Os caminhos do Recôncavo
Parte I
Capítulo 1 — Os caminhos do Recôncavo
Do alto, o Recôncavo Baiano revelava uma paisagem de contornos sinuosos, marcada pela abundância das águas e pela fertilidade de suas terras. A Baía de Todos-os-Santos estendia-se em amplas reentrâncias, recebendo rios, braços de mar e pequenos cursos d’água que avançavam pelo interior, entre manguezais, matas e terrenos de massapê. Nas áreas mais elevadas, a vegetação acompanhava as ondulações do relevo; nas baixadas, a umidade alimentava brejos e várzeas, enquanto extensos canaviais recortavam a paisagem com suas fileiras de folhas compridas, agitadas pelos ventos que atravessavam a região.
Entre as manchas verdes da vegetação nativa e as terras cultivadas, surgiam engenhos, fazendas, pequenas propriedades e povoações. Algumas construções se destacavam pela dimensão das casas senhoriais e dos armazéns; outras mal se distinguiam entre árvores frutíferas, cercados e roçados. Havia caminhos estreitos, abertos pelo trânsito contínuo de homens e animais, e estradas mais largas, marcadas pelas rodas dos carros de bois que transportavam açúcar, lenha, farinha, ferramentas e os mais diversos produtos da lavoura.
De diferentes direções, os caminhos conduziam a Santo Amaro. Vindos do norte, do sul, do leste e do oeste, acompanhavam as condições do terreno, contornavam cursos d’água, atravessavam matas e aproximavam propriedades que, embora separadas por léguas de terra, mantinham relações comerciais e familiares com a vila. Nem todos ofereciam a mesma facilidade de passagem. Alguns se tornavam quase intransitáveis durante as chuvas; outros exigiam desvios demorados, travessias por pontilhões ou a espera de embarcações para vencer os trechos alagados.
Santo Amaro, ainda vila naquele tempo, ocupava lugar de importância na movimentação econômica do Recôncavo. Ali se encontravam negociantes, lavradores, artesãos, tropeiros, compradores e vendedores, atraídos pelo comércio e pelas necessidades das propriedades vizinhas.
O açúcar e seus derivados tinham presença expressiva nesse movimento, embora a vida comercial não se restringisse aos produtos dos grandes engenhos. Frutas, hortaliças, farinha, aves, ovos, madeiras, fibras e artigos confeccionados nas pequenas oficinas também encontravam compradores. Parte dessas mercadorias seguia por terra até os entrepostos, de onde alcançava Salvador e outros mercados pelas águas da baía.
À medida que o olhar se aproximava das propriedades rurais, a paisagem adquiria outros contornos. Os canaviais cediam espaço a roças de mandioca, milho e feijão; árvores frutíferas sombreavam pequenas casas; animais pastavam em terrenos cercados, enquanto, junto às moradias, mulheres cuidavam dos afazeres domésticos e homens se ocupavam da terra, dos animais ou dos trabalhos que garantiam o sustento de suas famílias.
A riqueza da região era visível, embora não estivesse igualmente distribuída. Grandes propriedades concentravam terras e instalações produtivas, enquanto numerosas famílias procuravam extrair da pequena extensão que possuíam ou cultivavam o necessário para viver. Entre umas e outras, estabeleciam-se relações de comércio, dependência, favor e disputa, nem sempre perceptíveis a quem atravessasse a região sem conhecer seus moradores.
Era nesse território de caminhos antigos, interesses consolidados e possibilidades ainda pouco exploradas que se encontravam as terras dos Martins.
A leste do ancoradouro, partia um caminho que conduzia à igreja e aos arredores da vila. Seguindo naquela direção, o viajante encontrava o Tabelionato à direita, enquanto o Matadouro Franciscano se situava à esquerda da igreja. Ultrapassados esses pontos de referência, a estrada se afastava gradualmente das construções e do movimento comercial, tornando-se mais estreita, sinuosa e pedregulhenta.
Nos primeiros trechos, ainda se ouviam as vozes dos comerciantes, o pregão dos vendedores e o ruído dos carros de bois que chegavam ou partiam carregados de mercadorias. Aos poucos, porém, esses sons se perdiam atrás das construções, cedendo lugar ao canto das aves, ao farfalhar das folhas e ao ranger dos eixos dos veículos que avançavam com dificuldade.
A estrada era longa e acompanhava as irregularidades do terreno. Em alguns pontos, subia suavemente entre pequenas elevações; em outros, descia por trechos onde as águas das chuvas haviam aberto sulcos profundos, obrigando os condutores a escolher com cautela por onde passariam. As pedras soltas dificultavam o avanço dos animais, enquanto a poeira, nos períodos secos, se levantava sob os cascos e as rodas, cobrindo as plantas que cresciam junto às margens. Depois das chuvas, o caminho adquiria outra dificuldade: a terra amolecida prendia as rodas, e os trechos mais baixos exigiam paciência e esforço dos homens e dos bois.
Ao longo do percurso, as construções se tornavam menos frequentes. Surgiam pequenas propriedades, cercados de madeira, roçados e casas modestas, algumas de paredes caiadas, outras de barro e cobertura de palha. Havia terrenos cultivados com mandioca, milho e outras plantações de subsistência, além de árvores frutíferas espalhadas pelos quintais. Em certas passagens, a vegetação se fechava sobre a estrada, formando sombras espessas; em outras, abria-se para revelar pastagens, terrenos úmidos e extensões de canaviais que se sucediam até onde a vista alcançava.
De quando em quando, cruzavam o caminho pessoas que seguiam para a vila com cestos, pequenos animais ou produtos de suas roças. Algumas caminhavam a pé, levando a carga sobre a cabeça ou apoiada nos ombros; outras conduziam animais de transporte ou acompanhavam carros de bois. Os cumprimentos eram breves, embora não faltassem conversas quando o percurso permitia uma pausa. Muitos conheciam bem as dificuldades daquela estrada, sobretudo aqueles que precisavam levar mercadorias até Santo Amaro e retornar antes do anoitecer.
Quanto mais se avançava, maior se tornava a distância entre uma moradia e outra. O movimento da vila já não alcançava aqueles trechos, e cada propriedade parecia guardar seu próprio ritmo, cercada por terras de cultivo, matas e caminhos secundários. O cheiro da terra úmida misturava-se ao das folhas aquecidas pelo sol e ao das ervas esmagadas sob as rodas. De vez em quando, uma brisa trazia o odor de alguma plantação ou de um curso d’água escondido entre as árvores.
Era preciso percorrer ainda uma boa extensão até alcançar as terras dos Martins. A propriedade ocupava uma área ampla, e sua entrada começava a distinguir-se pela própria natureza do terreno. A terra revolvida recentemente exalava um cheiro vivo, misturado ao perfume das flores silvestres e das ervas que cresciam espontaneamente junto ao caminho. Havia ali uma impressão de terreno ainda em transformação, como se a mão humana começasse, pouco a pouco, a imprimir sua presença sobre uma paisagem que durante muito tempo seguira o curso da própria natureza.
Era o Engenho MM, propriedade de Martim Martins, um homem que tinha o hábito de observar demoradamente o terreno antes de decidir por onde deveria seguir.
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