Barquinhas, Comadre Esperança e Arcozello
Barquinhas, Comadre Esperança e Arcozello
Barquinha
Lá vai uma barquinha carregada de
Hespanhóis
Paga prenda
Prenda os espanhóis!
Lá vai uma barquinha carregada de
Flibusteiros
Lá vai uma barquinha carregada de
Governadores
Lá vai uma barquinha carregada de
Holandeses
Lá vem uma barquinha cheiinha de índios
Outra de degradados
Outra de pau de tinta
Até que o mar inteiro
Se coalhou de transatlânticos
E as barquinhas ficaram
Jogando prenda coa raça misturada
No litoral azul de meu Brasil
Ao Prudentinho.
O filho da Comadre Esperança
Era o deserdado
Tinha uma história de envenenamento
No passado
Magro pálido trabalhador
Mas agora à força de lutar
Conseguiu uma posição na Bolsa de Mercadorias
E comprou um chapéu novo
Balada do Esplanada
Ontem à noite
Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes d'ir
Pro meu hotel
É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada
Eu queria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel
No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
Do menestrel
Pra me inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel
Mas não há poesia
Num hotel
Mesmo sendo
Splanada
Ou Grand-Hotel
Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador
Oferta
Quem sabe
Se algum dia
Traria
O elevador
Até aqui
O teu amor
A D. Helena Rocha.
Hymno Nacional do Paty do Alferes
Eu quero fazer um poema
Rachado e sentimental
Como as bandas de música
De meu país natal
Eu quero fazer um poema
De todo o amor que eu sinto
Pelas palmas e bandeiras
Do meu país musical
Eu quero fazer um poema
De flores de papel
Laranja azul encarnado
Branco e verde-amarelo
Ah! Meu Brasil! Meu Brasil!
Eu já morei foragido
Numa casa rota
Que dava para o mar
Já morei no Normandy de Deauville
E num navio de guerra
E nas ruas e nos portos
Das terras mais imaginárias
Mas quando tu reapareces
Sob o hemisfério estrelado
Esperando a presidência do Dr. Washington Luís
Ó Brasil
Meu coração feito de pedaços
Se unifica
E proclama
A independência das lágrimas
Fico eleitor
Cidadão vacinado
Solto foguetes
Faço dobrados
Foi assim que eu vim parar
Nas paragens do Paty do Alferes
E conheci a charanga do Arcozello
Toda cáqui e preta
Vocês não ouviram
A charanga da fazenda do Arcozello
É generosa e metálica
A casa é cercada de velhas senzalas
Transfiguradas pela picareta do Progresso
A mão dura de Geraldo
Transformou a terra desabandonada
Numa pátria organizada de gado
E valorizou até as estrelas
Que dividem o céu em sindicatos
Para ouvir os ensaios
Da banda do Arcozello
Arquitetos de minha terra
Vinde aprender arquitetura
No Paty do Alferes
Donas de casa
Que servis tolamente à francesa
Vinde provar
A mesa saborosa
Do Arcozello
Bebedores
Vinde gozar a pinga do Paraíso
Como a gente levanta cedo nas fazendas
Antes das primeiras pinceladas
Da pintora Aurora
Vamos dormir
Para sair amanhã
Todos vestidos de cow-boy
E dobrar as quebradas da serra
E deixar o sangue dos pássaros
E das cobras
Nos caminhos
Meu quarto tem três portas
Que dão para outros quartos
Onde ficam as portas
Dos quartos das assombrações
As estrelas são
A estrela d'alva
A estrela do Pastor
Vésper
E o Anjo da Guarda de cada um
As assombrações são
A Inspiração e a Saudade
E os falecidos das nossas relações
Para ver tantas maravilhas
O Cruzeiro do Sul
Espetou a cabeça num morro
E mora aqui
Blefando a rotação universal
E tudo isso
É na fazenda do Arcozello
Bois arados e rosas
Cavalos e motocicletas
Tudo existindo
E tocando a marcha do Progresso
Que aprenderam com a banda
Da fazenda do Arcozello.