Barquinhas, Comadre Esperança e Arcozello Primeiro caderno do alumno de poesia · Capítulo 2 de 4
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Barquinhas, Comadre Esperança e Arcozello

Barquinhas, Comadre Esperança e Arcozello

Barquinha

Lá vai uma barquinha carregada de

Hespanhóis

Paga prenda

Prenda os espanhóis!

Lá vai uma barquinha carregada de

Flibusteiros

Lá vai uma barquinha carregada de

Governadores

Lá vai uma barquinha carregada de

Holandeses

Lá vem uma barquinha cheiinha de índios

Outra de degradados

Outra de pau de tinta

Até que o mar inteiro

Se coalhou de transatlânticos

E as barquinhas ficaram

Jogando prenda coa raça misturada

No litoral azul de meu Brasil

Ao Prudentinho.

O filho da Comadre Esperança

Era o deserdado

Tinha uma história de envenenamento

No passado

Magro pálido trabalhador

Mas agora à força de lutar

Conseguiu uma posição na Bolsa de Mercadorias

E comprou um chapéu novo

Balada do Esplanada

Ontem à noite

Eu procurei

Ver se aprendia

Como é que se fazia

Uma balada

Antes d'ir

Pro meu hotel

É que este

Coração

Já se cansou

De viver só

E quer então

Morar contigo

No Esplanada

Eu queria

Poder

Encher

Este papel

De versos lindos

É tão distinto

Ser menestrel

No futuro

As gerações

Que passariam

Diriam

É o hotel

Do menestrel

Pra me inspirar

Abro a janela

Como um jornal

Vou fazer

A balada

Do Esplanada

E ficar sendo

O menestrel

De meu hotel

Mas não há poesia

Num hotel

Mesmo sendo

Splanada

Ou Grand-Hotel

Há poesia

Na dor

Na flor

No beija-flor

No elevador

Oferta

Quem sabe

Se algum dia

Traria

O elevador

Até aqui

O teu amor

A D. Helena Rocha.

Hymno Nacional do Paty do Alferes

Eu quero fazer um poema

Rachado e sentimental

Como as bandas de música

De meu país natal

Eu quero fazer um poema

De todo o amor que eu sinto

Pelas palmas e bandeiras

Do meu país musical

Eu quero fazer um poema

De flores de papel

Laranja azul encarnado

Branco e verde-amarelo

Ah! Meu Brasil! Meu Brasil!

Eu já morei foragido

Numa casa rota

Que dava para o mar

Já morei no Normandy de Deauville

E num navio de guerra

E nas ruas e nos portos

Das terras mais imaginárias

Mas quando tu reapareces

Sob o hemisfério estrelado

Esperando a presidência do Dr. Washington Luís

Ó Brasil

Meu coração feito de pedaços

Se unifica

E proclama

A independência das lágrimas

Fico eleitor

Cidadão vacinado

Solto foguetes

Faço dobrados

Foi assim que eu vim parar

Nas paragens do Paty do Alferes

E conheci a charanga do Arcozello

Toda cáqui e preta

Vocês não ouviram

A charanga da fazenda do Arcozello

É generosa e metálica

A casa é cercada de velhas senzalas

Transfiguradas pela picareta do Progresso

A mão dura de Geraldo

Transformou a terra desabandonada

Numa pátria organizada de gado

E valorizou até as estrelas

Que dividem o céu em sindicatos

Para ouvir os ensaios

Da banda do Arcozello

Arquitetos de minha terra

Vinde aprender arquitetura

No Paty do Alferes

Donas de casa

Que servis tolamente à francesa

Vinde provar

A mesa saborosa

Do Arcozello

Bebedores

Vinde gozar a pinga do Paraíso

Como a gente levanta cedo nas fazendas

Antes das primeiras pinceladas

Da pintora Aurora

Vamos dormir

Para sair amanhã

Todos vestidos de cow-boy

E dobrar as quebradas da serra

E deixar o sangue dos pássaros

E das cobras

Nos caminhos

Meu quarto tem três portas

Que dão para outros quartos

Onde ficam as portas

Dos quartos das assombrações

As estrelas são

A estrela d'alva

A estrela do Pastor

Vésper

E o Anjo da Guarda de cada um

As assombrações são

A Inspiração e a Saudade

E os falecidos das nossas relações

Para ver tantas maravilhas

O Cruzeiro do Sul

Espetou a cabeça num morro

E mora aqui

Blefando a rotação universal

E tudo isso

É na fazenda do Arcozello

Bois arados e rosas

Cavalos e motocicletas

Tudo existindo

E tocando a marcha do Progresso

Que aprenderam com a banda

Da fazenda do Arcozello.

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