Os Degraus de Teresa
Clara ficou no quarto seis com o diário de Júlia fechado contra o peito e a vela tremendo junto ao joelho. Do outro lado da porta interna, a voz de mulher contava degraus com disciplina quebrada. Um. Dois. Três. Pausa. Um. Dois. Três. A contagem nunca passava disso, e a repetição parecia desgastar a madeira por dentro. A porta tinha três trincos antigos, todos virados para o lado de Clara, embora a coisa que contava estivesse fora. O quarto respirava em intervalos longos, enchendo as cortinas, afrouxando o papel de parede, fazendo a chama abaixar sem apagar. Pelo buraco aberto para o quarto sete, dona Irene chamava seu nome em sussurros cada vez mais altos. Clara não respondeu. Se respondesse, teria de admitir que não sabia sair. O quarto comum, estreito, com cama de solteiro e cômoda barata, já não cabia direito dentro das medidas da pensão.
Ela abriu o diário de Júlia na cama e leu de pé, porque sentar naquele colchão parecia aceitar hospedagem. As primeiras páginas falavam de Santa Inês com impaciência de visitante. A tia morta antes da chegada, o ônibus atrasado, a pensão antiga, Ruth servindo café sem perguntas, Clara criança atravessando o corredor de olhos abertos durante a madrugada. Júlia notara a menina na primeira noite. Escrevera que Clara parecia ouvir alguém dentro das paredes e que Ruth fingia não perceber. Na segunda noite, a enfermagem apareceu no texto. Júlia descrevia o som respiratório do quarto seis com vocabulário de estudante, comparando entrada de ar, pausa, esforço, secreção inexistente. Depois a escrita mudava. As frases ficavam curtas, pressionadas, e Clara encontrou seu nome várias vezes. Clara escuta quando dorme. Clara responde com a boca fechada. Ruth sabe.
Do corredor interno veio um arranhão. Clara levantou os olhos. A voz de Teresa parou de contar. O silêncio que entrou depois pareceu pior, porque a casa inteira esperava. Clara colocou o diário dentro da blusa, preso à cintura da calça, e pegou a vela. Aproximou-se da porta interna sem tocar nos trincos. A madeira estava fria, ao contrário da porta principal, que permanecia morna e respirando. Havia uma fresta baixa junto ao chão. Clara se ajoelhou, mantendo o rosto afastado, e viu apenas escuridão. Então uma unha surgiu do outro lado, quebrada, suja de terra cinza, e empurrou pela fresta um pedaço de papel. Clara recuou tão depressa que bateu no criado-mudo. A unha desapareceu. O papel ficou. Ela esperou a contagem voltar. Nada. Com a ponta da chave vermelha, puxou o papel para dentro. Era um recibo de cosméticos no nome de Teresa Falcão, dobrado em volta de um dente humano.
A náusea veio seca. Clara não vomitou porque o quarto talvez gostasse disso. Enrolou o dente no recibo e guardou no bolso de trás, odiando cada movimento prático que herdara de Ruth. O papel trazia um endereço manuscrito no verso. Escada de serviço. Vinte e dois degraus. Não conte o quarto. A frase tinha uma lógica torta, e ainda assim Clara a entendeu com o corpo antes de entender com pensamento. A porta interna não levava a outro quarto comum. Levava a uma escada que não constava na planta desenhada por Irene, talvez fechada dentro da parede quando a pensão deixou de ser casa de família. Teresa contava degraus para não perder o caminho, e alguém, ou algo, tentava fazer a contagem voltar sempre ao começo. Clara tocou o primeiro trinco. A respiração do quarto seis parou. A falta de som caiu sobre ela com peso de mão.
Irene apareceu no buraco da parede com metade do rosto iluminado pela vela do quarto sete. Mandou Clara não abrir. Disse que Ruth fechara aquela passagem depois de encontrar a menina dormindo no terceiro degrau, coberta de pó de cal, com a boca cheia de cabelo que não era dela. A memória entrou sem pedir licença. Clara viu seus próprios pés pequenos, unhas sujas, a camisola molhada na barra, a mãe chorando sem som enquanto puxava algo comprido de dentro de sua boca. Levou a mão aos lábios e sentiu gosto de sabão antigo. Irene percebeu que ela lembrara e abaixou os olhos. Clara perguntou por que ninguém contou. A velha respondeu que criança esquecida ainda podia crescer, enquanto criança lembrada por aquela casa voltava para ela cedo demais. A resposta era covarde e talvez verdadeira. As duas possibilidades davam nojo.
Um barulho veio do saguão. Porta principal abrindo de novo, passos apressados, voz masculina chamando por Irene. Orlando voltara ou mandara alguém. Irene virou a cabeça para trás, assustada. Clara aproveitou o segundo de distração e abriu o primeiro trinco. O quarto seis soltou ar pela parede, um sopro longo que cheirava a pano molhado. O segundo trinco estava preso. Ela forçou com a chave vermelha e machucou a palma. O sangue saiu pouco, uma linha fina. A porta principal do quarto seis respondeu com uma batida forte, vinda do corredor externo, embora ninguém tivesse subido. Irene xingou baixo, coisa que Clara nunca ouvira daquela boca velha. No saguão, a voz masculina se aproximou da escada. Não era Orlando. Era mais velha, mais rouca. Dona Irene sussurrou um nome que pareceu ranger junto com a casa. Álvaro.
O delegado aposentado subiu devagar, sem pressa de homem culpado. Clara ouviu o peso da bengala antes de vê-lo pelo buraco do sete. Álvaro Sette estava velho, porém não frágil. Usava casaco escuro, chapéu na mão e uma lanterna de pilha grande. Parou diante da porta do quarto sete e chamou Irene pelo nome inteiro, como fazia gente acostumada a colher depoimento. Disse que Orlando estava assustado, que Clara tinha mexido em coisas sem entender, que ainda podiam resolver a venda e deixar a casa adormecer outra vez. Clara segurou o segundo trinco meio aberto, ouvindo. Irene respondeu que ele venderia o prédio usando documento de Teresa. Álvaro suspirou. Disse que Teresa já não precisava de nome. A frase entrou pelo buraco e atingiu Clara com precisão. Ela puxou o trinco até soltar. Faltava um.
Álvaro ouviu o metal. A lanterna dele acendeu o quarto sete e cortou o buraco na parede. Clara apagou a vela por instinto, mergulhando o quarto seis em escuro quase completo. A porta respirou outra vez, agora junto de seu ouvido. No breu, a voz de Júlia falou de perto, sem telefone, sem distância. Disse para abrir a escada, não a porta do corredor. Clara sentiu uma mão fria tocar seu tornozelo e quase gritou. Não olhou para baixo. Preferiu acreditar que era Júlia, Mauro ou Teresa, qualquer coisa menos o quarto usando dedos. Do outro lado, Álvaro mandou Irene sair da frente. A velha respondeu que já havia saído da frente por quinze anos. Um estalo seco veio do quarto sete. Tapa, queda ou bengala batendo em madeira. Clara abriu o terceiro trinco. A porta interna se moveu para dentro sozinha.
A escada de serviço apareceu estreita, sem corrimão, descendo entre duas paredes de tijolo cru. O ar que vinha dali era frio e cheirava a terra molhada. Clara acendeu a vela de novo com fósforo trêmulo. A chama mostrou os três primeiros degraus. Cada um tinha marcas de unha nas laterais. No quarto sete, Álvaro gritava agora, chamando Clara pelo nome, dizendo que Ruth havia roubado coisa que não pertencia à família Nogueira. A frase quase a fez voltar. Família. Pertencer. Palavras limpas para esconder sujeira antiga. Clara colocou o pé no primeiro degrau. A voz de Teresa começou a contar junto dela, bem ao ouvido. Um. Clara desceu o segundo. Dois. No terceiro, a voz falhou. Clara entendeu que dali em diante teria de contar sozinha. Quatro. Cinco. Seis. O quarto seis atrás dela soltou um som baixo, faminto, e a porta interna bateu fechando a passagem.
A escada tinha vinte e dois degraus, conforme o recibo. Clara contou todos, em voz alta, mesmo quando os números tentaram escapar. No décimo primeiro, ouviu Orlando chorando no saguão. No décimo sexto, ouviu a mãe chamando para o café. No décimo nono, ouviu a própria voz de criança pedindo para ficar. Não respondeu a nenhuma. No vigésimo segundo, chegou a um corredor baixo, quase um túnel de manutenção, que passava sob a lavanderia e seguia até a parede dos fundos da pensão. O chão era de terra batida coberta por tábuas soltas. Havia três nichos abertos na parede direita. O primeiro guardava brinquedos velhos, botões, dentes pequenos, grampos de cabelo. O segundo estava vazio, forrado por jornal antigo. O terceiro tinha uma mala de cosméticos, uma sandália feminina e um maço de degraus desenhados em papel. Teresa deixara mapas para si mesma. Ou para quem conseguisse chegar ali contando.
No fim do corredor, uma lamparina de emergência permanecia acesa com luz fraca, sem combustível visível. Ao lado dela, Teresa Falcão estava sentada no chão, ou a parte dela que o quarto permitia ver. Parecia mulher viva vista por vidro sujo. O rosto jovem e velho ao mesmo tempo, cabelo preso por presilhas enferrujadas, vestido manchado de barro, pés descalços. Clara não gritou. Talvez porque a coisa diante dela parecia cansada demais para susto. Teresa apontou para o segundo nicho vazio e depois para a parede oposta. Ali, uma abertura retangular fora tapada com tijolos novos. De dentro dela vinha a voz de Mauro, abafada, contando uma história infantil para duas meninas. Clara tirou o martelo do bolso do casaco, sem lembrar de tê-lo guardado. Teresa balançou a cabeça, negativa. Depois apontou para o diário de Júlia preso à cintura de Clara. A solução não era quebrar primeiro. Era ler.
Clara abriu o diário com as mãos sujas de terra. As páginas, secas no quarto, ficaram úmidas no corredor baixo. A letra de Júlia parecia mais escura ali, quase recém-escrita. A estudante narrava a terceira noite. Ruth a procurara no quarto seis e pedira que ela deixasse a pensão antes das vinte e três. Júlia recusara, porque Clara dormia no corredor e respondia a alguém dentro da parede. Mauro ouvira barulho e entrara pelo sete. Teresa descera pela escada de serviço, contando degraus para não se perder. Os três descobriram o corredor de baixo e a parede com nomes antigos riscados no tijolo. O primeiro nome era Clara Nogueira, escrito anos antes de Clara nascer. A última página lida por Clara tinha uma frase sublinhada. O quarto não leva quem entra. Leva quem é chamado pelo nome certo. Abaixo, Júlia anotara que Ruth tinha outro nome para Clara, um nome que nunca dizia em público.
Do teto, veio a voz de Álvaro, distante e furiosa, mandando Irene entregar a menina. Menina. Clara tinha trinta e dois anos e, naquele corredor, a palavra ainda a encontrou em tamanho menor. Teresa se levantou com dificuldade e tocou a parede de tijolos novos. Mauro parou de contar histórias. O silêncio dele tinha presença de homem segurando porta com o corpo inteiro. Clara folheou o diário até achar uma página colada. Separou com cuidado. Dentro havia um registro de batismo arrancado de igreja, antigo, com o nome Clara Ruth Nogueira. Abaixo, em outra caligrafia, alguém escrevera o segundo nome. Celina. Clara sentiu o corredor inteiro respirar quando leu mentalmente. Não disse em voz alta. Teresa ergueu a mão depressa, pedindo silêncio. Do outro lado da parede, Mauro começou a bater três vezes, pausa, três vezes. Não era pedido de socorro. Era aviso. O quarto, acima deles, havia escutado o nome por dentro da cabeça dela.
As tábuas do chão se moveram. Algo pesado caminhava sobre o corredor, no andar da pensão, acompanhando a posição de Clara com precisão de corpo vivo. O telefone tocou no saguão, abafado pela distância, uma vez, duas, três. Teresa empurrou Clara para trás da lamparina. A parede dos tijolos novos rachou de dentro para fora, soltando pó branco. Mauro falou pela primeira vez sem a voz de gravação ou telefone. Disse que Ruth não escondeu os outros dois para salvar a reputação. Escondeu para impedir que o quarto aprendesse seus nomes inteiros. Clara fechou o diário contra o peito. Acima, Álvaro começou a descer a escada de serviço, contando errado de propósito. Um. Dois. Quarto. Seis. A cada número errado, o corredor apertava um pouco. Teresa levou as mãos aos ouvidos. Clara pegou o recibo no bolso, o dente embrulhado, a chave vermelha e o diário. Precisava voltar antes que Álvaro entregasse seu nome ao lugar certo.