O Porão da Santa Casa O Quarto Vivo · Capítulo 7 de 12
Obra Menu

O Porão da Santa Casa

Clara chegou à pousada com a roupa cheirando a mofo, fumaça de vela e ferrugem molhada. Paula escolheu um quarto de fundos, longe da rua principal, e mandou um soldado ficar na porta sem registrar sobrenome de ninguém em voz alta. A ordem parecia absurda à luz fria da recepção, entre quadro de praia, cafeteira velha e balcão de fórmica, porém ninguém ali tinha coragem de rir. O celular de Clara carregava na tomada ao lado da cama e recebia mensagens em rajadas. Vídeos da transmissão se espalhavam pelos grupos da cidade, cada um com versão própria da noite. Gente que sempre dissera não lembrar da pensão agora lembrava de tudo, de hóspede que chorou no mercado, de criança que passou mal perto da escada, de caminhão da prefeitura parado diante da Santa Casa fechada. Clara deitou sem tirar os sapatos e ficou olhando para o teto, ouvindo o prédio desconhecido respirar de maneira comum, defeituosa, humana. Ainda assim, a cada barulho do encanamento, esperava ouvir seu nome.

Paula voltou antes das sete, com café em copo plástico, olheiras fundas e uma prancheta coberta de etiquetas numeradas. Chamou Clara apenas pelo primeiro nome e sentou na beira da poltrona, tomando cuidado para deixar a porta aberta. Disse que a evacuação havia começado pela farmácia, depois pela casa da costureira aposentada, pela sala lateral da igreja e pelos quartos de cima da padaria. Clara percebeu o cansaço no modo como Paula evitava dizer o sobrenome dos proprietários. A regra entrara no boletim de ocorrência de forma improvisada, por cautela em cena contaminada, expressão que deixara os policiais menos constrangidos. Os nomes completos ficariam lacrados em envelopes fora do quarteirão. Dentro da pensão, pessoas seriam chamadas por função, primeiro nome ou número de equipe. Paula explicou tudo com firmeza seca, sem pedir fé. Clara agradeceu por isso. Fé era moeda velha naquela casa.

O problema veio com a luz do dia. A cidade acordada queria prova, castigo e espetáculo na mesma medida. Diante da pensão, comerciantes discutiam indenização, vizinhos reclamavam da fita de isolamento, parentes de Álvaro exigiam respeito à idade dele, e um advogado da associação de antigos proprietários chegou com sapato limpo demais para aquela calçada. O homem trazia uma pasta azul e tentou ler, em voz alta, o nome jurídico completo da área atingida. Paula tomou o papel da mão dele antes da segunda linha. O advogado protestou, ameaçou corregedoria, imprensa e processo. A porta seis, invisível da rua, respondeu com uma batida pesada no alto da escada, forte o suficiente para calar até quem estava do lado de fora. Clara viu o homem empalidecer. Ele guardou a pasta junto ao peito, sem coragem de pedir desculpa a ninguém. A casa aprendera a usar documento. Agora eles precisavam aprender a esconder documento dela.

Clara voltou à pensão atrás de Paula, usando máscara, luvas emprestadas e uma lanterna pendurada no pescoço. O saguão parecia menor de manhã. Sem a noite, sem a multidão, sem a transmissão tremida, sobravam manchas, rachaduras e o cheiro antigo de quarto fechado. Orlando e Álvaro já tinham sido retirados, cada um em uma viatura diferente, e a ausência dos dois não trazia alívio. Parecia apenas espaço aberto para outra coisa se mexer. Paula apresentou a equipe por números, Perícia Um, Perícia Dois, Bombeiro Três, Soldado Quatro. A regra era infantil e salvou todos do constrangimento inicial. Ninguém precisava fingir normalidade. Clara ficou perto do balcão, segurando o diário de Júlia contra o corpo. Ruth escrevera que a filha servia de tampa. Júlia repetira a mesma palavra. Paula queria Clara ali por testemunho. A casa queria por motivo antigo. Clara entrou sabendo que talvez as duas coisas fossem verdade.

A abertura começou no assoalho do quarto seis, onde a madeira cedia sob a cama marrom. Os peritos removeram tábuas inchadas com ferramentas pequenas, trabalhando devagar, enquanto o bombeiro prendia uma câmera a uma haste. A cada lasca retirada, subia um cheiro de hospital abandonado, álcool velho, terra úmida e pano guardado por décadas. Clara sentiu o estômago revirar quando apareceu o primeiro degrau, estreito, de pedra clara, gasto no centro por passos demais. Na lateral, ainda havia parte de uma inscrição pintada com tinta azul. Santa Casa de Misericórdia. A pensão fora construída sobre o corredor de serviço do hospital antigo, ou talvez o hospital tivesse deixado uma boca aberta que a pensão apenas vestiu de quarto. Paula mandou fotografar a inscrição sem ler o restante em voz alta. O quarto respondeu baixando a temperatura, e o vapor da respiração de todos apareceu por alguns segundos, absurdo sob o calor da manhã.

A câmera desceu primeiro. A imagem no monitor mostrava paredes estreitas, tijolo suado, prateleiras quebradas e marcas de água na altura do joelho. Depois apareceram nomes riscados nas vigas. Muitos nomes. Alguns talhados com faca, outros escritos a carvão, outros gravados com unha ou prego, quase todos acompanhados de datas sem ano. Paula cobriu o monitor com a palma antes que alguém lesse demais. Mandou que as vigas fossem registradas por foto silenciosa, uma por uma, com código numérico. Clara entendeu a inteligência daquele gesto. A casa queria voz humana para completar o que a madeira guardava. Sem voz, os nomes continuavam presos a superfície morta. Perícia Dois, nervoso, soltou apenas um primeiro nome ao ver uma palavra conhecida. Paula o chamou pelo número, com dureza. O rapaz pediu desculpa olhando para o chão. O quarto seis soltou um estalo decepcionado no armário.

Quando a haste alcançou o fim do corredor, a tela mostrou uma mesa de telefonia antiga, daquelas com buracos e cabos grossos pendurados. Clara pensou no telefone sem linha da recepção, na ligação de Júlia, nas vozes que tinham chegado por aparelhos mortos. O bombeiro aproximou a câmera. Sobre a mesa havia uma fotografia presa sob vidro quebrado. Três enfermeiras diante da Santa Casa, duas sorrindo para fora da imagem, uma olhando para o lado. Celina estava no meio, mais jovem do que Clara imaginara, com queixo erguido e cansaço nos olhos. Ao lado da foto, uma placa metálica trazia números de quartos e iniciais, nunca sobrenomes. Paula pediu uma captura ampliada. Clara se inclinou para ver melhor e ouviu o telefone da recepção tocar no andar de baixo. Ninguém se mexeu. O toque repetiu, educado e antigo. Paula mandou o soldado desligar a energia do prédio. O telefone continuou tocando.

Clara desceu sem pedir autorização. Paula veio atrás, irritada demais para chamá-la pelo nome. O aparelho preto tremia sobre o balcão, embora o cabo estivesse cortado desde a noite anterior. Clara não atendeu de imediato. Lembrou de Ruth tapando frestas, escondendo chave em vaso de plástico, arrancando a filha da cidade sem explicar nada. Lembrou também de Júlia escrevendo para uma menina que ainda não conhecia, tratando Clara como pessoa real e não como peça de herança. Quando ergueu o fone, não disse alô. Ouviu primeiro uma respiração fraca, longe, cheia de ruído. Depois veio a voz de Júlia, menos nítida do que na madrugada. Ela pediu que Clara não deixasse ninguém ler a parede. Disse que Mauro estava perto da água e Teresa perto dos remédios. Disse que Celina mentira uma vez para salvar Ruth. Antes que pudesse terminar, outra voz entrou na ligação, grossa, familiar, usando a autoridade velha de Álvaro. Chamou Clara de Celina Ruth.

A sala inteira pareceu comprimir-se em torno do fone. Paula arrancou o aparelho da mão de Clara e colocou no gancho, sem esperar explicação. Foi uma reação prática, quase brutal, e talvez tenha salvado alguma coisa. O toque parou. No segundo andar, o quarto seis bateu a porta por dentro. Clara segurou o balcão para não cair. Celina Ruth. O nome não era exatamente dela, e por isso feria de outro jeito. Paula pediu que ela falasse fora da pensão. Na calçada, entre cones, curiosos e bombeiros, Clara abriu o diário de Júlia na última página marcada. Havia uma frase que ela não lembrava ter lido. Ruth trocou o registro antes do batismo. Guardou Clara por fora e Celina por dentro. A letra de Júlia falhava no fim, e a caneta parecia ter secado durante a fuga. Clara fechou o diário devagar. Agora entendia por que Álvaro usara aquele nome no saguão. Ele não confundira neta e avó. Ele experimentara a chave.

Paula ouviu tudo sem interromper. Depois mandou buscar o livro de nascimentos da Santa Casa nos arquivos recolhidos da prefeitura, sob escolta e sem leitura em campo. O advogado da associação tentou acompanhar, alegando interesse patrimonial. Paula respondeu que patrimônio era a última preocupação de uma rua evacuada por possível cena de crime subterrânea. O homem ficou vermelho, porém recuou quando as pessoas ao redor começaram a filmar. Clara percebeu que a cidade mudara de posição em poucas horas. Ainda havia curiosidade suja, ainda havia gente querendo tragédia para comentar no almoço, porém também havia medo de ter morado sobre aquilo, medo de ter vendido remédio, pão e vela em cima de nomes presos. A pensão deixara de ser assunto de família. Essa mudança protegia Clara e enfurecia a casa. As janelas do segundo andar tremiam sem vento.

A equipe quebrou parte da parede sob o quarto seis perto do meio-dia. Não dava para descer pela abertura original sem risco, então os bombeiros abriram acesso lateral a partir da lavanderia. Clara ficou atrás da fita, com Paula ao lado, vendo o buraco crescer. A cada golpe, o prédio soltava poeira e ruído de garganta. Quando a passagem enfim abriu, surgiu uma corrente de ar gelada trazendo cheiro de cânfora, ferrugem e água parada. O primeiro a entrar foi o bombeiro marcado como Três. Levava câmera no peito e não falava nada além de códigos. As imagens chegaram ao monitor na calçada. O corredor seguia sob a farmácia. Nas paredes, prateleiras de vidro quebrado ainda guardavam frascos sem rótulo. Perto do rodapé, uma faixa escura marcava onde a enchente antiga levara papéis, roupas e ossos pequenos para o mesmo canto. Clara não desviou os olhos. Desviar seria um descanso que ninguém ali merecia.

Mauro apareceu em vestígio antes de aparecer em corpo. Uma carteira inchada dentro de saco plástico, uma pulseira de criança, um maço de notas antigas, a chave de um carro que já devia ter virado sucata. Teresa apareceu perto de uma caixa de remédios, do modo horrível e preciso que Júlia indicara, por uma presilha, uma sandália e uma arcada presa entre tábuas. Paula mandou parar a transmissão dos curiosos quando percebeu a natureza das imagens. A cidade podia testemunhar sem consumir morto. Clara repetiu essa frase para si, porque precisava dela. O terror não estava apenas no porão. Estava na fome de todo mundo diante do porão. Quando o bombeiro avançou para a mesa de telefonia, o rádio dele chiou e uma voz de menina começou a cantar uma cantiga incompleta. Paula ordenou retirada imediata. A voz parou assim que ele deu o primeiro passo de volta, contrariada por perder plateia.

O livro de nascimentos chegou no fim da tarde, dentro de uma caixa cinza, trazido por uma servidora que parecia ter envelhecido durante o trajeto. Paula abriu a caixa na calçada, com luvas novas, longe da porta. As primeiras páginas pertenciam a outro tempo, com letras caprichadas, manchas de umidade e carimbos da Santa Casa. Clara viu nomes de mulheres sem família, bebês transferidos, mortes registradas com atraso. Em uma página dobrada, havia a inscrição que Ruth tentara apagar do mundo. Recém nascida Celina Ruth, filha de Ruth Nogueira, guarda provisória sob responsabilidade de Celina Campos. O sobrenome de Clara só aparecia em anotação posterior, feito por outro cartório, com tinta diferente. Paula cobriu a página antes que os celulares aproximassem. Clara sentiu vergonha, raiva e uma dor sem dono. Sua mãe a salvara por falsificação. Sua avó a salvara por crime. A cidade inteira chamaria aquilo de mentira. A casa chamaria de caminho aberto.

O primeiro telefone tocou na farmácia evacuada. Depois tocou o da igreja. Depois um aparelho antigo dentro da padaria, que todos juravam desligado havia anos. Os toques vinham em sequência, descendo a rua, um depois do outro, até chegar à recepção da pensão. Ninguém atendeu. Mesmo assim, as vozes começaram a sair pelas caixas, pelos rádios, pelos celulares carregados demais de vídeo. Não diziam o sobrenome completo. Diziam apenas Celina Ruth, Celina Ruth, Celina Ruth, em tons diferentes, alguns infantis, alguns velhos, alguns parecidos com Ruth chamando a filha para jantar. Clara ficou parada no meio da calçada, cercada por gente que agora sabia qual nome a casa queria. Paula segurou seu braço e mandou todos recuarem. A porta seis abriu sozinha no andar de cima. O quarto vivo tinha encontrado a chave escondida, e a cidade, ao tentar provar a verdade, acabara entregando o som.

1/1
Menu

Fazer anotação