia a disposição de uma mercadoria, respondia a uma pergunta sobre o preço de outra e verificava as anotações de um carregamento recém-recebido. Não elevava a voz nem precisava repetir as instruções. Os homens pareciam conhecer suas tarefas, e ele intervinha apenas quando alguma decisão exigia sua presença.
Havia, naquela maneira de conduzir a loja, uma disciplina que lhe chamou a atenção. Kim Ao era jovem, mas não tratava a responsabilidade como um encargo provisório que lhe coubesse suportar até o retorno do pai.
Conhecia a disposição das mercadorias, sabia a quem perguntar sobre cada remessa e não respondia com segurança quando lhe faltavam informações. Valéria observou que ele consultou um registro antes de confirmar a quantidade de determinado tecido, preferindo verificar os números a oferecer uma resposta apressada.
Quando terminou de comer, agradeceu novamente pela acolhida e explicou a razão de sua visita. Trazia uma encomenda que precisava completar e desejava conhecer as mercadorias disponíveis, sobretudo os tecidos que poderiam servir ao vestido de uma noiva e aos bordados que se comprometera a executar.
Kim ouviu com atenção e pediu que lhe mostrasse as anotações. Não examinou apenas as quantidades; perguntou sobre o tipo de tecido escolhido, o uso pretendido e a necessidade de manter certa harmonia entre a seda, o corte e os ornamentos. Valéria respondeu, explicando que precisava encontrar materiais de qualidade, mas também adequados ao trabalho que faria, pois, um tecido podia ser belo no rolo e revelar dificuldades quando fosse cortado ou bordado.
— Nesse caso, será melhor que veja algumas peças antes de decidir — disse Kim.
— Recebemos mercadorias de diferentes procedências, e nem todas servem aos mesmos trabalhos. Posso lhe mostrar as sedas mais leves, as de trama mais firme e alguns tecidos que chegaram recentemente por intermédio de nossos fornecedores.
Conduziu-a às prateleiras do fundo, onde os rolos estavam dispostos em grupos. Retirou primeiro uma seda de superfície lisa e brilho delicado, depois outra cuja trama parecia mais encorpada. Valéria examinou ambas, passou os dedos sobre as fibras e aproximou o tecido da luz para observar a regularidade dos fios. Kim não a apressou. Quando ela perguntou sobre a resistência de uma das peças, explicou o que sabia a respeito de sua fabricação e reconheceu que precisaria consultar os registros para confirmar a procedência exata.
— Prefiro verificar antes de lhe dar uma informação incompleta — acrescentou.
Valéria aprovou a resposta com um leve movimento da cabeça. Conhecia comerciantes capazes de descrever qualquer mercadoria como a melhor que já havia passado por suas mãos; aquele jovem, ao contrário, parecia compreender que a confiança de um cliente dependia também daquilo que se recusava a afirmar sem certeza.
Kim mostrou-lhe então outras peças, algumas mais delicadas, outras destinadas a trabalhos em que a resistência importava tanto quanto a aparência. Havia bordados feitos com grande minúcia, pequenos adornos e caixas trabalhadas cuja superfície apresentava desenhos que Valéria nunca vira em Óstia.
Certas mercadorias traziam formas e acabamentos que denunciavam uma tradição artesanal distinta daquela a que estava habituada, e outras despertavam sua curiosidade justamente por não lhe permitirem reconhecer de imediato o modo como haviam sido produzidas.
— Muitas dessas peças vêm de terras muito distantes — explicou Kim. — Nem sempre chegam diretamente de onde foram fabricadas. Algumas passam por diversos comerciantes, e cada um conhece apenas uma parte do caminho.
Valéria deteve-se diante de um tecido cujos fios pareciam mudar de tonalidade conforme o ângulo em que eram observados.
— E como sabe de onde vieram?
Kim indicou uma pequena anotação presa ao registro da remessa.
— Pelas informações do fornecedor, pelas marcas que acompanham os volumes e pelos relatos dos mercadores que os entregam. Nem tudo pode ser confirmado, mas procuramos distinguir o que sabemos daquilo que apenas nos foi contado.
A resposta levou Valéria a examinar a peça com maior cuidado. Pensou em quantas pessoas poderiam ter tocado aquele tecido antes que chegasse à loja e em quantas decisões haviam determinado seu percurso. O objeto repousava agora sobre um suporte de madeira, ao alcance de suas mãos, mas sua presença ali dependia de uma cadeia de trabalhos que se estendia muito além do porto.
Kim prosseguiu, apresentando-lhe algumas das novidades recebidas pelas rotas comerciais do Oriente. Não prometeu que todas seriam adequadas ao vestido, nem tentou convencê-la a comprar aquilo que lhe parecia mais raro. Limitou-se a mostrar as possibilidades, explicar as diferenças e deixar que Valéria examinasse cada peça no seu próprio ritmo.
Foi nesse momento que ela compreendeu que a visita poderia render mais do que a reposição dos tecidos em falta. A loja de Cho Ao oferecia acesso a materiais que talvez não encontrasse com facilidade em Óstia, e Tsung Lee Ao, além de conhecer o estoque, parecia disposto a estabelecer uma relação comercial baseada na clareza das informações e no respeito pela necessidade de quem comprava.
Valéria tornou a consultar suas anotações e separou mentalmente as peças que mereciam uma avaliação mais demorada. Ainda precisava conhecer os preços, as quantidades disponíveis e os prazos para o envio das mercadorias. A hospitalidade com que fora recebida tornara a visita agradável, mas ela não perdera de vista o motivo que a trouxera até Portus.
Tsung Lee percebeu que estava pronta para passar aos negócios e chamou um ajudante para trazer os registros das últimas remessas.
— Agora que já descansou, senhora Valéria, podemos examinar o que será possível providenciar para sua encomenda.
Ela agradeceu mais uma vez e se aproximou do balcão. A viagem, que começara com uma carta de apresentação e a necessidade de completar uma encomenda, abria diante dela um campo de possibilidades que ainda precisaria aprender a avaliar. Sobre a madeira, as sedas aguardavam sua decisão, enquanto os registros começavam a revelar o que poderia ser adquirido, em que condições e dentro de qual prazo.
A mesa de trabalho foi sendo ocupada por sedas de diferentes tramas, tecidos de linho, peças de lã mais fina, fitas tecidas e pequenos rolos de material destinado aos acabamentos.
Valéria examinou a densidade das fibras entre os dedos, ergueu alguns trechos contra a luz que entrava pela porta e comparou as tonalidades, procurando imaginar como cada tecido se comportaria depois de cortado, ajustado ao corpo e submetido ao peso do bordado. Uma seda excessivamente leve poderia ceder sob os ornamentos; outra, de trama mais firme, ofereceria melhor sustentação, embora exigisse maior cuidado no trabalho da agulha. A escolha não dependia apenas da aparência, e ela sabia que um vestido podia perder a elegância quando o tecido e a ornamentação disputavam entre si a atenção de quem o observava.
Depois dos tecidos vieram os aviamentos. Kim mandou dispor sobre a mesa meadas de linha, agulhas, fitas de diferentes larguras, tiras apropriadas aos acabamentos e pequenas caixas com contas de vidro, pedras ornamentais e elementos metálicos. Valéria separou as linhas segundo a resistência e a finalidade, examinou os fios mais delicados destinados ao bordado e escolheu as pedrarias com parcimônia, recusando algumas peças que, embora vistosas, tornariam o conjunto pesado. Precisava de materiais que permitissem trabalhar os contornos do vestido sem encobrir a beleza do tecido, e de fitas que acompanhassem as linhas do corte sem criar volumes desnecessários.
Tsung Lee acompanhava suas escolhas sem interferir no trabalho que ela dominava. Quando Valéria perguntava pela procedência de determinada mercadoria, ele consultava os registros ou chamava o empregado responsável pelo estoque, preferindo verificar uma informação a responder com uma segurança que não pudesse sustentar. Os artigos chegavam por diferentes intermediários, e nem sempre era possível atribuir a uma única região a origem de tudo o que se encontrava nas prateleiras. Essa cautela agradou a Valéria, que conhecia o prejuízo de uma promessa feita sem o devido conhecimento das condições de fornecimento.
Concluída a seleção, os dois passaram às quantidades e aos preços. Valéria conferiu as medidas anotadas, reviu os cálculos e negociou os valores de cada lote, sem se deixar distrair pela variedade das mercadorias ou pela disposição com que eram apresentadas. Kim, por sua vez, verificou o que poderia ser separado do estoque sem comprometer encomendas anteriores e estabeleceu com ela as condições da compra. A conversa transcorreu com a objetividade própria de quem compreendia que a confiança entre comerciantes se construía tanto pela palavra empenhada quanto pela precisão dos registros.
Quando chegaram a um acordo, os empregados começaram a reunir os artigos escolhidos. Os tecidos foram dobrados de acordo com suas dimensões, as linhas e os aviamentos acondicionados em pequenos recipientes, e as pedrarias, separadas em caixas para que não se misturassem durante o transporte. Os materiais mais delicados receberam proteção adicional, enquanto os volumes maiores foram acomodados em baús de madeira, preparados para seguir até o porto e dali serem encaminhados a Óstia. Kim determinou que as encomendas fossem identificadas com clareza e que os responsáveis pela entrega soubessem a quem deveriam confiar a carga na chegada, pois os tecidos seriam levados diretamente à loja e entregues a Jimim.
Foi quando os últimos volumes estavam sendo fechados que Kim interrompeu os preparativos e se aproximou da entrada. O céu, que durante a manhã apenas anunciara uma mudança, tornara-se de um cinzento tão carregado que a luz parecia ter sido retirada das ruas. O vento levantava poeira e fazia oscilar as coberturas mais leves; ao longe, o mar perdera a tranquilidade, e as primeiras rajadas traziam o cheiro acre da água agitada. Kim observou o horizonte por alguns instantes, perguntou a um dos empregados pelas condições do embarcadouro e, depois de ouvir a resposta, ordenou que os baús permanecessem sob abrigo.
Valéria aproximou-se, preocupada com o atraso. Os volumes estavam bem fechados, protegidos por madeira e preparados para a viagem; ainda assim, Kim explicou que o lacre e a resistência dos baús não bastavam para garantir a segurança da carga durante uma tormenta. Havia o risco de a embarcação não poder partir, de os homens enfrentarem dificuldades no embarque ou de a água alcançar os volumes durante a movimentação entre o cais e o barco. Mesmo que os tecidos chegassem sem dano aparente, uma demora imprevista poderia comprometer o prazo da encomenda, e seria pouco sensato expor mercadorias de valor a uma viagem que podia ser adiada até que o tempo melhorasse.
Valéria pensou no filho, chamaria por ela. Chim Lee esperando o bebê, e se ela passasse mal? Precisasse de ajuda à noite? A recomendação de Chim Lee, feita antes de sua partida, voltou-lhe à memória: se a chuva se tornasse perigosa, deveria permanecer em Portus e aguardar condições seguras para regressar.
Ela observara o céu pela manhã, mas não imaginara que a mudança seria tão rápida; Tsung Lee, ao contrário, considerara os riscos antes que a situação se tornasse incontornável. Ao ouvi-lo explicar o que poderia acontecer durante o transporte, Valéria sentiu um discreto constrangimento diante da própria inexperiência.
Não lhe faltava conhecimento sobre tecidos, medidas ou negociações, mas começava a compreender que o comércio possuía outras exigências, algumas aprendidas apenas por quem já enfrentara contratempos semelhantes.
A constatação não a diminuiu aos próprios olhos. Valéria reviu mentalmente as circunstâncias, reconheceu a prudência do rapaz e aceitou que a encomenda aguardasse sob abrigo.
Tsung Lee providenciou para que os empregados verificassem os fechamentos e transferissem os baús para um lugar protegido da umidade, deixando as instruções necessárias para que a remessa fosse encaminhada assim que as condições permitissem. Antes de se afastar, certificou-se de que todos haviam compreendido o destino da carga e a pessoa autorizada a recebê-la em Óstia.
Valéria observou o cuidado com que ele conduzia a tarefa, sem elevar a voz ou recorrer a demonstrações de autoridade, e guardou para si a impressão de que aquele jovem conhecia os negócios melhor do que sua idade deixava supor.