3 - ENCONTRO
3
Encontro
Cruzando ao longo do rio, poucas vilas de pescadores ainda resistiam diante das dificuldades. Isso poderia soar como um facilitador para o trabalho dos investigadores, o que não era bem verdade dado o desafio de chegar até aquelas comunidades.
Grande parte dos terrenos em torno do rio era usada para plantações e criação de gado, com poucas estradas atravessando as áreas privadas. Obter mandados para acessar essas vias demoraria muito tempo, um luxo que eles não tinham. Além disso, causariam mais alarde que o necessário, dando oportunidade para os responsáveis apagarem seus rastros.
A única opção viável para um trabalho mais rápido e eficiente seria subir o rio de barco. Isso lhes daria também a oportunidade de observar se encontravam outras pistas às margens enquanto avançavam. A prefeitura de Dona Francisca cedeu de bom grado um barco a motor e prestou toda a ajuda necessária para a partida do porto da cidade.
Se o casal que encontrara o corpo visitasse o porto naquele dia, certamente pensaria ter se reconciliado com a sorte. Estava tudo muito diferente. Vários repórteres gravavam chamadas para seus jornais e faziam entrevistas com os moradores que foram até ali admirar o movimento. Turistas subiam e desciam a grande rampa conversando sobre o caso, passeando calmamente, carregando cuias de chimarrão. O cheiro do rio misturava-se ao dos espetinhos de carne e frango que um morador vendia, um lanche bem-vindo para os repórteres. A fumaça, dependendo do vento, atrapalhava outros moradores que montaram mesas com artesanato para aproveitarem a agitação incomum também.
— O porto tá movimentado hoje — comentou Raul ao sair da viatura. — Lá se foi a investigação discreta.
— É estranho como a morte pode virar comércio — falou Mayara. — Ainda mais quando não é a morte de nenhum parente das pessoas que estão aqui.
O gigante suspirou ao ver a parceira se afastar, seguindo em direção ao fim da via. Sabia que ela não acreditava que os moradores, turistas e repórteres eram pessoas ruins por estarem ali. No entanto, não podia deixar de concordar com o desgosto daquela realidade. A garota provavelmente era filha, amiga ou mãe de alguém, agora reduzida a uma atração turística. Há algumas horas ela carregava desejos, medos e amores, agora era fonte de interesse mórbidos e uma oportunidade de lucro.
Lucila saiu do carro, vestiu seu colete de identificação e pendurou o distintivo no pescoço. Seguiu os parceiros até o local de embarque. Focada e ignorando os repórteres que a abordavam pelo caminho, estava empolgada para descobrir os mistérios que aquelas águas turvas revelariam. Somente uma pessoa parecia estar mais animada que a escrivã naquele dia, um policial militar designado para guia-los por conhecer bem a região.
— Eu não acredito! — exclamou o policial, balançando efusivamente a mão de Lucila, quase derrubando os grandes óculos de aros finos de seu rosto. — Lucila Klug, a única escrivã com autorização para participar de investigações no Brasil! É um prazer, um imenso prazer! Ontem tive o privilégio de conhecer Mayara Caeté e Raul Cavalcanti. E hoje você! Estou nas nuvens!
— O prazer é meu, policial Souza — disse ela, enquanto calmamente tomava sua mão de volta e ajeitava os óculos no rosto.
— Que isso! Me chame de Heitor — pediu ele, passando a mão no nome bordado no peito como se quisesse limpá-lo dali.
Todos se acomodavam na pequena embarcação de um motor, sentindo um pouco mais de emoção enquanto Raul tentava entrar sem a emborcar. Missão ainda mais difícil devido à tremedeira descontrolada do investigador, que só parou quando ele conseguiu se sentar. Não sabia nadar muito bem e guardava uma fobia de águas turvas e profundas.
Afastaram-se do porto subindo o rio, sendo acompanhados pelas lentes das câmeras de celulares e dos repórteres, que os filmavam e fotografavam. O rio movia lenta e continuamente sua escuridão imensa. O ar fresco da manhã somado aos sons da corrente, tão intensos quanto o barulho do motor, relaxava a todos no barco. Menos Raul que permanecia tenso, mal se movia, quase arrancando as bordas de madeira da embarcação onde se segurava. Poucas vezes se arriscava a dar uma espiada nas águas rápidas pela lateral, com movimentos tão ágeis quanto de uma preguiça. Tentou enxergar mais que um palmo abaixo da superfície, sem sucesso.
Logo chegaram a um pequeno vilarejo ribeirinho, onde não encontraram nada suspeito e ninguém conhecia as vítimas. Após fazer algumas perguntas aos moradores, voltaram às águas e se dirigiram à próxima vila que estava no planejamento, obtendo o mesmo resultado. Subiram o rio um pouco mais, pois restava uma última esperança. O último vilarejo da região, chamado de Vila da Curva do Rio. Lá encontraram casas improvisadas de tábuas velhas e tijolos sem reboco, parecidas com as dos outros locais visitados. Ainda assim, as casas dali destacavam-se das demais comunidades por seus acabamentos um pouco melhores. Constatação que ficou na cabeça de todos os agentes que desembarcavam no pequeno píer de tábuas tortas e escurecidas pela umidade. O que aquela parte do rio possui de diferente?
Raul massageava a nuca, buscando aliviar a tensão no pescoço.
— De que você tem tanto medo? — perguntou Mayara.
— Eu não tenho medo de nada! — disfarçou Raul, tomando uma pose heroica, olhando para o horizonte com as mãos no cinto. — Você não assistiu ao filme Anjos da Vida? “Músculos não boiam” — citou. — Além disso, imagina se caio e algum animal me pega, sei lá, uma baleia vem e me engole, por exemplo.
— Baleia? — disse Mayara incrédula.
— Talassofobia — comentou Lucila, ao passar por eles. — Medo exagerado de grandes porções de água, como lagos e mares, e também de criaturas, reais ou imaginárias, que possam habitar esses locais. É bastante comum. Mas, como eu disse, exagerado. Baleias não nadam em rios, e também não podem engolir humanos.
— Não é o que diz o canoísta que vi em um vídeo. Depois te mando o link — retrucou Raul.
— Se ele diz alguma coisa, é porque não foi engolido — falou Mayara.
— Por isso você é uma ótima investigadora. Assim mesmo, o susto continua grande.
Seguiram o policial Souza por uma trilha estreita entre as árvores. O percurso iniciava ao lado do píer e, após alguns metros de mata densa, abria-se e revelava a rua que conectava todas as habitações do local.
Entre as casas de cercas desgastadas e telhados baixos, um objeto se destacava: uma grande moto vermelha que refletia a luz do sol a pino. A dona estava sentada em uma cadeira de praia ao lado do veículo, com os pés apoiados no banco. Conversava e anotava o relato de uma senhorinha que parecia feliz em ter alguém interessado em suas histórias.
— E então chegaram os Três Patetas — zombou a dona da moto, fingindo anotar algo, ao perceber os investigadores se aproximando. Seus olhos verdes os fitaram por cima dos óculos escuros, então falou, numa atuação de surpresa: — Ah! Olá! Não vi vocês chegando. Atrasados como sempre.
— Mariana! — começou Mayara, falando como se não visse uma amiga há muito tempo. — A que devemos o desprazer de sua abutre presença?
— É “Mariane” — respondeu ela, com ênfase no “e”. — Mas, com o nível de competência desse grupo aí, era de se esperar que não conseguissem lembrar nem de um nome corretamente. Enfim… Estava aqui fazendo um tempo com a dona Joana, só para ver quem estava responsável pelo caso do porto de Dona Francisca. Pobre vítima, é realmente azarada.
— Como chegou aqui tão rápido?
— Uma fonte, entrevistas… Faz parte das etapas de uma investigação. Posso ministrar um curso para vocês, se quiserem.
— O que essas pessoas têm a ver com aquela morte?
— Vocês ainda não sabem? — perguntou Mariane, se ajeitando na cadeira, como se estivesse em choque com a informação, depois dando uma risada irritante.
— Você poderia cumprir seu dever cívico e dividir conosco suas descobertas — sugeriu Raul, contendo sua irritação.
— É… Não! Não quero ter que passar na delegacia para pedir o salário de vocês. Bom, não tenho mais o que fazer por aqui. Muito obrigado pelo mate dona Joana, a senhora ajudou muito.
Mariane dobrou a cadeira, montou na moto e acelerou para o fim da rua, fazendo as janelas das casas tremerem com o barulho do motor.
— Sujeitinha desagradável — comentou o policial Souza.
— Mariane é uma repórter — disse Lucila. — Aparentemente, se julga superior por suas habilidades, mas não entendo a animosidade conosco.
— Tem gente que é assim — falou Mayara. — Essa daí entrou duas vezes na fila para ser mala.
— Nasceu criticando o modo como o médico cortou o cordão umbilical — acrescentou Raul.
— Fez faculdade de vacilona…
— A mãe dela trocou Biotônico por laxante e ela cresceu uma bostona…
— Mocreia…
— Lambisgoia desalmada…
— Mané…
— Quente…
— Parem com isso! — Pediu Lucila. — Já… O quê? — Agora todos olhavam para Raul tentando entender o que ele acabara de dizer.
— Que foi, gente? — falou ele, ao notar que não poderia mais fugir do assunto. — Ela é bonita, ué! E tenho uma queda por mulheres más. Nem vem, Mayara! Até você olhou enquanto ela subia na moto.
— Cala a boca!
— Podemos focar no que viemos fazer, por favor! — disse Lucila enfática. — Você na frente, Heitor.
— Claro! Vamos indo — concordou ele, dando alguns passos e anotando algo em seu bloco. Assim que tirou a caneta do papel, lia-se em traços rápidos: “Biotônico por laxante”.
Embora não houvesse muitas residências no local, separaram-se em duplas a fim de concluir a tarefa rapidamente. No entanto, terminou mais depressa do que o previsto. Sempre que se aproximavam de um morador, ele ignorava a abordagem e trancava-se em casa sem responder a nenhuma pergunta. Os investigadores não deixavam de pensar se aquele comportamento era motivado pelo medo de um assassino à solta, que estaria os ameaçando caso revelassem algo, ou se estavam acobertando alguém que morava ali.
Deixados sob sol quente, os policiais se entreolharam à distância, com os olhos semicerrados, balançando as cabeças em negativa. Diante da falta de alternativa, reagruparam-se no meio da rua vazia para discutir a situação.
— E então? — perguntou Lucila aos parceiros que se aproximavam.
— Nada — respondeu Mayara.
Eles olharam para aquela senhorinha, dona Joana, que continuava sentada na cadeira em frente a sua residência. Observava-os andando entre as casas com interesse, sorvendo calmamente seu chimarrão.
— Ela parece querer conversar — comentou Raul. Lucila concordou e foram ao encontro da anciã.
— Boa tarde! Dona Joana, não é mesmo?
A senhora sorriu ao vê-los se aproximando, anunciou o último gole de sua bebida com roncos da bomba e adicionou mais água quente de uma garrafa térmica à sua cuia.
— Vocês querem? — perguntou dona Joana. Todos agradeceram. — Mocinha bonita, não quer mesmo? — insistiu ela, esticando a mão com a cuia para Mayara, que negou novamente.
— Muito obrigada! Mas estamos com o tempo um pouco apertado. A senhora pode nos responder algumas perguntas?
— Mocinha bonita — repetiu a senhora. — Parece a menininha do rio.
Os investigadores se entreolharam, perguntando-se como ela sabia do caso se nenhuma informação havia sido divulgada ainda.
— Que menina? — indagou Mayara.
— A menina que ajuda os pescadores. Ela sabe onde tem os peixes, os grandes. A ajuda dela traz muito dinheiro para as famílias daqui. Mas faz tempo que ela não vem, não.
— Quanto tempo?
— Há alguns meses, quase um ano eu acho.
— Não estamos falando da mesma coisa — disse Lucila aos seus parceiros. O estado de conservação do corpo não condizia com o tempo que a senhora comentara.
— A senhora viu algo de estranho acontecendo por aqui nos últimos dias? — perguntou Mayara.
Enquanto dona Joana respondia, Raul notou um movimento em sua visão periférica. Dois jovens conversavam e apontavam para ele. Depois do pequeno susto por serem notados, discutiram brevemente e concordaram em chamar Raul para que se juntasse a eles. O investigador avisou aos outros que voltaria logo e aceitou o convite dos dois garotos franzinos.
— Com ele, a gente consegue — disse um deles para o outro.
— Mas já temos uma, precisamos de outra?
— Faz tempo que não conseguimos. A última não vai durar muito tempo. Temos que aproveitar o período e pegar outra… Fica quieto, que ele está chegando.
— Boa tarde, garotos! Tudo bem com vocês?
— Sim, seu polícia. Na verdade, estamos com umas dificuldades. O senhor pode nos ajudar?
— Farei o possível.
— A gente precisa de um cara fortão que nem você, para ajudar em uma pescaria.
Raul sorriu discretamente com o pedido.
— Infelizmente não sou o mais indicado para isso — disse ele, começando a se afastar. — Mas obrigado pelo convite!
— Mesmo se for para pegar uma sereia? — arriscou um deles, enquanto era censurado pelo outro.
Raul parou, tentou não ceder a sua curiosidade, mas não conseguiu. Voltou calmamente para perto dos meninos.
— Estamos fazendo um trabalho sério aqui, garotos — começou ele. — Mentir ou omitir informações para policiais é crime.
— Não é mentira! Precisamos de ajuda!
— Não devíamos ter feito isso, vai dar problema — reclamou o garoto preocupado.
— Preciso de mais detalhes do que está acontecendo — disse Raul tentando entender do que se tratava aquela história.
— Nesta sexta-feira, na lua cheia. Vamos chamá-las e pegar uma. É simples, mas precisamos de um cara forte para ajudar. Elas andam revoltadas. Quase mataram o pai do Marquinhos da última vez, agora só sobrou a gente para pescar.
Raul estava perplexo. Não sabia se ria do absurdo que ouvia ou se queria mesmo que fosse verdade. De qualquer forma, ele foi fisgado. Havia ali um nó solto na trama, e sabia que não viveria tranquilamente sem ir um pouco mais fundo. Combinou com os garotos que os ajudaria e lhes entregou um cartão com seu número.
— Quando foi a última pescaria? — perguntou Raul.
— Foi sexta, há uns três dias. Só funciona em sexta-feira de lua cheia. É raro termos duas no mês, por isso precisamos aproveitar. Você vai nos ajudar mesmo?
— Claro! Se vocês me responderem uma coisa.
— Tudo bem.
— Uma garota indígena foi encontrada morta aqui perto, às margens do rio. Vocês sabem de alguma coisa sobre isso?
Um deles tentou disfarçar o espanto e esperou que o amigo respondesse. O outro, sendo o mais confiante que conseguiu, respondeu com uma pergunta:
— Ela era uma sereia?
— Acredito que não — respondeu Raul sem saber o que realmente dizer.
— Então não sabemos de nada — falou o garoto calmamente. — Sexta-feira, hein, tio. À tardinha! — completou, enquanto se afastavam, deixando Raul abismado.
Após terminarem a breve conversa com dona Joana e sem muito mais o que fazer, voltaram à delegacia para pôr ordem em tudo o que haviam, ou não, descoberto.
A frustração tomava conta dos investigadores. Sabiam que havia algo estranho naquele último vilarejo, mas não conseguiam conectá-lo com o corpo encontrado. A senhorinha falante contou histórias de como eram boas as pescas antigamente. Que, com o tempo, no entanto, o rio foi perecendo devido à poluição e desmatamento, trazendo muitas dificuldades para os trabalhadores locais. Falou de indígenas que ajudavam os comerciantes em momentos de maior dificuldade. Porém, não relatou nenhuma violência ou briga que justificasse uma morte.
Lucila lia suas anotações e olhava para o quadro branco, cheio de fotos e dados do caso. Dialogava com os parceiros, tentando descobrir o que deixaram passar.
— Ela disse haver uma jovem parecida comigo que ajudava os locais — falou Mayara.
— Isso — respondeu Lucila. — Uma jovem que sabia onde ainda havia peixes no rio. Sabemos que a fauna não suporta mais peixes grandes ali. Deve ser uma comerciante de outro local, que servia de fornecedora. Não havia indígenas nos vilarejos que fomos, mas sei que há algumas comunidades em torno da cidade. Precisamos ir lá ver se conheciam a vítima.
— Mas por que matariam a pessoa que era a única fonte de renda deles? — perguntou Raul. — Não faz muito sentido.
— Talvez foram os donos das terras em volta — respondeu Mayara. — Para acabar com a fonte de renda deles, pressionando-os a vender ou ceder as terras.
— Bastante arriscado — comentou Lucila —, mas plausível.
Ela parou por um tempo, resmungando com os próprios botões e as mãos sobrepostas. Então continuou:
— Dona Joana falou algo sobre um ritual, uma cerimônia de algum culto. Povos pré-colombianos sacrificavam pessoas aos deuses em tempos de escassez, arrancando o coração por meio de cortes no abdome que lembram bastante a incisão de nossa vítima. Antigamente, povos nativos brasileiros eram famosos pela antropofagia, o que, inclusive, motivou um movimento artístico brasileiro… O quanto será que aquelas pessoas estão desesperadas?
— Canibais? — exclamou Mayara um pouco aturdida com a pergunta. — Eu não acredito que existam Maias e Astecas fazendo sacrifícios humanos por aí. Além disso, os colonizadores erradicaram as práticas canibalistas dos povos indígenas no Brasil há muito tempo.
— Você está certa — disse Lucila, como se caísse na real. — O cansaço tomou conta, estava só jogando ideias no ventilador.
— Bom… — começou Raul. — Tem mais uma coisa. Dois garotos falaram que eles têm o costume de pescar sereias.
Mayara não sabia que expressão facial fixava escutando essa informação. Seus olhos alternavam entre Lucila e Raul. A escrivã, por sua vez, continuava a olhar para o quadro à sua frente, sem esboçar reação.
— Sei que parece absurdo, mas pode ter alguma relação — continuou ele, cuidadoso. — Eles pediram minha ajuda para pegar uma na sexta.
— O quê? — exclamou Mayara.
— Me intriga o fato de nossa vítima não ter as pernas. O que eles falaram, mesmo sendo mentira, pode acabar se relacionando com o caso. Parece muita coincid…
— Eu não posso concordar com isso, Raul! — interrompeu Lucila.
— Posso ir lá sexta confirmar que não tem nada a ver com nosso…
— Os dois garotos precisavam de uma mão de obra gratuita. Notaram teu interesse no extraordinário e estão te fazendo de bobo para fazer o trabalho deles.
— Tudo bem, vou lá e… — mas foi novamente interrompido por Lucila que se levantou da cadeira e bateu as mãos na mesa.
— Não posso permitir que tu traga mais essa vergonha para este departamento — esbravejou ela. — Estamos com um caso sério aqui, que provavelmente tem relação com outros homicídios não resolvidos. Preciso de foco total, e não que fique se dispersando com suas curiosidades e crendices infundadas. Se tu quer continuar neste caso, não volte naquele vilarejo à caça de sereias! Estamos entendidos?
— Sim, senhora — respondeu ele, respeitosamente. Embora soubesse que ela não era de cargo superior ao dele, reconhecia a reputação que ela tinha e o poder de tirá-lo do caso, se quisesse.
— Iaras — comentou Mayara com a voz fraca.
— O que disse? — perguntou Lucila, acalmando-se.
— São Iaras — continuou Mayara. — Sereias são de mitologia europeia, geralmente moram no mar. Iaras ou Mães D’águas são as correspondentes diretas dos mitos de sereias, mas originárias no folclore indígena brasileiro.
— Não incentive Mayara — pediu Lucila apertando os olhos com o indicador e polegar por baixo dos óculos.
Raul fitou a parceira levantando as sobrancelhas, surpreso.
— O que foi? — perguntou a investigadora. — Só porque me afastei dos costumes da família não quer dizer que não respeite a cultura.
O clima tenso foi quebrado por batidas na porta. A Delegada Maria entrou, acompanhada de um homem negro, esguio, de semblante sério, elegantemente vestido com um terno cinza-escuro que, mesmo um pouco surrado, lhe caía muito bem.
— Desculpe interromper — disse ela. — Lucila, preciso lhe apresentar o agente federal Jéssico Cardoso. Ele representa o Departamento de Polícia Federal de Proteção ao Meio Ambiente e Patrimônio Histórico. E tem algumas perguntas sobre o caso da moça do rio Jacuí.
— Obrigado Delegada Figueiredo — agradeceu o agente educadamente. Ele atravessou a sala e dirigiu-se diretamente à escrivã, que estava atrás da mesa. — Lucila Klug! É um prazer finalmente conhecê-la pessoalmente. Sua fama a precede. Gosto particularmente de seu sistema de investigação. Lindo, lindo! — disse enquanto apertava a mão dela e dava uma espiada no quadro cheio de anotações.
— O prazer é meu — respondeu, observando-o.
— Raul Cavalcanti Fortunato — falou, virando-se para Raul e apertando-lhe a mão.
— Jéssico? — exclamou Raul.
— Minha mãe queria uma menina — respondeu o agente, rindo. — O nome já estava decidido. Mas pode me chamar de Cardoso. Frango assado? — retrucou a zombaria sobre seu nome.
— Como sabe sobre isso? — perguntou Raul.
— Somos agentes federais, investigador. Temos que ficar ligados em assuntos de segurança nacional.
— Você está falando de invasão alienígena? Ele está falando de invasão alienígena! — disse Raul, alternando o olhar entre Lucila e o agente. — Você sabe alguma coisa sobre invasões alienígenas?
Cardoso riu.
— Se te contasse teria que te matar — brincou.
— Estou gostando dele — comentou Raul.
— Mayara Caeté Silveira — Cardoso dirigiu-se à investigadora para cumprimentá-la. — Muita garra e determinação. Já considerou trabalhar na polícia federal?
— Não — respondeu ela, o mais simpática que conseguiu.
— Que time! — exclamou o agente. — Não teria equipe melhor para trabalharmos juntos.
— Juntos? — perguntou Lucila.
— Cardoso está em uma investigação que provavelmente tem ligação com a sua, Lucila — falou a delegada.
— Senhora, com todo respeito, não precisamos de supervisão. Estamos nos virando muito bem.
— Sugiro que acalme os ânimos, investigadora. Deve haver um bom motivo para a polícia federal querer entrar no caso. Você e sua equipe deveriam sentir-se lisonjeados por serem cotados para continuar a investigação em parceria com eles.
— O que os federais fizeram no caso de cinco anos atrás? — perguntou Lucila, batendo com os nós dos dedos na foto da vítima, fixada no quadro.
— Injusto — respondeu Cardoso calmamente. — Eu não era o responsável pelo departamento, nem pelo caso. Além disso, juro compartilhar a mesma paixão com você por encontrar os responsáveis dessas atrocidades. Outra coisa, sei que essa história toda é muito mais complexa do que vocês imaginam.
— Como você sabe?
— Tenho minhas fontes confiáveis. Infelizmente não tenho recursos infinitos, então preciso da ajuda de vocês. Sei que são uma equipe empenhada em encontrar a verdade, e assim a justiça será feita para todas essas vítimas.
Lucila refletiu sobre o que ele poderia saber e o tipo de informações que suas credenciais trariam para ajudá-la.
— Certo — começou ela. — Que próximo passo você sugere?
— Há um evento fechado em um restaurante local. Minhas fontes indicam que se trata de um espetáculo para os figurões da cidade, ricos que gostam de exclusividade, regado a bebidas caras e um banquete de animais silvestres e raros.
— O que isso tem a ver com nossas vítimas?
— Ainda não sei bem. Estou tentando fundamentar algumas teorias. Saiba que a segurança dos povos indígenas também é de responsabilidade do meu departamento e realmente me preocupo com este caso. Tenho evidências circunstanciais que ligam as vítimas a uma vila de pescadores nos arredores da cidade, e esses pescadores ao restaurante. Pode ter acontecido uma negociação que acabou mal ou o resultado de uma chantagem para exigir mais dinheiro…
— Onde os compradores não aceitaram a extorsão e mataram as possíveis delatoras do esquema de tráfico de animais — concluiu Lucila.
— Exatamente — concordou Cardoso. — Agora precisamos entrar no evento. A chance de encontrarmos um motivo irrefutável para um mandado ou um flagrante é grande. Se pudermos relacionar os casos, matamos dois coelhos com uma cajadada.
— E como planeja fazer isso?
— Na verdade, minha fonte disse que consegue dois convites. Espero que aceite a missão de ir comigo. Nada melhor que sua visão apurada para encerrarmos isso rapidamente.
— Humm — exclamou Raul de forma longa e inconveniente. — Parece que alguém tem um encontro.