O Tempo da Colheita
Capítulo 3 — O Tempo da Colheita
A chegada da máquina beneficiadora alterara o ritmo do Engenho MM. Desde as primeiras horas da manhã, homens circulavam entre o grande celeiro e o espaço destinado ao beneficiamento, transportando sacas, organizando os grãos e abastecendo o equipamento conforme as orientações do montador. O ruído contínuo da máquina, ainda estranho aos ouvidos de alguns trabalhadores, misturava-se às vozes daqueles que coordenavam o serviço e ao movimento dos carros que chegavam carregados de arroz.
Martim acompanhava cada etapa com atenção. Sabia que o momento exigia presteza, pois havia uma quantidade considerável de arroz armazenada e os preços ofereciam uma oportunidade favorável à venda. Adiar o beneficiamento significaria prolongar a ocupação do celeiro e comprometer a preparação do espaço para a próxima colheita. O café, cujos frutos começavam a amadurecer nos pés, exigiria lugar próprio, e Martim já havia decidido que seria construído outro celeiro, destinado exclusivamente àquela cultura.
Verena também se envolvera intensamente na organização dos trabalhos. Além de acompanhar as necessidades dos homens contratados, cuidava para que houvesse alimentação suficiente e que os turnos fossem distribuídos de maneira a permitir algum repouso. A movimentação extraordinária alcançava a casa, os depósitos e as dependências de serviço, exigindo atenção de todos. A cada dia surgiam novas providências, e os filhos começavam a assumir responsabilidades que, até então, não faziam parte de suas ocupações habituais.
Gonçalo, antes encarregado dos alforjes e de parte dos utensílios de viagem, passara a acompanhar mais de perto a preparação do terreno e a organização dos materiais destinados à construção do novo celeiro. Adriano, por sua vez, ampliara o tempo dedicado aos registros, às contas e à distribuição dos serviços, enquanto Daniel continuava atento aos cavalos e aos deslocamentos necessários ao transporte. A casa inteira parecia ter compreendido que a nova máquina não representava apenas uma aquisição vantajosa, mas o início de uma fase que exigiria maior participação de cada um.
Com a contratação de novos trabalhadores, começaram a chegar também rapazes de propriedades vizinhas e de pequenos povoados da região. Alguns procuravam serviço temporário; outros desejavam aprender a manejar o equipamento ou encontrar ocupação na carpintaria, no transporte e nos trabalhos de armazenamento. A presença daqueles jovens acrescentou à propriedade uma movimentação diferente. Nas horas de descanso, reuniam-se no terreiro, conversavam sobre as lavouras, as festas dos povoados e as novidades que circulavam pelas estradas.
Foi nesse ambiente que Daniel convidou Gustavo, filho de Cláudio e Adélia, para conhecer a máquina beneficiadora. Os dois já se conheciam, e a curiosidade do rapaz pela novidade oferecia uma boa oportunidade para que passassem algumas horas juntos. Gustavo aceitou o convite e chegou à propriedade numa manhã em que o equipamento trabalhava sem interrupção. Daniel mostrou-lhe o mecanismo, explicou as mudanças necessárias para o beneficiamento do arroz e apresentou-lhe alguns dos homens encarregados de alimentar a máquina e retirar os grãos já processados.
Adelina encontrava-se nas proximidades, acompanhando parte da movimentação e conversando com uma das jovens que auxiliavam nas atividades domésticas. Ao perceber a chegada de Gustavo, ergueu os olhos por um instante. O rapaz também a viu, e os olhares se encontraram por tempo suficiente para que ambos percebessem a atenção inesperada que haviam despertado um no outro. Daniel continuou a explicar o funcionamento do equipamento, sem notar o breve silêncio da irmã, que logo retomou a conversa, embora já não estivesse inteiramente concentrada nela.
Gustavo permaneceu algum tempo na propriedade. Quando se despediu, cumprimentou Adelina com uma cortesia que lhe pareceu mais demorada do que o habitual. Ela respondeu com a mesma delicadeza, sem oferecer aos presentes qualquer motivo para suspeitar do que começava a nascer entre os dois.
Nos dias seguintes, o rapaz encontrou novas razões para visitar o MM. Às vezes acompanhava Daniel até as dependências de trabalho; em outras ocasiões, surgia com alguma pergunta sobre a máquina ou sobre os resultados do beneficiamento. Aos poucos, a familiaridade entre os dois jovens deixou de depender desses encontros ocasionais. Começaram a trocar cartas, nas quais as palavras cuidadosamente escolhidas diziam aquilo que a presença de outras pessoas ainda não lhes permitia confessar. Adelina guardava as mensagens com discrição, e Gustavo aguardava cada oportunidade de lhe enviar uma resposta. A correspondência tornou-se um pequeno segredo entre ambos, protegido pela cautela e pela expectativa de novos encontros.
Enquanto isso, o trabalho prosseguia. As sacas de arroz eram beneficiadas e conferidas, os carregadores organizavam os volumes destinados à venda e o espaço do celeiro começava a se abrir. Martim acompanhava os resultados com satisfação, embora soubesse que ainda havia muito a fazer antes da chegada do café. A construção do novo depósito precisava avançar, e os homens contratados trabalhavam em diferentes frentes, conforme as necessidades da propriedade.
A disciplina estabelecida por Martim era conhecida entre os empregados. Esperava pontualidade, honestidade e respeito às regras da casa, sobretudo porque muitos trabalhadores permaneciam ali até altas horas, em razão da urgência do beneficiamento. Não admitia que o serviço fosse prejudicado por desentendimentos, descuidos ou embriaguez. Verena compartilhava a preocupação com a ordem, embora procurasse conduzir as situações com maior brandura, evitando que uma repreensão necessária se transformasse em humilhação.
Numa noite, já depois de todos se recolherem, Martim despertou e percebeu que ainda havia ruídos vindos das dependências do celeiro. Levantou-se, vestiu-se às pressas e atravessou o terreiro, guiado pela claridade de uma lamparina que permanecia acesa junto à entrada. Ao se aproximar, ouviu uma conversa arrastada e uma risada fora de hora. Empurrou a porta e encontrou um dos trabalhadores sentado junto a uma pilha de sacas, com o corpo inclinado e os movimentos comprometidos pela bebida.
O homem tentou levantar-se ao perceber a presença do proprietário, mas mal conseguiu firmar os pés. Martim aproximou-se, examinou o recipiente que estava ao lado dele e sentiu o odor forte da aguardente. Perguntou quem lhe havia fornecido a bebida. O trabalhador, primeiro confuso, procurou justificar-se; depois, diante da insistência, revelou que a recebera de Gustavo, que a trouxera de seu alambique.
A informação deixou Martim profundamente irritado. Não era apenas a embriaguez de um empregado que o indignava, mas a circunstância de alguém de fora ter levado bebida para dentro de sua propriedade, justamente quando os homens estavam encarregados de um trabalho que exigia atenção e responsabilidade. O beneficiamento do arroz não podia ser interrompido por imprudência, e o celeiro, repleto de mercadorias, não era lugar para semelhantes condutas.
Mandou que o trabalhador se retirasse do serviço e determinou que recebesse o pagamento correspondente ao que já havia realizado, sem que isso significasse tolerância à sua falta. Na manhã seguinte, comunicou a decisão aos responsáveis pela administração e estabeleceu regras mais rigorosas para todos os empregados: ficava proibida a entrada de bebidas alcoólicas nas dependências de trabalho; ninguém poderia abandonar o posto sem autorização; os turnos deveriam ser respeitados, e qualquer pessoa que comprometesse a segurança dos homens, dos produtos ou dos equipamentos seria afastada.
A notícia correu depressa pela propriedade. Alguns trabalhadores receberam as determinações com naturalidade, pois compreendiam a necessidade de manter a ordem durante uma operação tão intensa. Outros ficaram apreensivos, temendo que uma infração menor também pudesse resultar em demissão. Verena procurou evitar que o rigor recém-imposto se convertesse em desconfiança generalizada, mas não contestou o marido diante dos empregados.
Martim, entretanto, não considerava encerrado o assunto. A atitude de Gustavo o havia ofendido de maneira particular, pois conhecia a família do rapaz e não esperava que um filho de Cláudio e Adélia levasse semelhante inconveniência para dentro de sua propriedade. Quando soube que ele pretendia voltar ao MM, mandou avisar que sua entrada estava proibida.
Ao ser questionado sobre a severidade da decisão, Martim respondeu com a convicção de quem julgava defender um princípio que não admitia concessões: — Nenhum homem de caráter leva um mal dessa natureza para dentro da casa do vizinho. Se deseja oferecer bebida aos seus conhecidos, que o faça em suas próprias terras. Aqui, os homens vêm para trabalhar, e é minha obrigação zelar por eles e pelo que lhes confiei.
A decisão provocou comentários entre os que conheciam Gustavo e sabiam que sua visita à propriedade começara por um convite de Daniel. Para Martim, contudo, a questão estava resolvida. A disciplina do MM não seria submetida à vontade de um rapaz, por mais respeitável que fosse sua família.
Adelina recebeu a notícia com inquietação. Não sabia se o pai havia descoberto algo além do episódio ocorrido no celeiro, mas compreendeu que os encontros com Gustavo se tornariam mais difíceis.
Naquela noite, ao recolher uma das cartas que guardava entre seus pertences, demorou-se sobre as palavras escritas pelo rapaz. O que até então parecia uma aproximação discreta e promissora começava a encontrar um obstáculo inesperado.
E, enquanto Martim cuidava para que o trabalho prosseguisse sem novas interrupções, uma questão muito diferente começava a ocupar o pensamento da filha: como preservar uma correspondência que, de repente, poderia comprometer a confiança de seu pai?
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