2 - SEGUINDO A CORRENTE Corpos Flutuantes: Série Encruzilhada Livro 1 · Capítulo 4 de 10
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2 - SEGUINDO A CORRENTE

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Seguindo a Corrente

Pairava sobre as águas uma atmosfera densa. Os moradores, encolhidos pelo frio ribeirinho do fim de tarde, aglomeravam-se no limite estipulado pela polícia militar. O medo e a curiosidade espalhavam um burburinho contido de várias conversas isoladas que tinham um único tema: quem poderia ser aquela estranha jogada no rio. Praticamente toda a população da pequena cidade se conhecia e felizmente todos pareciam bem. Pais e avós ligavam para os familiares mais novos ausentes e confirmavam aliviados que todos estavam a salvo.

O porto de Dona Francisca voltava ao movimento dos dias de glória, infelizmente não por um motivo digno. A atenção dos curiosos era dividida entre o pôr do sol e as luzes intermitentes do topo das viaturas. O brilho do poente enfraquecia, banhando a paisagem em um tom alaranjado e pintando as ondas calmas do rio de vermelho. Em outro contexto, seria uma bela vista para os presentes. Naquele momento, contudo, pareciam poças de sangue sendo carregadas pelas águas.

Após isolarem a área e afastar os olhares dos moradores para o cadáver, os policiais militares aguardavam os investigadores da polícia civil.

— Eu não esperava que algo do tipo acontecesse por aqui — disse um dos policiais que estava próximo ao corpo. Sentia-se extremamente mal e desviava o olhar da cena.

— Sim… Quem imaginaria que alguém faria uma coisa dessas com uma índia tão bonita — respondeu o outro policial, escorado em um cavalete, admirando os restos mortais.

— Acredito que os termos corretos seriam: vítima do sexo feminino, provavelmente indígena.

— Ah! Pare de frescu… — começou o policial, parando de repente ao olhar quem falou.

À sua frente estava uma mulher claramente de ascendência indígena, jovem, de pequena estatura, com os uniformes da polícia civil. Olhava-o com faíscas nos olhos, como se quisesse fulminá-lo.

— Sim, senhora! — disse, engolindo seco por reconhecê-la. — O corpo está ali.

— Já notei — respondeu ela incisiva. — Raul, olha se encontra algo que ajude. Vou falar com um casal que achou o corpo.

— Ok! — concordou o parceiro dela que só foi notado naquele momento, pois, com seu porte, parecia ser uma árvore que estava ali o tempo todo.

Os policiais abriram caminho sem comentar nada, mas seus olhos arregalados acompanhavam aquele homem que, em antigas histórias, seria facilmente descrito como um semideus ou herói, tanto pelo porte quanto pelos músculos. O gigante desviou-se dos galhos das árvores que haviam na orla, chegando perto da cena do crime com uma câmera fotográfica. Flashes iluminaram o local com uma luz branca fantasmagórica, projetando sombras dos galhos nas paredes

da costa e destacando a pele pálida do corpo. Devido ao seu tamanho, tentou ser o mais cuidadoso possível, para não perder nenhuma pista do que aconteceu nem estragar nenhuma evidência.

— Melhor não irritar essa daí, porque Mayara é fogo — disse Raul ao policial que havia dado a mancada.

— Mayara!? — exclamou o policial que estava enjoado, e agora sentia subir a adrenalina ao escutar os nomes dos parceiros. — Mayara e Raul!? Os investigadores que desbarataram a gangue do joelho?

— Sim, nós mesmos — respondeu Raul estufando o peito entre uma foto e outra.

— Bah! Já ouvi falar de vocês. Sou inclusive um fã! Vocês são loucos! Tu até quebrou os dedos do Mano Grampo, o líder deles, quando ele tentou fugir.

— Ah! Só servindo a sociedade — disse orgulhoso Raul, sem ter como ficar mais prosa. — Sobre os dedos, foi sem querer. E, além disso, não fui eu, foi Mayara — falou, deixando os policiais perplexos. Tentavam imaginar como aquela pessoa, que poderia ser levada por um vento um pouco mais forte, conseguiu tal façanha.

Após catalogar tudo o que precisava, Raul liberou o espaço para o grupo de legistas recolher os restos mortais. A decepção lhe pesou nos ombros, pois não encontrou nada útil para a investigação naquele local. Isso indicava que o corpo provavelmente fora arrastado pelo rio e terminou a viagem na beira do porto. Evidentemente, muitas pistas do que realmente aconteceu àquela mulher se perderam no percurso. Porém, foi “sorte” da vítima ter acabado ali. Se fosse levada pela correnteza, serviria de alimento para os peixes e outros

animais até seu corpo ser consumido totalmente, deixando um assassino impune.

— Caso difícil — comentou o legista para Raul enquanto anotava suas análises preliminares.

— Isso. Quase sem pistas por enquanto. Sei que daremos um jeito. Nossa equipe é muito boa.

— Eu acredito! Mas e Mayara, como está com isso?

— Ainda não sei. Sabíamos pouco sobre o caso até chegar aqui. Não conversamos ainda sobre o assunto.

— Sei como ela é forte, mas depois do que aconteceu com a irmã dela, pode ser que esse caso fique pessoal. Tome cuidado com isso!

— Deixa comigo, obrigado pela preocupação — respondeu Raul sinceramente ao amigo. — E então Jânio, o que tu pode me iluminar aqui?

— Bom… Notei dois cortes abaixo do pescoço, indicando que foi provavelmente degolada. Preciso analisar melhor para saber. Os órgãos foram totalmente removidos, sobrando apenas a caixa torácica vazia. Há um corte vertical desde o esterno até onde deveriam estar os quadris, talvez por onde retiraram os órgãos. Obviamente, daí para baixo não existe mais nada. Há um corte limpo abaixo da linha do umbigo, mas se isso foi feito deliberadamente para retirar a parte inferior do corpo ou foi resultado da surra que a corrente do rio infligiu no cadáver, só poderei confirmar no laboratório.

Raul tentava deduzir o que levou alguém a fazer aquela atrocidade, mas sabia que naquele momento o melhor a fazer era finalizar todos os procedimentos, reunindo o máximo de informações das pessoas presentes.

A chegada da noite trouxe uma neblina leve que cobriu a orla, esfriando o interesse das pessoas em continuar observando. Batidas de porta das viaturas e ambulâncias anunciaram a saída dos policiais e o encaminhamento do corpo para o IML de Santa Maria, a alguns quilômetros dali. Ao menos naquele dia, o silêncio rotineiro foi devolvido àquele lugar. Entretanto, durante um bom tempo, o porto voltou a ser assunto bastante comentado, atraindo visitantes com interesses mórbidos em histórias misteriosas.

No departamento de homicídios, a delegada admitiu a complexidade daquela situação e encaminhou Raul e Mayara para a única pessoa que, antes mesmo deles chegarem, já dedicava todo o seu esforço no caso.

— Podem conversar com Lucila — disse a chefe Maria Castro aos dois. — O caso é complicado, o que muitas vezes afasta alguns que se dizem investigadores… — falou elevando a potência da voz enquanto o homem que passava por perto deles disse: “Bom dia, senhora!”, sem diminuir o passo. Ela o acompanhou com olhos autoritários e respondeu “Bom dia, Jéferson”, sem muito entusiasmo. — Ela já está trancada nos arquivos. E Deus sabe que ao se interessar por alguma coisa, não há Cristo que tire o seu foco.

“Hum… Ela…” responderam Mayara e Raul em tons diferentes. Ela com interesse e ele com certo receio.

— Algo contra Lucila? — perguntou Mayara enquanto iam em direção aos arquivos.

— Não, não! Absolutamente! Acho que, na verdade, ela quem não gosta muito de mim.

— Isso porque cê é meio tapado.

— Não exagere! Estou entre os melhores níveis de casos resolvidos da região e, um dia, chego ao “pódio”.

— Ok! Eu sei, não posso negar. Mas tu não se ajudou com o evento do frango assado.

— Não era sobre frango! Foi o primeiro caso de abdução extraterrestre que apareceu desde que comecei como investigador. É claro que tinha que ir mais a fundo naquela história!

— Um velho bêbado, que provavelmente bebeu todo o dinheiro da janta, inventou para a família que foi abduzido por aliens e que eles levaram o frango de padaria que ele comprou? — questionou, gesticulando e sendo mais irônica do que o normal.

— Eram ETs! — respondeu ele como se fosse óbvio que qualquer um se interessaria na mesma intensidade. — Que sequestraram um distinto senhor de família que, por ventura, estava em um estado alterado de sobriedade. Vá que fosse um efeito colateral de um sedativo de origem não identificada. E várias histórias de abdução acabam com as pessoas devolvidas sem alguns pertences pessoais.

Mayara balançava a cabeça incrédula olhando para o parceiro, tentando entender como um homem daquele porte guardava tais pensamentos.

— Não sei o que mais irritou Lucila — começou Mayara —, o fato de tu insistir que deveríamos investigar ou tu ir sozinho depois de não conseguir convencê-la.

— Ela gosta de casos de natureza intrigante. Achei que interessaria. E, de qualquer forma, era um cidadão precisando de ajuda. Independente do caráter duvidoso da situação, alguém tinha que fazer o trabalho.

A investigadora ficou processando esse último argumento por um tempo. Quem sabe o parceiro tivesse salvação.

A porta da sala dos arquivos era ligeiramente mais baixa, o suficiente para que Raul anunciasse sua chegada com resmungos e gemidos de dor, após bater a cabeça no marco superior. Isso acontecia na maioria das vezes que passava por ali, resultando em um sulco no acabamento da abertura.

Lucila estava na sala, com a cabeça enfiada em uma gaveta de aço. Os cabelos loiros, desgrenhados em um coque torto, indicavam que estava ali há algum tempo. Os óculos grandes de aros finos, dourados tal qual os cabelos, quase caíam do nariz enquanto dedilhava as pastas à sua frente, acompanhando cuidadosamente o movimento com os olhos azul-claros.

— Ah, oi! — disse Lucila, sem precisar olhar para saber quem havia chegado ao ouvir uma batida que balançou a parede divisória da entrada e o gemido subsequente. — Que bom que vocês chegaram! Só um minuto — Resmungou com os papéis que dedilhava, até finalmente retirar um arquivo de lá. — Aqui está, eu sabia! Desculpem o caos organizado. Com tantas tecnologias e ainda temos arquivos físicos que não foram totalmente digitalizados. Pensando bem, até que gosto assim.

— Organizado? — exclamou Raul o mais baixo que pôde para Mayara, que respondeu com um olhar de censura.

A escrivã ouviu, mas preferiu ignorar o comentário, continuando a rápida leitura do arquivo que acabara de encontrar.

Espalhados pela mesa, documentos de diferentes casos e alguns mapas da região. Na tela do computador, havia várias

abas abertas com pesquisas do Google, imagens de comunidades indígenas brasileiras e algumas representações artísticas de povos pré-colombianos em rituais de sacrifício humano.

— Sabia que já tinha visto esse modus operandi — Lucila mostrou as fotos do arquivo que acabara de pegar a Raul e Mayara. Se não tivessem visto ela retirando a ficha da pasta, poderiam muito bem acreditar que eram fotos da mesma vítima que deixaram com o legista-chefe. Tudo na imagem era igual ao que haviam presenciado algumas horas antes. Um corpo de uma jovem indígena pela metade, com um corte vertical no que restara da barriga.

— Nossa! — exclamou Raul inspecionando as fotos. — Semelhança impressionante.

— Exato! E isso chamou minha atenção. Este caso é de cinco anos atrás e, infelizmente, não foi resolvido. O corpo foi encontrado nas margens do rio Jacuí, como hoje, mas em um ponto mais acima do leito. Infelizmente, na época não havia departamento de homicídios na região centro do estado, dependendo muito da capital para melhores investigações. Um caso que já era difícil, esfriou ainda mais e acabou arquivado. Outra coisa que não ajuda, é a taxa de homicídios de povos indígenas negligenciados por departamentos corruptos, geralmente em função de desmatamento e mineração ilegal.

— É… — começou Mayara. — Isso já acontece há algum tempo, tipo uns quinhentos anos.

Raul começou a tossir e fazer barulhos estranhos para chamar a atenção de Lucila, balançando a cabeça em direção à pequena parceira. Lucila demorou alguns instantes para tirar os olhos do documento que lia e ver o que havia de errado

com ele. Perguntou se ele precisava de um copo de água, fazendo o gigante virar os olhos, frustrado.

— Acho que o que meu parceiro idiota está tentando fazer, de maneira nada discreta, é chamar a atenção para o fato de eu ter ascendência indígena e um caso de assassinato na família.

— Ah, certo — disse Lucila. — Tu acha que pode ter algum problema com essa investigação? Ou desconforto que possa prejudicar teu julgamento?

— Estou bem — respondeu Mayara olhando mais para Raul do que para Lucila. — Minha irmã foi morta pelo namorado. Não é como se fosse um mistério da minha vida. E certamente pegar o responsável por essas novas mortes vai, inclusive, me ajudar a lidar com o que já passei.

Lucila ponderou por alguns segundos, olhando fixamente para os olhos de Mayara.

— Ok! Confio em ti — concluiu ela, voltando a ler seus documentos.

Raul deu de ombros, mas continuava um pouco preocupado com a situação. Olhou para a parceira e articulou com os lábios: “Vou ficar de olho”. Mayara segurou a vontade de mostrar o dedo, mas o recado foi dado com as expressões faciais.

— Já tem alguma teoria sobre o caso? — perguntou Mayara a Lucila.

— Ainda não. Mas fiz algumas pesquisas e, conforme o legista, pelo estado de conservação, o corpo não deve ter ficado muito tempo na água. O rio Jacuí é enorme e de fluxo forte. Os dois corpos foram encontrados aqui e aqui — indicou Lucila fincando alfinetes em um quadro com um mapa da região. — Grande parte das margens do rio agora é

de propriedade de agropecuaristas. Porém, entre Espumoso e Dona Francisca há pequenas vilas de pescadores que podem saber de alguma coisa, ou conhecer as vítimas. Amanhã mesmo daremos uma olhada rio acima e perguntaremos para os locais sobre elas.

— Por que não perguntar aos donos das terras?

— Isso já foi feito da outra vez, sem resultados. Não sabemos se estamos lidando com um Serial Killer, ou se isso tem algo a ver com disputas de terras… Precisamos ser rápidos e discretos nessa nova investigação.

Raul largou as fotos junto aos outros arquivos que estavam na mesa, olhou para o quadro branco onde havia detalhes do caso, como o último dado que Lucila acabara de pontuar sobre primeira vítima encontrada, as datas dos aparecimentos dos corpos, a idade aproximada das vítimas. Ele observou a falta de uma lista de suspeitos, mesmo que ela tenha comentado alguns do primeiro caso, não havia nada de concreto que os ligasse ao assassinato. Pela quantidade de abas abertas e pastas em cima da mesa, era evidente que a mente da escrivã estava fervilhando. Entretanto, nenhuma teoria foi merecedora de nota.

— Tu fez tudo isso nesse meio tempo que viemos de lá até aqui? Impressionante! Como soube tanto sobre a nova vítima?

— O doutor Jânio me mandou imagens e análises preliminares.

— O legista-chefe? Bah! Que fofoqueiro — brincou Raul.

— Ele de alguma forma sabe quais casos minhas habilidades podem ajudar mais, então mantemos essa boa comunicação.

— Preciso pegar algumas dicas com ele

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