A Casa Sem Boca O Quarto Vivo · Capítulo 12 de 12
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A Casa Sem Boca

A água subiu depressa, limpa demais para aquele porão. Primeiro cobriu os sapatos grandes que Clara recebera no teatro da escola. Depois alcançou as barras da calça, gelada, viva por hábito, procurando pele, sangue, cicatriz, qualquer assinatura que substituísse o nome recusado. Clara manteve a mão fechada em torno do pino C. R. A queimadura na palma pulsava no mesmo ritmo da sala. Acima, a porta batida não deixava ar suficiente. A mesa de telefonia havia sumido no buraco redondo, levando consigo os outros cabos, os outros pinos e a parte da casa que sabia chamar. Restava aquela sala de parto, o livro aberto, a água subindo e a voz de Álvaro, distante, repetindo o nome completo que jamais devia ter aprendido. Clara entendeu que a casa perdia a boca, porém ainda tentava engolir com o último dente.

Ela procurou saída sem levantar a lanterna para os livros. A porta para o corredor permanecia fechada por fora, e a abertura atrás da pia tinha desabado com a mesa. As macas de ferro rangiam sozinhas, deslocadas pela água, batendo na parede com lentidão. O livro de nascimentos continuava seco sobre a mesa central, protegido por uma bolha de ar quente que não combinava com o resto da sala. Clara viu a caneta-tinteiro ao lado dele. Tinta azul. A casa ainda oferecia escrita. Assine. Corrija. Aceite. Nomeie. Cada verbo parecia surgir sem som, impresso na parte de dentro da cabeça. Clara não tocou na caneta. Sentiu o pino queimar mais forte na mão. C. R. podia ser qualquer prisão preparada para ela. Celina Ruth. Clara Ruth. Chave restante. A casa queria que ela guardasse o metal como prova de vitória. Guardar também podia ser aceitar.

Do lado de fora, Paula demorou a perceber que o grito de Álvaro vinha pelo rádio da viatura, não da pensão. O velho estava em hospital, sob vigilância, e acordara berrando a sequência inteira do nome que ouvira na certidão. A voz entrou pelo aparelho do soldado antes que alguém cortasse o volume. Foi o bastante. O segundo andar respondeu com um estalo que abriu rachadura no corredor. Paula xingou sem nomear ninguém e mandou todos recuarem da porta seis. A corda voltara vazia, cortada, molhada por uma substância escura que cheirava a lavanderia. Por um minuto, a equipe quis tratar Clara como perdida. Paula recusou esse minuto. Mandou quebrar a parede lateral pela lavanderia, onde o acesso ao porão já fora aberto, e proibiu rádio ligado dentro da pensão. Se a casa queria voz, trabalhariam com martelo, gesto e luz.

Clara não ouviu os primeiros golpes. A água chegava aos joelhos, e a sala produzia seus próprios ruídos, berço balançando, livro folheando, bacia batendo no piso. A voz de Ruth voltou pela pia seca, menor, menos perfeita. Disse que Clara podia descansar. Disse que ninguém cobraria mais nada dela. Disse que bastava colocar o pino no livro, fechar a capa e deitar na maca até passar. A proposta tinha uma doçura indecente. Clara estava cansada a ponto de desejar que alguém decidisse por ela. O corpo queria deitar. A mão queimada queria abrir. A memória queria mãe. Ruth verdadeira, porém, deixara uma instrução menos gentil. Entre sem nome, saia com o seu. Não dizia fique. Não dizia pague. Não dizia salve todos com o próprio corpo. Clara agarrou essa secura como quem segura a borda de uma mesa durante tontura.

O ralo da sala ficava sob a pia, quase coberto por água. Clara se abaixou, sentindo o tornozelo ferido reclamar, e viu que a grade de ferro tinha o mesmo desenho dos pinos de telefonia. O buraco redondo onde a mesa afundara não era saída. Era estômago. O ralo, estreito, comum, sujo de cabelo antigo e ferrugem, parecia coisa de manutenção. Ruth teria escolhido coisa de manutenção. Clara foi até ele, abriu a mão e olhou o metal C. R. pela última vez. A queimadura deixara as letras marcadas na pele, duas feridas pequenas que talvez ficassem por meses. A casa reagiu antes do movimento. Todas as macas bateram juntas. O livro abriu em página nova. A caneta rolou até a beira da mesa. A voz de Celina, furiosa e fraca, mandou que ela não desperdiçasse o único nome que segurava a porta. Clara acreditou na fúria. Desconfiou da ordem.

Ela soltou o pino no ralo. O metal ficou preso na grade, vibrando. Por um instante, nada mudou. Depois a água perdeu o brilho limpo e começou a descer em redemoinho escuro, puxando poeira, fios de cabelo, lascas de madeira e letras soltas que se desprendiam dos livros. As páginas se molharam todas de uma vez. A caneta-tinteiro estourou sobre a mesa, espalhando azul pelo tampo. A casa soltou um som baixo, sem voz humana, sem imitação, sem nome. Era apenas material cedendo. Parede, cano, madeira, pedra. Clara riu uma vez, curta e sem alegria, porque o horror, sem teatro, parecia obra velha apodrecida por culpa demais. A água desceu até seus tornozelos. O pino continuou preso na grade, bloqueando o ralo pela metade, impedindo a sala de engolir rápido o que tentava salvar de si mesma.

Os golpes chegaram enfim. Três batidas secas pela parede da lavanderia. Clara respondeu batendo a lanterna no cano, três vezes. A casa tentou copiar o som em outras paredes, criando respostas falsas, porém a lanterna de Clara falhava no terceiro golpe, e Paula reconheceu a imperfeição. O amor errava por cansaço. A fome errava por excesso. Clara repetiu a regra por dentro enquanto se arrastava para perto da parede. Tijolos começaram a cair de fora para dentro. Uma fresta abriu luz branca no canto da sala. Mãos com luvas apareceram. Ninguém chamou seu nome. Uma voz de mulher, rouca de poeira, disse apenas vem. Clara foi. No meio do caminho, o livro de nascimentos inchado pela água abriu numa última página, e a caneta partida escreveu sozinha uma palavra torta. Filha. Clara passou sem olhar a continuação, porque já não precisava saber quem a casa pretendia culpar.

Paula entrou pelo buraco até a cintura, suja, furiosa, viva. Agarrou Clara pelos ombros e a puxou com ajuda dos bombeiros. A passagem era estreita, e por alguns segundos Clara ficou presa entre a sala de parto e a lavanderia, metade no frio antigo, metade no ar cheio de pó. A casa tentou a última negociação. Usou a voz de Irene, pedindo cuidado. Usou a voz da professora, pedindo calma. Usou a voz de Júlia, chamando-a para não deixar ninguém ali. Clara fechou os olhos e deixou que Paula puxasse. O corpo raspou em tijolo quebrado, a queimadura da mão abriu de novo, o tornozelo falhou. Quando caiu sobre o piso da lavanderia, vomitou água e bile. Paula segurou sua cabeça para que ela respirasse. Só então, já fora da sala, a investigadora perguntou quem estava ali. Clara entendeu o cuidado. O nome precisava voltar pela boca certa. Respondeu Clara.

A pensão não desabou. Isso decepcionou metade da rua quando souberam depois. Nada explodiu, nenhuma parede abriu fogo, nenhum rosto apareceu na janela para a câmera de curioso. O que aconteceu foi mais difícil de filmar. As portas pararam de fechar sozinhas. O telefone do balcão perdeu o peso e virou aparelho quebrado. O quarto seis ficou apenas quarto, feio, úmido, com cama estragada e assoalho aberto. No porão, os livros puderam ser retirados sem que ninguém adoecesse ao ler. Havia restos, objetos, documentos, ossos, carimbos, recibos, roupas de bebê, prontuários, cartas e dinheiro antigo. Havia crime suficiente para encher anos de processo e vergonha suficiente para calar muitas famílias importantes. O prédio morto parecia menor. Sem a fome organizando medo, a casa deixava de ser lenda. Virava local de perícia, e isso, de certo modo, era uma punição vulgar e adequada.

Álvaro morreu três dias depois, no hospital, durante depoimento interrompido. Antes, conseguiu acusar Ruth, Celina, Clara, Paula, a prefeitura, a imprensa, os mortos e a própria idade. Não confessou por arrependimento. Falou por raiva, e a raiva serviu. Orlando assinou acordo e entregou nomes de compradores, políticos, antigos médicos e herdeiros que tentaram derrubar a pensão antes das obras da avenida. A associação de proprietários fechou as portas sob busca judicial. Famílias que durante décadas haviam aceitado sumiços por cansaço passaram a receber caixas com objetos, laudos e perguntas novas. Nem todos agradeceram. Algumas pessoas preferiam o folclore ao arquivo, porque folclore não exige assinatura em termo de reconhecimento. Clara aprendeu isso com nojo calmo. A verdade não limpava a cidade. Apenas tirava dela o direito de fingir sujeira alheia.

A primeira certidão ficou no processo, preservada, sem virar nome obrigatório. Clara pediu retificação judicial meses depois, orientada por uma defensora que não tentou transformar sua vida em caso bonito. Manteve Clara. Acrescentou Celina em um campo de averbação, não como dono de destino, e sim como registro de uma mulher que salvara uma criança antes de morrer. Ruth entrou nos autos com culpa e proteção no mesmo parágrafo. A frase incomodou muita gente. Clara não corrigiu. Precisava que a mãe coubesse inteira em algum lugar, já que nunca coubera numa conversa. Visitou Irene no hospital, depois em casa, e ouviu histórias ruins sem exigir que viessem arrumadas. Algumas terminavam no meio. Outras voltavam ao começo. Irene chorava por Ruth de um jeito que Clara ainda não conseguia. Clara apenas ficava, levando fruta, água, documento para assinar, coisas pequenas que não pediam reconciliação imediata.

A demolição da pensão levou semanas. Paula exigiu retirada manual de tudo que pudesse servir de prova, e cada parede aberta entregava uma miséria nova. A cidade se cansou antes do fim, como sempre acontece quando o horror vira trabalho. Ainda assim, havia gente no portão todos os dias. Parentes de Mauro. Uma sobrinha de Teresa. A mulher que chorara por Júlia no ginásio. Alunos antigos da professora. Vizinhos que tinham vergonha de ter rido da história por anos. Clara não ficou para todos os tijolos. Voltou à pousada, depois à capital, depois a Santa Inês de novo, em viagens curtas, sempre que Paula chamava para reconhecer objeto ou assinar termo. Cada retorno doía menos de um jeito e mais de outro. Sem a casa para concentrar o medo, sobrava a cidade real, com calçadas tortas, gente defensiva, padaria reaberta e a farmácia vendendo curativo em promoção diante do vazio.

No terreno da pensão, fizeram primeiro uma cerca. Depois uma placa provisória com nomes confirmados, datas possíveis e a informação de que a investigação seguia aberta. Clara não gostou da placa. Parecia limpa demais. Pediu que colocassem também a palavra desaparecidos, para ninguém transformar todos em passado resolvido. A prefeitura reclamou do tamanho. Paula resolveu com tinta preta e letra menor. Na inauguração simples, ninguém discursou muito. A professora leu os nomes devagar, fora da casa que já não existia, e as famílias responderam presente quando conseguiam. Clara ficou no fundo, sem lugar fixo, com a mão queimada dentro do bolso. As letras C. R. ainda apareciam na palma, rosadas, teimosas. Já não ardiam. Eram marca de ferramenta, não de posse. Quando chamaram Ruth Nogueira, Clara respondeu presente antes de pensar. A voz saiu firme o bastante para assustá-la.

Naquela noite, dormiu na antiga sala da pousada, transformada em quarto porque todos os outros estavam ocupados por peritos e parentes. A janela dava para a rua interditada, agora aberta. O vento entrou sem cheiro de mofo. Clara acordou perto das três, horário que antes teria pertencido a rangido, toque de telefone ou respiração na parede. Ouviu apenas um caminhão distante, um cachorro latindo longe, alguém fechando portão com cuidado. Sentou na cama e esperou medo. Ele veio, claro, porque medo não obedece laudo. Veio menor, sem dono, sem saber que nome usar. Clara acendeu a luminária. Na mesa ao lado, havia um copo de água, um formulário do processo e uma caneta comum de hotel. Ela escreveu o próprio nome numa folha solta, só para ver. Clara. Depois abriu a janela inteira. Nenhuma casa respondeu.

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