PRÓLOGO Amor ao quadrado · Capítulo 2 de 7
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PRÓLOGO

Há 20 anos. 2005.

Bernardo, no intervalo das aulas, está lanchando no pátio da escola, observa a situação com atenção por já ser uma rotina comum, o menino estranho magro e alto da turma ao lado da sua, está prestes a ser acuado novamente por outros garotos. Bernardo morde seu sanduíche e o mastiga enquanto mantem seu olhar no outro menino, o cabelo ondulado na altura do queixo cai para frente quando se encurva após se sentar na parte alta da arquibancada e retirar um carrinho do bolso para brincar sozinho, com isso, três outros se aproximam dele, zombando. Logo os empurrões começam e o cabeludo se encolhe batendo com as mãos na própria cabeça.

Joga o embrulho do seu lanche na lixeira ao lado e se aproxima do grupo de bullying, a supervisora do pátio já está vindo, mas mesmo assim, decide se intrometer a pedido da coordenadora.

— Ei, não podem fazer isso, se persistirem eu chamarei a coordenadora.

Os três pré-adolescentes encrenqueiros se entreolham com caretas e depois riem de Bernardo.

— Cai fora, nerd — um deles o empurra pelo ombro.

— Oh o jeito que o mané fala — outro ri.

— Meninos! Já avisei que não é para causarem encrenca — a supervisora de corredor dispersa os moleques que saem reclamando. — Ah, essa não — suspira chateada ao ver o menino surtado, ele chora alto e puxa os próprios cabelos.

— Mas ele nem apanhou dessa vez.

— Olha Bernardo, — a supervisora fala com calma ao mesmo tempo que puxa o outro pelo braço com cuidado enquanto desce as arquibancadas para o levar à coordenação — a coordenadora da escola já tentou de tudo para chamar os pais dele, mas não aparecem, esse menino claramente precisa de tratamento psicológico. Por que você não se torna amigo dele?

— E por que eu? — Os segue e repara que o menino olha para trás angustiado, e por andar de um jeito esquisito, ainda tropeça nos próprios pés. Mas Bernardo olha na direção que o outro havia mirado e percebe o carrinho, retorna e pega do chão, corre para os alcançar novamente.

— Fique aí, Murilo, quando estiver melhor, retorne para sua sala — o deixa em uma pequena sala de recursos para aulas especiais aos alunos com atraso. Então se vira para o outro garoto que está parado na porta. — Você poderia fazer amizade com ele, quem sabe sua mãe não ajuda...

Bernardo franze o cenho, não quer ser amigo do esquisito da escola.

— Vá lá, entregue pra ele — incentiva o garoto a entrar ao ver o carrinho na mão dele.

Ele caminha até o canto da parede onde o outro está encolhido abraçado às próprias pernas chorando em silêncio. Por se compadecer, se aproxima e se senta ao lado, o abraça assim como sua mãe faz consigo quando se sente nervoso, depois entrega o brinquedo.

Murilo ergue o rosto por ver o carrinho, pega de volta e fica olhando para ele o girando com seus dedos.

— Você tem que agradecer por eu ter pegado para você — o outro não lhe responde, só chora, então novamente o abraça de lado e isso o acalma.

— É o presente da minha Nana, ela sumiu — aperta o carrinho na mão pela tristeza, não a vê há quase três anos.

Se sentindo menos ansioso, mas ainda com a cabeça doendo, Murilo ergue o rosto, devagar, passa a mão no cabelo para o colocar para trás e poder ver quem é, pois normalmente os professores só o deixam ali na sala e saem, está acostumado a sempre ficar sozinho onde quer que vá, seja na escola, nos cursinhos, e principalmente, em casa.

— Obrigado.

Bernardo abre mais os olhos ao ver o sorriso dele.

— Eu sou o Bernardo, e você?

— Murilo.

— Você tem que parar de chorar quando te cercarem, minha mãe fala que não pode demonstrar medo, e você tem que falar com seu pai, não pode continuar desse jeito.

— Meu pai não se importa comigo. Nunca tem tempo.

— A sua mãe, então.

— Ela também não tem tempo.

— Que chato.

— Você pode ser meu amigo? — O olha nos olhos.

Bernardo pensa, mas o olhar do garoto é profundo demais, mesmo que não compreenda o que significa essa sensação estranha, entende que é algo importante.

— Vamos — dá a mão para ele, que olha antes de o cumprimentar firme.

Da porta, a coordenadora sorri com a cena, havia pensado em juntar Bernardo e Murilo pois, Bernardo é um sabichão controlador e teimoso, o que o faz ser solitário; enquanto o outro é infantilizado demais para a idade e claramente não tem ideia de como se portar, além de ser agitado e impulsivo, precisa de alguém para o comandar. A supervisora de corredor se coloca ao lado e cochicha:

— Deu certo?

— Espero que sim, pelo menos se entenderam, agora é torcer para fazerem amizade e quem sabe, a mãe do Bernardo ajude. Tenho dó, é um garoto tão inteligente, mas claramente tem atraso social por culpa dos pais.

— É, tem dez, mas age como se tivesse cinco.

— Infelizmente o único jeito de lidar com pais ricos narcisistas, é cuidar da criança sem que eles percebam.

— O que não é muito difícil já que entopem o guri de atividade para o manter longe de casa.

— Exato. — Entra na sala e se aproxima dos dois meninos que nesse momento, se levantam conversando sobre o carrinho da Hot Wheels. — E então, meninos, como estão?

Há 15 anos. 2010.

Murilo chega de táxi na casa de Bernardo, é recepcionado pelos pais dele e depois segue direto para o quarto do amigo, onde se depara com os irmãos brigando.

— Por que eu não posso ficar? — Grita em tom bravo e bate o pé no chão.

— Eu já falei. São só os meus amigos — responde no mesmo tom alto e irritado.

— Mas eu também sou sua amiga, e sou sua irmã!

— Saia, Duda! — A empurra para fora do seu quarto e, bate a porta, a tranca, só então encara o amigo que está parado num canto, estralando os dedos das mãos, e descalço. — Eae, cara, chegou cedo.

— Meu pai me acordou, chegou fazendo bagunça com a amante dele — coloca a mochila no seu canto do guarda-roupa do amigo, fica tanto tempo lá que tem o próprio espaço.

— Que chato.

— Mas... — faz suspense enquanto retira algo lentamente da mochila — trouxe vodca!

Bernardo sorri.

— Maneiro! — Pega a garrafa de vidro para olhar e depois a esconde. — E já comeu o café da manhã?

— Não se come café.

— Você entendeu. E pelo visto, não comeu ainda, vamos lá — destranca a porta e saem os dois.

Maria Eduarda chora com a mãe, implorando para poder ficar para o aniversário de Bernardo, mas Nayane sabe que a menina não vai colaborar, vai ficar em cima do irmão tentando chamar a atenção dele, e o adolescente já pediu para que a levasse por não querer passar vergonha.

— Eu gostaria de ter uma irmã, você não deveria brigar tanto com ela. Não vejo problema d’ela ficar — fala por ver a menina chorando na sala.

— Não diga besteira, a Duda vai atrapalhar, se esqueceu do nosso combinado?

— Não — baixa a cabeça, o amigo chamou um número par de convidados, conforme o que os amigos da sala almejavam com as meninas, porque farão combinados de casal, a ideia é todo mundo perder o BV.

Depois de fazerem um sanduíche e leite com achocolatado, os dois retornam ao quarto e comem enquanto planejam como farão para o plano dar certo.

— Verdade ou desafio será a melhor maneira — comenta após terminar seu lanche.

— Concordo, será um bom modo de convencer as meninas. E você sabe que a Isa te quer, né? Daí eu fico com a amiga dela.

— Qual?

— Não é da escola, — Bernardo pega o celular para abrir o facebook — é uma vizinha dela — mostra a foto para o Murilo. — Essa é a Bianca.

— É muito bonita — analisa imagem cuja resolução não é tão alta, o cabelo alisado pra frente com uma mecha rosa e o lápis de olho preto bem marcado evidenciando o estilo Avril Lavigne.

— É sim, tem outras fotos aqui — deixa o celular de lado por ver que o amigo não parece interessado. — Mas tá de boa pra você de ficar com a Isa?

— Sei lá — dá de ombros. — Ela é legal.

— Mas não é quem você quer... — comenta pela cara que o amigo faz enquanto cutuca os cantos das unhas olhando para o nada. — Você está gostando de alguém?

— Sim, mas tenho que esperar — passa a mão no cabelo para tirar da frente do rosto, e decide prender com a xuxinha que carrega no pulso, faz um rabo de cavalo curto.

Bernardo o observa, está ciente do que anda sentindo pelo amigo, é bonito, é o mais alto da turma, e também muito inteligente. Mas principalmente, gosta de ele ser carinhoso e não esconder esse fato só por serem rapazes, Murilo o encara, agora seu coração bate mais rápido pela troca de olhar.

— Seu rosto está vermelho.

— Ah — desvia a face por ficar constrangido e respira fundo pra se acalmar, mas tem uma ideia, então sorri e volta encarar o amigo. — Pensei em algo aqui. Você ainda não beijou ninguém, a Isa já teve namorado, e se eu te ensinar a beijar pra você não pagar vergonha?

Murilo ergue uma sobrancelha, surpreso, então ri.

— Algum problema?

— Não. — O olha nos olhos, conhece muito bem o Bernardo para saber que ele está nervoso. — Você gosta de mim, não é? — A expressão no rosto dele responde, apesar do silêncio. — Não precisa inventar desculpa, é só falar. Eu já percebi que você se atrai tanto por garotos quanto pelas meninas, e já reparei que você fica me olhando diferente, não precisa disfarçar comigo.

— Você entendeu errado — tenta se justificar.

Murilo põe os braços para trás da cabeça, escorado na cabeceira da cama, fala em tom tranquilo e olhar confiante:

— Eu amo você, cara, não pra ser seu namorado, mas você pode contar comigo pra tudo, sempre — estende a mão direita.

— Você não vai contar para ninguém, certo? — Soa sem graça e pega a mão dele.

— Quando você quiser, você conta.

O olhar de Murilo é intenso, e sincero, sua passividade sempre deixa Bernardo mais confiante. Se sentindo calmo e confortável, Bernardo se aproxima do amigo.

— Eu gostaria de... — respira fundo — poder te beijar.

— Está bem. Mas eu preciso te dizer algo antes. Eu acho que estou gostando da Duda.

Silêncio constrangedor por alguns segundos.

— Que azar.

Murilo ri da resposta do amigo.

Bernardo se inclina na direção dele, olha a íris acobreada iluminada pela luz do sol vinda da janela, segura o rosto de Murilo com a mão direita e aproxima o rosto devagar, então encosta seus lábios no dele, o beija calmamente e o abraça se colocando sobre o colo do amigo que o segura pela cintura.

Duda está de pé, do lado de fora da janela, de olhos arregalados.

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