CAP 03 | PNEU Amor ao quadrado · Capítulo 5 de 7
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CAP 03 | PNEU

Bernardo e Murilo conversam na porta do escritório com o Laercio, outro advogado associado, um idoso que prefere não se aposentar, dono da metade do prédio que Bernardo havia herdado do avô; o assunto se encerra e Murilo sugere de aproveitarem o fim do mês para beberem juntos.

— Não vamos jogar tênis hoje?

— Depois do tênis, por volta das 22h nos encontramos no Lograda — Murilo responde o amigo informando o nome do pub que quer ir.

— Verei com a Simone se ela aceita, e confirmo por mensagem — Laercio se despede e logo entra no próprio carro.

Assim que ele sai, uma moto sobe na calçada e os dois homens se entreolham confusos.

— Aguardava cliente?

— Eu não.

A mulher chama atenção pela roupa justa no corpo, a blusa de manga cumprida para proteção solar não impede os dois de darem uma boa olhada, retira o capacete, e os cabelos caem sobre os ombros deixando-os de boca aberta, alheia, passa as mãos no cabelo os organizando rapidamente e desce da moto, a calça jeans contorna as pernas torneadas e a bota de salto realça ainda mais.

— Caraca, que linda! — Bernardo arregala o olhar e aperta o ombro do amigo. — Está vendo isso?

— Graças à Deus eu não sou cego — Murilo cochicha em resposta.

Ela sorri encarando um por vez e se aproxima.

— Boa tarde... ou boa noite, — esboça uma risadinha rápida, envergonhada — algum de vocês por acaso é o Bermuda?

Murilo segura a vontade de rir, Bernardo estende a mão e corrige a pronúncia do seu sobrenome, soa sério se esforçando em não parecer rude.

— Bernardo Bermudes, prazer.

— Eu amei o seu nome, é divertido — seu tom é animado e tão sincero que o deixa sem graça. — Eu sou a Alexandra, com x, mas se pronuncia com a fonética “quissi” igual falar táxi. Você falou com meu primo ontem, por acaso já conseguiu um motorista? Eu estava passando na rua quando vi seu nome na placa, o bom de ter um nome legal é que fica fácil de lembrar.

Ela não estende a mão, continua falando de um modo divertido o envergonhando enquanto seu amigo claramente está se esforçando em não rir de sua situação. Para disfarçar o constrangimento, Bernardo coloca a mão no bolso.

— Eu ainda estou avaliando os candidatos. — Fala em tom firme e a olha nos olhos, mas ela parece olhar para sua testa e isso lhe agonia. — Por qual motivo você teria interesse na vaga?

— Preciso de dinheiro e sou uma ótima motorista, também entendo de carros, é minha paixão, então até em questão básica de manutenção eu posso garantir para o senhor. Troca de pneu, limpeza geral, o senhor não precisará se preocupar com nada, nem com a manutenção. Quando posso começar? Qual é o salário e a hora de trabalho?

— Calma, não é tão simples assim. Preciso avaliar seu histórico, verificar sua antecedência, tenho...

— Eu nunca fui multada.

— Façamos assim, venha amanhã às 11h para uma entrevista, poderemos conversar melhor.

— Posso vir às 10h, não às 11h.

— Seu horário tem que se adequar ao meu se quiser trabalhar para mim — soa mais sério e passa a mão na testa pensando haver algo por ela não desviar o olhar daquele ponto.

— Me adequarei quando assinar o contrato. Te garanto que serei uma ótima funcionária.

— Eu preciso de alguém que saiba se comportar em qualquer ambiente, que seja silenciosa e que me garanta sigilo total, então entende o porquê eu preciso de uma entrevista adequada e de avaliar seu histórico? E quero os contatos dos seus patrões anteriores.

— Silêncio é meu sinônimo, senhor, — sorri abertamente — quanto menos conversarmos é melhor. E não se preocupe com sigilo, eu não me lembro de nada do que falam comigo se não for do meu interesse, e meu interesse no momento é um salário e carros, podemos sempre falar de carros.

— Tem algo na minha testa? — Pergunta intrigado.

— Não.

— Então por que não me olha nos olhos? — Acaba se inclinando na direção dela por estar irritado.

— As pessoas me dizem que sou estranha quando olho nos olhos.

Então seus olhares se cruzam e o homem engole em seco pela intensidade e determinação que há neles. E aquela sensação há anos adormecida retorna de repente, acelerando seu coração.

— Posso vir às 10h ou antes?

— Ah, sim, às dez — responde desviando o olhar para o chão — então até amanhã.

Se afasta indo ao seu carro, seu amigo já está de saída no próprio automóvel, ele entra e pressiona o botão para ligar, porém, alguém bate na janela. Bernardo ergue o rosto e baixa o vidro por ver a mulher.

— Algum problema? — Está estranhado a insegurança com ela. Normalmente sorriria, jogaria conversa fora e pegaria o telefone dela em poucos minutos, mas por algum motivo, ao mesmo tempo que a acha atraente, sente que precisa correr para longe ou ficará sufocado.

— Seu pneu está furado.

— Não está, não — mas como ela insiste, ele desliga e desce para conferir. — Ah, merda.

— Sabe trocar? Eu sei.

— Esse carro não tem um reserva — usa tom de reclamação e pega o celular. — Mais um gasto, ter que pernoitar no guincho para levar em uma borracharia amanhã.

— Vai gastar porque é besta — abre a porta do carro e se agacha para achar o botão que abre o porta-malas enquanto ele fala ao telefone.

Ele a olha com indignação pela afronta, a vê mexer na parte traseira e erguer o fundo do porta-malas revelando um pneu e um plástico com ferramentas. Desliga o telefone dispensando o socorro e se aproxima a observando estupefato, ela desprende o step e entrega para ele.

— Como você não sabia da existência, suponho que nunca o tenha calibrado, tem um posto de combustível há três quadras naquela direção — aponta com o dedo. — Enquanto isso, vou retirando esse aqui.

Alexandra encaixa o macaco no apoio da lataria para elevar a roda e retira a roda enquanto aguarda o homem retornar.

Uma hora depois do ocorrido, Bernardo chega na quadra do condomínio e respira fundo só de ver a cara de zombaria de seu amigo que o encara com a bolsa da raquete em mãos, como havia mandado mensagem confirmando que jogaria tênis, Murilo estava aquecendo na quadra o aguardando.

— E como foi a troca de pneu com a gostosa? Trocou algum óleo a mais?

— Não seja idiota.

— Vai contratar? Eu contrataria.

— Decidirei depois da entrevista, não vou contratar só porque ela sabe trocar um pneu — se dirige ao seu lado da quadra.

— Você não sabe, então já é uma vantagem. Uma das qualidades que ela demonstrou ter.

— E qual a outra? — Se prepara para rebater enquanto Murilo quica a bolinha no chão.

— Aquela bunda perfeita. Por favor, a faça trabalhar de calça jeans, meus olhos agradecem — sorri jogando a bolinha para cima antes de bater nela com a raquete.

— Isso não dará certo — responde alongando os braços.

— Eu vi como você ficou desajeitado, ela mexeu contigo — bate a bolinha algumas vezes no chão e se posiciona para iniciar a partida.

— Se concentre aí, se não quiser perder de lavada!

Murilo balança a cabeça rindo e joga a bolinha bem alto para poder saltar e bater com a raquete.

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