4 - A NOVIDADE Corpos Flutuantes: Série Encruzilhada Livro 1 · Capítulo 6 de 10
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4 - A NOVIDADE

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A Novidade

A calmaria incomodavaLucila. Deixava-a com o sentimento de que a investigação evoluíra pouco nos dias seguintes. Afinal, não podiam fazer nada além de aguardar. O máximo que conseguiu foi atualizar suas teorias e conclusões com as anotações que Cardoso compartilhou. Ele, da mesma forma, usava a investigação da equipe para cobrir as lacunas de seus relatórios.

Cardoso conhecia algumas comunidades indígenas nos arredores de Santa Maria, mas suas buscas por pistas resultaram infrutíferas. Entrevistou também os indígenas que trabalhavam no centro como feirantes, vendendo artesanatos, o que apenas aumentou a sensação de tempo perdido. Ninguém conhecia as vítimas, tampouco notaram o desaparecimento de familiares ou conhecidos. E, diferente dos moradores da Curva do Rio, não demonstraram ter motivos para esconder algo.

Estavam estagnados, limitados a revisar tudo o que já haviam descoberto, até que o evento do final de semana finalmente chegasse.

O chamado do médico Jânio foi o que deu à equipe de investigadores uma injeção de ânimo. Ele queria apresentar detalhes do que o corpo revelou, e poderia trazer informações importantes para o andamento do caso.

Lucila, Mayara e Raul se dirigiram ao Instituto Médico Legal. Atravessaram os corredores frios até a sala mais fria de todas, onde eram feitas as necrópsias e laudos dos cadáveres. Ao empurrarem as portas pivotantes, encontraram Jânio do lado da mesa de aço, onde pousava o corpo da garota. Estava com uma expressão séria no rosto, em silêncio e braços cruzados. Parecia esperá-los para revelar suas observações, pois, à sua frente, do outro lado da mesa, havia um agente federal que lhe era desconhecido. Cardoso, diante da resistência do legista em compartilhar informações, também se limitou a aguardar a chegada da equipe, relaxado e com as mãos nos bolsos, buscando algum calor para os dedos.

— Ele diz ser Agente Federal — começou Jânio.

— Tudo certo, Jânio — falou Lucila. — Ele está contribuindo com a investigação.

— Ok… — respondeu o legista chefe, ainda meio desconfiado.

— Desculpe não avisar que vínhamos aqui, agente Cardoso — lamentou-se Lucila. — Estou me acostumando com o aumento de membros no time.

Cardoso respondeu com um aceno de cabeça, e um sorriso discreto, enquanto disfarçava o orgulho dos olhares de perplexidade que recebeu por estar ali.

Lucila voltou sua atenção ao legista.

— Então, o que temos?

— Bom, não identificamos nenhum fio de cabelo ou DNA que não fosse da vítima. O que já era esperado, dado o estado que encontramos o corpo. Qualquer evidência desse tipo foi lavada pelo rio ou eliminada por animais necrófagos. Nada sobre ela foi encontrado em nenhum dos bancos de dados. Digitais desconhecidas, rosto desconhecido, DNA tampouco.

— Infelizmente obtive tanto resultado quanto Jânio — disse Cardoso. — Sem informações sobre ela na região, ou no Brasil. Estou esperando a resposta de alguns colegas, mas, ao que tudo indica, ela é uma completa desconhecida. Não podemos descartar a possibilidade de ser de uma comunidade indígena mais isolada.

— Certo — começou Lucila. — Acredito que você não me chamou aqui para aumentar minhas frustrações.

— Claro que não! Descobri como ela foi realmente morta.

— Isso é muito animador!

— Uma pancada na cabeça com um objeto cilíndrico.

— Então ela não foi degolada? — perguntou Mayara.

— Surpreendente, não é? Os raio-X revelaram fraturas no osso parietal esquerdo e algumas lesões de defesa nos antebraços. Ela não morreu sem lutar.

— E os cortes no pescoço?

— São aspectos fascinantes da anatomia dela, olhem!

Todos se aproximaram da mesa enquanto o médico tocava o pescoço da vítima sussurrando “me desculpe por isso”. Introduziu os dedos indicador e médio nas discretas linhas abaixo da mandíbula, segurou o queixo do cadáver com a outra mão e abriu a boca. Então puderam ver as pontas dos dois dedos de Jânio vestidos com luvas cirúrgicas, balançando alternadamente no fundo da garganta.

— Tu pediu desculpas pro corpo? — perguntou Raul um pouco espantado.

— Não sei porque fiz isso — disse Jânio ao perceber que havia pedido perdão em voz alta. — Enfim… Nunca vi coisa semelhante na medicina.

— Eu já vi — comentou Raul, causando espanto.

— Sério? Onde? — perguntou Jânio.

— A Forma D’água, o filme. Ela usava essas aberturas para respirar debaixo da água.

Mayara colocou uma das mãos na testa. Lucila respirou fundo para se acalmar. Cardoso observou o trio, confuso.

Jânio olhou para o corpo num instante eureka, como se o que Raul disse fizesse total sentido na anatomia daquele corpo. Mas logo espantou os pensamentos com a mão como se fossem moscas lhe incomodando e soltou um sonoro “nááááá”.

— Isso é uma piada interna? — perguntou o legista.

— É sim — confirmou Lucila, para terminar logo com o assunto. — Continue as observações, por favor!

— Certo. Os cortes foram feitos antes da morte. Deduzo que seja algum tipo de modificação corporal.

— Alguém poderia ser tão extremo? — perguntou Cardoso.

— Acredito ser bem plausível — respondeu Jânio.

— Certamente é — concordou Mayara. — Tatuagens e pequenos cortes para formar cicatrizes são mais comuns. Mesmo assim, podemos ver modificações mais extremas, inclusive aqui no Brasil. Por exemplo, o costume de introduzir discos nos lábios, encontrado em alguns dos grupos Kayapós. Os Yanomâmis também perfuram a pele do rosto para introduzir hastes e penas, em alguns casos até atravessando o septo nasal.

— Há muitos exemplos no mundo — acrescentou Lucila. — Essas modificações ditam status de beleza ou hierarquia nos grupos sociais. Como nas aldeias Karen, onde as mulheres alongam os pescoços durante toda a vida, colocando argolas de uso permanente. Ou as chinesas dos pés de Lótus, que, desde jovens, enfaixavam os pés com ataduras apertadas, muitas vezes deslocando e quebrando os ossos para mantê-los pequenos. Tudo para seguir os padrões de beleza daquelas culturas.

— Não precisamos ir tão longe — disse Jânio. — Há muitos exemplos na medicina. Cansamos de ver pessoas fazendo harmonização facial, implantes de silicone em várias partes do corpo, cirurgias plásticas que modificam, muitas vezes, todo o rosto. Procedimentos que quebram os ossos das pernas para a pessoa ficar mais alta. Inclusive, aparelhos ortodônticos que movimentam toda a arcada dentária. Seja por questões estéticas ou de saúde, as modificações corporais estão totalmente intrínsecas ao comportamento humano, independente da dor ou sacrifícios que isso envolva.

— Entendo. Isso parece fora da realidade de alguém que nunca teve coragem de fazer nem mesmo uma tatuagem no corpo — comentou Cardoso com um sorriso.

— Você me parecia puritano mesmo — disse Raul. — Tenho três, por enquanto.

— Mesmo assim — falou Mayara, apontando para o cadáver —, nunca vi modificação desse tipo.

— Concordamos com isso — disse Jânio, franzindo os lábios. — A vítima de cinco anos atrás possuía os mesmos cortes na região do pescoço e fraturas no crânio. O legista da época concluiu que ela foi atacada por uma pessoa canhota com uma pancada na cabeça, no entanto, não morreu. Sendo assassinada com cortes profundos na garganta. O relatório não possui boas imagens e não teríamos muitas evidências para estudar no corpo depois de tanto tempo. De qualquer forma, acredito que encontraríamos os mesmos resultados que vemos neste corpo.

“Sobre as incisões realizadas na região abdominal, são de um objeto afiado, não como um bisturi. Arriscaria dizer uma faca de fio liso. Foi um corte bastante preciso bem ao centro do abdome, começando logo abaixo do esterno. O corte perpendicular começou entre o mesogástrio e hipogástrio, terminando nas vértebras lombares, as quais foram separadas com, pelo menos, duas pancadas de um objeto comprido também de fio fino. Acredito que um machadinho ou cutelo. Certamente quem fez isso era profissional, mas não de medicina. Chutaria um açougueiro. Só não entendo o porquê de tanta violência contra a vítima.”

— É mais fácil de se livrar do corpo — disseram Lucila e Cardoso ao mesmo tempo, e seus olhos se encontraram ao terminarem a frase.

— Faz sentido — concordou o legista, contraindo as sobrancelhas ao reparar o clima estranho entre os dois.

Cardoso limpou a garganta e desviou o olhar.

— E isso confirma nossas teorias — falou ele. — Se quem a matou queria se livrar do corpo, existe um motivo muito forte. Provavelmente eliminar uma chantagem ou ameaça contra um esquema maior.

— Existe mais um detalhe que talvez ajude — anunciou Jânio. Ele segurou um dos braços e virou o corpo, dizendo “com licença” sem perceber. Nas costas, próximo ao que sobrara da lombar, removeu com uma pinça uma pequena escama que estava grudada. — Encontrei duas ou três dessas pelo corpo. Parecem ser de peixe. Provavelmente ela foi morta onde havia peixes, para as escamas cravarem tão fundo na pele.

— É circunstancial — disse Lucila. — Mas vai ajudar. Já podemos começar a montar algum argumento que ligue a vítima aos pescadores. Muito obrigada, Jânio!

— Não foi nada! Só fazendo o meu trabalho.

— Tem certeza que as escamas não são dela mesma? — perguntou Raul, sério, ao legista.

Jânio olhou para o cadáver como se Raul tivesse lhe dado uma chave que pudesse revelar todos os mistérios daquele corpo. Passou por sua mente a imagem de uma grande cauda, cheia de escamas multicoloridas, começando de onde a pele humana terminava, impulsionando aquela bela mulher pelos segredos inimagináveis de um rio selvagem. Espantou os pensamentos com a mão novamente e soltou um “nááááá”.

***

Os dias passavam e o evento no restaurante se aproximava. Lucila já não sabia quantas vezes revisou todo o caso. Nada mais lhe restava fazer além de deixar o quadro de evidências um pouco de lado, e se concentrar em seus afazeres de escrivã e outros casos. Isso inclusive ajudaria a “descansar” sua mente, evitando algum erro por estar com um viés de raciocínio muito fixo.

Tudo apontava para uma queima de arquivo, eliminando determinadas testemunhas que quisessem revelar às autoridades um esquema ilegal. Provavelmente tráfico de animais silvestres para consumo de restaurantes da região.

Mesmo enquanto se debruçava em arquivos de outros casos, sua barriga queimava com a ansiedade e a sensação de impotência por tudo depender do jantar de sexta. Se o restaurante fosse uma rua sem saída, suas esperanças de dar um desfecho e levar os responsáveis à justiça seriam praticamente minados.

Perguntas ficavam no ar, rodando sua cabeça inquieta: por que as vítimas eram mulheres? Coincidência? Por que, aparentemente, ninguém as conhecia? De onde elas eram? Será que ela havia perdido algum detalhe que respondesse essas questões?

A noite anterior ao jantar chegou e Lucila gostaria de estar munida de mais respostas, o que não aconteceu. Quando dava por conta, ficava parada olhando as anotações, fotos e documentos pendurados no quadro de sua sala, como quem se prepara para uma prova importante. Ela já havia decorado todos os detalhes da investigação, ainda assim tentava conquistar a segurança de que não deixou passar nada. Sua cabeça estava quente com os neurônios trabalhando frenéticos, quando Mayara entrou pela porta e se atirou em uma cadeira.

— Hoje foi um dia pesado — comentou Mayara. — Estou cansada. Finalmente posso ir para casa e parar um pouco.

Recebeu de resposta um simples “hum” de Lucila, que mal se moveu.

— Cê sabe que está aí há horas, né? As coisas que estão aí, não vão mudar até amanhã. Tu precisa de um descanso. Vamos dar uma volta, beber alguma coisa…

— Alguém falou em beber? — perguntou Raul ao desviar-se do batente da porta por pouco, apenas raspando a cabeça. — Certamente me ajudaria a dar uma relaxada.

— Estou tentando convencer Lucila a dar um tempo.

— Concordo plenamente. Tu precisa de um descanso. Tem que estar pronta para amanhã, de cabeça fresca. Parecendo uma socialite de alto padrão e não uma policial toda acabada.

— Raul, cala a boca! — mandou Mayara.

— O que foi que eu disse?

— Concordo com vocês — falou Lucila. — Notei agora o quanto estou cansada. Quero estar preparada e atenta, pra não perder nenhum detalhe. Só estou um pouco preocupada por depender tanto deste evento.

— Com certeza tu é a pessoa certa pra estar lá — disse Raul. — Se tiver algo suspeito no local, não existe ninguém melhor para encontrar.

— Isso mesmo — concordou Mayara. — Eles não têm chance de saírem impunes.

— Além disso, tu tem outras coisas com que se preocupar. Como, por exemplo: com que roupa tu vai amanhã?

— Tenho ótimas roupas — disse Lucila levantando-se e mostrando sua indumentária. Vestia uma camisa branca por dentro das calças sociais bege e confortáveis tênis de corrida. — Claro que vou trocar os tênis por um sapato de salto que combine.

Mayara e Raul se entreolharam.

— Não queremos criticar tuas escolhas de roupas — falou Mayara. — Mas, para o disfarce funcionar bem, tu tem que se misturar com as pessoas que vão ao evento.

— O restaurante Cintilar Litorâneo cresceu muito apostando em exclusividade, tentando atingir o público de maior padrão da cidade — disse Raul. — Infelizmente isso demanda uma determinada maneira de se vestir.

— Os donos do restaurante não tinham ninguém para dizer o quanto esse nome é horrível. Mas estamos aqui por você. Podemos dar algumas dicas e ajudar com a escolha das roupas, se achar necessário. — Lucila concordou, mesmo sem entender o que tinha de errado com as roupas dela. — Ótimo! Será divertido.

— Boa! — exclamou Raul, pegou Lucila pelos ombros e a empurrou para a saída. — Bora para casa, tomar umas e fazer você se vestir direito. Eu pago a rodada!

— Direito! — disse Lucila como se lembrasse de algo, desviou-se das mãos de Raul e foi para sua mesa.

— Lá vamos nós de novo — lamentou Raul.

— Aqui — começou Lucila após abrir dois arquivos. — Nossa vítima tem uma lesão ao lado da cabeça.

— Como a vítima de cinco anos atrás — completou Mayara.

— Certo! Mas as lesões atuais foram do lado esquerdo. Segundo o legista do primeiro caso, as lesões na cabeça foram infligidas por um assassino canhoto.

— Entendi. A pancada foi dada do lado direito.

— Isso significa que temos dois assassinos? — perguntou Raul.

— É muito provável — respondeu Lucila. — Estamos lidando com um imitador, um seguidor ou uma gangue que elimina suas vítimas da mesma forma.

— Isso não complica mais as coisas?

— Na verdade, não. Quanto mais pessoas souberem do esquema, maiores chances de achar um ponto fraco. Sabemos que eles cometem erros, esses corpos são a prova. Temos que explorar isso.

— Certo! — exclamou Raul tomando Lucila pelos ombros novamente. — Últimas descobertas anotadas e arquivadas. Agora vamos fazer o que está ao nosso alcance. Nos prepararmos para amanhã.

A casa de Lucila era muito básica, quase sem graça. Tudo estava alinhado e limpo, um contraponto interessante a sua mesa de trabalho que, por vezes, parecia ter sido atingida por um furacão. Durante o restante da noite os três tentaram, ao menos por algumas horas, afastar os pensamentos do trabalho. O que ajudou nesse objetivo foram as latas de cerveja que Raul levou e o “desfile de moda” com Lucila fazendo às vezes de modelo. Após comentários como “Certeza que você comprou essa roupa na mesma loja que minha avó” e “É para você parecer uma empresária de sucesso e não a secretária dela”, acabaram concordando que a resolução daquela missão de fazer Lucila se vestir bem seria alugar um vestido.

O sol de sexta-feira despontou no horizonte e enquanto ele cruzava o céu, os investigadores se ocuparam de seus afazeres. Cardoso apareceu à tarde para combinar os últimos detalhes do disfarce e o roteiro que falariam aos outros convidados. Com tudo acertado, Cardoso foi para o hotel onde se hospedara. Precisava vestir-se e tentar encarnar o espírito de um magnata esnobe. Lucila foi atrás de seu vestido e outros preparativos para a noite, seguida de perto por Mayara, que a impedia de impor suas escolhas sóbrias.

Raul, depois de seu expediente, inventou qualquer desculpa para ir à casa da escrivã ver como ela ficou armada de tanta pompa e ostentação. Após o gigante comentar com os olhos brilhando: “não vai me apresentar sua amiga, Mayara?” e “quando tu apareceu, tudo ficou em câmera lenta”, Lucila sentiu-se um pouco mais à vontade com aquele estilo que tanto fugia do seu gosto pessoal.

A campainha tocou e todos sabiam que era Cardoso chegando para acompanhar a escrivã até o restaurante. Mayara abriu a porta e viu um elegantíssimo Jéssico Cardoso passando pela entrada. Ele agradeceu aos elogios da investigadora e de Raul, que o parabenizaram pela escolha da roupa. A escrivã se aproximou com passos calmos e o coração de Cardoso pulou um compasso.

Lucila usava um vestido azul-escuro, como o céu numa noite limpa no meio do campo. Não possuía muitos detalhes, mas seu tecido transluzia em vários tons e brilhos, conforme seguia os movimentos do corpo. À medida que andava, a perna escapava pela fenda que ia desde o meio da coxa até quase o chão, impedida de tocar o solo pela sandália de tiras douradas e salto alto.

Aquela imagem atingiu Cardoso de forma assombrosa, despertando-lhe sentimentos que não esperava. Desconfiou que seres celestiais pegaram fios da Via Láctea e produziram o tecido que cobria Lucila. Não. Pelo contrário, Lucila é quem reluzia sua beleza com toda a força. O vestido era apenas o coadjuvante daquele espetáculo. Além de tudo, combinava com seus olhos azuis, que agora expressavam timidez diante da expressão embasbacada do agente. Um dos ombros estava exposto, salientando certa ousadia que Lucila não costumava ter.

A escrivã sempre se esforçou para se destacar nos aspectos de sua personalidade e profissionalismo, mas não se importava muito com sua autoimagem, ou encaixá-la nos padrões de beleza geralmente tão valorizados.

Seus cabelos loiros, agora alinhados em um belo penteado, valorizavam o seu rosto maquiado levemente, mas o suficiente para disfarçar a vermelhidão das bochechas que se instalou. Lucila não entendia o porquê de sentir aquela timidez. Logo ela, sempre tão racional e dona de si, agora por apenas sair um pouco da zona de conforto do que vestia e como se portava, agia como uma adolescente diante da reação do agente.

Endireitou a postura para recuperar sua personalidade e segurança, pigarreou e disse: “estou pronta”.

— Vamos Raul — falou Mayara.

A investigadora colocou um sorriso no rosto ao usar o dedo indicador para levantar o queixo de Cardoso, antes de passar pela porta.

— Quais são suas intenções com a garota? — brincou Raul, em tom paternal, com as mãos para trás. — Deixando as brincadeiras de lado, se o caldo engrossar, chamem logo a gente!

— Será uma operação simples — respondeu Cardoso —, com muitas pessoas em volta. Nada com o que nos preocuparmos. Mas manteremos contato.

— Certo. Boa sorte. — Raul saiu fazendo um último gracejo, apontando para os próprios olhos e depois para Cardoso.

— Você está deslumbrante — comentou o agente para a escrivã. — Falaram para usar um terno azul, mas faltam alguns níveis para eu combinar com você.

— Deixe de galanteios. Você também está maravilhoso com esse terno. Amanhã devolvo o vestido e volto a ser eu novamente.

— O terno também é alugado — disse ele, rindo. — E, com todo respeito, independente do que estiver vestindo amanhã, certas coisas são inesquecíveis, mesmo vistas uma única vez.

Cardoso levantou levemente o braço e Lucila segurou com uma das mãos, sorrindo e esforçando-se em afastar os pensamentos juvenis enquanto se encaminhavam para a missão.

***

Cintilar Litorâneo dispõe de um ótimo fluxo de clientes. O ambiente trazia uma atmosfera praiana, de uma forma opulenta e pomposa, como se um cruzeiro tivesse atracado no meio do continente. Famoso por seus pratos variadíssimos de frutos-do-mar, atrai muitos daqueles que não se importam com as faturas de cartão de crédito.

Grande parte de sua fama também se dá por seus donos, um casal bastante bonito e carismático que reunia elevado número de fãs nas redes sociais, onde expunham seu cotidiano. E nessa noite em específico prometeram, para um grupo seleto de pessoas convidadas, uma novidade incrível no estabelecimento.

Munida de toda a simpatia e humildade, lá estava a dona em frente ao restaurante, dando boas-vindas às pessoas que chegavam, acompanhada de uma recepcionista. Se havia mulheres que se destacavam no estabelecimento, ela certamente ofuscava todas com sua produção. Seu vestido, um turbilhão de cores quentes, possuía estampas que seguiam as curvas de seu corpo. Sua altura elevada, somada ao salto alto que usava, a transformava em um monumento digno de museus. Uma supermodelo personificada em empresária do interior gaúcho.

Os investigadores passaram por ela sendo recebidos com um grande e branco sorriso. “Sejam bem-vindos, casal! Que lindos vocês estão! Fiquem bem à vontade”, falou com uma voz enérgica e marcante, o que despertou a questão de como alguém de traços tão delicados guardava tal potência nas cordas vocais. Agradeceram e retribuíram o elogio. Deram seus nomes a recepcionista, e entraram no restaurante sem levantar suspeitas.

O lugar era mergulhado em um cheiro incrível, que facilmente enchia as bocas d’água de qualquer um que estivesse no salão. Ouvia-se muita conversa, tilintar de copos e talheres, garçons correndo de um lado para outro. O casal disfarçado adicionou mais alguns sons ao burburinho, fingindo conversar trivialmente. Entretanto, observavam com cuidado tudo em volta. Vez em quando davam uma olhadela nas bandejas que passavam, tentando identificar o conteúdo dos pratos, e constataram a dificuldade de identificar se algum ingrediente ilegal fora usado apenas observando.

Havia um pequeno grupo de pessoas ao pé de uma escada larga ornada com um tapete vermelho. Um cordão de veludo impedia que qualquer cliente subisse nos degraus sem autorização, indicando que aquela era a entrada do tão aguardado evento.

Alguns rostos já eram figuras conhecidas da cidade. Como Joana Greco, vendedora de joias de alto padrão. E Sílvio Ferreira, influenciador digital local bastante proeminente, mas que nessa noite estava proibido de divulgar imagens do jantar.

Um segundo recepcionista estava posicionado em um púlpito ao lado, onde recebia os convites. Quando os nomes eram confirmados na listagem, o segurança liberava a passagem do convidado, soltando um dos lados do cordão de veludo. “Aproveitem o jantar”, falava mecanicamente, então pendurava o cordão novamente para atender o próximo da lista. Cada passo era planejado para aumentar a sensação de exclusividade. E o que encontravam ao chegar no final da escadaria garantia ainda mais esse objetivo.

O salão que se revelou estava literal e metaforicamente em um nível superior. O conforto e aconchego eram prioridades, mesmo que a decoração destacasse a pompa reservada àqueles clientes excepcionais. As mesas e os tecidos especiais que as cobriam eram base para ornamentos que lembravam discretamente corais marinhos. As cadeiras estofadas combinavam perfeitamente com o restante da decoração, agradando aos olhos. A iluminação suave transmitia tranquilidade completando o conjunto, dando a sensação de um abraço quente aos que entravam. Era de se esperar que quem entrasse naquele local não quisesse mais sair.

Ouviram “Boa noite” de uma figura esplêndida que se aproximava: o dono. Ele vestia uma camisa branca de costura ajustada, que destacava seus ombros largos. As mangas estavam dobradas até os cotovelos, exibindo belas tatuagens no antebraço. Seu rosto, tão angelical quanto o de sua esposa, era destacado por seus cabelos loiros cortados em um penteado moderno, e barba profissionalmente aparada.

— Me desculpem por não estar arrumado à altura de vocês — disse ele, com simpatia e sorriso largo —, estava auxiliando na cozinha. Sua mesa está esperando, fiquem bem à vontade.

Levantou uma das mãos chamando o garçom, que os encaminhou para os lugares reservados.

Lucila sentou-se e olhou para um dos cantos do salão onde havia quatro pessoas em uma mesa, e uma delas chamou-lhe a atenção. Ajeitou os óculos para confirmar o que via. Os olhos verdes no meio do rosto de expressão prepotente fixaram em sua direção. A maquiagem pesada, o penteado e o vestido espalhafatosos quase deixaram-na irreconhecível. Mariane levantou sua taça de champanhe rosé com um discreto brinde à distância, confirmando que notara Lucila entrar.

— Ela é sua informante? — perguntou Lucila apontando discretamente com a cabeça.

— Não sei do que você está falando — respondeu Cardoso após dar uma olhada na repórter.

A escrivã ainda não entendia as minúcias das expressões corporais e os trejeitos de falar de seu novo parceiro, então não sabia dizer se ele mentia. Mesmo assim, pareceu-lhe disfarçar, tentando não revelar que realmente trabalhava com a repórter.

Metade das mesas ainda estavam vazias, indicando faltarem alguns convidados. Observaram que em um dos lados do salão havia o que parecia ser um palco tapado com cortinas pretas. Que tipo de show planejavam para a noite?

O garçom perguntou se eles aceitavam taças de champanhe importado e canapés para aguardarem os outros convidados e os pratos principais. O aperitivo foi bem-vindo após passarem por todos os cheiros do andar abaixo, embora não conseguissem pensar muito na comida. Fingiam beber enquanto observavam as pessoas em volta, e também as que chegavam, na tentativa de identificar quem mais estava no jantar.

***

Nos arredores da cidade, o silêncio de uma trilha estreita na mata fechada era quebrado por três pares de pés, amassando folhas secas e pequenos galhos. Por alguns minutos, a densidade arbórea não lhes permitia enxergar nada além de dois ou três passos à frente, iluminados pelos feixes de luz das lanternas. Durante o dia não parecia tão opressor e claustrofóbico. O caminho finalmente se abriu, no entanto, sem mudar muito as condições de visibilidade.

A lua cheia iluminava sutilmente as margens arborizadas do rio, mas Raul se atentou unicamente à escuridão das águas que se revelou diante de si. Um arrepio subiu por sua espinha e os ombros balançaram involuntariamente.

— Demorou, tio — falou um dos garotos, enquanto soltava um barco amarrado a uma árvore, com auxílio de seu amigo. — Achei até que não vinha nos ajudar.

— Estava ocupado. Acontece quando se é policial.

— Espero que ainda dê tempo.

Raul os ajudou a pôr dois barcos na água. Quando ele colocou um dos pés na embarcação, começou a tremer descontroladamente.

A corrente não estava tão forte quanto no outro dia. No entanto, ao encarar a imensa escuridão à sua frente, não conseguia parar de pensar nas feras que poderiam se esconder por lá. “Controle-se, coragem” repetia em sua mente, e tentava concentrar-se nos reflexos da lua na água, para que não parecesse tão misteriosa.

Marquinhos protestou por ter de ficar sozinho em um dos barcos. Por isso, ao chegarem no meio do rio e ancorarem, combinaram de deixar as embarcações próximas. Os dois amigos se uniram pela cintura com uma corda. Havia outro pedaço que usariam para ligá-los a Raul, contudo, os barcos estavam se movimentando e ficariam batendo um no outro. Outro perigo seria se acabassem por se afastar muito e um dos garotos derrubasse o outro pela corda de segurança, então Raul cedeu a dele para amarrar as embarcações.

— Tudo pronto — disse Gustavo após os barcos darem uma estabilizada. — Acho que podemos começar o ritual.

Raul notou que o garoto carregava uma mochila, mas não perguntou sobre seu conteúdo até o momento. Duvidava da capacidade dos garotos sobrepujá-lo, mesmo assim carregava uma arma de emergência em seu tornozelo, caso as coisas ficassem perigosas.

Imagens das pinturas astecas, onde sacerdotes arrancavam corações pela barriga, vieram à sua mente. Levantou a barra da calça discretamente, enquanto Marquinhos iluminava a mochila para que o amigo pegasse seu conteúdo. Raul desabotoou o coldre e ficou pronto para reagir a qualquer arma que Gustavo pudesse pegar. O coração do investigador disparou quando um objeto prateado refletiu a luz da lanterna. Acabou por abotoar o coldre e deixar sua arma em segurança, ao perceber que era um rolo de papel-alumínio.

Gustavo ainda tirou uma vela e isqueiro. A tensão foi tanta que Raul havia parado de tremer, voltando a ter a reação involuntária quando a adrenalina baixou. O garoto cortou um pedaço considerável de alumínio e segurou a base da vela com o papel. Com as sobras moldou o que parecia ser um pequeno barco. Acendeu a vela enquanto citava uma oração, pedindo a Deus que lhe ajudasse. Suplicava a natureza que cedesse alimento para salvar sua família, e que um dia retribuiria tudo que lhe fosse cedido. Então soltou a vela com sua embarcação no rio. A chama tremeluzente se afastou com a correnteza até sumir de vista.

— Esse é o ritual? — perguntou Raul.

— Sim — respondeu Gustavo. — O que esperava?

— Nada — disse, dissimulando. — E agora? Luzes misteriosas? Aves fênix saindo das montanhas?

— Você viaja bastante, né? — comentou Gustavo. — Agora a gente espera. Mas você precisa parar de tremer, se não vai espantá-las.

Raul respirou fundo e reduziu seus tremores a pequenos espasmos de tempos em tempos.

Os minutos foram passando e nada mudava na paisagem escura. O ar fresco das árvores começava a deixar o clima um pouco frio. A lua, com toda sua beleza, cruzava lentamente o céu. Assim mesmo, o que chamava a atenção de Raul era o breu líquido em torno de si. Antes que começasse a tremer novamente, começou a fazer perguntas.

— Então, desde quando fazem essas pescarias?

— Há alguns anos — respondeu Gustavo. — Na verdade, a gente faz pouco tempo. Mas nossos pais já pescavam antes.

— Por que você diz que pescam sereias?

— Porque é o que elas são, ué. Alguma coisa Marquinhos?

— Não vejo nada, nenhum movimento.

— É o ritual que as chama?

— Acho que sim! Nos ensinaram desse jeito, sempre deu certo, então repetimos.

— Quem ensinou?

— Nossos pais. Eles aprenderam com o tio Lalo.

— Quem?

— Tio Lalo. Como era o nome dele mesmo, Marquinhos?

— Laércio.

— O que aconteceu com ele? Por que não ajuda vocês mais?

— Ah! Ele se deu bem com as vendas, acabou se mudando para um casarão em Agudo.

— Entendi.

— Geralmente aparecem mais rápido. Acho que foi o atraso, sei lá. Vamos emb…

— Estou vendo alguma coisa — disse Marquinhos em um sussurro preparando a rede em suas mãos.

Raul nada via, mas Gustavo se levantou e falou “sim, sim! Se prepara tio!”. O investigador não sabia o que fazer além de tentar manter o equilíbrio no barco. O garoto tirou do bolso tufos de algodão dizendo “quase esqueci”, partiu um pedaço e passou para Raul. O gigante ficou confuso por um momento, mas logo imitou os meninos tapando os ouvidos com a fibra.

Marquinhos jogou a tarrafa em algumas ondulações que pareciam estar indo contra a corrente. Os chumbos bateram na água e fizeram a malha afundar. Começou a puxar a fieira até sentir uma resistência. Esforçou-se um pouco como em um cabo de guerra, e então a soltou, deixando sua rede desaparecer no rio.

— O que foi isso, Marquinhos? — perguntou Gustavo falando mais alto que devia.

— Eu não quero ficar como meu pai!

— Nem foi tão ruim assim, ele já está se recuperando. Ainda bem que trouxe outra tarrafa. Ajuda aqui, rápido!

Os dois discutiam com os berros abafados pelos tufos nos ouvidos, e se preparavam como podiam no escuro. Raul sentiu os barcos balançarem. Os jovens estavam tão distraídos que não notaram. Ficou pensando em como a bagunça que eles faziam não espantaria o que quer que estivessem pescando, mas sua tremedeira, sim.

Olhou para as águas em um dos lados do barco e não viu nada. Imaginou que a criatura ali embaixo estivesse enrolada na rede que foi levada. Quando deu uma espiadela do outro lado, algo rápido como um raio lhe deu um puxão forte na nuca, lançando-o nas águas gélidas do rio.

Raul se forçou a abrir os olhos e encontrar a superfície, mas perdeu todo o senso de direção com a escuridão frígida e densa que o cercava. Tentava subir batendo os braços e pernas a esmo, sem perceber nenhuma mudança em sua posição. A água invadiu as fibras de sua roupa, gelando a pele de todo o corpo à medida que a tocava. A adrenalina corria como eletricidade em seu sangue, fazendo-o se esforçar ainda mais, consumindo o oxigênio de seus pulmões rapidamente. Seu diafragma já se contraía dando sinais de que o corpo precisava respirar. O desespero tomou conta quando notou que não conseguia emergir e não percebia nada para se impulsionar para cima com os pés. A pressão forçava seu peito cada vez mais, enquanto descia lentamente por aquele abismo.

Resolveu segurar o restante do ar que lhe sobrava, esperando o monstro que ia devorá-lo ou um milagre para salvá-lo.

Um brilho fraco ondulou a sua frente. Aquilo batia a calda ferozmente, como um tubarão rondando a presa. Emanava uma luz etérea, que se destacava pela escuridão à sua volta. Não viu muito além da cauda abanando, enquanto a criatura se afastava, mas logo o resto do corpo se revelaria. Nadava habilmente, fazendo a volta para lançar-se contra sua presa, Raul, que continuava flutuando, indefeso. Ele tentou enxergar através da água turva, e o que se revelou à sua frente foi uma imagem aterradora. Quase gritou, liberando o pouco ar que tinha, mas resistiu aos seus instintos.

O ser virou-se lentamente. Dois olhos brilhantes no meio de um rosto quase humano agora miravam Raul. Serpentes em torno de sua cabeça balançavam ao sabor da corrente. Dois braços se projetavam do corpo, armados nas extremidades com garras pontiagudas. Aquele monstro, com cabeça de Medusa, nadou como um torpedo em sua direção.

Já não havia esperança. Raul sabia que aquele era seu fim. Da forma que ele mais temia.

Levou sua mente até Mayara. Ele a queria em seus pensamentos naqueles últimos momentos, para despedir-se, e tentar ter uma boa lembrança enquanto seu corpo era despedaçado.

Seus olhos arregalados viram a luz daquele ser se aproximando, e apenas esperou que os portões do paraíso emergissem dela. Seu coração já não sabia como bater mais rápido, no entanto, a expectativa de dor e sofrimento não se concretizou. Ficou confuso quando sentiu um toque suave nos dois lados do seu rosto. Mayara o observava com atenção, com as mãos tocando suas bochechas, quase como um carinho. Não… Não era sua parceira. Um rosto familiar, mas não tão íntimo.

As serpentes e garras que viu ao longe, foram substituídas por longos cabelos lisos e delicadas mãos femininas. O rosto em sua frente era de uma indígena que, de tão parecida, poderia ser irmã da vítima do caso que eles investigavam. Todo o corpo daquele ser, desde o nu busto humano até a ponta da cauda de peixe, iluminava o breu das águas. Uma Iara, em carne e osso.

Ela fitava profundamente os olhos de Raul, que ficou hipnotizado com tamanha beleza. O medo que sentia foi se extinguindo. Sua boca entreabriu de perplexidade, deixando escapar a última bolha de ar que o mantinha vivo.

A Iara tocou seus lábios nos de Raul, que aceitou aquele beijo como se fosse a coisa que ele mais desejava naquele momento. Estava tranquilo, a ponto de segurá-la pela cintura, sentindo em seus dedos o encontro da pele macia das costas com as escamas da cauda. A sua queda eterna cessou. A água à sua volta se aqueceu, aconchegando seu corpo como em um banho quente. Sentiu uma lufada de ar entrar nos pulmões e todo o rio se iluminou como se fosse dia. Viu cores e seres que jamais imaginaria. Como se a vida que recebia de presente através do ar daquela Iara, lhe revelasse todas as maravilhas da natureza que ali existiam, físicas ou etéreas.

Apesar de Raul querer continuar aquele beijo, e descobrir mais sobre aquele mundo maravilhoso e desconhecido, a Iara o pegou pelo colarinho e nadou o mais rápido que pôde, jogando-o através da superfície para dentro do barco.

Raul tossiu, e aspirou rápido o ar frígido e ordinário. Percebeu-se mergulhado na noite novamente, iluminado somente pelo luar tênue. Olhou desesperadamente para o rio tentando enxergar sua salvadora. Ao notar dois olhos brilhantes flutuando no limite da água, quase se jogou novamente no rio. Mas os meninos gritando e tentando o impedir fizeram-no cair na realidade. Sentiu o peso dos garotos pendurados em seus ombros e quando olhou novamente para o Jacuí, nada havia lá.

— Que susto, tio! — disse Gustavo. — Seria complicado explicar como um policial sumiu aqui. Ainda bem que você nada bem!

— É… — respondeu Raul, contemplando a correnteza. — Ainda bem.

***

O clima no restaurante estava muito relaxante e convidativo. Porém, nossos investigadores à paisana apenas tocavam os drinques nos lábios, sorviam o mínimo da bebida para não perderem o foco. Conversavam sobre assuntos banais, por vezes exagerando nas reações, para parecer que se divertiam tanto quanto o resto dos presentes.

Logo todas as mesas estavam com os lugares completos. As conversas foram interrompidas por aplausos quando os proprietários subiram no pequeno palco em frente às cortinas pretas. Então o silêncio tomou conta.

— Boa noite! — começou ele. Repetiu a saudação, estimulando os clientes a responderem com mais entusiasmo. — Agora vocês parecem animados! Agradeço a todos por virem esta noite. Ficamos extremamente felizes quando vemos a casa cheia.

— Verdade, Léo! O reconhecimento que recebemos é o que nos faz bem, é o que nos faz feliz — continuou a proprietária. — E ver alguns rostos novamente nesse evento, é ter certeza que estamos fazendo algo certo. Porque não é nada barato, hein!

A brincadeira tirou algumas risadas do público.

— Dois mil e oitocentos reais — gritou um convidado, rindo. — É um assalto! Não pago isso de salário para nenhum de meus funcionários, mas já é a terceira vez este mês que estou aqui — comentou em meio a gargalhadas como se tivesse dito uma piada. Todos riram.

— Não queria ser indiscreta e revelar quem tinha voltado — disse a proprietária, e escondeu o orgulho com um sorriso de timidez simulada —, mas já que admitiu, um brinde a você, Roberto.

Levantou sua bebida e deu um gole discreto.

— Isso somente corrobora o que estamos falando. Não é Augusta? Sentimos que estamos fazendo algo certo aqui. Algo que traz felicidade, um prazer de viver, para vocês e, consequentemente, para nós.

— Nós falamos que apresentaremos uma novidade hoje por dois motivos. Um é pelos rostos novos que estamos recebendo. Certamente será um máximo. Algo que nunca vão esquecer.

— E o outro é que toda vez que se presencia o que há atrás dessas cortinas, é como se fosse a primeira experiência. Nosso amigo Roberto concorda.

O cliente assíduo levantou a taça, saudando a alegria instaurada no salão.

— Leonardo, nossos amigos devem estar famintos. Acho que já podemos começar.

— Certo, querida! Fiquem atentos, de olhos bem abertos. Só lhes peço: não se apaixonem! Nós, com todo o prazer, lhes apresentamos a Senhora das águas, a verdadeira Mãe d’água, uma lenda viva: nossa querida Iara.

Ao ouvir o nome da criatura, Lucila pareceu sentir um estalo.

— Impossível — escapou dos lábios dela quase como um sussurro.

— O quê? — perguntou Cardoso.

— Nada — desconversou ela —, apenas uma coincidência.

Cardoso a fitou, pensando que no ramo em que eles trabalham, coincidências são improváveis.

Os proprietários saíram para os bastidores. As luzes que já estavam suaves tiveram sua intensidade diminuída e as cortinas negras se abriram. A princípio, nada se via além de escuridão total. Logo que os olhos se acostumaram com a pouca iluminação, um brilho leve começou a se destacar, movendo-se como um fantasma no centro do palco. De repente, dois focos de luz intensa revelaram aos olhos de todos o que emanava aquele brilho. Um ser belo e inacreditável: da cintura para cima uma linda mulher indígena, e o restante do corpo reluzindo cores variadas das escamas que formam sua cauda de peixe. A Iara nadava no que parecia um grande aquário no centro do salão.

No mesmo momento que os focos se acenderam, a maioria dos homens e algumas mulheres levantaram-se, como se, em pé, pudessem ficar mais próximos daquele ser espetacular. As pessoas pareciam hipnotizadas com tamanha beleza. Os longos cabelos negros balançavam como ondas enquanto ela ia de um lado a outro do aquário.

Lucila, por alguns instantes, resistiu à magia daquele ser, sem entender o porquê de tamanha comoção. Viu Cardoso ficar de pé rapidamente, e então parar boquiaberto. Quando fixou o olhar por alguns segundos na entidade atrás daquela parede grossa de acrílico, foi finalmente fisgada em sua atração irresistível. A racionalidade foi desligada. Ela queria vê-la melhor, ela precisava saber mais sobre aquele ser fabuloso. Não sem esforço, conseguiu resistir à vontade de subir na mesa.

Sentiu uma incandescência subir por seu abdome e se espalhar pelo corpo. Desejava jogar-se naquele tanque, tirar as vestes e molhar sua pele toda na mesma água daquela Iara. Queria saber como seria viver para sempre com ela, sem o peso da existência, com seus corpos flutuando em uma liberdade infinita.

O que era aquilo? Lucila não era assim. Sua vida era regida pela incontestável lógica e nesse mesmo dia se entregava aos sentimentos pela segunda vez. Aquilo não a deixava confortável, mas também não queria que terminasse.

A Iara graciosamente mergulhava naquele tanque até que olhou diretamente para Lucila. Quando o brilho do olhar daquele ser encontrou o da escrivã, algo mudou. Ela começou a perceber aquilo que ninguém mais estava prestando atenção. Aquela Mãe D’água queria sair dali. Seus movimentos de um lado para o outro no aquário não eram uma exibição, ou uma graciosa dança subaquática. Na verdade, parecia procurar algo, uma saída ou alguém que a ajudasse. Aos olhos de Lucila, aquele belo rosto agora expressava medo. A Iara encostou as mãos na parede transparente, fechou um dos punhos e bateu duas vezes, queria acordar a escrivã daquele transe.

Uma porta submersa se abriu ao fundo do aquário, por onde a Iara rapidamente se escondeu. As cortinas se fecharam e as luzes se intensificaram. As pessoas foram despertando daquele êxtase lentamente. Algumas tiveram que voltar para seus lugares após darem pequenos passos em direção ao aquário.

Enquanto se sentavam, Cardoso e Lucila se entreolhavam sem comentar nada. Cardoso estava inexplicavelmente com a carteira nas mãos. Ouviu-se ao longe a voz de alguém. Eram os proprietários pedindo uma doação voluntária à artista que acabara de se apresentar. Mal eles terminaram o pedido, já se ouvia folhas de cheque sendo destacadas e bipes de máquinas de cartões de crédito. Lucila pegou sua bolsa em um impulso, e logo soltou-a respirando fundo. Um garçom passou na mesa deles com uma máquina de cartão em uma bandeja, e perguntou se queriam realizar uma doação.

— Acha que devíamos? — perguntou Cardoso a Lucila com a carteira ainda em mãos. A escrivã balançou a cabeça negativamente. Cardoso virou-se para o garçom hesitando — Sabe como é, a patroa que manda!

— Você está bem? — perguntou Lucila.

— Eu não sei… Não… Estou sim! E você?

— Melhorando. O que aconteceu aqui?

— Nem ideia.

— Senti como se tivesse perdido o senso crítico e de realidade. Será alguma droga?

— Parece que aconteceu o mesmo com todo mundo. Se for, não é nada que já tenha ouvido falar. Mas logo poderemos investigar melhor.

Os proprietários agora passavam entre as mesas, conversando rapidamente com os presentes. Augusta se aproximou dos investigadores.

— Olá, casal! — disse, tocando no ombro de Cardoso. — E então, o que acharam da apresentação?

— Uma loucura! — exclamou Cardoso.

— Não é? Ela é uma artista excelente.

— É realmente impressionante como ela cativa o público — comentou Lucila.

— Verdade. Dá vontade de sair tirando as roupas e nadar com ela — disse a proprietária, fingindo rasgar o vestido com uma das mãos. Abaixou-se como quem quisesse contar um segredo aos dois. — Na verdade, até já pensei em fugir com ela. E olha que sou hétero. Cuida do teu homem, hein!

Terminou a conversa com uma risada e batendo o quadril no ombro de Lucila antes de se afastar. Leonardo anunciou que o banquete seria servido.

Em um instante, vários garçons entraram para servir as mesas. Um deles veio diretamente na direção dos policiais e largou dois pratos anunciando seu conteúdo.

— Aqui está, senhores, uma comida rara para clientes especiais. A entrada: uma porção de raia na manteiga e pedaços de manga.

O garçom soltou um prato na frente de Lucila e fez a volta na mesa para servir Cardoso.

— Parece gostoso — começou o agente, chamando a atenção do funcionário, que sorria, satisfeito. — Já comi alguns tipos de raia. Saberia me dizer que espécie é essa?

— Certamente! É Raia-viola.

— Entendi… — O agente sabia que a espécie citada era realmente rara, com pesca e consumo proibidos. — Eu gostaria de conversar com seus chefes.

— Eles estão muito ocupados no momento, mas posso ver se eles podem lhe dar atenção.

— Acredito que eles vão querer me dar atenção. — Cardoso tirou do bolso do paletó um papel, desdobrou-o e o colocou em cima da bandeja que o funcionário segurava. No cabeçalho lia-se: “Mandado de busca e apreensão”.

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