Capítulo 1 Crônicas de Darak · Capítulo 2 de 3
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Capítulo 1

Ardnas percebeu que a guerra estava chegando antes que qualquer mensageiro ousasse atravessar os portões de Darak.

O vento foi o primeiro a mudar.

Depois vieram os silêncios.

As torres ficaram vazias de pássaros. Os cães não latiam. Até o ar parecia espesso, como se o mundo estivesse prendendo a respiração. Um odor metálico misturava-se à poeira da muralha, lembrando que o perigo vinha de muito além do horizonte.

Ela não alertou a vila.

Chamou apenas os filhos.

Reuniram-se no salão ainda na penumbra do amanhecer. A luz pálida atravessava as janelas altas, cortando o chão em faixas frias.

O cheiro de cera queimada misturava-se à umidade da pedra, e o som do vento zunindo nas frestas fazia cada suspiro parecer mais pesado.

Ardnas os observou demoradamente.

Zharuk, grande demais para o próprio medo, mantinha os ombros rígidos. Sentia a tensão nos músculos e o frio do suor escorrendo pelas costas.

Thalen, inquieto, como se a terra sob seus pés também estivesse, apertava as mãos até que as unhas riscassem a pele.

Valeric mantinha os punhos fechados. O calor instável pulsava sob sua pele, e ele respirava com dificuldade, lembrando cada chama descontrolada do passado.

Morgria permanecia imóvel. Os dedos apertavam o símbolo sagrado até a corrente marcar a pele, enquanto o coração batia rápido demais — como se a culpa tivesse peso físico.

Eles sabiam.

— Ele está vindo — disse Ardnas.

O nome não foi pronunciado.

O mais novo respirou fundo; o ar parecia carregado de lembranças que não deveriam existir.

— É por causa do que fizemos.

Não era pergunta.

Era memória.

A noite do ritual.

O brilho impossível.

O pai ajoelhado diante de algo que não deveria existir.

A irmã gritando — e depois não mais.

O cheiro de pólvora e de luz consumida ainda parecia pairar sobre eles, invisível e sufocante.

Ardnas sustentou o peso daquele silêncio, sentindo cada respiração dos filhos como se fosse própria.

— Esta guerra não é por território — disse, enfim.

— É consequência.

Valeric desviou o olhar.

— Se eu tivesse destruído aquele círculo...

— Se eu tivesse ficado com ela — murmurou Morgria.

— Se eu tivesse enfrentado ele antes — completou Zharuk, as mãos cravadas no escudo.

Thalen fechou os olhos.

— Nós éramos crianças.

Mas a culpa não reconhecia idade.

Ardnas deu um passo à frente.

— Nós vamos enfrentá-los juntos.

Não prometeu redenção.

Não prometeu salvação.

Apenas união.

Os dias seguintes foram de preparo.

Treinaram até que os braços falhassem.

Até que a magia queimasse a garganta.

Até que o medo se transformasse em movimento.

Em um momento, o fogo de Valeric escapou do controle.

As chamas se ergueram altas demais, violentas demais, iluminando os olhos do grupo com um reflexo do passado.

Por um segundo, todos viram naquele brilho a noite em que perderam a irmã.

Valeric foi o primeiro a recuar.

— Eu não sou como ele.

Zharuk colocou o escudo entre o irmão e as chamas, sentindo o calor cortar a própria pele.

Morgria pousou a mão sobre o ombro dele.

Thalen fez a terra absorver o restante do fogo, o cheiro de queimado subindo até o nariz de todos.

Na última noite antes da batalha, permaneceram juntos nas muralhas.

Darak estava quieta.

Calma demais.

— Se ainda houver algo dela... — começou Thalen.

Ardnas não desviou o olhar do horizonte.

— Então ela saberá que não a abandonamos.

Ao longe, o céu não clareou com o amanhecer.

Clareou com fogo.

Uma linha ardente rasgou o horizonte.

O chão tremeu.

Não era mais presságio.

Era chegada.

Zharuk ergueu o escudo.

Valeric abriu as mãos.

Morgria murmurou uma prece.

Thalen tocou o solo.

Ardnas avançou um passo.

A guerra não vinha apenas para tomar Darak.

Vinha cobrar o que haviam

começado naquela noite.

E, pela primeira vez, sentiram que não havia ritual que desfizesse o que estava feito.

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