Capítulo 2
A guerra chegou a Darak como uma noite de tempestade.
O ar parecia comprimido contra as muralhas da cidade, pesado demais para respirar, enquanto um cheiro pútrido vinha da planície carregado pelo vento, como se a própria batalha já respirasse ali antes mesmo de começar. Sombras se moviam no horizonte deformadas pela névoa da madrugada, lembrando presságios que caminhavam lentamente pela terra. Darak parecia sufocada pela mistura de odores metálicos, fumaça e carne corrompida.
Zharuk foi o primeiro a chegar às muralhas. Sua armadura exalava o cheiro frio de metal pressionado pela luz, e seus cabelos pretos, curtos e espetados, moviam-se levemente com o vento que soprava da planície. Seus olhos castanhos, com reflexos de mel, permaneciam fixos na escuridão além da cidade, observando o movimento distante daquilo que se aproximava. O escudo de luz preso ao seu braço parecia se comprimir sob a força com que ele o segurava, como se a própria magia sentisse o peso da batalha que se aproximava.
Seus dedos estavam cobertos de cicatrizes antigas, marcas de guerras que ele já enfrentara e sobrevivera. Zharuk tinha cinquenta anos e media mais de dois metros de altura. Seu corpo era enorme mesmo entre guerreiros, e os dentes ligeiramente grandes davam ao seu rosto uma aparência dura, quase brutal. Ainda assim, aqueles que o conheciam sabiam que por trás daquela força existia apenas um homem profundamente leal à sua família. Leal aos irmãos. Leal à mãe.
Ele caminhou até o parapeito da muralha e deixou o vento frio bater contra o rosto. Por um instante breve demais, sua mente voltou ao passado. Lembrou-se da infância correndo pelos pátios de pedra de Darak, das risadas de seus irmãos ecoando entre as torres e dos dias em que a cidade parecia eterna. E lembrou-se dela. Sua irmã.
A irmã que agora havia se voltado contra a própria família.
Também lembrou de seu pai, o homem que um dia fora seu herói e seu melhor amigo. O peso dessas memórias apertou seu peito, e por um momento Zharuk sentiu algo que não sentia em batalha: arrependimento. Ele falou em voz baixa, quase como se estivesse confessando algo ao vento.
— Eu ergui muralhas... sustentei a luz... salvei muitas pessoas... mas deixei você cair.
Ele fechou os olhos por um instante antes de continuar.
— Essa será minha vergonha eterna.
Além das muralhas, a horda se contorcia em formas quebradas que avançavam lentamente pela planície. Criaturas deformadas se moviam como se fossem pedaços de algo que um dia fora humano. Algumas arrastavam membros distorcidos pelo chão, enquanto outras caminhavam de forma irregular, como marionetes presas a fios invisíveis.
Acima da cidade, runas antigas começaram a girar no céu. Elas se moviam lentamente, com precisão quase ritualística, traçando círculos luminosos no ar escuro enquanto comprimiam a atmosfera ao redor de Darak. A barreira ainda não estava completa.
Por um breve instante, Zharuk lembrou novamente da irmã. Não da figura temida que agora caminhava com a horda, mas da jovem que corria pelos pátios de pedra, rindo com facilidade e iluminando qualquer lugar onde estivesse. A lembrança atravessou seu peito como uma lâmina.
Então ele saltou.
Seu corpo gigantesco caiu contra o chão de pedra com violência. O impacto abriu pequenas fissuras no solo e levantou um círculo de poeira ao redor. Alguns soldados próximos cambalearam com o tremor enquanto o chão vibrava sob o peso do guerreiro.
O gosto metálico de ferro subiu à sua língua.
Antes mesmo que o eco do impacto desaparecesse, o escudo já estava cravado no solo. O som reverberou pelas muralhas e pelo grande portão fechado da cidade. Aquilo não era um pedido de proteção.
Era uma declaração.
A luz não explodiu. Em vez disso, espalhou-se lentamente a partir do escudo, infiltrando-se pelas rachaduras da pedra como algo que se recusava a ceder. Não havia espetáculo naquela luz. Havia determinação.
No alto das muralhas, Ardnas ergueu as mãos.
As runas incendiaram o céu.
A pressão da magia fez o ar estremecer, e então a Barreira de Luz finalmente se fechou sobre Darak, formando uma cúpula viva que pulsava lentamente como o coração de algo antigo.
As primeiras criaturas da horda atingiram a proteção.
A energia queimou carne rachada e ossos expostos no mesmo instante. O cheiro que surgiu foi imediato — pútrido, ácido e quase insuportável. Algumas criaturas se desfizeram em fumaça escura assim que tocaram a barreira, enquanto outras ficaram presas contra a superfície luminosa, contorcendo-se como se uma memória distante lutasse para emergir de dentro delas.
Uma delas permaneceu por mais tempo.
Tinha apenas um olho intacto.
E ele chorava.
Por um segundo insuportável, o olhar da criatura encontrou o de Zharuk. Não havia fúria naquele olhar.
Havia algo pior.
Reconhecimento.
Ardnas viu aquilo das muralhas e compreendeu imediatamente. O que estava do lado de fora da cidade não era apenas corrupção.
Era consequência.
A criatura se desfez em fumaça negra.
Zharuk não desviou os olhos.
O vento mudou novamente.
Além da barreira, uma silhueta permanecia imóvel entre a horda. Alta. Imóvel demais. Zharuk manteve o olhar fixo naquela figura distante e falou em voz baixa, quase como se tivesse medo de ouvir suas próprias palavras.
— Eles a chamam de Dama da Loucura...
Lágrimas começaram a cair lentamente de seus olhos.
— Eu a chamava de irmã.
A figura do outro lado da barreira não atacava como as outras criaturas. Apenas observava a cidade, como alguém que encara algo que um dia lhe pertenceu.
E pela primeira vez Ardnas não sentiu apenas o peso da magia sustentando a barreira.
Sentiu algo muito pior.
O peso do passado pressionando Darak por dentro.
Zharuk baixou a cabeça por um instante e murmurou:
— Não haverá luz que nos salve de nós mesmos..